Cigarros e Coberturas
1 Único
Notas iniciais
“Filha, vem aqui.”, disse a mulher, num sussurro confidente à garota. Ninguém mais ouviu; estavam ocupados comendo, conversando e se divertindo, como fazem em todo churrasco em família. É sempre assim; quanto maior o número de pessoas na casa dos avôs da menina, maior é a dificuldade em ser ouvida. E havia quatro gerações ali.
A garota levantou-se da cadeira, deixou sobre a mesa o pires com meia fatia de bolo que estava comendo e foi até a mãe que mexia na própria bolsa. Não tinham nenhum laço sanguíneo, mas eram mãe e filha há quase vinte anos.
“Que foi?”, perguntou. Olhou para as mãos que haviam achado o que procuravam. “Ah, eu quero também”, murmurou à mulher.
“Tá. O outro é pro teu tio.”, falou ao dar-lhe dois cigarros. Então voltou secar os copos de vidro enquanto observava a menina recuperar o bolo e sair da cozinha, perdendo-a de vista em seguida e fingindo dar atenção às três conversas paralelas entre os parentes ainda à mesa.
Muitos sabiam que ele não conseguiria parar, porém jamais diriam, é claro. A garota era apenas mais uma naquela casa, ciente de que o tio não havia perdido o velho hábito, mas nunca tinha visto-o fumando desde o dia em que ele havia prometido acabar com aquele vício que o prejudicara irreversivelmente.
Quando ela atravessou o jardim, passando pelas crianças que brincavam ali, o homem avistou-a com um prato nas mãos, vindo até ele. Não quero bolo, ele pensou enquanto bebericava sua xícara de café.
“Cadê tua mãe?”, ele perguntou à garota, que estava então ao seu lado.
“Na cozinha...”, respondeu. A cobertura do bolo na bochecha macia prendeu os olhos dele. “Que foi?”, perguntou ela.
Ele desviou a vista, observando as crianças. Sentiu que estivera olhando-a por mais tempo do que havia planejado. Na verdade, olhar a enteada de sua irmã não era um plano.
“Hn.. Nada. Chama ela aqui.”
“Pra?”. Quando falou, um farelo fugiu de sua boca cheia com o último pedaço de bolo. Deixou o pequeno prato sobre o peitoril da janela. Ouviu o riso contrariado dele e viu seus pés começando a ganhar distância. “Ela te mandou isso.”.
Os pés pararam e os olhos voltaram nela – mais precisamente em suas mãos. Sorriu e, já pegando o isqueiro no bolso, pegou o cigarro que ela lhe estendia. “E esse outro aí?”, indagou com a testa franzida.
Ela sorriu e tomou isqueiro vermelho de sua mão. “Este é meu”, disse e acendeu-o antes de devolver-lhe o fogo. O fedor veio instantaneamente.
A ruga tensa entre as sobrancelhas dele só sumiu após a memória gravar a imagem da garota tragando e expelindo a fumaça. Ele acendeu o cigarro e guardou o isqueiro novamente, resignado e imerso em seus pensamentos.
O primeiro cigarro do dia é o que mais alterava sua pressão; não sabia por que e pouco se importava com isso, apenas relaxava. Escorou-se à parede, ao lado da garota que mantinha os olhos semicerrados na direção das crianças. Aos olhos dele, ela pareceu relaxar, deixando-lhe a ideia de que também era seu primeiro do dia.
“Desde quando?”, quis saber ele.
“O que?”
“Que tu fuma.”, disse. “Desde quando?”, ecoou.
Ela riu fazendo com que fumaça saísse também pelas narinas. “Uns três anos... Comecei quando tu falou que ia parar”.
Quando você acompanha o crescimento de alguém – uma planta, por exemplo – não repara nos centímetros que ela ganhou a cada dia até o momento em que percebe as raízes fortes se expandindo para além do vaso; então a lembrança da pequena muda virá junto com a observação; Porque não vi que cresceste tanto?
A lembrança nítida da menina jovem e travessa, correndo e saltitando junto aos seus outros sobrinhos – e seus filhos também –, lhe veio como uma ressaca. Tinha agora dezenove anos, completaria vinte em poucas semanas. Ainda é jovem, mas nem tão travessa, e talvez prefira uma sesta à correria infantil e aleatória, pensou ele... Porque não percebeu que havia crescido tanto?
Ele sorveu o último gole do café. A xícara, agora vazia, foi deixada sobre o pires melecado de bolo. Então tragou o cigarro outra vez e ouviu um murmúrio confuso à sua direita enquanto expirava.
“Hn?”
“É.”, concordou ela. “Um por dia.”
“Como assim?”, perguntou.
“Cigarro”, começou ela. “Só o primeiro baixa a pressão, por isso fumo apenas um por dia.”, explicou. “Até por que; cigarro fede.”
Não queria olhá-la tão repentinamente, mas o fez. Chegou a pensar que a garota havia escutado seus devaneios e esperou, com bastante vontade, que ela não tivesse esse poder. Meneou a cabeça em concordância.
Ela sentiu algo estranho no olhar do tio, principalmente porque ele se dirigia a seus lábios e não às pupilas. Palavras vieram-lhe na cabeça, pois aquele silêncio não era dos mais agradáveis. Quando finalmente decidiu proferir qualquer coisa, engatou; A mão veio ao encontro de seu rosto, deixando uma carícia suave em sua bochecha enquanto os olhos cinzentos dele tinham então encontrado o caminho até os orbes castanhos.
Então terminou. Assim que ele rompeu o toque, ela acompanhou visualmente o trajeto decidido da mão dele; do rosto dela à própria boca. Ele lambeu a ponta do indicador, depois a do dedo médio e então sorriu; verdadeiramente divertido com o tom rubro que o rosto da garota havia ganhado.
“Tu que fez o bolo?”, perguntou enfim.
“A mãe...”, ela disse depois de certo tempo. “Eu fiz só a cobertura.”
Quero bolo, ele pensou.
Não falaram mais até que a brasa do cigarro chegou ao filtro e logo depois decidiram se juntar aos demais.
Notas finais
Quanto às palavras regionais (tá, tu, etc.), são totalmente propositais, com o intuito de transparecer a intimidade entre os personagens durante o diálogo... Não sei se consegui ou se errei feio, mas o que valeu foi a intenção.
Outra coisa: Quando estava relendo, tive a ideia de acender um cigarro no mesmo parágrafo que a personagem para ver se o resto da fic cabia no tempo de fumar um cigarro. Resultado: Coube e ainda sobrou umas três tragadas! *palmas para a fumante* -n.
27.11.2016
Bjs.
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