Cinco Minutos
25 Massacre - Parte II: Levada
Notas iniciais
“Não é da minha natureza cair sem lutar, mesmo quando as coisas parecem insuperáveis.” – Jogos Vorazes.
– Vamos lá, Naruto, eu não tenho a noite toda. – disse Tsunade, já pela terceira vez seguida.
– Se você calasse a boca, talvez eu pudesse trabalhar direito. – resmungou o loiro. Uma veia saltou da testa de Tsunade.
– Moleque! Com quem pensa que está falando? – perguntou a loira, levantando-se da cadeira em que estava sentada e espalmando as mãos com força na grande mesa de seu – ainda – escritório.
– Estou falando com a mulher que sempre torceu contra mim e Hinata e que me escondeu muitas coisas durante os anos. – disse Naruto olhando para Tsunade seriamente. A loira estreitou os olhos. Não queria – e nem iria – admitir, mas estava envergonhada.
– Você sabe que só fiz isso para o seu bem. – reclamou a Senju. – Até quando vai jogar na minha cara? – perguntou ela tristemente.
– Até que possa confiar em você novamente, Tsunade-sama. – disse o Uzumaki suspirando profundamente e voltando a olhar os papeis que jaziam sobre a mesa.
Já fazia quase três meses que estava naquela “situação”. Depois do rompimento definitivo com Hinata, há seis meses, Naruto quase não parecia consigo mesmo. Não sorria mais como antes, nem demonstrava o otimismo de sempre. Estava sério e, embora tentasse esconder a todo o custo e agir normalmente, via-se uma grande dor em seus olhos.
Nesse meio tempo, pedira a Tsunade todas as missões que ela pudesse arranjar para si, para que tentasse ocupar sua mente com outras coisas que não Hinata. Para que não enlouquecesse.
Tsunade tentou argumentar, claro, tentou dizer que enfiar a cara no trabalho e se fechar para o mundo não era a solução. Mas, teimoso como era, Naruto não quis nem saber. E, uma hora ou outra, acabou discutindo com a Hokage e contando tudo que havia escutado sobre si, Hinata e o filho de ambos. Desde então, era assim que vinha sendo a relação de ambos.
– O que são esses papéis da Nuvem? – perguntou Naruto, intrigado com o que parecia ser várias cartas de aviso. Tsunade olhou para onde Naruto apontava e forçou a vista um pouco para enxergar melhor.
– São algumas cartas de recomendação. Aparentemente, alguns nukenins da Nuvem desapareceram há alguns meses. Os ninjas daquela aldeia perderam seu rastro. Só diz aqui que, se tivermos qualquer notícia sobre seus paradeiros, devemos informá-los.
– Aí não fala nada sobre a aparência deles? – perguntou Naruto ainda mais intrigado. Há algum tempo, em missão, ele mesmo, Hinata e Sakura foram atacados por alguns ninjas da Nuvem. Ataque esse que deixou Hinata em coma por oito meses. Talvez houvesse alguma ligação entre eles.
– Apenas sobre dois deles. – disse Tsunade, analisando melhor o papel. – Não deram muitas informações, mas aparentemente uma deles possui um doujutsu muito poderoso, quase tanto com o byakugan. Por isso classificaram-na como uma nukenin rank S.
– “Uma”? É uma mulher? – disse Naruto tendo um calafrio. Por algum motivo que não soube explicar, sentiu seu estômago remexer de ansiedade.
– Sim. – disse Tsunade e suspirou, jogando os papeis sobre a mesa. – Isso não importa Naruto. Agora não. Continue com o trabalho.
– Você não quer que eu seja um bom Hokage? – perguntou Naruto aflito. – Tenho que saber de tudo que possa ser importante. – rebateu ele – Eles não mencionaram que doujutsu era? Que eu saiba, não existem outros doujutsus fora de Konoha, a não ser o da Princesa Shion. O resto já era. – disse Naruto, refletindo um pouco sobre o que Tsunade tinha lido. A Senju estreitou os olhos. Não tinha atentado para aquele fato. – Como pode haver uma nukenin na Nuvem com um doujutsu tão poderoso quanto o byakugan? – perguntou-se Naruto, num sussurro. – Isso não faz sentido.
– A menos que... – Tsunade o interrompeu, fazendo com que o Uzumaki a olhasse diretamente nos olhos, esperando uma explicação. – Bom, eles sempre quiseram os segredos do byakugan... E há alguns anos, o corpo de Hizashi Hyuuga foi-lhes entregue. – disse Tsunade. – Mas não há como... O byakugan estava selado.
– Isso não impede de conseguir pelo menos algumas informações. – disse Naruto. – Não diz nada aqui sobre o nome dessas pessoas? – perguntou o loiro a si mesmo e leu os documentos avidamente, a fim de achar qualquer outra informação que fosse meramente irrelevante.
– Paciente 12. – leu Naruto. – Paciente? – repetiu o Uzumaki, sem entender nada. – “Portadora de grande agilidade e excepcional controle de chakra.” – Naruto leu. – Cadê o nome? – irritou-se o Uzumaki. – “Sen Keiko. Portador de uma grande espada que suga chakra, uma variação da espada do próprio Killer Bee. Demonstra grande astúcia e força.” – terminou de ler, arregalando os olhos. – Foi esse cara que atacou a Hinata, tenho certeza! – exclamou Naruto e Tsunade o olhou preocupado. – Como você pode ter deixado isso passar? – perguntou o loiro para a atual Hokage, indignado.
– Não deixei nada passar! – reclamou Tsunade, elevando o tom de voz. – Depois que Hinata foi atacada mandei vários ninjas rastrearem o local, em busca de quem a feriu, justamente porque as descrições dos relatórios que Sakura me entregou batiam exatamente com os documentos que a Nuvem nos mandou. Fizemos buscas durante alguns meses, mas não encontramos nada muito relevante. – completou a mulher.
– Hum. – Naruto resmungou e voltou seus olhos para os papeis novamente. – E essa Paciente 12? Não tem mais informações sobre ela? Os dois com certeza estão juntos.
– Bom, não nos mandaram muitas informações sobre ela. Apenas disseram que seu doujutsu se compara ao byakugan, pode até ser que seja mais forte. Não mandaram nem ao menos seu nome, apenas “Paciente 12”. – disse Tsunade.
– Isso está muito estranho. – pensou Naruto em voz alta. – Por que chamar alguém de Paciente 12? – perguntou-se. Tsunade olhou bem para seu agora discípulo, surpresa com o quanto ele parecia estar preocupado com algo que parecia tão banal. – Você não procurou saber, Vovó Tsunade?
– Sim. De fato, mandei que o Raikage nos desse mais informações sobre essa ninja. Pedi que informasse o porquê de chamá-la de Paciente 12 e também sobre o doujutsu. – disse a loira. – Mas foi-nos dito que eram informações confidenciais da Nuvem e que nós deveríamos apenas nos preocupar em capturá-la. – falou a mulher e suspirou, cansada.
– Nenhuma descrição? – perguntou Naruto.
– Disseram que seus olhos eram lilases, e que, quando ativa o doujutsu, a cor varia para um roxo escuro... Mas nada mais, além disso. – disse Tsunade suspirando pesadamente.
– Olhos lilases... – Naruto sussurrou. Seus olhos arregalaram-se de repente. – Não pode ser... – Naruto sentiu suas mãos tremerem e seu coração acelerar.
“- Ora, ora.” – Kyuubi falou dentro da mente do Uzumaki. – “Que surpresa agradável não?” – disse a raposa com deboche. Aparentemente, pensara a mesma coisa que o Uzumaki.
– Cale-se. – Naruto disse e Tsunade se surpreendeu com o tom frio de sua voz. De alguma maneira, soube que aquilo não fora direcionado a si.
“- Eu não sou daquele tipo que diz ‘eu bem que te avisei’. Mas eu bem que te avisei.” – a raposa disse e Naruto viu uma de suas sobrancelhas se erguerem. – “Que vagabundinha cheia de surpresas essa que você comeu, hein, Naruto.”
– Por que você não vai tomar no cu, Kyuubi? – Naruto disse completamente hostil, deixando Tsunade desconfortável.
“- Não. Aparentemente, você que tomou bem no meio do seu cu. Comeu a vadia que estava de complô com o ninja que quase matou a Hinata. Trouxe-a diretamente para a vida de vocês. Deixou-a se infiltrar em Konoha, na sua vida e no seu relacionamento com a Hinata... Meus parabéns, Naruto.”
– Quieto! – Naruto disse, elevando a voz e assustando Tsunade. – Isso não é culpa minha! Como eu poderia saber? – perguntou o rapaz, colocando as duas mãos na cabeça e apertando-a. Aquilo não podia estar acontecendo.
“- Como você poderia não saber?!” – rosnou a Kyuubi, sem paciência para as asneiras do loiro. – “Se eu fosse você... Corria para o clã Hyuuga.” – Kyuubi disse, misteriosamente e Naruto soube que, mesmo que ele insistisse, a raposa não falaria mais nada.
– Merda. – Naruto disse, passando as mãos pelo rosto. – Merda! – disse e se levantou da cadeira em que estava sentado de supetão. Tsunade lhe olhou, assustada.
– Naruto! Mas o que diabos acabou de acontecer? – Tsunade perguntou preocupada e se levantou de sua cadeira, também.
– Vovó Tsunade... Por favor, me diga que você conhece uma garota chamada Chihiro. – Naruto falou de costas para a loira, pronto para sair em disparada até o clã de Hinata.
– Talvez, se você me disser o sobrenome... – Tsunade disse nervosamente, tendo um mau pressentimento sobre aquilo.
– Sobrenome... – Naruto repetiu debilmente e riu de sua própria estupidez. – Ela nunca me disse o sobrenome dela. – Naruto disse e sentiu como se tudo estivesse prestes a desabar. De novo.
– Naruto... O que está acontecendo? – Tsunade perguntou novamente, começando a ficar preocupada.
– Ela está aqui, vovó... A nukenin da Nuvem está aqui. Estava infiltrada em Konoha esse tempo inteiro.
[...]
– Um, dois... Chihiro vai te pegar... Três, quatro... É melhor se trancar... – Chihiro cantarolava enquanto caminhava pelos corredores escuros da mansão principal dos Hyuuga. Riu um pouco, doentiamente.
Depois de matar o integrante do clã Hyuuga há poucos minutos, fez questão de esconder seu chakra e ordenar que Keiko fizesse o mesmo. Ela não era nenhuma idiota. Sabia que não era páreo para todos aqueles Hyuuga ao mesmo tempo.
Andou pelos corredores adiando um pouco mais a morte de Hyuuga Hinata. Os corredores daquela mansão estavam repletos de fotografias da grande e feliz família principal dos Hyuuga, que Chihiro sabia ser uma mentira. Mesmo através das fotos, a união – pelo menos amorosa – daquela família era uma farsa completa. Até mesmo no papel dava para perceber a frieza com que o antigo líder abraçava as filhas.
Mesmo assim, ver aquelas fotografias de Hinata a enfureciam completamente. Pelo menos a Hyuuga teve a chance de ter uma família. Coisa que Chihiro não teve, por culpa da mesma Hyuuga. E, daqui a pouco, Chihiro iria fazer questão de sobrar apenas isso de Hinata: fotografias e lembranças. Porque não iria massacrá-la apenas... Iria matar também aquela criança que ainda estava por nascer. Faria questão de não sobrar nada da morena.
Ouviu a porta principal se abrir com um rangido fraco e soube que Keiko finalmente voltara.
– Já escondi o corpo. Ninguém vai nem desconfiar que estivemos aqui. – disse o rapaz, querendo ou não, aliviado. Acabar com o clã Hyuuga era o seu sonho, mas era também insano o perigo no qual estavam se expondo. Aquele clã não era qualquer um.
– Ótimo. Agora é só esperar que Hinata venha até mim. – Chihiro disse seriamente.
– Como assim, nós não vamos atrás dela?
– Não. Ela já sabe que estamos aqui. E se eu a conheço bem... Ela logo virá até mim.
[...]
Amaya Hyuuga abriu os olhos assustada e ligou o abajur que estava em cima do criado-mudo, ao lado de sua cama. Algo estava errado.
Quando Hinata, sua líder, havia se casado meses atrás, Amaya passara a viver dentro da mansão principal, onde a doce e triste líder dos Hyuuga oferecera-lhe um quarto, bem ao lado do dela.
Amaya sentiu-se bastante desconfortável, pois Hiashi Hyuuga – seu antigo líder e pai de Hinata – não gostara nenhum pouco da idéia e fazia questão de deixar aquilo bem claro todos os dias. Mesmo assim, a insistência de Hinata e sua gravidez – agora já anunciada a todo o clã – fizeram Amaya mandar Hiashi para o inferno e aceitar a oferta.
Em sua cabeça, ela não seria somente uma serva da líder do clã, mas uma guardiã, que ajudaria no que ela precisasse e que a protegeria, como uma mãe. Neji aprovou a idéia de imediato, pois, mesmo em sua casca fria, confiava e prezava pela mulher.
E como uma boa guardiã, que fica alerta não somente à luz do dia, Amaya soube imediatamente que algo estava muito errado naquela madrugada. O frio aumentara consideravelmente e a sensação de medo instalara-se em seu coração.
Levantou-se da cama apressadamente e calçou seus chinelos felpudos, destrancando a porta e saindo do quarto cautelosamente. Apenas algumas luzes estavam acesas, dando ao corredor um ar um pouco macabro.
Amaya fechou a porta do quarto e ativou seu byakugan, andando apressadamente e silenciosamente em direção ao quarto de Hinata, que ficava um pouco mais a frente.
Não se preocupou em bater na porta, apenas entrou.
– Hinata-sama... – Amaya chamou baixinho. Não podia negar, estava assustada. – Hinata-sama, precisa acordar, algo está errad... – Amaya dizia, mas sua voz fora calada por uma mão grande e calejada, que tapou sua boca.
– Shh! – balbuciou a pessoa, que Amaya ainda se esforçava para reconhecer. – Então você também percebeu? – a voz sussurrou e Amaya respirou fundo, completamente aliviada. Era Neji.
– Neji-san... Tem alguma coisa ruim acontecendo. – Amaya afirmou, quando enfim Neji a soltou. – Onde está Hinata-sama? – perguntou a serva.
– Estou aqui. – Hinata disse. Não era preciso que abaixasse o tom de sua voz. Hinata falava baixo por natureza. – Eles já estão dentro da casa. – Hinata sussurrou. Embora tentasse manter a calma, estava apavorada. Mas não podia fraquejar. Era a nova líder, devia proteger o clã.
– Eu sei. – Neji disse. Amaya ficou impressionada. Embora soubesse instintivamente que estavam em perigo, saber onde estavam os inimigos era demais.
– Eu... Acho que os conheço... – Hinata disse insegura. Tinha certeza de já haver sentido aqueles chakras antes, em algum lugar.
– O que eles podem estar querendo aqui? No clã Hyuuga? – Amaya perguntou abismada.
– Bom, talvez o byakugan. – Neji disse, tentando encontrar alguma explicação sensata. – Mas isso não importa. Nós temos que tirar você daqui, Hinata-sama. – Neji disse e caminhou em direção a Hinata, pondo as mãos uma em cada ombro da morena e olhando-lhe profundamente em seus olhos. – Você está grávida. E nós dois sabemos que não vai conseguir lutar direito assim. – Neji afirmou seriamente e Hinata estreitou os olhos, chateada.
Sabia que Neji estava certo. Sabia que estava muito grávida para lutar devidamente. Mas fugir? Aquilo era completamente inaceitável.
– Eu não vou fugir, você sabe que eu não posso fazer isso, irmão. – disse Hinata meio indignada com aquela insinuação.
– Escuta, não é hora de citar o Naruto! – Neji disse meio irritado com a teimosia da prima. – Você não pode ficar aqui! É perigoso!
– E o clã? – Hinata perguntou, calando Neji imediatamente. – Se invadiram o clã Hyuuga é porque querem alguma coisa de nós. Não posso fugir! Sou a líder dos Hyuuga! – Hinata falou. Embora falasse baixo, Neji sabia que ela também estava irritada.
– Mas, Hinata-sama... E o bebê? – Amaya perguntou, intrometendo-se na discussão.
Hinata suspirou. Boa pergunta. O bebê, assim como clã, era sua responsabilidade. E era muito estranho que esses invasores tivessem decidido atacar justamente agora. Agora, grávida, Hinata tinha um ponto fraco muito grande. Na verdade, dois. Tão debilitada como estava, grávida de já oito meses, qualquer ataque meia boca poderia ferir a criança em seu ventre. E, preocupada demais em se machucar e machucar o filho, estaria desatenta demais para proteger também o clã.
Aquilo não poderia ser mera coincidência. Talvez os invasores soubessem que aquela época, em especial, era uma época em que a própria Hinata estaria em grande desvantagem. Talvez, fosse ela o alvo e não o clã. Hinata olhou de Amaya para Neji e respirou profundamente.
– Neji-nii-san... Você deve ter percebido a grande coincidência de o clã ser invadido justamente em uma época de grande desvantagem. Se eu me preocupar demais em proteger o clã, me descuidarei do meu filho. Se o contrario acontecer...
– O clã Hyuuga fica desprotegido. – Neji completou. Também havia percebido aquela grande “coincidência”.
– Eles sabem que estou grávida. E sabem que, por isso, estou em grande desvantagem. Querem me colocar entre a cruz e a espada. – Hinata afirmou com convicção. – Eles estão aqui por mim, como sempre estiveram...
– Como assim “como sempre estiveram”? – Neji perguntou, abismado. – Não acha que são eles de novo, não é?
– Acho. Acho que, dessa vez, vieram terminar o que começaram alguns meses atrás.
– De quem está falando, Hinata-sama? – Amaya perguntou, assustada.
– Dos ninjas da Nuvem. É por isso que os conheço. Eu já lutei contra eles antes. Eles vieram por mim. Para finalizar o que haviam começado.
Amaya olhou assustada de Hinata para Neji. Como poderiam falar aquilo tão calmamente, como se não significasse nada? Eles estavam ali, dentro de seus domínios, do seu lar. Como podiam estar tão tranqüilos?
Suspirou profundamente, tentando se acalmar, mas simplesmente não conseguia. Seu coração estava acelerado e sua visão estava distorcida. Estava tendo um ataque de pânico.
– Amaya-san... – Hinata a chamou e a mulher olhou diretamente para ela. – Acalme-se. Não vai acontecer nada com vocês. Eu não vou deixar. – Hinata disse suavemente e, se Amaya não a conhecesse, poderia até pensar que a morena não estava assustada. E foi esse o momento em que Amaya percebeu a pessoa que Hinata realmente era.
Hinata era uma mártir. Não era uma vítima da situação e muito menos alguém que gostaria de sofrer. Mas era alguém que sofreria, se o seu sofrimento salvasse todos ao seu redor. Era alguém que sacrificaria a sua própria felicidade pelos outros. Era alguém conhecia a dor e que não queria que os outros conhecessem também.
E foi isso que preocupou a serva.
– Hinata-sama... Você não está pensando em... – Amaya começou a dizer, mas parou quando Hinata a olhou profudamente.
– Sim. Eu vou descer. – Hinata disse e olhou da empregada para o primo. Neji arregalou os olhos e caminhou em direção à prima, parando de frente a Hinata.
– Você está ficando louca?! Você não tem condições de lutar sozinha! – Neji afirmou irritado. O pior de tudo é que ele não conseguia pensar em nenhum plano para tirá-los daquela situação.
– E eu não vou. – Hinata afirmou. – Escutem. Eu quero que você, Amaya-san, chame a Sakura e a Ino, ok? Você, Neji-nii-san, vai chamar o Naruto-kun. – Hinata disse seriamente. – E vão fazer tudo isso enquanto eu desço. – Hinata disse. Sabia que, se até agora nenhum dos invasores fora até o seu quarto confrontá-la, com certeza estavam esperando por ela. – Eles provavelmente irão me levar para longe; lutar dentro do clã é suicídio.
– Eu não vou deixar você sozinha. – Neji afirmou e Amaya estava pronta para dizer a mesma coisa, mas Hinata os interrompeu.
– Vão, sim. Vão fazer o que eu disse. Eu sou a líder de vocês e vocês vão obedecer as minhas ordens. – falou a morena autoritária.
Neji suspirou. Hinata era bem teimosa quando queria.
– Tudo bem. – Neji anuiu, resignado. – Mas antes, você vai ter que explicar esse plano direitinho.
[...]
Hinata abriu a porta de seu quarto. Estava na hora. Neji e Amaya já haviam saído pela janela, sorrateiramente. Era sua vez de cumprir o plano.
Andou por aquele longo corredor. O piso de madeira rangeu aos seus pés. E pela milésima vez, Hinata sentiu-se mais sozinha do que nunca.
Lembrou-se de seu casamento, quando sentiu que estava caminhando para o derradeiro fim de sua felicidade. Mas é claro que estava enganada. Tratando-se de quem ela era, os problemas nunca iriam acabar. Nem ao menos diminuir.
Desceu os degraus lentamente, para não escorregar e machucar o bebê. E se sentiu muito estúpida de repente. Aquela escada não era nada comparada ao risco que estava prestes a correr.
E, quando finalmente chegou ao ultimo degrau, Hinata estancou. De olhos arregalados, observou o mesmo homem de meses atrás, aquele que tinha lhe esfaqueado e quase lhe tirado a vida. Mas não foi essa a sua surpresa. Parada, ao lado dele, estava ninguém mais ninguém menos do que Chihiro.
– Finalmente, Hinata-sama! – Chihiro disse baixo, levantando as mãos para cima, como se agradecesse aos céus. – Eu e o Keiko estávamos apostando se você viria até nós ou fugiria como uma garotinha assustada. – Chihiro desdenhou. – A aposta não teve muita graça. Nós dois apostamos que você correria para longe. – Chihiro disse com um sorriso sarcástico no rosto, fazendo Keiko rir.
Mas Hinata pouco se importou com o seu sarcasmo. Olhou de Chihiro a Keiko e tentou pensar na ligação que existia entre eles, mas não conseguia imaginar nada. Na sua cabeça, Chihiro era um problema do passado que ela tivera com Naruto e nada mais do que isso. Mas ela não poderia se envolver com aquele homem só por um ciúme doentio. Ou podia?
– Quem é você? – Hinata perguntou, tentando entender o que realmente estava acontecendo.
– Olha... Eu pensei que você não fosse perguntar nunca... – Chihiro disse e, num piscar de olhos, estava com uma das mãos apertando firmemente o pescoço de Hinata, as unhas perfurando o pescoço da morena, fazendo-a sangrar um pouco. Hinata ofegou com o susto. Os olhos da mulher tornaram-se roxos e macabros, assustando Hinata profundamente.
E Hinata soube imediatamente que ela não se tratava de um inimigo comum. Soube, no momento em que os dedos dela apertaram-lhe o pescoço, que aquilo era muito maior do que Naruto.
Viu o homem que estava com Chihiro aproximar-se e apontar uma agulha pra ela, enfiando-a em seu pescoço. Hinata sentiu a dor aguda por instante e logo após foi tomada por um intenso torpor.
– Eu gosto de pensar que sou seu pior pesadelo. – ela ouviu Chihiro dizer e sorrir horrivelmente, antes de ser levada para um sono profundo.
[...]
Amaya Hyuuga bateu na porta da casa em que morava a doutora Haruno firmemente. Sabia que a rosada estava lá, pois já havia passado pelo hospital para encontrá-la e foi informada que hoje era o dia de folga da médica.
– Já vou... – ouviu uma voz masculina firme e sonolenta atrás da porta e, no segundo seguinte, Sasuke Uchiha apareceu. – Posso ajudar? – Sasuke perguntou. Esperava ser algum integrante da ANBU já que ainda era madrugada, mas se surpreendeu quando deu de cara com aquela mulher.
– Por favor, preciso falar com a doutora Haruno. – Amaya disse rapidamente. Olhava de um lado para o outro, perturbada. Devia encontrar Sakura o mais rapidamente que pudesse, mas sentia que já demorara demais.
– Eu vou chamá-la. – disse o Uchiha. – Pode entrar. – completou e deu passagem para a mulher que entrou ligeira. Amaya viu Sasuke subir às escadas em direção, provavelmente, ao quarto onde estava a doutora Haruno e desejou internamente que ele fosse mais rápido.
Passados alguns minutos, que mais pareceram horas, Sakura apareceu no topo da escada e desceu os degraus lentamente, por ainda estar sonolenta.
– Amaya-san? – a rosada perguntou, surpreendendo-se pela visita da empregada do clã Hyuuga, ainda mais àquela hora. – Aconteceu alguma coisa? – perguntou ela, com o coração em disparada. Se Amaya estava ali naquele horário, coisa boa não era.
– Sim, doutora. Eu preciso de sua ajuda. – Amaya disse, aproximando-se de Sakura e segurando suas mãos, como se estivesse em súplica. – Hinata-sama foi levada.
[...]
Neji correu o máximo que suas pernas poderiam agüentar. O plano de Hinata não era tão ruim, mas as chances de dar errado ainda eram enormes. E o fato de Hinata se entregar... Bem, ele não tinha bons pressentimentos quanto aquilo.
O pior de tudo era que, mesmo sabendo que poderia dar errado – e algo com certeza daria errado – Neji tinha que obedecer Hinata. Era uma ordem e ela era a sua líder. E, mesmo sendo ele o protetor e o mais velho, era Hinata quem mandava.
Mas o pior de tudo era a sua “tarefa”. Avisar Naruto. Aquele cara iria surtar quando soubesse o plano de Hinata e ele duvidava que ele fosse segui-lo com calma. Afinal, eram a mulher e o filho dele.
Ativou o byakugan a fim de achar Naruto mais rapidamente. Contava com Amaya para que encontrasse e avisasse Sakura e Ino o mais rápido possível também.
Olhou em direção à casa de Naruto. Ele não estava lá. Tentou o prédio da Hokage e o Ichiraku. Nada.
– Que droga! Onde ele se meteu? – Neji resmungou. Estava começando a se desesperar. Tinha que encontrar Naruto logo e avisá-lo sobre o que estava acontecendo; Naruto era afobado e hiperativo, mas sabia muito bem o que fazer em situações difíceis. E saberia como ajudar Hinata, com certeza.
Olhou em todas as direções. Ele não poderia estar em missão em uma hora como aquela. Ou será que poderia?
Com o coração acelerado, Neji forçou o seu byakugan a olhar mais longe. E mais longe. E mais longe ainda.
E com o coração acelerado, ele o viu. Naruto corria para a mesma direção da qual Neji tinha vindo, só que por outro caminho. Seu rosto estava sério e tenso e ele viu a grande agitação que acontecia dentro do corpo do Uzumaki. O chakra vermelho da Kyuubi fluía muito rápido e suprimia o chakra de Naruto.
Ele estava furioso.
– Naruto! – Neji gritou o mais alto que pôde. E, para sua surpresa, o loiro parou de correr e olhou diretamente para ele. Seus olhos ferozes e avermelhados assustaram Neji, mas o Hyuuga foi a sua direção mesmo assim. Demorou alguns minutos para que o alcançasse, pois quando viu de quem se tratava Naruto simplesmente começara a correr de novo. – Espera aí! – Neji gritou de novo, mas o loiro fingiu que não escutou. Neji correu mais rapidamente agora, começando a se irritar com o Uzumaki. – Seu idiota! A Hinata já não está mais lá! – vociferou o Hyuuga, perdendo a paciência de vez.
Como se algo tivesse tocado em seu interior, Naruto começou a correr bem mais lentamente, até parar de vez, dando a chance para que Neji o alcançasse.
O Hyuuga aproximou-se lentamente do loiro e tocou-lhe o braço, como que tentando confortá-lo. Não era muito seguro irritar Naruto agora, principalmente agora que estava tão instável.
– Para onde levaram ela? – perguntou Naruto. Sua voz estava ferina e tensa.
– Eu não sei. – Neji disse simplesmente. – Mas Hinata-sama pediu para que eu fosse atrás de você. Ela disse que você poderia ajudar. – Neji explicou.
– Como assim? Ela sabia que iria ser levada?!
– Sim. – Neji disse e suspirou, resignado.
– E você não fez nada para impedi-la? Que tipo de guardião você é?! – Naruto vociferou, perdendo a pouca calma que lhe restava. – Como pôde deixar que ela se entregasse?! Ela é a sua prima! Ela está grávida! – Naruto dizia, praticamente gritando.
– Você quer calar a boca? – Neji exaltou-se. – Eu segui as minhas ordens. Hinata-sama sabia que se entregar e deixar-se ser levada para longe era a melhor opção. Esses ninjas podem ser fortes o suficiente para causar danos ao clã Hyuuga e à Konoha. Ela preferiu se sacrificar a colocar Konoha e o clã Hyuuga em perigo. – Neji disse o mais calmamente que pôde, mesmo estando quase tão nervoso quanto Naruto. – Ela me pediu, antes de ir, que eu fosse procurar você e lhe explicasse tudo.
– Mas o que a Hinata estava pensando? Ela está esperando um filho... – Naruto disse. Estava começando a ficar desesperado. – Aquela mulher é louca o suficiente para matar o dois. Ela... Ela estava infiltrada aqui o tempo inteiro... – Naruto disse. Os olhos começavam a voltar para a cor normal e, ao invés de furioso, uma grande tristeza tomava conta do loiro.
– Que mulher? – Neji perguntou. Só agora se lembrava de que Naruto estava indo em direção ao clã Hyuuga, atrás de Hinata, e que só quando ele disse que a morena não estava mais lá foi que o loiro parou. – Naruto... Por que estava indo ao clã Hyuuga tão furioso? O que está acontecendo realmente? – Neji perguntou. Aparentemente, o loiro sabia de coisas muito importantes; coisas que Neji ainda não tinha entendido sozinho. – Você sabe quem levou a Hinata-sama?
Naruto lançou a Neji um olhar completamente perdido. Sabia que aquilo era culpa sua. Talvez não completamente, mas em boa parte.
– Sim. Mas nós temos que correr agora, Neji. – Naruto disse, estafado de todos aqueles problemas. – Eu explico a você no caminho.
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