Cinco Estágios Do Luto
1 Capítulo 1
Notas iniciais
A história deixa, propositalmente, algumas perguntas em aberto. A intenção é que vocês usem a imaginação para respondê-las. Se houver uma continuação, então talvez eu esclareça algumas delas.
Negação
Eu podia ouvir o sangue bombeando em meus ouvidos, podia sentir cada um dos pelos do meu corpo se arrepiando, e meu coração batendo tão forte que ameaçava explodir minha caixa torácica. O que eu não podia, no entanto, era acreditar no que meus olhos me mostravam.
Dentre os sentidos humanos, a visão não é o mais difícil de enganar. Quantas vezes não fomos trapaceados por ilusionistas que sabiam exatamente como tirar proveito das debilidades inerentes a visão humana? Pontos cegos, abstrações, mudanças de foco. Mas agora, o que vejo agora, isso não pode ser real. Deve ser minha mente pregando algum tipo de peça macabra. Talvez esteja havendo um vazamento de gás na escola. Sim, é isso! Essa ilusão é um efeito colateral da minha intoxicação. Eu deveria avisar a todos o que está acontecendo, certo? Eu vou fazer isso, assim que puder me mover.
As alucinações estão ficando piores. Agora o vejo se inclinando e beijando-a. Eu gostaria de poder fechar meus olhos (mesmo sabendo que não é real, isso ainda machuca), mas não consigo. Dever ser culpa da atração mórbida que seres humanos têm pelo desastre, pela dor.
"Surpreendente, não é mesmo?"
Mal posso ouvir as palavras dirigidas a mim. Elas parecem distantes, como se viessem de um rádio com recepção ruim. Mas sei que a pessoa que as pronunciou está bem ao meu lado.
"Com aquele cabelo, eu podia jurar que ele era gay."
Se eu estivesse em melhores condições, teria notado o tom amargurado na voz de Kurt, mas eu não estava.
"No entanto, tenho que admitir, Quinn é rápida." ele fez uma pausa.
Na minha mente, eu quase podia vê-lo inclinado a cabeça para o lado enquanto seu rosto assumia seu pior olhar analítico. Um comentário maldoso em 3, 2, 1...
"Eles fazem um bom par, se você gosta do visual Barbie e Ken."
Isso significa que ele também pode vê-los? Será que estamos em algum tipo de alucinação em massa? Eu já li sobre isso, mas agora não consigo acessar essa informação, meu cérebro parece não funcionar corretamente. Será que o gás já está afetando minhas funções cognitivas?
"O que os perdedores estão olhando?"
"Santy, seja legal."
Acho que Santana e Brittany se uniram a nós, mas não tenho certeza, e, honestamente, eu não poderia me importar menos.
"Ahh, o novo casal sensação do Mckinley."
"Eles são fofos" Vagamente posso ouvir Brittany batendo palmas. "Mas nós somos mais quentes, Santy."
"É claro que sim, Britt-Britt. Loira 1 e Loira 2 não são mesmo uma competição nesse quesito."
Bom saber que algumas coisas nunca mudam. Você sempre pode contar com Santana Lopes para adicionar um pouco de insultos a mistura. E, como um viciado, ela nunca para no primeiro.
"Na verdade, eles me deixam um pouco enjoada, é como ver dois irmãos se pegando."
Tenho certeza que Santana falou mais alguma coisa depois disso, mas eu não saberia dizer o que, porque nesse momento Quinn olhou para mim. Certo, ela não olhou realmente para mim, ela apenas deixou seu olhar vagar na direção geral onde nós estávamos e depois virou o rosto como se nada, pelo menos foi isso que ela tentou com que parecesse. Mas por um segundo... Por um segundo seus olhos encontram os meus, e então eu soube... Era real.
Não havia vazamento de gás, não havia alucinação em massa. Havia apenas o som ensurdecedor do meu coração se partindo. Ninguém mais parecia perceber, ninguém se importaria se soubesse, mas aquilo, aquilo estava me matando.
Como se uma cortina se abrisse diante dos meus olhos, eu finalmente alcancei a verdade. Ela não vai voltar.
Raiva
A raiva é um sentimento libertador. Você não precisa pensar para estar com raiva, na verdade, ela quase bloqueia qualquer pensamento racional. Você pode apenas sentir... Sentir como ela se espalha pelo seu corpo, como ela parece estar sob sua pele, se infiltrando em seu sangue, tornando tudo mais quente e frio.
Quente, porque você pode sentir seu interior esquentando e a raiva borbulhando sob a superfície aparentemente tranquila. Frio, porque você quase pode congelar as pessoas com suas palavras cortantes e seu olhar gélido.
A raiva... Ela é como uma bebida forte disfarçada em um coquetel de nome engraçado. Você sente um gosto engraçado na boca, você mal pode dizer quanto dela já tomou, e sem perceber, você está completamente embriagado. Ela arranca as amarras que as etiquetas sócias e as políticas de boa vizinhança colocaram. Você se vê dizendo a verdade, não só porque não se importa sobre como ela vai machucar outras pessoas, mas porque você quase deseja que isso aconteça, você quase deseja que todos se sintam como você sente agora.
O "casal poder" está desfilando pelo corredor. Desde que o loiro se tornou o novo quarterback do time, eles têm sido quase inseparáveis. As pessoas os tratam como realeza. Posso imaginar como a "Miss Perfeição" esta feliz com isso. Eu gostaria de poder fazer algo para machucá-la, como ela fez comigo, só que pior, mesmo achando que isso não é possível. Eu dei tudo a ela, meu coração, meu corpo, meus pensamentos. E ela me trocou por um loiro musculoso, fã de quadrinhos e criaturas azuis, que passa a maior parte do tempo falando uma língua humanoide de ficção cientifica. Mas eu não poderia fazer mal a ela, então me conformo em apenas olhar para os dois, torcendo para que o calor da minha raiva alcance ambos e faça-os girar e se contorcer de dor, faça-os sentir como se não pudessem respirar, faça-os sentir como eu.
Barganha
O relógio parece estar zombando de mim, mais uma vez. Eu provavelmente já devia ter me acostumado a isso. Nesses últimos meses, aprendi que o tempo é um grande gozador, está sempre aprontando das suas. As pessoas dizem que ele cura tudo... bah! Nunca ouvi tamanha besteira. Tentei fazê-lo meu aliado, mas ou ele não toma amigos ou não gosta de mim o bastante para me aceitar como uma. Então continuo no meu ritual, assistindo o ponteiro do relógio correr... lentamente.
"Só mais cinco minutos", digo a mim mesma. Esse é o tempo que preciso me convencer a passar sem vê-la. É como tem sido minha vida ultimamente, cinco minutos por vez. Comecei com semanas, depois diminuíram para dias, caíram para horas e agora são minutos. Cinco minutos sem pensar em Quinn. Cinco minutos sem olhá-la durante as classes que dividimos, ou no corredor no período entre aulas. Cinco minutos me controlando para não ligar a noite e implorar que ela me escolha. Cinco minutos sem pensar em músicas que eu poderia dedicar-lhe em Glee, ora odiando-a por ter partido meu coração, ora quase suplicando que ela me ame de volta. Cinco minutos... Eu me dou tapinhas metafóricos nas costas quando consigo. E se me segurar estiver se tornando insuportável, ofereço prêmios maiores. Assistir Fanny Girl, ir ao teatro em Cleveland, uma caixa de chocolates vegans livres de culpa. Ás vezes dá certo, outras não, mas como meu psicólogo costuma dizer: recaídas fazem parte do tratamento.
Depressão
As coisas já não são as mesmas, o mundo parece pintado de cinza esses dias. Eu já nem tento fingir que tudo está bem. Por vezes me sinto como um fantasma, apenas me arrastando por todo lugar, só que em vez de correntes, trago comigo meus lamentos. Mesmo meus algozes já não parecem me notar. Duas semanas sem raspadinhas. Antes teria sido motivo de comemoração. Mas não tenho energia, ou vontade, para celebrar.
Na há mais lágrimas para derramar, meu antigo usual "drama queen" teria gritado que todas elas secaram, mas a verdade é que não sinto o bastante para chorar, ou sorrir, ou falar. No momento, o máximo que consigo é existir. Teria sido frustrante, se eu não estivesse tão cansada.
As poucas ocasiões em que estou consciente o bastante de minhas imediações, percebo que as pessoas já não olham pra mim, sou como uma sombra, uma cor de cabelo castanho sentada na fileira do meio, um corpo sem rosto vagando pelo corredor. Se estivéssemos em um episodio de Buffy, eu teria me tornado invisível, como aquela garota do episodio 1x11, qual era o nome dela? Acho que era Marcie. Não importa.
Às vezes vejo Quinn. Ela e o fãboy de Avatar não estão mais juntos. Ele descobriu sobre uma traição com Finn. Acho que é a isso que chamam de Karma. Eu já não odeio o loiro, acho que nunca odiei. Ele foi apenas mais uma vitima Fabray. Só lamento por Finn, ele é um cara bom (a maior parte do tempo). Quinn vai destruí-lo, e deixa-lo quando já não houver nada mais que possa sugar. Ela é como um vampiro, mas em vez de sangue, seus alimentos são sonhos e esperanças.
Aceitação
Hoje passei por Quinn no corredor, e pela primeira vez em muito tempo, não me senti encolher. Antes doía tanto vê-la que me retrair era uma reação natural. Era como ter todo meu corpo espetado por milhares de pequenas agulhas geladas.
O dia escolar enfim terminou, assim que fechei a porta do meu armário, senti uma mudança no ar, não precisei pensar muito para supor a causa disso. Quando me viro, vejo-a caminhando em minha direção. Ela não parece muito bem. Como o previsto, não deu certo com Finn, pelo menos não para ele. O "romance" acabou logo após Quinn ser eleita rainha do baile.
Apenas um adendo:
Ela ganhou apesar do quarterback ter sido expulso do baile por brigar com Jesse.
A garota caminhando para mim agora, é uma Quinn que eu não via há algum tempo. Familiares olhos castanhos de uma familiar garota vulnerável, pequena e insegura. Eu não tinha visto essa Quinn desde que o segredo sobre sua gravidez foi revelado no começo do ano passado.
"Oi, Rachel!"
Eu ainda acho bonito como ela fala meu nome. A forma como sua voz parece ficar mais suave... Eu não sou estúpida, ok? É claro que sei que jamais serei totalmente indiferente a Quinn Fabray, ela foi a minha primeira... muitas coisas. Sempre vai haver uma parte de mim que pertence a ela, e eu estou bem com isso.
"Quinn." cumprimentei de volta, educada, mas distante.
"Posso falar com você um minuto?"
Ela estava hesitante, não combina com Quinn. Ela é o tipo de pessoa que nasceu para ter graça e confiança acompanhando cada um de seus movimentos. Ela pode controlar o mundo com as pontas dos dedos.
"Claro."
"Eu sei que te machuquei" as palavras saiam com dificuldade "e eu provavelmente não tenho o direito de dizer isso, mas... Eu sinto sua falta." ela olhou para baixo "Voc-você acha que talvez...?"
"Não. Não mesmo." eu respondi com absoluta tranquilidade. E eu estava sendo sincera. Eu deixei Quinn Fabray para trás. Eu finalmente superei. E eu nunca me senti tão livre.
* * *
Se Rachel apenas tivesse olhado para trás, ela teria visto...
Estava escrito por todo o rosto de Quinn. Arrependimento, e tristeza e amor, transbordando de seus olhos, nadando nas íris avelãs. Quinn não podia fingir por mais tempo que esses sentimentos não estavam lá. Mas, parece que a admissão veio tarde demais.
Notas finais
Só queria pedir desculpas por quaisquer erros que possam ter havido na escrita. Não usei um beta. Então, se vocês notaram algum equivoco grotesco, por favor, avisem.
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