Cigarette Smoke

8 Melhores Idiotas


Notas iniciais
Tão feliz com a volta do Nyah! A boa notícia é que estou adiantada com os capítulos, então não vou me atrasar!!

Dirijo a quase 100 km/h na estrada de terra que leva para a cidade mais próxima. O teto solar do Opala está aberto e um vento congelante bate em nossos rostos. O carro que minha mãe me deixou é personalizado: tem um teto solar preto e dentro o estofado é de couro azul escuro, contrastando com o azul claro da lataria.

Dou uma olhada para Jeremy para ver sua reação e ele está escorado na porta aproveitando o vento. A jaqueta preta que ele está usando está toda aberta, deixando a mostra a camiseta vermelha e ele parece ignorar o frio. Temos um estilo bem parecido: Jeremy também está usando coturnos e sua calça é totalmente desbotada (não sei se é assim mesmo ou se essa é a calça de estimação dele). Dou de ombros tentando ignorar esse fato e piso fundo no acelerador chegando a 130 km/h.

O colégio fica no lado mais afastado, perto do mar revolto. E a cidade para onde estou dirigindo não é bem uma cidade, está mais para uma vila. A minoria de alunos que vão de ônibus vem das cidades vizinhas e o restante (os que não moram no alojamento) mora em fazendas ali perto.

Jeremy levanta os braços ao meu lado e solta um grito. Sorrio olhando seu cabelo descontrolado e continuo pisando fundo. A velocidade parece deixá-lo contente.

– Me explica sobre as ninfas!

Tenho que gritar para que ele me ouça e vejo um sorriso bobo atravessar seu rosto quando ele me olha de lado.

– Eu estava pensando e cheguei à conclusão de que você é uma ninfa das flores, uma Alseíde. As ninfas eram consideradas deuses-espíritos pelos gregos, elas tinham o dom da natureza e eram conhecidas por trazerem felicidade e alegria para as pessoas.

– Ah, Jeremy, então não tenho certeza se sou uma ninfa... Não trago alegria para ninguém...

– Eu não concordo.

O encaro cravando minhas unhas no volante ao ver sua expressão ao me olhar, uma mistura de dor e necessidade de sentir algo... Não sei definir, mas é algo forte. Desvio o olhar de volta para a estrada.

Ficamos em silêncio até eu finalmente estacionar no meio fio ao lado de uma cafeteria.

– Vamos, desça.

– Era aqui que você queria me trazer?

– Não, só quero tomar um café quente antes.

Ele dá a volta no Opala e entra atrás de mim no café. Me sento num reservado no canto mais deserto enquanto Jeremy vai até uma máquina de brinquedo (dessas onde você põe a moeda e a ela a engole). Fico observando ele brigar com a máquina por alguns minutos, então finalmente volta segurando uma cápsula com algum brinquedo.

– O que tem aí dentro?

Jeremy abre a caixinha e deixa dois anéis caírem na mesa, pega os dois na mão e me dá um.

– Anel da amizade.

O pequeno círculo na palma da minha mão é de plástico azul e está escrito “Idiots”.

– O que está escrito no seu?

– “Better”.

Melhores Idiotas. Coloco o anel no dedo anelar e solto um risinho. A garçonete se materializa ao nosso lado esperando nossos pedidos.

– Um café grande extra forte.

– Panquecas com mel.

Olho para ele assustada e recebo de volta um olhar engraçado.

– Que foi? Gosto de panquecas.

A garçonete sai dizendo que logo trará nossos pedidos.

– Sério mesmo? Primeiro você me dá um anel da amizade e depois pede panquecas?

– É.

– Está bem.

Procuro pela cafeteria a placa de “proibido fumar”, só então me lembro do porque gosto desse lugar. Abro a janela ao lado da nossa mesa plenamente consciente do olhar de “que porra você está fazendo?” que Jeremy me lança. Saco o cigarro dentro da bolsa e o acendo com meu isqueiro favorito em forma do Big Ben.

– Você fuma?

– É. Quer um?

– Minha mãe sabe que você fuma?

Balanço a cabeça confirmando. Agora ele vai rejeitar você Sarah.

– Você gosta?

– Na real? Nem um pouco.

– E não para por...?

Apoio um cotovelo na mesa, o cigarro pendurado entre meus dedos. Dou uma longa tragada e sopro a fumaça em direção à janela, fazendo o olhar mais sedutor que consigo.

– Eu ainda não encontrei um motivo forte o suficiente para me manter longe do vicio. Mas talvez você...

Uma onda de satisfação me preenche ao ver seu rosto ficar vermelho. Mas quase ao mesmo tempo sou tomada pela culpa. Então lembro que tenho fumado muito menos nos últimos dias e talvez seja por causa dele...

– Desculpa Jeremy, eu não devia ter...

– Não. Tudo bem Sarah.

Nossos pedidos chegam bem nesse momento e pego minha xícara, quietinha na minha. Observo Jeremy comer as panquecas em, sem brincadeira, cinco garfadas. Ele parece pouco a vontade, então trato de virar meu resto de café.

Pago a conta porque sou a única que trouxe dinheiro, o que parece deixá-lo pior do que já estava. “Não sabia que iríamos comer...”

– Quer ir embora?

Jeremy balança a cabeça emburrado. Entramos no carro e dou a partida. Estou com raiva por ter conseguido estragar tudo. Com mais raiva ainda por ter dito aquela besteira. É claro que ele ia entender a indireta Sarah! Como eu sou estúpida!

Na metade do caminho decido que não posso desistir agora. Preciso dar um jeito nisso. Passo o colégio e quando nossas casas aparecem, eu piso no acelerador. Jeremy me olha assustado, mas eu não vou retornar agora. Vou levá-lo ao melhor lugar de todos!

– Sarah?

Meu rosto deve ser de alguém em pleno delírio, mas nunca me senti tão obstinada com algo em toda a minha vida. Paro o carro a uns vinte metros de um penhasco de frente ao mar. O vento aqui está cem vezes mais forte, então fecho o teto do carro. A vista me deixa sem fôlego.

– Desculpe mesmo Jeremy. Não consigo evitar ser uma idiota...

– Você não...

Balanço a cabeça tentando não chorar, e não é teatrinho, estou mal de verdade com o que estou fazendo. Mas tenho que me controlar... Tem muita coisa em jogo.

Ficamos em silêncio e já estou me preparando para voltar para casa quando Jeremy resolve falar.

– No antigo colégio...

Me viro, curiosa para ouvi-lo.

– Jeremy...

– Eu... Eu fiz algo que realmente não devia... Mas não sei se me arrependo. As coisas apenas ficaram tensas e eu fiquei com medo. Não sei se teria feito aquilo em uma situação normal Sarah...

Pro meu espanto total vi lágrimas começarem a escorrer pelo seu rosto. Penso em me aproximar, mas algo invisível me impede.

– O que aconteceu Jeremy?

– Uma garota... Há dois anos o colégio resolveu abrir espaço para garotas, até então eram apenas meninos e estava na cara que isso não daria certo. Alguns... Alguns pais resolveram arriscar pelo internato ser um dos melhores... Foi um erro Sarah... Tinha uma garota, Amélia, todos os garotos enlouqueceram por ela. Mas por algum motivo ela me escolheu.

Ele dá uma pausa para me encarar. Algo ruim aperta meu estômago, sinto algo que nunca tinha sentido antes.

– Continue.

Jeremy balança a cabeça, cerrando os olhos.

– Estávamos bem, namoramos por vários meses... Um dia chegou um cara novo no colégio e meteu na cabeça que queria ficar com ela... Eu a defendi, disse que estávamos juntos, namorando... Então Amélia apareceu grávida. E não era meu.

Olho atentamente seu rosto que esta ficando estranhamente pálido. Acho que a vida dele estava ruim de verdade... Tenho que parar de reclamar um pouco. Só um pouco.

– Era dele e ela não sabia que eu sabia até uma noite, quando a segui até o ginásio onde eles se encontravam e bati nele até ver seus olhos se fecharem... E não senti nada, absolutamente nada enquanto fazia aquilo.

Ele dá uma risada amarga. Não faço ideia do que ele sentiu ou sente, mas ainda assim consigo não julgá-lo por isso. Afinal, o que me faz diferente dele no quesito vingança?

Agora a coisa finalmente faz sentido... “Trazê-lo de volta”.

– E... E o que aconteceu depois?

– Eles não me denunciaram porque não o machuquei muito, apenas o deixei inconsciente, mas as coisas ficaram difíceis: fizeram-me sair do time de lacrosse e de todas as outras atividades extracurriculares, Amélia me chamou de coisas horríveis, todos no colégio ficaram do lado deles... Não tive muita escolha a não ser ficar na minha, sem poder me defender... Até que um mês atrás Amélia veio chorando até mim e disse que tinha tido um aborto espontâneo.

– Foi por isso que você resolveu vir antes?

– Sim... Sabe Sarah, você não é uma idiota. Eu que sou.

Num impulso pego sua mão e a aperto entre as minhas, de uma forma doce que eu nunca tinha feito antes. Apenas sinto que preciso reconfortá-lo de algum jeito... Preciso cuidar dele.

– Você não sabe nada sobre mim.

– Então me conte.

Encaro Jeremy por algum tempo e ele simplesmente me encara de volta. Me pergunto o que outras pessoas pensariam ao ver dois adolescentes assim, tão perto um do outro, se encarando descaradamente... Se Jeremy pensa em me beijar eu não sei dizer, mas sem querer meus olhos escorregam para sua boca e percebo que eu, na verdade, penso em beijá-lo.

Solto um longo suspiro ranzinza e me volto de frente ao volante.

– Está certo. Não tenho mais nada a perder mesmo.

Notas finais
Comentem?