Eu estava ali, mais uma vez, sentado naquele banco, no mesmo parque onde eu declarei pela primeira vez os meus sentimentos. Você se lembra desse dia?

Nós dois, parecendo duas bolas de tantas roupas, o inverno no Japão é absurdamente rigoroso, com as faces avermelhadas pelo vento frio e com copos de café quente nas mãos. E os cigarros. Os cigarros, companheiros de todas as horas, aqueles que nunca nos abandonam, não é?

E você estava lindo naquele dia, os fios loiros caindo pela face alva, os lábios avermelhados e os olhos sorridentes. E o sorriso que eu faço questão de lembrar todas as horas, porque era o sorriso dirigido a mim. Eu era o dono daquele sorriso, e isso me trazia uma sensação de satisfação e felicidade.Eu acho que eu jamais me senti tão feliz quanto aquele dia.

Suspiro, jogando a ponta do cigarro longe e dando mais um gole no meu café quente. Preto, forte. Como você não gosta. Você sempre gostou mais de coisas doces, não é? Todo saudável, com aquelas frutas e treinamentos físicos. E eu era mais... sedentário, talvez? Bem, eu era ativo o suficiente para não engordar, mas jamais deixaria passar a oportunidade de trocar horas numa academias por um bom livro, numa sala quentinha. E você sempre brincava, dizendo que eu chegaria aos 40 com uma barriga de cerveja. E nós ríamos juntos, você se lembra?

E então... como se tudo estivesse desabando, nós terminamos. Terminamos com a banda, o nosso maior sonho, terminamos com o nosso amor, o que nos fazia feliz. Oh, perdão, uma pequena correção: você terminou com o nosso amor. Você terminou com o que me fazia feliz. \"Eu jamais pensaria que você seria tão egoísta, Shinya.\" As palavras que saíram dos seus lábios foram como um tapa para mim. Então eu me entregava totalmente para receber isso em troca?

Ah, sim. Amor egoísta. Me ame, pois eu te amo, me dê em troca tudo que eu lhe entregar. Acho que era mais ou menos assim que eu pensava, na época. Eu era tolo. Eu continuo sendo tolo.

E por que eu estou aqui, relembrando tudo isso, quase três anos depois? Talvez porque eu saiba que você sempre passa por aqui, nesse mesmo horário, com um copo de cappuccino quente, talvez porque eu saiba que aquele com quem você está não te faz feliz como eu fazia.

Brinco com um pouco de neve sobre meus pés. Huh. Dark Snow. Eu gosto da neve, você sabe, ela não é como a chuva, que lava tudo. Ela derrete juntamente com tudo, lentamente. ¹

Eu quase posso rir, daqui onde estou, vendo você passar atrapalhadamente com um case de guitarra nas costas, folhas de papel e um copo gigante de cappuccino, quase tropeçando nos próprios pés. E essa é uma imagem que aquece o meu coração, me faz pensar em tudo que perdemos, em tudo que deixamos para trás, em todos os momentos bons que não soubemos aproveitar verdadeiramente.

E você vira a esquina, saindo do parque, provavelmente já bastante atrasado para o seu ensaio, assim como eu estou atrasado para o meu.

Me levanto calmamente, deixando para trás pontas de cigarro já consumidos, um banco vazio e frio e um copo de café, terminado pela metade. Um copo de café inacabado, assim como o nosso amor.

Quem sabe, algum dia eu possa sorrir novamente e te tomar nos meus braços, poder dividir mais alguns cigarros e cafés com você, enquanto aproveitamos a primavera?

Mas até lá, eu só posso te apreciar de longe, e sussurrar para o nada as palavras que eu quero dizer:

\"Aishiteru, Shinji.\"

¹ São as palavras do Kirito durante um dos LIVES do Ângelo em 2006.

Notas finais
._. tardes frias e passeios por fansites dão nisso.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!