Cigarro e Flor de Cerejeira
12 Informante.
Notas iniciais
No meu segundo ano da Raira, eu estava na enfermaria, num dia aparentemente normal para mim.
Eu tinha passado mal na aula de história e agora me encontrava ali, enfurnada na sala branca e com cheio de limpeza.
Uma sala que conhecia bem até demais.
A enfermeira tinha saído.
Ela sempre me deixava sozinha.
Estava cansada de mim.
Eu mesma achava isso ótimo.
Gostava do silêncio daquela sala branca.
Ali, deitada na cama desconfortável, eu estava no meu reino.
Porém naquele dia fui perturbada.
Perturbada pela pessoa mais nojenta de todas.
Mas que, a partir daquele dia, seria uma pessoa importante.
Ridícula e frustrantemente importante.
Orihara Izaya fechou a porta atrás de si e sentou na cadeira de rodinhas da enfermeira.
Rodou nela, divertido, por alguns segundos.
- Orihara-san? – perguntei, finalmente. – O que faz aqui?
- Furisaki Ayame, não é? – ele não me respondeu. – Deixe-me ver... Dezesseis anos, mora sozinha desde os quinze quando seus pais se mudaram para Nagoya... Tem uma doença misteriosa e rara, um tipo de albinismo que deixa a saúde debilitada e os cabelos rosa... Filha de donos de uma padaria, cursou o fundamental no Colégio Maeda. Atualmente está na sala 2A da Raira... Ranking 20 no último teste geral... Não participa de nenhum clube... Estou esquecendo de mais alguma coisa?
- Você... Como...? – fiquei surpresa. Como ele sabia tanto sobre mim?
- Ah, sim... Algo muito importante... Está apaixonada por Heiwajima Shizuo, da mesma sala que você. – Izaya sorriu.
- Como você sabe? – me endireitei na cama rapidamente, nervosa.
- Calma. Desse jeito sua pressão vai baixar de novo. – ele me avisou.
- O que quer de mim, afinal?
- Vim fazer uma proposta irrecusável. – ele anunciou com um sorriso maléfico. – Você quer saber mais sobre o Shizu-chan, não é? Se ele gosta de alguém... Se ele tem namorada... O que ele gosta de fazer... As coisas que não gosta... Seus medos... Tudo isso, não?
Permaneci em silêncio, tamanho o choque.
- Então... Eu sei tudo isso. – Izaya continuou. – E posso descobrir muito mais... E dizer para você.
- Porém, tudo tem um preço, não? – finalmente me pronunciei.
- Vejo que não é burra, Yaya-chan... Sim, está certa.
- Qual é o preço?
Izaya pegou um pedaço de papel e uma caneta da mesa.
- Vejamos... – ele murmurou enquanto rabiscava algo. – Acho que isto aqui é razoável.
Peguei o papel da mão dele e li.
- Não tenho todo esse dinheiro, esquece. – respondi, amassando-o entre os dedos.
- Não precisa me pagar agora. Sei que vai dar um jeito de arranjar esse dinheiro. – ele parecia certo demais do futuro.
- Isso é loucura. Não vou ficar em dívida com você.
- Yaya-chan... O que é esse preço comparado com o que vai saber sobre Shizu-chan? – Izaya sibilou. – E pode apostar que a diversão que vai me proporcionar será melhor que qualquer milhão de Ienes.
- O que afinal vai ganhar com isso, exatamente? – perguntei.
- Ah... Tanta coisa... Mas nada que te interesse. Então? O que me diz? – ele voltou ao assunto.
Permaneci em silêncio por muitos minutos.
Provavelmente uma hora inteira.
Minha mente martelava todas as possibilidades.
Os prós e contras.
Porém minha curiosidade para saber tudo sobre Heiwajima-san era maior.
Tudo envolvendo Heiwajima-san era muito maior que minha razão.
- Você vai me dizer tudo sobre Heiwajima-san? – questionei finalmente.
- Sim. Tudinho.
- Nos mínimos detalhes? – insisti.
- Tudo o que quiser. – ele confirmou.
- ... Aceito.
E assim meu trato com Izaya se iniciou.
Toda semana ele me enviava um grosso relatório com tudo o que Heiwajima-san fazia.
Após ler, eu fazia questão de queimar os papéis.
Eram coisas que somente eu saberia.
Izaya e eu não falávamos pessoalmente, mas por baixo dos panos muitas coisas importantes aconteciam.
Quando comecei a ganhar bem, passei a pagá-lo.
Consegui quitar minha dívida rápido, graças ao dinheiro extra que ganhava com os homens dos Hostess Club.
Ainda assim, não sabia exatamente se toda minha dívida estava paga.
Da última vez que encontrei pessoalmente com Izaya, no seu escritório...
Bem, foi horrível.
Ele ficou próximo demais de mim, me abraçando com seus braços finos.
Passava os dedos nos meus cabelos e sussurrava no meu ouvido.
Reagi com violência e empurrei-o contra a escrivaninha.
Várias coisas caíram no chão, inclusive uma xícara de porcelana cheia de café.
Minha pressão baixou com meu esforço, e eu praticamente desmaiei, sendo amparada por Izaya.
Ele me segurou, dizendo coisas que eu não entendia.
Senti suas mãos pelo meu corpo todo. Minha cintura, meus seios, minhas coxas.
Era como se ele me engolisse por inteiro.
Deitou-me sobre seu sofá de couro.
Minha visão continuou turva, mesmo eu me esforçando para me recuperar.
Estava indefesa no lugar mais perigoso de todos.
Aos poucos consegui me estabilizar sozinha.
Izaya ficou sentado, apenas me observando.
Ele sorriu quando olhei para ele.
Senti medo.
O fato dele ele não fazer nada comigo me deixou mais aterrorizada do que se tivesse abusado de mim.
Me levantei e corri para a porta.
Prometi que nunca mais voltaria naquele lugar.
Até este dia.
Quando saí do elevador, vi Izaya parado na porta de seu escritório, uma expressão de diversão cruzando seu rosto.
Encarei-o ferozmente e fui até ele.
O informante apenas moveu-se para o lado, fazendo um gesto para eu entrar.
Passei por ele, tensa.
Eu detestava aquele lugar. Continuava como da última vez. Um lugar amplo, luxuoso, mas bastante simples.
Izaya sentou-se em sua cadeira atrás da enorme escrivaninha.
Apoiou os cotovelos nela, descansando a cabeça nas mãos.
- A que devo sua ilustre presença, Yaya-chan? – ele perguntou com o mesmo sorriso nos lábios. – Acho que já te dei as informações da semana sobre o Shizu-chan, não é mesmo?
- Sim, mas não é por causa dele que vim. Quero que investigue outra pessoa. – eu disse.
- Oh? Yaya-chan está se interessando por outra pessoa além de Shizuo-chan?! Que incrível! – ele debochou.
- Cale a boca. – respondi rispidamente.
- Calma, calma, Yaya-chan... Ou seria melhor dizer... Sakuya Nene-chan?
Encarei-o por alguns segundos.
Ele sabia?
É lógico que sabia!
Era uma cobra em forma de ser humano.
Ardiloso, mentiroso, perspicaz, inteligente. Manipulador.
Maníaco.
Sempre sabia muito mais que os outros.
Respirei fundo, tentando me manter calma.
- Então você sabe do chat... O que significa que é um deles. – concluí.
- Você é inteligente e saca tudo bem rápido, não é? – ele sorriu.
- Não precisa ser um gênio para entender isso. – eu rebati.
Dentre eu, haviam mais três pessoas no chat: Setton, Tanaka Tarou e Kanra.
Eu sabia que Setton era Celty, o que levava à resposta: um dos dois restantes era Izaya.
- De qualquer forma, já que você conhece o chat e provavelmente participa dele... Preciso que investigue Tanaka Tarou. Descubra sua identidade e passe seu contato para mim. – fui direto ao ponto.
- Não suspeita que talvez Tanaka Tarou seja eu?
- Seria óbvio demais. Tudo leva a concluir que você é outra pessoa. – eu disse.
Kanra.
Só podia ser.
Era o disfarce perfeito. Uma garota.
Izaya era doente mental, eu tinha certeza.
- Ah, Yaya-chan, você é tão perfeita e conclui tudo tão rápido... Ou pelo menos pensa que é assim. – Izaya girou na cadeira, divertindo-se.
- Então, vai fazer o que pedi? – eu estava impaciente, querendo sair daquele lugar o mais rápido possível.
- Calma, calma, Yaya-chan... – ele levantou-se de sua cadeira, contornando a escrivaninha e postando-se próximo demais a mim. – Tudo tem seu preço, primeiro.
- Pagarei o quanto quiser, você sabe. – respondi. – Dinheiro não é um problema.
- Mas Yaya-chan, às vezes as pessoas querem mais do que só dinheiro. – ele sorriu.
- ... Se tocar em mim eu te mato. – ameacei, apertando o taco de beisebol com a mão.
- Yaya-chan, falando assim, você até soa como uma heroína de mangá. Mas nós dois sabemos que não funciona assim. – ele fez um movimento rápido e agarrou meu pulso, apertando-o com força e me obrigando a soltar o taco de beisebol. Segurou minha outra mão também.
Izaya era muito mais rápido do que eu previa.
E eu agora estava indefesa. Mais uma vez.
Se eu era mesmo uma heroína, provavelmente era a mais inútil da face da Terra.
Virei o rosto, desviando o olhar de Izaya.
Eu conseguia sentir o cheiro da colônia que ele usava.
Era um perfume horrendamente penetrante.
- Yaya-chan, você tem um cheiro bom. – ele disse, suspirando sobre meus cabelos.
- Pare!! – ordenei, ansiosa.
Izaya me jogou contra a escrivaninha atrás de mim.
- Sem esse seu taco de beisebol você não é nada. Ouviu? – ele sussurrou sobre mim.
Tentei me mexer com todas as minhas forças, mesmo sabendo que era em vão.
- Calma, calma, Yaya-chan. Não vou fazer nada com você. É sério. – Izaya riu, e mesmo dizendo isso, aproximou ainda mais o rosto do meu.
Eu encarava a cpu de seu computador, o rosto colado contra o tampo da escrivaninha, uma expressão de fúria.
- Me solta, então! – eu disse.
- Duvido que algum homem tenha chegado tão perto assim de você. Nem mesmo seu amado Shizu-chan deve ter conseguido...
- Pare de falar sobre Heiwajima-san!!! – gritei, nervosa, tentando me soltar novamente.
- Ora, que divertido é ver você ficando emocionada ao ouvir sobre Shizu-chan... – ele riu enquanto me apertava ainda mais contra a madeira dura. – Se ele pudesse ouvir a forma como você grita o nome dele para mim, dizendo todas as sílabas, sem travar... Sabe, Yaya-chan, você é uma humana incrível. Mas não gosto mais de você do que dos outros.
Eu estava tão assustada que meu corpo, frenético, não reagia mais.
Nervosismo.
Incerteza.
Tudo isso se despertava perto de Izaya.
Era tão intenso que eu mal sentia o gosto de sangue na boca.
- Yaya-chan, mesmo assim, você é muito bonita, sabia? Não é à toa que é tão assediada... Pena que Shizu-chan não vê isso... Ou será que vê? – ele duvidou enquanto dava uma gargalhada prazerosa.
Senti meu corpo emitir alguns espasmos.
Minha respiração se prendia sozinha.
Alguns soluços escaparam pela minha garganta.
Mordi o lábio inferior, extremamente irritada.
- Essa sua pele tão branca é tão macia, Yaya-chan... Essa sua fragilidade... Eu a adoro. – Izaya aproximou-se demais do meu pescoço, quase tocando seus lábios nele, antes de emitir um gemido de prazer e me soltar, se afastando e virando de costas para mim. – Ah, é tão divertido, tão divertido.
Permaneci quieta sobre a escrivaninha por alguns segundos.
Sem reação.
Izaya me deixava sem reação.
Ele era louco. Extremamente louco.
Tão imprevisível. Eu detestava isso.
Sentei-me na escrivaninha, os cabelos bagunçados e o corpo doendo.
Izaya virou-se para mim com seu típico sorriso maléfico.
- De qualquer forma, te mandarei os detalhes sobre Tanaka Tarou ainda hoje. – ele continuou nossa conversa como se nada tivesse acontecido. – Mais tarde conversamos sobre o pagamento.
Assenti com a cabeça, colocando os pés no chão e me inclinando para pegar meu taco de beisebol próximo a eles.
Izaya aproximou-se e furtivamente pegou-o, me obrigando a me endireitar e levantar a cabeça para ele.
- Espero que agora entenda a sua força inexistente, Yaya-chan. – ele disse, balançando o taco na mão. – Esse taco não deixa de ser apenas um taco. Assim como a Yaya-chan não deixa de ser a Yaya-chan. Você não é nada, e ainda assim, é uma peça indispensável. Isso é incrível.
Encarei-o com um olhar impaciente e assustado. Tinha recobrado minhas poucas forças.
- Você ainda vai me proporcionar muita diversão, Yaya-chan. Então faça o favor de não morrer até lá. – ele me entregou o taco.
- ... – abri a boca para dizer algo, mas nada me veio à mente.
- “Obrigada, Izaya-sama, por me ajudar mais uma vez.” – ele disse com uma voz fina, debochando. – É isso o que você quer dizer.
- Nem em um milhão de anos. – respondi com a voz rouca.
Izaya começou a gargalhar, e me virei para sair de seu escritório, me contendo para não correr.
- Yaya-chan, ainda tenho um papel importante para você no meu plano! Você verá! – ele anunciou.
Fechei a porta atrás de mim com força.
O enjôo veio com tudo.
Segurei com todas as minhas forças até encontrar um beco vazio.
E então vomitei.
Orihara Izaya era o ser mais nojento da face da Terra.
E eu estava, inevitavelmente, presa à ele.
Porque apesar da repulsa, ele ainda era importante para mim.
Tão importante.
E isso me irritava, pois não havia escolha.
Era tudo por Heiwajima-san.
Eu sofria por Heiwajima-san.
Isso era amor de verdade.
Era, sim.
- ... Furisaki? – ouvi a voz dele me chamar.
Pensei que estivesse alucinando devido à tontura.
Limpei a boca com a mão, virando o rosto, para então perceber.
Não era uma alucinação.
Heiwajima-san estava lá, na entrada do beco, me encarando assustado.
Oh, merda.
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