Cily Wine

1 Prólogo - Cerimônia Inútil


Notas iniciais
"Hoje é um dia muito especial, todos fieis estão ansiosos pela cerimônia. Preciso me comportar, todos acreditam em mim. Mamãe já está a minha espera para irmos à casa de Lizia."

–Cily! Já terminou? Saia logo!

Acho que acabei pegando no sono, fazia um tempão que não tomava um banho tão relaxante em uma banheira.

– Cily!! – A voz é de Madre Lizia, do outro lado da porta. – Precisamos ir minha filha!

Tenho que me lavar rápido, não tomei meu banho direito.

– Já estou saindo, só mais dois minutos!

– Depressa!

A água já está um pouco mais fria, isto mostra que faz um bom tempo que estou aqui, melhor me apressar. Pego um frasco de loção para o cabelo e então despejo um pouco no coro cabeludo e esfrego rapidamente, quando vou para me levantar percebo que está frio fora da água, então retorno tremendo os dentes. “Melhor continuar aqui”.

Estico-me para pegar uma presilha que está sobre uma cômoda um pouco mais distante, e então prendo o cabelo todo ensaboado, e retorno para dentro da água.

– Está pronta?

– Acabando!

Pego a bucha e um sabonete sobre um compartimento de madeira próximo a banheira, procuro começar pelos pés. A iluminação do local é bem planejada com alguns buracos de vidro no teto e algumas lâmpadas, consigo ver todo meu corpo muito bem. Passo pelos ombros e então finalizo nas partes cujo prefiro não comentar, desmancho o cabelo e então me enxáguo.

Levanto-me e pego uma das toalhas que estão próximo a porta, me enxugo com a primeira, que esta pouco úmida e aromatizada “Cheirinho boom!”, e logo pego a outra que esta mais seca e finalizo. Dou alguns passos ate o espelho, reparo meu cabelo “Branco como a neve” como papai sempre dizia, que está solto e pouco embaraçado.

– Cily? – Acho que ouviram meus passos no piso de madeira. Ignoro.

Vejo alguns frascos sobre a cômoda logo abaixo do espelho, e fico imaginando o que são, alguns tem uns enfeites bastante requintados, levo até o nariz e então percebo que são perfumes “Melhor escolher um”, passo o perfume no pescoço assim como mamãe faziam nos eventos especiais da cidade, eu nunca havia usado perfume antes. Penteio os cabelos com uma escova que estava ali encima, e fico mais alguns segundos observando os detalhes.

Vou até outra mesa onde está algumas roupas intimas a minha espera, na verdade existe varias de uma única peça, creio que seja para eu escolher. Pego uma calcinha meio curta, mas bastante confortável, e então a parte de cima escolho uma sem alça, mas bastante justa, apertando um pouco meus seios. Antes de abrir a porta me cubro com uma das toalhas e dou uma arrumada no lugar, já que deixei tudo jogado por causa da pressa.

– Aleluia! – Uma mulher fala do meu lado logo após eu abrir a porta e dar alguns passos para fora, é Malia uma das servidoras da igreja.

Olho em volta e percebo algumas mulheres na sala: Malia Hysalt, Bricha Hysalt (irmã de Malia), ambas eram servidoras da igreja; e também Lizia, Brine e Jane, estas eram Madres com a Lizia sendo a Madre-Maior, elas não possuíam sobrenomes, eram devotadas completamente para a igreja, então não podiam possuir famílias, eles davam preferências para garotas órfãs desde crianças, exceto Jane que possuía família mas abandonou-os por vontade própria.

– Vamos vamos!! – Percebo a mão de Lizia em meu ombro me levando rapidamente para um lugar reservado próximo a janela.

A janela estava fechada com cortinas brancas, assim deixando a luz do sol entrar e iluminar o lugar, já que algumas lâmpadas próximas não davam conta de iluminar com perfeição. Era bastante cedo, então o sol que entrava pela janela me segou um pouco me dando um tempo de me acostumar.

– Tire a toalha.

Viro-me de costas para a janela, olhando para as mulheres, e então desprendo a toalha e entrego para a madre Jane.

– Olha a calcinha que ela foi escolher! – Brine diz com tom alegre, parecia saber da minha escolha. – Deveria ter colocado o sutiã um pouco... peraí... – Ela veio até mais próxima, e então ajeitou de forma que meus seios ficassem mais ressaltados. – Assim está melhor.

– Brine! – Bricha diz com tom de reprovação, mas nem se quer dá um passo para arrumar como estava.

Lizia nem se importa com a discussão das meninas, e pede com um aceno para buscar o vestido. Brine e Malia vão até uma cadeira que sustentava o vestido, cujo eu não havia reparado antes. Elas se aproximam então Lizia às ajuda a me vestir, de inicio parece bastante apertado, dificultando em passar em meus seios, mas logo se encaixando perfeitamente, é obvio, foi feito sobre medida, me lembro do Sr Georgy Balda tirando as medidas de meu corpo a alguns dias atrás.

– Vire-se! – Lizia me vira de volta para a janela, ela sempre me ajudou quando possuía algum evento da igreja, sempre está presente, era como uma segunda mãe para mim, apesar de sempre ocupada com os afazeres da igreja, então estou acostumada com seus atos.

Olhando pela janela consigo ver a cidade através das cortinas, Lizia possui mesmo uma casa deslumbrante com uma vista de tirar o fôlego. A casa fica um pouco mais afastada da cidade então dá a vista de tudo, consigo ver o telhado da igreja que não está muito longe, os grandes barcos dos navegadores na costa, os palácios nobres a direita mais isolada da cidade, e minha casa que fica a minha esquerda, mas não consigo vê-la totalmente.

– Aii! – Uma espetada me tira a atenção da cidade, quando me viro vejo Hilia Kather, outra servidora da igreja, porém a amiga que mais confio, creio que ela tenha chegado agora pois não tinha a visto antes.

– Oii! – Ela diz com um sorriso.

Faço-lhe uma careta, e logo Lizia me vira novamente.

Fico observando os navios e pensando comigo mesma: “Quando eles partirem a cidade novamente vai ficar vazia, os mercadores já não vêem a dias e a cidade já está mais calma...”

– Vire-se!

“...as feiras já não possui aquela movi...”

Sou interrompia pelas mãos de Lizia me virando novamente – Acorda!

Dou apenas um sorriso, sempre viajo em meus próprios pensamentos, então elas estão acostumadas. Lizia está ajeitando meu vestido com as mãos, enquanto Jane coloca alguns apetrechos, Bricha começa a ajeitar meus cabelos, Malia está mexendo na coroa sobre uma mesa e Brine está sentada com Hilia.

Hilia me mostra a língua então eu mostro também, ela está feliz por mim, quase não conseguindo segurar o sorriso no rosto. Ela me faz uma careta, e eu sou obrigada a fazer também, mas ela faz uma careta mais feia, e eu tento piorar.

– Pare com isso! – Sou interrompida com um tapa no ombro, nem percebi que estava atrapalhando Bricha a arrumar meus cabelos.

Hilia simplesmente dá risada.

– Você também!

Agora Lizia e Jane já terminaram, e Malia trás a coroa ate minha cabeça, alguns retoques finais.

– Pronto!

Lizia me estende a mão, me ajudando a descer do pequeno degrau, ela me leva ate um espelho na parede e então posso ver meu vestido.

– Você está linda! – Hilia diz por cima de meus ombros.

O vestido branco contorna meu corpo, desenhando meu busto, descendo a cintura ate deixar cair logo após o quadril. O vestido não alcança o chão deixando-me ver meus pés.

– Pedimos para encurtar um pouco para aparecer seus sapatos. – Bricha diz logo apos me ver reparando meus dedos mexendo.

A coroa, se não fosse pelos detalhes dourados quase não seria notada, por ser branca e estar entrelaçado em meus cabelos.

– Sente-se! – Lizia diz, com sua voz autoritária, como sempre.

Então eu me sento em um grande sofá, e então Bricha trás uma caixa aberta com um par de sapatos, Lizia os pega e coloca com cuidado em meus pés.

– Sabe quem lhe deu? – Hilia sussurra em meu ouvido.

Eu apenas olho para ela esperando a resposta. Acreditando ser meu pai ou o Sr. Condelo, padre da igreja.

– O Sr Hames, Acho que deveria agradecer. – É o senhor dono da estalagem onde minha mãe trabalha, ele sempre ajudou meu pai com o que podia.

– Sim, eu vou.

Os sapatos são em um tom amarelo bem clarinho, com detalhes brancos, combinando bastante com a coroa.

– Vamos! – Lizia mais uma vez nos apressando.

– Posso descer com Cily? – Hilia pergunta para Lizia com um tom bastante piedoso.

A madre olha para mim, que dou um largo sorriso forçado, então ela dá um pequeno sorriso.

– Vá!

Depois de todas exceto Hilia sair da sala, eu vou até a janela e fico observando a rua, há algumas pessoas entusiasmadas a minha espera.

– Eu não entendo o que essas pessoas estão esperando. – Digo em um tom sarcástico.

– Estão esperando você, Cily.

– Pra que? Não sou alguém tão especial assim.

– Você está brincando né?

– Isso tudo é tão inútil.

– Cily, olha pra você. A profecia diz que o mal está por vir, e você é um anjo, um anjo que Baym mandou para nos cuidar, você é a nossa proteção.

– Isso tudo é besteira. Eu não sinto nada.

– Você vai descobrir quando der a hora.

– Vamos! Chega de discutir. – Eu digo virando-me, e finalizando a conversa.

– Não estamos discutindo.

– E eu vou tropeçar nestas escadas.

Começo a descer as escadas, Hilia segura meu vestido me ajudando, viro-me e dou um tapa na mão dela ao perceber que está levantando alto demais, ela solta uma gargalhada e então abaixa um pouco, e logo termina as escadas para o andar principal.

Estamos agora na cozinha da casa, realmente a casa de Lizia é bastante luxuosa. Algumas mobílias bastante caras decoram a casa que visivelmente não é muito aproveitada. Pelo fato de Lizia ser bastante ocupada com a igreja, dificilmente ela pousa aqui, geralmente dormindo nos quartos existentes na igreja, onde o Sr. Condelo mora.

Saindo da casa, encontramos algumas pessoas ali, Bricha, Jane e Brine estão a nossa espera, e logo nos acompanha em direção a igreja. Me sinto pouco estranha com toda aquelas pessoas me observando.

– Vontade de sair correndo. – Digo em voz baixa para Hilia.

– Não vá fazer isso!

Chegando à igreja, possui mais pessoas do lado de fora, então começo a vasculhar procurando meus pais.

– Não se preocupa. Eryn foi buscar Astor lá no bar, junto com todos outros pescadores. – Eryn é a minha mãe, que pela informação deve ter ido buscar o meu pai, Astor Wine.

Aproximamo-nos da grande porta da igreja, que se mantém aberta. Algumas pessoas se apressam para encontrar algum lugar no chão da igreja, já que o Padre retirou todas as cadeiras para mais pessoas se acomodarem. Caminhando pela igreja, percebo Bertio Hames sentado não muito longe, me solto rapidamente de Hilia que tenta me segurar, mas logo desiste a me ver cumprimentar o velho senhor.

– Muito obrigada Bertio. Digo Sr Hames.

– Foi um prazer, ficaram ótimos em você! Ah, pode me chamar como quiser, você sabe. – Ele diz com uma cara muito sorridente, e bastante gentil como sempre.

Logo volto até Hilia e sua cara feia de reprovação.

– Deveria ter avisado que viu ele.

– Relaxa, não vou correr.

Caminhamos até a frente da igreja, onde havia o Padre Condelo nos esperando em prontidão. Aproximando-me dele, pude ver uma almofada no chão em meu caminho, Hilia me deixa ali de frente com o senhor. Condelo é um homem bondoso, até demais pro meu gosto, mas consigo me dar bem com ele, alto e magro com barbas e cabelos compridos e lisos. Ele me reverencia e eu respondo, ele coloca a mão sobre minha cabeça.

– Neste ano vamos fazer diferente, você ficará a frente deles. – Ele me diz e logo dando um longo sorriso.

Eu aceno com a cabeça, e também sorrio. Ajeito-me na almofada que é bastante grande e confortável, e então todos ali na igreja já sentados reverenciam fechando as mãos em punhos junto uma a outra, e então abaixando a cabeça. Então eu faço o mesmo e permaneço ali abaixada. Viro minha cabeça para minha direita, onde posso ver Hilia me observando, lhe mostro a língua, e ela faz uma cara feia me dizendo para levar a sério.

Logo me levanto novamente e vejo todos observando atenciosamente o Padre Condelo falando logo atrás de mim.

– Bom dia a todos! Hoje é mais um ciclo que se começa, e todos estamos ansiosos por este inicio. Nossos pescadores honrados e bravos aqui presentes, estarão em alto-mar nesta temporada de pesca e Baym estará olhando por vocês…

Vasculho toda multidão em busca de meus pais, do qual não consigo encontrar em meio aos inúmeros olhos atentos a mim. Mas depois de alguns minutos consigo notar a silhueta de um homem chegar a porta da igreja com uma mulher acolhida em seus grandes braços, “Papai!”. Então levanto levemente uma mão para dar um pequeno aceno, e percebo minha mãe responder com um aceno discreto. Ao olhar para o lado, noto Hilia me fazendo careta novamente, que apenas ignoro.

– ...Em tempos difíceis, o medo procura nos assolar...

Eu nunca entendi o porquê meus pais nunca estão tão presentes nestes eventos da igreja, porém minha mãe sempre me incentiva a participar. Meu pai é sempre presente em minha vida, mas é menos ainda presente na igreja. Apesar de eu sempre perguntar, eles procuram achar respostas distorcidas.

– ...e a nossa proteção está entre nós. – Aparentemente Condelo termina seu discurso. Então ele se abaixa um pouco e chama a minha atenção – Cily. Levantasse filha.

Eu olho para Hilia com cara de que não sabe o que fazer, e então ela me incentiva acenando com as mãos. Levantando-me e olho para mamãe, com a mesma expressão, e então a vejo levantando levemente a mão, como se tivesse me dizendo o que fazer.

– Vai lá filha! Dê a sua benção. – Condelo diz baixinho logo atrás de mim.

Eu simplesmente levanto as mãos em direção a multidão, que logo se abaixam e começam a rezar. Vejo minha mãe ainda com o braço pouco estendido e então começo a balançar os meus. “Quanta besteira!”

– Buintuzdo nohum latestine... – O padre também começa a rezar, que pra mim parecem palavras aleatórias.

Incrivelmente algumas pessoas que parecem tristes e doentes, começam a se alegrar visivelmente. Sinceramente eu não sei o que faço ali, mas parece funcionar.

Depois de alguns segundos, percebendo as orações terminarem eu abaixo minha mão, sem saber o que estou fazendo. O padre está em silencio agora, e vejo a madre Lizia acenar com a mão para que eu me sente.

Notas finais
Minha primeira historia, espero que você, que chegou até aqui (final da historia), tenha gostado e pretende continuar a ler. Muito Obrigado! :D Créditos: Sara Raquel - Por me ajudar a criar alguns trechos que complicaram minhas idéias. Meus pais - Porque sempre precisamos agradecer a eles (É regra!) Google - Por disponibilizar uma ferramenta bastante util de edição de texto. Microsoft - Pois graças ao Word, eu pude corrigir bastantes erros de ortografia :p