Cigano de Dom Pedrito
4 O preço de uma promessa
Notas iniciais
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Pacácio deixou a fazenda, passou pela charqueada e seguiu por uma picada em meio à capoeira. Por ela cavalgou entre codornas e curiós, até que deu em uma estrada batida já por perto da fazenda Imaculada Maria das Dores, de propriedade de Coronel Poncilhano.
Pela estrada não cavalgou nem dois quartos de hora e encontrou Adão Preto, empregado de confiança e bajulação do Coronel Poncilhano. Vinha ele afoito à galope que até poeira levantava. Quando topou com o cigano numa curva da estrada, estirou o alazão que parou levantando poeira.
– Batarde Adão Preto. Onde vai com tanta pressa? Parece que corre de assombração! — o cigano disse se recompondo do susto.
– Tenho mandado de Coroné Poncilhano. É pro cê ir vê ele sem demora, de imediato. — falou o mensageiro sem pestaneio, já na usura do tempo. — Já dei esse mandado a mais de dez, mas farta ainda pra mais de trinta.
– E o que quer o Coronel, Adão Preto? Me adiante o pretendido. — esboçava curiosidade.
Adão Predo, homem obediente às ordens do patrão, acostumado a obedecer sem jamais questionar, se indignou com a pergunta de Pacácio e de pronto repreendeu.
– Mas bah seu cigano enxerido. Num me interessa o que ele qué. A mim basta que ele mande e eu saio em obediência. O que ele qué não sei nem faço questã de sabê. — estava bravo como um galo arrepiado, pressionando as sobrancelhas em feição de desagrado.
Pacácio se surpreendeu com a braveza do serviçal, afinal, fez apenas uma pergunta. Não era para tanta indignação.
– Mas tche, seu Adão Preto, num carece de se enfezar. Se tu não sabe o que ele quer, deixe que eu mesmo vou e pergunto. Para tu, só preguntei por perguntar. — falou também de sangue quente, em sinal indignação.
– É que não gosto que questionem a ordem de meu patrão. Se ele mandô chamá, tem que obedecê e ir de logo, pronto e acabô. — disse ainda bravo o tal de Adão Preto.
– Tá bom, já estou indo. Chego lá num piscar de olho e vejo o que quer o Coronel. — esporeou a égua e se pôs a caminho, sem entender ao certo a indignação de Adão Preto. — “Deve de ser Deus no céu e Coronel Poncilhano na terra pra esse alcoviteiro” — pensou Pacácio enquanto já seguia a certa distância.
O caminho que ele seguia ia passar mesmo perto da casa grande. Era só desviar um pouquinho e falar com o Coronel. Depois iria para casa matar saudades da negra Maria que, por certo, com um mate fervente o esperava, já também com o peito abrasado em saudades.
Pelo resto de caminho, que demorou por pouco mais de uma hora, foi pensando o que dele queria o Coronel. Fazer negócio é que não seria, já que o fazendeiro era velhaco e dava nó até em pingo d’agua
Chegou meio acabrunhado pertinho da varanda e lembrou do ocorrido na outa vez que teve ali, quando deixou seu sangue para marcar devoção. Na varanda viu uma crioula abaixada, limpando o chão.
– Batarde nhá Chica — falou à conhecida.
A mulher levantou o tronco se voltando à cigano.
– Batarde seu Pacácio. O que quer por essas bandas? — falou meio gritado, com voz fina qual taquara.
– O Coronel mandou me chamar. Vim ver o que ele quer. Faz favor em o chamar. — ameaçou um sorriso pela força da cortesia.
Não demorou tempo algum e já veio o Coronel. Com um chapéu de aba larga e a pilcha bem gaúcha. Cara fechada e sisuda de trazer medo em peão. De cima da varanda, fitou o cigano e falou sem cumprimento.
– Que bom que veio logo. É assim mesmo que eu gosto. — proferiu com voz forte e um naco de arrogância.
Pacácio engoliu seco a arrogância do homem e caminhou pelo lado da bajulação.
– Vim de pronto, Coronel. Homem de sua importância não pode ficar esperando.
– É bom assim, cigano. Sinal que é ajuizado.
Pacácio, é claro, não gostou do tratamento. Mas conhecia o Coronel e sabia que era assim. Vontade tinha de acabar com arrogância daquele homem, mas sabia de que lado estava o poder e o dinheiro e quem seria o vencedor.
– Mas me diz então o intento de eu estar aqui.
– Como você deve de saber, o imperador Dom Pedro está assolando o Rio Grande com impostos que não tem cabimento. — falou bravo e indignado. — Cobra uma fortuna pelo charque, pela erva-mate, pelo couro e por aí se vai. — balançava a cabeça sinalando desaprova.
– Poisé, eu estou sabendo Coronel. O imperador está fazendo uma coisa muito da errada. Onde já se viu prejudicar tanto assim os fazendeiros, homens que movem esse Rio Grande. — concordou o cigano, não querendo contrariar.
– Pois então. Mas não tem nada não. Nós vamos separar do reino e formar a República Rio-grandense. — proferiu com moção de orgulho pelo intento dos gaúchos.
– Mais isso é muito de bom. — concordou o cigano. — Só não entendo, Coronel, o que é que eu tenho com isso. — curioso e um pouco preocupado, quis saber de prontidão.
Coronel Poncilhano tomou gosto pelo assunto vendo que o cigano em tudo concordava. Já estava quase a tomar ele como uma boa alma gaúcha.
– Como você sabe, pelo Rio Grande tem várias frentes de luta. — alisava o bigode. — Bento Gonçalves já tomou Porto Alegre e o General Netto luta aqui na região de Bagé. E Netto está precisando de mais homens e os fazendeiros da região concordaram em enviar gente boa para a peleia. Eu fiquei de arrumar mais de trinta. Tu está no meio, cigano Pacácio. Sai amanhã com o pelotão. — falou de vez, como uma ordem em precisão.
Pacácio arregalou os olhos e deu uma pigarreada, quase engasgando com o cuspe. Aquelas palavras lhe soaram como navalhas a rasgar o coração. Ficou um tempo pasmado até que conseguiu seguir com a conversa.
– Olha Coronel. — se mostrou manso e na cortesia. — Eu acho muito justa essa peleia e fico honrado com o convite. Queria mesmo estar no meio da peonada lutando pelo Rio Grande. Mais com Maria prenha, num posso me ausentar. Fico até com orgulho de ter lembrado me mim, mas vou ter que recusar. — concluiu meio receoso, com cara de dar piedade.
Mas o Coronel, homem de uma ordem só, não gostou da recusa e se tomou por ofendido.
– Mas bah tche. Que história é essa?! — disse bravo e quase gritado, dando um soco na soleira da varanda. — Cigana cria pelo mato igual porca, não precisa de cuidado. E não estou lhe convidando, estou mandando você ir e pronto e acabou. — encerrou sem dar chance à contesta.
Homem de juízo por certo já cederia e aceitaria logo a peleia. Mas o amor de Pacácio pela sua negra o fez insistir mais um pouco e tentar dobrar o Coronel. Ele teria que estar com Maria quando o filho nascesse, não podia ser de outra forma. O amor falara mais alto que a ordem do Coronel.
– Seu Coronel, peço que considere. — disse choroso o cigano. — Num posso deixar Maria sozinha naquela tapera. É no meio do mato e ninguém passa por lá. Se tiver o piá sozinha, pode ser que morre os dois. Vou ter que recusar. — trouxe os olhos estacado no coronel para ver a reação.
O Coronel já sem paciência, ajeitou a bombacha abaixo da barriga, já cuspindo fogo de tão bravo estava. Homem orgulhoso e imponente, não admitia jamais que uma ordem sua fosse questionada daquela maneira.
– Mas olha seu cigano, esqueceu da jura que me fez? — falou com dentes acirrados, esbravejando qual um demônio. — Tenho ainda o meu fio de bigode banhado no sangue teu. Me deve obediência e recusa não aceito. Se não cumpre promessa de sangue, tua vida não tem valia e desfaço dela aqui mesmo. E tua desonra percorre teus descendentes. Mato também Maria e teu filho que ela espera. — concluiu a ameaça dando um soco na soleira.
Pacácio se viu acuado, não podia fazer recusa. Deu sua palavra, jurou com sangue e agora teria que cumprir o prometido. Ademais, sabia da crueldade de Coronel. Ele não pouparia sua amada e o filho no ventre dela.
– Está certo, coronel. — disse pesaroso e compassivo. — Lhe jurei devoção e num posso recuar. Se empenhei minha palavra, vou cumprir, não tenha dúvida.
– Em palavra de cigano, já lhe disse, não confio. — falou ainda enfezado, com malhas de arrogante. — Mas na promessa de sangue eu exijo cumprimento. Esteja aqui amanhã bem cedo, no primeiro sol dia. Traga o cavalo e os apetrechos. As fazendas pelo caminho lhes dão pouso e comeria. As armas, General Netto vai arranjar quando chegarem no pelotão. — terminou e rumou para dentro, deixando ali o cigano.
– Muito bem, seu coronel, será como o senhor quer. — falou baixinho e desolado, tanto que só ele ouviu. Coronel já havia ido sem dar importância aos sentimentos do cigano.
Lentamente e enlutado, ele deu rédea à égua e deixou a casa grande. Cavalgou por entre alguns paióis e deu na estrada que o levaria à tapera em que vivia com Maria. Trotou devagar com a mente distante e conturbada. Ele amava muito Maria e deixá-la sozinha, justo quando ia ter o primeiro filho, era algo que ele jamais admitiria, jamais desejava, jamais consentia. Mas pela força de uma jura, de uma promessa de sangue, precisava fazer. Ele deixaria ao léu sua amada para seguir o destino incerto.
Muito já se ouvia falar sobre as batalhas na região. Muitos colonos mortos, outros aleijados. Mas isso não estava nas preocupações do cigano. Ele apenas pensava em Maria, em deixá-la prenha sozinha naquela tapera isolada.
A tristeza abateu sobre seu semblante e ele mal sentia o trote lento da égua bragada que o levava naquele caminho por entre as capoeiras.
Não encontrava formas de dizer a Maria do sucedido, da missão que teria que cumprir. Sabia que ela ficaria também desolada e a angústia tomaria conta de sua alma.
Por aquela trilha entre a capoeira, ele cavalgou por mais um tempo, adentrando na parte abandonada da fazenda onde antes eram os mandiocais. O cusco sempre atrás. Depois de uma curva, ele avistou a tafona. Ao terreiro, Maria estendia roupas no varal. Seguiu devagarinho o percurso que antes fazia à galope.
Viu que Maria volveu os olhos em sua direção e observou o sorriso que cresceu nos lábios fartos da negra. Porém, o riso não encontrou eco… não desta vez.
Por óbvio, Maria percebeu algo estranho. O cavalo a trote lento, Pacácio sem o sorriso no rosto. Alegria apenas do cusco que corria faceiro em direção à negra.
Pacácio chegou. Amarrou o cavalo de longinho em um abacateiro que principiava em dar flores. Maria olhou apreensiva.
O cigano caminhou lento arrastando as nazarenas pelo chão batido do terreiro, em meio às galinhas em busca de alimento. Maria esperando para saber da boca de Pacácio o ocorrido infortúnio.
Primeiro um abraço. Os braços fortes de Pacácio cercaram a negra e a trouxe até si. A respiração alongada na nuca da prenda denunciaram que não eram boas as palavras que ela iria ouvir.
– Pacácio… — disse ela ao ouvido do cigano, ainda envolta em seus braços. Sentia que o minuano não trazia bons presságios naquele final de tarde.
– Que foi que há, meu cigano? — indagou ela ante o silêncio de seu homem.
– Uma lástima, minha prenda. Uma lástima. — disse quando conseguiu proferir algo, com voz trêmula e embargada.
O aperto que pairava no coração de Maria desde que viu Pacácio chegando se intensificou ainda mais. Quis saber, então, o que tanto afligia o cigano.
– O que foi que aconteceu? Me diga de uma vez. — falou ao ouvido do homem.
Pacácio afrouxou os braços e teve os olhos de Maria nos seus. Um olhar compassivo e temeroso, porém terno o quanto pode.
– Como você sabe, minha prenda, eu tenho uma promessa de sangue com o Coronel Poncilhano. — o tom da fala estava diferente do costumeiro, sem o canto peculiar. — E ocorre que hoje ele a cobrou obediência.
– E qual será o preço que terás que pagar, meu amado? — ainda que tensa, falou tranquila, mesmo que o tormento lhe permeasse o coração.
O cigano por um tempo permaneceu em silêncio. Talvez procurando palavras. Talvez não desejando dizer. Talvez temente da reação da amada. Mas ainda que vacilante, falou.
– Terei… terei que lutar para a independência do Rio Grande. — disse aos olhos da prenda, com as mãos fortes segurando nos ombros da amada como para sustentá-la naquele momento fatídico.
– Como assim? Vai me deixar? — Maria falou com foz rápida, sem julgar o peso daquelas palavras no peito de Pacácio.
– Não posso negar a uma promessa que conferi. — disse terno e culposo. — Parto amanhã bem cedo. Irei rumo a Bagé e me juntarei ao General Netto que comanda os homens naquelas bandas.
Maria com o coração acelerado, alma empobrecida pela lástima da solidão.
– Você é homem livre, Pacácio. — tentou Maria argumentar. — Não aceitará que alguém lhe comande. Você também sabe que esta luta é para defender os interesses dos fazendeiros, não é uma luta sua.
– Não vou lutar por ninguém. Vou somente pela promessa que fiz e não posso descumprir. Estou atado a ela e tenho que fazer o que o Coronel quer. — ponderou Pacácio. — Mas me pena deixar você, porque lhe amo e sentirei pesar… saudades de ti e de meu piá, que talvez nasça sem o pai. — acariciava a barriga de Maria, que já despontava em crescimento.
Maria olhou a mão percorrer seu ventre, sentiu carinho e aconchego. Pôs suas mãos sobre a do cigano e seguiu com sua fala.
– E se tu morrer, Pacácio? que será de mim e do moleque? — indagou novamente encontrando os olhos de seu amado.
– Rezarei todos os dias para retornar e estar aqui quando meu filho nascer, mesmo que tenha que vender minha alma ao diabo. — sentenciou com voz forte trazendo certeza ao dito.
– Não diga isso homem. Você voltará guiado pelas mãos do Negrinho do Pastoreio.
Se abraçaram os dois enquanto de seus olhos, lágrimas principiavam a cair. Sempre juntos e agora separados. Justo quanto Maria mais precisava do cigano. Justo quanto vinha o filho de tanto esperado. Por muito tempo permaneceram abraçados, sentindo um ao outro ante o destino preparado.
Depois entraram, sem ânimo para conversas. Naquela noite sequer se amaram, dormir por certo que não.
No outro dia bem cedinho, Pacácio selou o tordilho, o melhor cavalo que possuía. A tarefa que ele fazia tão alegre, já que amava cavalgar, naquele dia foi pesarosa, como se o levasse para a morte.
Maria cevava o mate, também tristonha e angustiada.
O cusco, gracioso e festeiro, iria o seguir por certo. Mas não naquele dia, teria que ficar com Maria. Amarou o bicho no esteio da tapera e o deixou ali a choramingar.
Despedida só lágrimas dos olhos daqueles dois. Sem palavras. Um abraço alongado de lágrimas e de pesar.
Montou no tordilho e de pronto se foi, deixando ali Maria na porta contendo o choro.
Se perdeu Pacácio na curva da picada.
Maria se desfez em prantos.
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