Cinco Funerais para Uma Rainha de Copas
1 01 De um Coelho Branco e um Gato Risonho
Notas iniciais
Avisos: 1# Se você já leu Alice, deve saber que o Coelho Branco é um coelho, Cheshire Cat é um gato, a Lebre de Março é uma lebre e assim consecutivamente. No entanto, nessa fiction, todos os personagens são pessoas reais, com características baseadas nos personagens do livro.
2# Os transtornos/gênero são baseados em idéias. Como a fic não está terminada, pode ser que apareçam outras coisas ou algumas coisas não estejam explicitas.
2# Os transtornos/gênero são baseados em idéias. Como a fic não está terminada, pode ser que apareçam outras coisas ou algumas coisas não estejam explicitas.
É tarde.Continha as palavras em teus lábios crispados, porém deixava com que transpassassem aos olhos o verdadeiro significado por detrás de cada uma delas. Cada singular caractere formando-se por entre a linha tênue que mantinha distante o caos e a subordinação. Era quase irônico, encontrarem-se ali, vagando alheios em prol de seus próprios prazeres. Gostaria de rouba-lo de teus devaneios antes que movessem-se os nefandos ponteiros do teu próprio relógio de bolso, obrigando-o a rumar, sem rumo, para onde quer que houvesse pão e manteiga, e uma xícara fumegante diante de uma mesa bem posta. Todos nós somos loucos por aqui.Lábios hábeis, austeros, soberbos; uma sobreposição de tons, num misto de sabores validados pela rispidez. Um receio, tensão. Tesão. Um célere jogo arrastado, garras sobre luvas de pelica; glamour decadente contra a alva elegância. As mãos do Gato envolviam-lhe, transformando-os em um só, controlando, por ora, os mais contingentes pensamentos do parceiro, fulgurando o ardor que os possuía; o desejo hostil de ser consumado, um toque ansioso, sedento. Ambições que sobrepunham compromissos, num imediato esquecer-se de todos os outros mundos. O Coelho, por sua vez, quase podia tocar a libertinagem que emanava dos seus poros. Ouvia o seu desatar de palavras, absorvendo-as algumas poucas, enquanto corria olhos pela extensão do corpo desnudo, confortavelmente sobreposto à grama; e apreciava-lhe o sorriso depravado que vez em quando formava-se, enviesando-lhe sobre a face. Ansiava toma-lo para si, numa sensação sóbria de profunda ilusão, em plena consciência que jamais viria a pertencer-te. Porquanto continuassem ali, livres e descompromissados, podia possuir-lhe por completo, até o momento que então atasse teus anseios hostis com lúgubres ataduras ensangüentadas, e rumasse, numa fuga habilidosa, para os braços de um outro qualquer.Tuas mãos dedilhavam-lhe o dorso, explorando graciosamente a extensão de suas costas magras, provocando-lhe espasmos desenfreados. Podia observar, por sobre o ombro, que o sol tornava-se mais fraco, brincando com as cores que o compunham, numa dança sutil no céu limpo daquele fim de tarde.Estava quase na hora.O que incomodava ao Coelho não era o simples fato de ter de seguir o protocolo (eternamente o fizera e eternamente estava destinado a continuá-lo fazendo), mas sim o seu despertar brusco que, por insistência, o fazia encarar uma realidade que nem um pouco o vinha a agradar. Havia evitado aquilo que chamavam de amor por todos aqueles anos obscuros de permanência em Wonderland, por ter plena consciência de sê-lo submisso. E eis que agora o vinha incomodá-lo, num instante ardil de extrema confusão pela extensão daquelas terras, apenas tão cruel quanto o idealizara durante tanto tempo.Ao Gato, no entanto, reinavam dóceis fios de pensamento, sob os quais permitiam-lhe sucumbir aos teus mais libidinosos desejos carnais, tornando-o o protagonista sádico e perfeitamente capaz de tornar reais os mais duvidáveis fetiches. Era livre. E de que valia a liberdade ao Coelho, se este recusava-se a, ainda que não sob pena de morte, desobedecer quaisquer ordens demandadas por sua Majestade, a Rainha de Copas? Tornava-se apenas um coadjuvante aos planos depravados do teu amado.xxx- O que deseja? – O emaranhado de lembranças confundia-se em tua cabeça, abrigando-se por detrás da névoa branca que os envolvia. Apurara os ouvidos. O tilintar na talher contra a porcelana polida, agora audível, ainda angustiava-no. O Gato parecia-lhe gentil, embora ocultasse por detrás daquele sorriso enfadonho uma série de depravações sigilosas.- Estaria satisfeito com uma fatia generosa de(você)torta de amora, obrigado. Entre ambos, fumegava o liquido quente contido na xícara incrivelmente cândida. Seus entalhes faziam jus ao gigantesco ego da rainha, levando, em ouro, o formato de um baralho de copas. Notou que, ao fim da mesa cheia á esquerda, o Chapeleiro Maluco também a examinava.Era um mentiroso completo, para todos os efeitos.Talvez fosse por isso que (acidentalmente?) empunhara aquela lâmina no pulso, entorpecido o suficiente para não conseguir relatar com exatidão quão profundo tivera sido o corte. “Está tudo bem”, murmurara por entre lábios. Os relatos de seus pérfidos crimes apostavam uma corrida, no nevoeiro brumal que transformaram-se seus pensamentos.
Sua gentileza lutava contra aquele desejo mórbido, ocupando-lhe a face durante o chá.(Apenas mais alguns minutos, alguns minutos, alguns minutos.)Por debaixo das ataduras, jazia a costura apressada do Gato. Repousando, bonachona, como se zombasse do seu lastimar frouxo e silencioso. Não pudera ter sido tão ruim, afinal de contas. “Andei caminhando enquanto dormia, mais uma vez, é só isso”.Não era só isto. Nunca era só isto.
Notas finais
Esta fic é um esboço de um projeto que tinha em mente. No começo, era suposta ser narrada na primeira pessoa, mas resolvi colocar na terceira pessoa pelo fato da mudança de cenários e personagens constante. Relendo, notei que pode ser que tenha ficado um tanto confusa, qualquer coisa, perguntem. >:
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
Fale com o autor