Notas iniciais
Demorei né? Mas tudo bem, pois acabei me empolgando e escrevendo um montão :)

Entro correndo na floricultura e me escondo atrás de uma palmeira. O vaso onde a planta está é grande o suficiente pra me esconder enquanto me abaixo e olho entre as folhas. As flores nas mangas do meu casaco ajudam a me camuflar. Jeremy entra na loja, um tanto desconfiado e olha em volta. “Está me procurando, ele vai me ver aqui e vai tudo começar de novo”. Encolho-me mais e olho pra baixo quando percebo que a alça da minha bolsa está visível. Ai, droga! Puxo a alça para cima do meu colo e quando olho novamente, ele não está mais lá. Suspiro e fico em pé.

– Você disse que não ia mais fugir.

Eita merda! Pulo e me agarro na bolsa, como se ela fosse um escudo, e me viro para olhá-lo.

– De onde você saiu?

– Porque está se escondendo de mim Sarah?

– A culpa é sua!

– A culpa é minha? Por quê?

– Você... Você fica fazendo essas... Essas coisas!

Sacudo o braço tentando mostrar em gestos minha frustração. Vou para trás do balcão e penduro minha bolsa no gancho próprio para isso. Onde será que está Maureen? Ela deixou a loja sozinha de novo? Ela me deixou sozinha com esse maníaco... De novo? Ah, deuses, me acudam!

– Que coisas Sarah? Você está louca?

Dou-lhe um olhar significativo quando entram duas garotas na loja, que quando vêem Jeremy logo começam a cochichar. Ele me olha e sorri de lado, bem aquele sorrisinho maldoso.

– Terminamos isso depois.

Debruça-se sobre o balcão e me dá um beijo de leve, automaticamente seguro sua cabeça, mas ele recua rindo.

– Tchau.

Observo ele passar pelas garotas que olham descaradamente para sua bunda, então ele pára e se vira. Coloca dois dedos na testa, como se ali tivesse um chapéu, se inclina e diz, com a voz melodiosa:

– Bom dia garotas.

Me derreto... E elas também. Não aguento essas mudanças repentinas: num momento ele quer arrancar minha cabeça (não o culpo, eu também gostaria de arrancar minha cabeça) e no outro está sorrindo e me beijando. E assim só tenho certeza de uma coisa: Jeremy é louco. Encaro as duas clientes e antes que meu lado felino fale mais alto, sorrio e digo, quase gritando:

– Bom dia! Estão procurando algo especial?

Uma das garotas, a loira e alta, me olha dos pés a cabeça, o que é surpreendente já que estou atrás de um balcão cheio de flores, enquanto a outra loira (falsa por sinal) revira os olhos e diz:

– Eu estava, mas acabei de encontrar.

– Hm, infelizmente meu namorado não está à venda, mas temos algumas variedades de Comigo-Ninguém-Pode e alguns Cactos Mila. Pode escolher.

Apoio os braços no balcão e sorrio docemente. Elas me olham com raiva e pegam um vaso de pequenas margaridas. Pego o dinheiro que a Loira Falsa, sério o cabelo dela tem três dedos de raiz negra, fez questão de jogar de qualquer jeito no balcão.

– Mais alguma coisa?

– Na verdade, sim.

– O que?

– Poderia embrulhar seu namorado num belo papel celofane e mandá-lo para esse endereço?

Ela colocou um papel no balcão e meu sorriso vacila, mas mesmo assim apenas assenti e joguei o vaso em suas mãos. Elas saíram rindo e eu, idiota, fiquei ali morta de raiva.

– Que bobocas.

Pulei de susto e olhei Maureen ao meu lado. Ela se materializou ali! Está usando luvas todas lambuzadas de terra, uma espátula em uma das mãos e um esguicho na outra.

– Nem fale.

– Então, onde está o tal namorado?

– Ah, ele acabou de... Espera, ele não é meu namorado!

Estava apoiada no balcão, mas me empertiguei e olhei para ela. Caramba, ela está sorrindo com minha confusão.

– Então porque disse que era?

– Eu... Na verdade eu não sei o que somos. Quer dizer...

– Diga.

Eu não sei se devo dizer essas coisas a uma senhora de idade... Mas pensando melhor, ela já deve ter passado por isso, então pode me dar uns conselhos... Então despejo tudo nela, como se ela fosse uma barragem e eu, as águas violentas de um rio transbordando.

– Ele age como se fossemos, tenta segurar minha mão quando andamos na rua, abre portas e tal, até ligou para meu pai e disse que tinha se encontrado comigo, olha feio pros caras na rua, até diz “eu te amo”... Mas não falou nada, em nenhum momento se virou e disse “Sarah, quer namorar comigo?”, nada Maureen, eu nem sei o que somos.

– Então era esse o problema Sarah?

Ah, qual é? De todos no mundo que poderiam escutar essa conversa, o destino fez com que exatamente ele voltasse aqui? Maureen sorri e sai de trás do balcão, caminha até Jeremy, se apóia em seu ombro para que ele se abaixe e então sussurra algo em seu ouvido. Ele sorri e concorda; depois Maureen se volta para mim e pisca um olho. Olho tudo atônita e de repente ela não está mais ali. Deuses será que ela é uma bruxa?

– Sarah.

– Hm?

– Caramba, Sarah, pra quê isso tudo? Todo esse drama só por causa de uma frescura de status?

– Frescura? Me diz, se um cara aparecesse aqui e começasse a me cantar bem na sua frente, como você reagiria?

– Bem, eu diria pra ele sair de perto de você.

Ele coça a nuca e sorri. Me seguro no balcão torcendo para minhas pernas continuarem do jeito que estão: firmes e fortes.

– E se ele dissesse “Qual é cara, não tem seu nome escrito! E ela nem é sua namorada!” E então? O que você faria?

– Bem...

– Está vendo só? Essa frescura de status importa sim, por mais que você não queira admitir. E enquanto você não der um jeito nisso e me disser o que exatamente nós somos, não vai encostar em mim.

– Mas Sarah...

– Eu aceito qualquer coisa, entende? Amizade colorida, Friendzone, namorados, sei lá. Só resolva isso.

Jeremy chega ao balcão em três grandes passadas, as mãos sobre as minhas e o rosto a centímetros do meu. Seu hálito cheira a menta e fico atordoada com isso, mas não posso ser fraca, não agora... Na real, nem sei por que estou tão irritada com isso! Dane-se que não temos nada definido, afinal, nem era para estarmos juntos! Somos uma aberração do destino, algo que não deveria ter acontecido, mas que fugiu do controle!

– Eu gosto de você, isso é tudo que importa. Não interessa que outra pessoas tentem chegar em mim, ou em você, estamos juntos, ok? Então, nada mais importa.

Seus olhos verdes (!) me fitam se movendo muito rápido acompanhando os movimentos dos meus. O peso de suas mãos me assusta, mas talvez sejam as minhas que estejam fragilizadas. Não... Respiro... Abaixo a cabeça tentando conter as lágrimas. Droga, porque estou chorando? Idiota!

– Ok...

– Ainda não está bom, não é?

Balanço a cabeça em negativa. Jemy coloca as mãos no meu rosto e me faz olhar para ele. Fecho os olhos.

– Vem comigo.

– Tenho que cuidar da loja.

– Maureen disse que se eu não conseguisse te convencer de primeira, podia te levar daqui e tentar em outro lugar. Pega a bolsa e vem comigo.

Como ele mandou, puxo a bolsa do gancho e seguro a mão de Jeremy, que me arrasta para fora da loja até onde sua moto (!) está estacionada.

– Não vamos de moto, não é?

– Claro que vamos!

– Mas... Tenho medo de motos.

– Você vai estar comigo.

– Mais um motivo pra ter medo.

Jeremy sorri e se senta na moto. Ok, não tenho escolha, então me sento na garupa e enrolo meus braços em sua barriga durinha.

– Sarah, precisa por o capacete.

– Ah, sim.

Me solto e Jemy me entrega um capacete azul. Lanço um olhar de interrogação e ele apenas dá de ombros. Coloco o meu na cabeça enquanto ele coloca seu capacete vermelho. De repente, sem aviso prévio, ele acelera a moto e quase me derruba. Me grudo nele e fecho os olhos.

– Maldito!

– Foi mal.

Posso ouvir sua risada, mas ela logo se perde no vento. Respiro lentamente, sem ânimo algum para abrir os olhos. A viagem dura menos do que eu esperava e mesmo quando o motor da moto é desligado não consigo me soltar e muito menos abrir os olhos.

– Ei, Ninfa. Pode me soltar agora.

– Não quero.

Ele ri e segura minhas mãos que estão presas em seu casaco, aos poucos vai soltando meus dedos e me faz saltar da moto. Logo está com os braços ao meu redor, o rosto escondido no meu pescoço, o que me faz tremer. Então, finalmente, abro os olhos.

– Central Park, é?

– Tem lugar melhor?

– Bem, não, mas ainda está cheio de neve...

Jeremy desce as mãos pelos meus braços, e segura minhas duas mãos. Inclina o rosto até ficar com os olhos na altura dos meus, então me beija de leve e começa a correr me puxando atrás de si.

– Ei!

– Vamos logo!

Corro no meio da neve tentando me equilibrar, mas acabo escorregando e caindo de cara no chão. Sinto a neve adentrar meu nariz e só não choro porque estou muito ocupada rindo.

– Jeremy! Isso é culpa sua!

– Minha culpa? O que posso fazer se você é um desastre?

Seguro seu tornozelo e o puxo, fazendo-o cair de costas no chão ao meu lado. Rimos iguais a idiotas... O que é verdade, já que estamos deitados na neve ainda usando os capacetes coloridos. Jeremy escorrega para ficar com o rosto a centímetros do meu, respirando exatamente o mesmo ar que entra em meus pulmões. Sua mão segura a minha, enquanto a outra acaricia meu cabelo.

– Essa posição é super gay.

– Concordo.

P.O.V Jeremy

Não acredito que disse que amava ela! Meus deuses, estou pirando totalmente... Mas, o que posso fazer se é a verdade? Não quero mentir nunca mais na vida, ainda mais para Sarah, já que ela, em particular, tem problemas sérios com esse tipo de coisa.

Eu pensei que quando finalmente viesse pra cá e destruísse seu coração, ia viver feliz para sempre, sozinho... Mas não, claro que não ia ser fácil assim! Eu me apaixonei por ela e mesmo quando Amélia me abraçou não senti nada do que sentia por ela antes. Como já disse milhares de vezes: nunca estivesse apaixonado por ela... Mas estou pela Sarah.

– Posso te beijar?

– Que tipo de pergunta é essa?

– Do tipo: não quero levar um soco, então é melhor pedir.

Ela segura a alça do meu capacete e me puxa em sua direção muito rápido, fazendo nossos narizes se chocarem, mas enquanto rimos (cara, estou chorando, doeu de verdade) avanço e a beijo. No começo Sarah ainda está se mexendo, em meio a uma gargalhada, mas depois é como se todo o parque sumisse levando junto neve e as criancinhas barulhentas fazendo guerrinhas toscas. Deslizo a mão pela sua cabeça e solto o fecho do capacete em seu queixo, fazendo com que sua cabeça chegue mais perto da minha.

– Droga!

– O que? Que foi?

– Acho que gosto mesmo de você, Jeremy.

Tento não sorrir, mas é impossível! Esperei tanto por isso que é inevitável um sorriso bocó não se espalhar pelo meu rosto. Cara, uau! Mas ainda não consigo tirar da cabeça o fato de estamos juntos a pouco tempo, contando com antes dela fugir e agora, são só dois meses.

Ok, talvez já seja bastante tempo... Já está na hora de avançar!

– E isso é um problema?

– É, se você for me machucar.

– Isso nunca vai acontecer.

– Mas já aconteceu Jemy.

Ela encosta a cabeça na minha e olha bem nos meus olhos, me deixando praticamente atordoado com sua cor azul.

– Nunca mais vou fazer isso.

– Se você diz, eu acredito.

Beijo-a novamente, dessa vez bem lentamente... Quando contar essa história para alguém, vou fazer questão de detalhar tudo, inclusive esse beijo. De repente alguém joga neve em nós, me fazendo desgrudar de Sarah e ficar de pé em um pulo.

– Ei cara, qual o problema?

– O problema?

Um homem imenso está parado a minha frente, de braços cruzados, uma menina bem parecida com ele está ao seu lado, imitando sua pose. O-ou. Acho que o beijo se tornou impróprio para menores.

– Desculpa, nós já vamos embora.

Olho para baixo e Sarah está se segurando para não rir. Ajudo a se levantar e corremos até a moto, prendo o capacete de volta na sua cabeça.

– Vamos pro meu apartamento?

– Temos aula daqui a pouco.

– Não faz mal matarmos hoje.

Dou-lhe o meu melhor olhar pervertido e ela ri, mas acaba subindo na moto e enrolando meu corpo com seus braços finos. Minha respiração fica presa na garganta, como na primeira vez em que ela me abraçou, mas dessa vez é centenas de vezes melhor, porque sei que ela gosta de mim.

Faço o caminho mais lento até o apartamento e quando passo pela ponte que liga New York a Manhattan, sinto Sarah prender os joelhos e abrir o braços.

– Me sinto ótima!

– Eu vou me sentir ótimo também quando você voltar a se segurar.

Ela prensa o rosto contra minhas costas e sei que está rindo. Alguns minutos depois, paro a moto na rua mesmo e ela desce. Olha pra cima por alguns instantes e depois volta-se pra mim:

– Não quero subir ainda.

– Mas está frio aqui fora, Sarah.

– Vamos andar mais um pouquinho.

Sarah faz um biquinho bem infantil e eu me derreto todo. Porra, quando foi que fiquei tão gay?

– Ok.

Salto da moto e pego seu capacete, e seguro na mão junto com o meu. Depois estendo a mão pra ela. Por um tenso instante penso que ela vai rir e bater na minha mão, mas Sarah apenas me olha de um jeito engraçado e coloca a palma sobre a minha. Começamos a caminhar lentamente em volta do prédio, as pessoas passando por nós apressadas.

– Meu aniversário está chegando.

– Eu sei.

– Quem te contou?

– As gêmeas.

– Ah, eu deveria imaginar.

Mais alguns passos em silêncio.

– E o que você vai me dar de presente?

– Hm... Surpresa.

– Odeio surpresas.

Coloco o braço no seu ombro e quando dou por mim já estamos no elevador, subindo para o meu apartamento. Um mês atrás resolvi sair da casa do pai de Sarah, pensando que teria mais privacidade com sua filha longe de seus olhos. E cara, foi a melhor ideia que já tive em anos, pois uma semana depois que eu me mudei, Hans voltou pra casa.

– O que nós vamos fazer agora Jemy?

– O que você acha Ninfa?

Junto nossas bocas rapidamente, tomando o cuidado de fazer isso o mais impetuoso possível. A prenso contra o espelho do elevador e levo minhas mãos até sua cintura, apertando-a. Sarah sobe as mãos ao meu cabelo curto e pragueja quando não consegue segura-lo. Hm, cara, isso é bom. O elevador pára e quando dou por mim estou sendo jogado para fora. Não, jogado não, puxado.

– Sarah? Quem é esse cara?

– Zack?

O cara começa a me bater e eu estou tão surpreso que nem consigo revidar. Estou perdendo alguma coisa, o que foi que fiz pra ele? Sarah então se joga na minha frente antes que outro soco acerte meu rosto. A essa altura já não sinto muita coisa.

– O que você está fazendo Zack?

– Ele estava...

– Me beijando?

– É! Quem ele pensa que é pra te beijar?

Junto meus últimos resquícios de lucidez e olho para ele, dou um sorrisinho de lado e respondo:

– Sou o namorado dela.

Notas finais
Os comentários nos capítulos anteriores me deixaram super feliz... Quem sabe um dia eu resolva voltar com outra fic, mas por enquanto vou apenas terminar CS e chega. Beijinhos o/