Cigana De Luxo!
32 Um adeus ao passado
Notas iniciais
Eu sei que estou demorando para postar mas é que esse é o antepenúltimo capítulo... Um dos capítulos finais e eu quero que seja perfeito shaushuahsuahsua
Espero que gostem...
Ela ainda não entendia, era pequena demais pra isso. Seus olhos tinham acabado se abrir e mesmo assim sua mãe cantarolava músicas simples em seu ouvido. Seu pai se achava grande demais para segura-lá, tinha medo de machucar um ser tão pequenininho. Nunca eles a deixaram de dar amor, atenção, carinho... Tudo o que a doce menina precisava para se crescer bem. No entanto, não era raro presenciar crises de febre, ou algum pequeno resfriado que a fazia ficar doente. Mas a menina nunca se entregou, nunca mais fechou os olhos a não ser para dormir... Isso fez com que surgisse seu nome.
- Jazmin. Forte, pura e bela como uma flor. – Disse sua mãe.
- Como podemos amar tanto uma bambina que acabou de chegar ao mundo? – Perguntou o pai cigano, com lágrimas nos olhos.
Jazmin cresceu livre, difícil de acreditar não? Mas a garotinha de cabelos negros e olhos azuis como o céu, realmente corria pela aldeia, tomava banho no pequeno lago e brincava no campo esverdeado. Isso até os seus seis anos...
- FUJAM! ELES ESTÃO INVADINDO!
Gritos eram ouvidos por toda a aldeia, e despertou a atenção dos pais de Jazmin que correram para segurá-la.
- O que vamos fazer? – Perguntou a mulher, já vendo a primeira cabana ser incendiada mais a frente.
- Mamãe... Nós vamos morrer? – A pequena Jazmin de seis anos segurava nas vestes da mãe, e após essa pergunta, seu pai lhe cobriu com um pano quente, dando um doce beijo em sua testa.
- Nada vai acontecer com você...
Nesse momento, a cabana foi abaixo, fazendo os ciganos fugirem pela outra porta. De longe, os olhos azuis da pequena Jazmin foram incendiados pela visão de sua casa queimando... Ela os fechou, segurando fortemente em sua mãe.
- Calma querida, vai ficar tudo bem.
Seu pai afastou-se, mas antes que pudesse fazer alguma coisa um cavalo atravessou em sua frente. Joselo os encarou preocupado, depositando os olhos na mulher cigana e na pequena garotinha em seu colo.
- Irmão! – Joselo o chamou, fazendo o pai de Jazmin ir até a esposa. – Eles estão atrás das mulheres...
Era como tomar a decisão mais longa de sua vida, a mais difícil. O cigano olhou para a esposa, para sua filha que jurou proteger, e assim, engoliu as lágrimas. Caminhou lentamente até elas, enquanto o cavalo mais atrás, galopava para a frente e para trás... Incomodado com o calor da fumaça.
- Nem pense! – A cigana prendeu Jazmin ainda mais em seus braços, enquanto o pai da pequena depositou a mão no braço da esposa.
- Eles vão pegá-la...
- Mas é a minha pequena... A minha garotinha... – A cigana chorou com Jazmin em seu colo, tirando o lanço vermelho da cabeça e limpando as lágrimas. – É a minha filha...
- E sempre vai ser...
A cigana lentamente, desprendeu os braços, fazendo seu tentar pegar Jazmin. A garotinha, pelo contrário do que se poderia imaginar, segurou-se nos braços de sua mãe, puxando-a com força.
- MAMÃE! POR FAVOR, NÃO ME DEIXE!
- Eu te amo...
A mãe a soltou de si, fazendo Jazmin levar sua pulseira junto. A garotinha foi colocada no cavalo com Joselo, enquanto seu pai a fitou com lágrimas nos olhos.
- Cuide dela.
- Não se preocupe...
- CIGANOS! ELES ESTÃO ALI! NÃO DEIXEM QUE FUJAM!
Joselo ouviu aquelas vozes de forma pavorosa, fazendo o pai da pequena Jazmin dar um tapa na traseira do cavalo.
- VÃO! – Gritou o cigano.
- NÃO! MAMÃE... PAPAI!
Ele e sua esposa, só viram o cavalo desaparecer pela nuvem de fumaça levando a vida deles juntos. A pequena Jazmin, apesar de chorar com todas as suas forças, não conseguiu vê-los novamente, nunca mais. Não posso contar aqui o que de fato aconteceu com eles sem nenhuma sombra de dúvidas, impossível. Mas posso lhes dizer que nada poderia evitar aquele amargo destino no qual foram submetidos... Pelo o que consta na história da aldeia... Ninguém que resistiu sobreviveu. Mas, curiosos, qual cigano tem alma fraca? Qual se entrega facilmente? ... Há muito o que pensar, o que questionar, porém o que mais importava, era a pequena garotinha que foi levada para longe de seus pais pelo homem que jurou protegê-la... A partir daquele momento, Joselo seria sua proteção e sua única família.
...
3 de Outubro de 1932
O barulho das granadas explodindo o despertaram de seus pesadelos. Acordou, de certa forma, para um pesadelo pior do que estava vivendo dentro de si. Segurou a arma – já engatilhada ao seu lado – com força, enquanto o único companheiro que lhe restava acabava de ser morto. Com dezessete anos, fazia quase um ano que Bernardo estava na guerra, um ano que não dormia direito, que não ouvia outro som a não ser de gritos e explosões. Pensou que se sobrevivesse, talvez ficasse louco, mas isso era antes de se tornar quem se tornou. Afinal, na pequena parte da história que agora vou contar de sua vida, Bernardo Guilertina não passava de um adolescente.
O louro não tinha medo, conhecia seu inimigo, já o havia estudado, e não importava o que acontecesse, jamais iria se entregar. Olhou para o lado de fora, havia quase um batalhão de trinta homens lá fora, esperando encontrar algum sobrevivente para conseguir informações, quem sabe do que mais precisariam...
Ele andou agachado e em silêncio, aprendera a caminhar sem fazer qualquer ruído. Seus olhos azuis encararam as granadas ainda intactas em cima da mesa de madeira... Precisava delas. O louro passou pela janela no momento exato em que o comandante das tropas inimigas virou-se, o que fez com que ele segurasse as duas granadas com as mãos, deixando a arma pendurada em seu ombro.
Em silêncio apareceu na frente deles, fazendo todos apontarem suas armas para o louro que tinha um sorriso indescritível nos lábios machucados.
As granadas rolaram no chão até o pé dos militares, e a falta de luz pela escuridão dificultou a visão para ambos verem o que era... Suas pupilas se dilataram, e antes que pudesse dar um único tiro, Bernardo correu, e ambas as granadas explodiram. A casa desabou, por cima dos militares e por cima de Bernardo... É claro que a ideia mais próxima que passou em sua mente, foi que se Bernardo Guilertina fosse morrer, levaria todos os inimigos com ele.
Mas isso não aconteceu... Afinal, do contrário, não existiria essa história.
Os pedaços de madeira se mexeram lentamente. Passaram-se alguns segundos até elas se erguerem e caírem para os lados quando resurgiu um homem de seus restos. Segurou a arma com força e saiu daquele deserto, caminhando por três dias inteiros.
- Seja forte, Bernardo. Continue. O mundo é cruel com quem desiste! Ande! Levante! Não seja fraco! Você é um Guilertina! Um sangue poderoso corre em suas veias.
Bernardo acordou perto de uma cidade após o terceiro dia. Andou quilômetros até avistar algum camburão... Não o certo. Tentou se esconder, e até conseguiu, mas suas forças acabaram antes de conseguir se defender. Seu corpo parecia podre por dentro, ele mal conseguia se manter em pé, ainda sim, não desistira em nenhum momento. A voz grossa de seu pai invadia a sua cabeça toda a vez que ele pensava em se entregar... Pois apesar de tudo o que aconteceu, queria que seu pai sentisse orgulho do que ele se tornara.
- ACORDE! PRECISA FICAR ACORDADO!
Um soco foi dado em direção ao rosto de um garoto de dezessete anos, o fazendo abrir os olhos, confuso. Sua vista ainda estava embaçada, embora após ela ficar nítida e ver onde estava se deu conta do que estava prestes a acontecer.
- Não é todo o dia que tenho como meu prisioneiro Bernardo Guilertina. O filho do Marechal... – O homem de dentes tortos sorriu, dando outro soco na cara de Bernardo.
O louro cuspiu sangue.
- Acho que vou precisar de algumas informações suas. – Disse o general, indiferente.
- Não vou dizer nada...
O general sorriu, aproximando-se do garoto.
- Eu duvido... – Sussurrou.
- Eu sou um Guilertina seu filho da puta, nunca duvide! – O louro cuspiu o próprio sangue no rosto do general, o fazendo se afastar. – Pode me matar se quiser, mas não falo nada.
O general respirou fundo, chamando alguns homens.
- FAÇAM-NO FALAR!
O general gritou enquanto Bernardo apenas vira sua visão escurecendo a cada golpe.
Sua pele sentiu a dor da água fria com a quente, seus músculos sentiram a dor dos choques, alguns ossos de seu rosto foram quebrados, e torturas físicas foram feitas, talvez inimagináveis para qualquer um. Em todos os dois dias que passou lá, não disse uma única palavra.
Só quando estava perto da morte, foi que uma pequena luz se acendeu. Ele foi solto após uma operação de resgate, mas ainda sim, teve forças para levantar-se, e dar o tiro que matou o general das linhas inimigas. A guerra havia acabado.
Após um tempo... Quando voltou para seu país... Podia ouvir os gritos das pessoas chamando seu nome... O aplaudindo... O transformando...
Tantas coisas iriam mudar... Tantos sentimentos iriam sumir e tantas escolhas seriam feitas... Só assim, mais tarde, Bernardo nasceu novamente. De natureza Fria, cruel, um homem incrível, um líder, uma lenda... O homem mais poderoso do país.
...
O Adeus chega fúnebre, salgado. Nunca estamos preparados para abandonar quem amamos... A morte chega lenta, dolorosa, imprevisível... Os olhos são fechados. Tudo o que poderia se ver, já foi visto. Todas as palavras que poderiam ser ditas, foram ditas. Os sentimentos se separam... Não há mais lembranças sem lágrimas.
O aparelho parou... Apitou sem parar, fazendo os médicos correrem até a sala. Os choros do lado de fora do vidro não podiam ser evitados, e isso era o que mais doía.
Um, dois, três, quatro, cinco choques. Os médicos não queriam desistir. Seu corpo já não apresentava qualquer tipo de reação... E o tubo que saia de sua boca nem se quer mais recebia oxigênio.
O Adeus deixa o coração de muitos machucado, se perde na escuridão e depois volta fazendo parte de um passado ora lembrado, ora esquecido. Quando as palavras finalmente são ditas, é tarde demais para se ouvir. Quando os sentimentos são revelados, é tarde demais para sentir. Até que ponto chega o sofrimento?
O lençol branco foi colocado em seu rosto, delicadamente, o os médicos desistiram após mais alguns minutos. Camila e Sandra, do outro lado do vidro, choravam pela morte de Ana. Tinham todas as esperanças... Todas as orações foram pronunciadas e toda a fé foi colocada em cima dela... Como isso pode acontecer? Ana está morta!
Porém, chega o momento de aceitar o Adeus... Mesmo que dolorido, sofrido, e até insuportável. Há caminhos que temos que tomar, alguns cedo, outros mais tarde... Essa é a única certeza que temos. O coração dói? Passa longe... Se desfaz em mil pedaços. Quem viveu sabe o que se sente. A morte chega sempre cruel e imperceptível, pois até a mais critica situação há sempre uma esperança depositada... Há sempre orações mesmo de quem não tem fé... Há sempre palavras mesmo quando ninguém pode ouvir. Sim, o tempo passa, a dor passa. Então lembre, sinta, caia, chore, levante, sorria e seja forte... Agora está tudo bem... Estamos todos bem.
...
Seus olhos azuis se abriram, finalmente. Olhos que Jazmin pensava nunca os enxergar novamente. Bernardo encarou Jazmin deitada com a cabeça apoiada na maca onde ele estava... Seus olhos estavam inchados, transmitindo dor mesmo quando fechados. A dor em sua barriga era forte, o que o fez dar um gemido de dor alto quando tentou se levantar.
- Bernardo!
A cigana levantou a cabeça, seus olhos brilharam, e ela segurou as mãos fortemente. O louro sorriu, acariciando seu rosto, e limpando uma lágrima que caíra do canto de seus olhos.
- Pensei que nunca mais o veria...
Jazmin segurou seu rosto, beijando os lábios de Bernardo como se a qualquer momento tudo mudasse. O beijo foi calmo, delicado, o que ate a fez esquecer da dor que estava sentindo no coração.
Quando parou o beijo, fitou os olhos de Bernardo tristemente... Em silêncio. Jazmin voltou a chorar em seu colo, e por um momento Bernardo não compreendia... Ele já estava bem, não é mesmo?
- Meu amor... – Bernardo sussurrou, levantando seu rosto.
Sem imaginar tal reação, Jazmin o abraçou, fazendo Bernardo a entrelaçar em seus braços lentamente... Onde esse gesto, o fez enxergar o lado de fora. Camila e Sandra também choravam, abraçadas.
O coração de Bernardo disparou. Ele conhecia aquele olhar... Conhecia aquele toque aflito... Conhecia aquele abraço como se tudo fosse ficar bem. Foi então que ele entendeu. Sua melhor amiga... Sua irmã... Tudo pareceu rodar em sua cabeça. Gritou, não queria acreditar. Até que suas reações se dissiparam e ele apenas sentir o abraço longo e carinhoso de Jazmin. Bernardo não derramou lágrimas, mas dormira nos braços da cigana chorando por dentro.
...
2 meses depois...
A cadeira rodou pela terceira vez. O rádio estava fraco, mas ele conseguia escutar as noticias que vinham de fora. Como era sexta-feira, dispensou todos os seus empregados, iria fazer algo diferente. Levantou-se belo como sempre, ajeitou a gola do casaco de couro e olhou profundamente pra dentro de seus próprios olhos.
“Amanhã é o grande dia para os defensores do país (...) Tropas já foram enviadas (...) A segunda guerra está afetando toda a Europa(...)”
Bernardo desligou o rádio, onde no mesmo instante, uma garota morena de olhos azuis entrou na sala. O louro percorreu seu corpo com os olhos, já que Jazmin estava linda em baixo do vestido vermelho que ele mesmo comprara.
- Chegou essa carta...
Antes que Jazmin pudesse acabar a frase, Bernardo segurou sua cintura, beijando seu pescoço e logo após seus lábios. A morena retribuiu, deslizando lentamente a mão sobre sua nuca.
- É incrível acreditar que estamos juntos há dois meses. – Comentou Bernardo com um leve sorriso maroto. – Agora pode me falar o que diz a carta...
A cigana sorriu, sentando naturalmente na mesa enquanto Bernardo ficara no meio de suas pernas, escutando o que a morena pronunciara.
“ Faz um mês que fui embora e já estou morrendo de saudades. A minha vida aqui é ótima junto com Sandra que me trata como uma filha e é claro, com Alexandre. Espero que estejam bem e que sejam muito felizes juntos como nós estamos sendo. Temos que nos ver logo para colocarmos as novidades em dia, e para vocês serem os padrinhos de meu filho. Sim amiga! Estou grávida de quase um mês! Estamos muito felizes, mas há uma briguinha básica sobre o nome... Mas sabe que no final é sempre a mamãe que escolhe, não é mesmo? E adivinha? Se for menina vai ser Jazmin...
Escreva-me sempre que puder, e diga para o Bernardo cuidar bem de você... Se não ele morre... Mas, enfim, tenho que acabar a carta já que o Alexandre está me chamando lá em baixo. Ele também manda lembranças, assim como a Sandra. Até mais... Te amo amiga.”
Jazmin acabou de ler dando um leve suspiro. Bernardo deu leves gargalhadas com a carta, porém voltou a ser sério quando a cigana fitou seu olhar.
- O que foi? – Perguntou Bernardo.
- Queria te agradecer... – Jazmin sorriu torto. – Me salvou de todas as formas possíveis.
Bernardo deslizou sua mão até o pescoço de Jazmin, a puxando para si. O louro beijou seu pescoço, a fazendo se arrepiar, subindo até atingir sua orelha.
- E salvaria mais mil vezes... – Bernardo olhou em seus olhos, transmitindo uma verdade para Jazmin que ela jamais sentiu. – Mas sabe, pequena, você também me salvou cigana. Sempre foi a única que acreditava que eu tinha um coração... E isso fez com que ele batesse novamente. É a única garota para quem eu entregaria meu coração, por quem eu morreria e por quem eu enfrentaria tudo nesse mundo. O que eu fiz por você, não se compara ao que fez por mim. – Jazmin chorava, e a cada palavra Bernardo sentira seu coração batendo mais e mais. — Você é que é a razão de eu estar vivo, e apenas por você vou continuar vivendo... Nunca se esqueça disso.
Bernardo a abraçou com força, a tomando para si. Seus corpos se tornaram um, seus sentimentos se tornaram um, e seus corações de tornaram um. A partir daquele momento Jazmin teve certeza que ele sempre seria dela, e que ela sempre seria dele. Mesmo que o para sempre não exista, o amor deles duraria o suficiente para serem felizes juntos.
- Vem... – Bernardo se afastou de Jazmin e foi em direção a porta, estendendo a mão. – Quero te levar para um lugar especial...
A cigana sorriu, segurando sua mão fazendo o louro entrelaçar seus dedos. Jazmin corou. Bernardo colocou o casaco no corpo da cigana antes de saírem, estava frio... Mesmo o sol batendo, já estava caindo à tarde...
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