Cigana De Luxo!

26 Somente por você


Notas iniciais
Espero que gostem : )

O barulho do relógio já estava se tornando irritante, nostálgico. Seus dedos finos batiam lentamente na mesa transmitindo um som desagradável. Os poucos minutos pareciam horas para Ana, ainda mais quando a mesma disse ao amigo para ir falar com sua pequena e preciosa cigana. É claro que ela pensava que daqui a poucos minutos a porta se abriria e dali surgiriam Jazmin e Bernardo abraçados e de certa forma sorrindo. Mais cinco minutos se passaram, e sim, a porta se abriu como Ana pensara, mas a cigana adentrou por ela bufando, irritada, correndo em direção as escadas.

– Não vou nem perguntar. – Ana sussurrou.

Outro barulho e surgiu Bernardo, com um pequeno sorriso maroto nos lábios. Sentou-se no sofá e deslizou a mão esquerda sobre o queixo.

Ana girou os calcanhares, fitando a face de Bernardo com dúvidas, fazendo o homem lhe lançar um olhar descontraído.

– Deu tudo certo.

– Há claro! – Exclamou Ana. – E ela teve escolha não é mesmo?

– Eu disse que deu tudo certo, nós vamos sair... – Sorriu. – Mas não que ela teve alguma escolha.

Ana deslizou a mão sobre o cabelo louro de Bernardo o puxando levemente.

– Você é muito mau. Ela te perdoou?

– Ainda não...

– Então Bernardo Guilhertina não consegue tudo! – Debochou Ana recebendo um olhar seco de Bernardo.

– Tempo Ana... Eu só preciso de tempo.


...


A porta se bateu pela segunda vez, ela queria fazer questão que todos da casa escutassem. Chutou algumas coisas pelo caminho e sentou na cama emburrada, com os braços cruzados.

– Você vai e pronto... – Debochou Jazmin imitando a voz grossa de Bernardo. – Quem ele pensa que é? ARGH! Odeio ele odeio!

Procurou alguma coisa sobre a cômoda que pudesse rasgar, achando um livro velho de capa mole que já estava a mais de um mês sem que ela tocasse. Leu as primeiras páginas e já o denominou como o livro mais chato que lera na vida. O folhou com um olhar calmo, e sem pensar muito, o rasgou com toda a raiva que possuía. Sim, o livro se dissolveu a pequenos e minúsculos pedaços de papel velho.

“ — Eu sinto você distante pequena... Por que está tão triste? – Sussurrou Bernardo.

Jazmin afastou rapidamente, evitando olhar em seus olhos.

– Não estou distante, apenas magoada.

Um silêncio instável tomou aquele lugar. Na verdade, Jazmin queria xingá-lo se todas as formas possíveis, mas alguma coisa a prendia em seu próprio ser. Muito talvez, pelo medo de falar mais do que deve.

– Se tornou rotina... – Disse Bernardo, fazenda os olhos de Jazmin se cruzarem com os seus. – Eu te machucar.

– Não precisa fingir que se importa. Eu não sou tão fraca quanto pensa!

– Eu sei que não é. Por isso não ouso mentir pra você...”

Dos olhos de Jazmin caiam lágrimas silenciosas, lágrimas quase petrificadas por seus sentimentos confusos e feridos. Abraçou os joelhos contra o peito e limpou as lágrimas como pode, debruçando a cabeça sobre o mesmo.

“- Eu tinha decidido seguir em frente ai você chegou... Eu já tinha aceitado, sabe?

– Ir embora não foi uma opção minha cigana. Eu precisava...

– Precisava o que? Ficar longe de mim? Precisava se afastar por medo de alguém estar finalmente amando você?

Aquelas palavras atingiram Bernardo como um tiro direto no coração. Ele palpitou, quase saiu pela boca. O louro aproximou-se de Jazmin, segurando suas duas mãos com força.

– Não precisa mais pensar no passado, eu estou aqui agora, não estou? – Sorriu. – Além disso, eu tenho certeza que vai aceitar meu convite para um jantar essa noite.

– Não! – Exclamou Jazmin, virando de costas e saindo, o que fez Bernardo a seguir.

– Como assim “não”?

Jazmin se virou novamente com uma expressão raivosa.

– N-Ã-O! NÃO! Eu não vou sair com você! É o meu aniversário e eu que decido...

Antes de sair novamente à cigana pegou seu uso que estava na sacola e saiu abraçada nele. Bernardo gargalhou com aquela situação, mas antes que ela pudesse entrar ele a puxou.

– Você vai ir e acabou. Vou deixar seu vestido em cima da cama... Se não estiver pronta até às oito horas você vai como estiver vestida.

Bernardo a fitou dos pés a cabeça, fazendo a cigana bufar de raiva e entrar na casa correndo.”

Jazmin se levantou e pegou uma das tolhas que estavam no guarda-roupa, seguindo para o banheiro. A coisa que mais queria era tomar um banho delicioso e bem quente antes de passar por toda a “tormenta” que Bernardo a “convidara”.

Deixou a água cair por todo seu corpo e relaxou por alguns minutos, lembrou-se de palavras sem importância, de gestos discretos e de olhares significativos. Ainda não acreditava em tudo o que passou desde que foi obrigada a abandonar sua vida cigana, não acreditava que se apaixonou justamente pela pessoa que tanto a fez sofrer. Na verdade, eram tantas coisas passadas e futuras incertas que ficava difícil decidir o que realmente era real naquela história toda. Cada dia era uma surpresa.

Desligou o chuveiro após um bom banho e enrolou-se na toalha após enxugar um pouco os cabelos. Seus pensamentos estavam flutuando e com isso surgiriam sorrisos bobos. Até que, sem nenhum aviso, Jazmin deu de cara com o inconveniente.

– Hum! Que delicia!

A cigana deu um pulo de susto, o que fez Bernardo gargalhar mas não tirar os olhos dela. Jazmin o fitou séria.

– O que quer aqui?

– Você!

Bernardo puxou sua toalha fazendo Jazmin tentar cobrir o corpo com as mãos.

– Como se fosse uma novidade pra mim.

O louro aproximou-se fazendo Jazmin recuar até bater as costas na parede fria. Suas mãos atingiram o peito de Bernardo, tentando inutilmente o manter afastado. Ele segurou seus pulsos, prensando seu corpo na parede e aproximando os lábios de sua orelha.

– Te quero cigana.

Bernardo olhou em seus olhos azuis e a beijou com anseio, com força, com paixão... Onde cada parte de seu corpo era explorado com volúpia.

Entregou-se. A camiseta de Bernardo se abriu enquanto ele levara a mão até sua feminilidade. Ela gemeu baixo o fazendo prensar seus lábios novamente para um beijo. Jazmin sentira seus toques, cravando as unhas nas costas de Bernardo.

Sorriu. Ele não sentia dor e nem nada distante do prazer. Beijava o pescoço de Jazmin enquanto ela gemia ofegante em seu ouvido. Desejava mais do que tudo o corpo daquela cigana e nada poderia Pará-lo. Nada...

Exceto, talvez, o inconveniente.

– CIGANA! CIGANA VOCÊ TA AI?

Era a voz de Camila. Os olhos de Bernardo quase chegaram a explodir de ódio, mas não ficou incontrolável como Jazmin pensava, apenas deu um suspiro decepcionante enquanto Jazmin se afastava de Bernardo, colocando a toalha sobre o corpo.

– Vai me deixar assim? – Perguntou Bernardo.

– Assim como? – Jazmin o fitou confusa, fazendo Bernardo girar os olhos.

– O vestido está em cima da cama.

Bernardo passou na frente de Jazmin colocando a camiseta e abrindo a porta, lançando um olhar seco e intimidador para Camila. A garota se encolheu, não queria ser inconveniente, mas como iria saber?

Bastou apenas avistar Bernardo sumindo pelo corredor que entrou de forma desesperada no quarto.

– MERLIM! O QUE ACONTECEU?

Camila gritara fazendo Jazmin tampar sua boca fazendo sinal para ela falar mais baixo.

– Hãm... Não aconteceu nada... Ora!

– Tá bom, como se você me enganasse com essa carinha de santa! – Camila sentou-se no pé da cama enquanto Jazmin se vestia. – E ainda estava nua! Eu atrapalhei um momento bem quente, não é mesmo?

A cigana não respondeu, apenas deu um sorriso no canto dos lábios, fazendo Camila jogar um travesseiro em seu rosto.

– Está toda boba!

As duas gargalharam, e quando Jazmin simplesmente ficou séria, Camila teve que perguntar algo mais do que óbvio. Embora mesmo assim, muitos dos sentimentos ciganos são exaltados. Veja nas histórias... Nunca irá encontrar um cigano que ame um pouco, que deseje um pouco ou que odeie um pouco. Eles são sedutores, fortes... Se eles amam, amam com todo o coração, e se odeiam, odeiam com todas as forças possíveis. Por isso que dizem que ciganos são indomáveis.

– Amiga... Você se apaixonou por ele, não é? – Perguntou Camila, fazendo Jazmin fitá-la discretamente. – Não precisa responder... Eu já vejo isso em seus olhos.

E ela não respondeu. Na verdade nenhuma das duas disse absolutamente nada. Ficaram em um silêncio calmo e restrito, coberto de pensamentos e sentimentos.

...


A lua cheia dominou o céu em uma noite estrelada, algo raro de ser ver por aquela região. Nas ruas se podiam ver os mercados e lojas serem fechadas, e normalmente se veria a boate Garotas Martinez aberta, mas não era o caso de hoje à noite. Alguns homens se surpreenderam que em uma noite de quinta-feira a casa está fechada, mas logo um boato interessante se espalhou. Um boato ainda mais radical que aquilo.

Não era todos os dias que se via Jazmin com um sorriso nos lábios para se vestir como Bernardo queria. Mais o vestido foi algo diferente do que ela imaginava, e a agradou de certa forma. A parte da cintura até o busto tomara que caia era justa ao corpo, e do quadril até os pés era armado e extremamente belo. Possuía alguns brilhos sobre ele enquanto a cor não deixava enganar que era uma de suas favoritas.

“Ainda não consigo esquecer o seu primeiro vestido.”

Escreveu Bernardo. E sim era Branco.

Jazmin segurou-o com empolgação e o juntou ao corpo, sorriu. Em menos de cinco minutos o vestido já estava em seu corpo vestindo perfeitamente, na medida certa.

Prendeu os longos cabelos em um coque trabalhado, deixando mechas finais delinearem o delicado rosto da jovem. Não demorou para Camila adentrar de roupão completamente empolgada pela porta.

– UAU! – Berrou Camila. – Você está linda amiga!

Jazmin sorriu enquanto Camila a analisava mais de perto.

– Mas não vai sair sem nenhuma maquiagem não é?2

– Maquiagem? Não... Não sei... Não gosto muito dessas coisas e...

Camila a puxou para cima da cama antes de Jazmin terminar de falar já abrindo uma enorme maleta com todos os tipos de maquiagem embutida nela. Espelhos saltavam para fora, enquanto batons vinham pendurados nos mais inusitados lugares. Os lábios da cigana se abriram de forma apavorada.

– Minha deusa!

– Fica quieta e me deixa fazer o mesmo trabalho! – Sorriu Camila.

Os olhos azuis da cigana foram delineados com lápis preto, deixando-os ainda mais destacados, junto a uma sombra prateada leve. Já seus lábios foi impossível desprezar o batom vermelho, só que desta vez, mais puxado para um rosa, não tão forte. Simples, linda.

– Acabei!

A cigana se olhou no espelho. Estava mais linda do que nunca e isso quase a fez borrar a maquiagem. Camila e levantou-se assim como ela, segurando em suas mãos.

– Me escuta. – Falou olhando em seus olhos. — Hoje é seu aniversário, um dos dias mais especiais de sua vida. Então, faça com que esse dia valha a pena. Tenha uma noite inesquecível ao lado daquele GATO e aproveite muitooooooooooooooo!

As duas sorriram e se abraçaram, fazendo Camila deixar cair algumas lágrimas teimosas. Por fim, o carro buzinou fazendo as duas se separarem e Jazmin descer.

– ESPERA JAZMIN! SEU SAPATO!

– Aé!

A cigana gargalhou. Estava tão nervosa que esquecera até os sapatos? Imagina se só percebesse depois? Que vergonha! – Pensou.

Pensou que encontraria Bernardo ao entrar no carro, mas isso não aconteceu. A única pessoa lá era o motorista, parecia ser sério mas era mais simpático que o imaginado.

– Desculpe, mas Bernardo não vai vir?

– Ele vai encontrar com você lá senhorita. – Disse o motorista. – Pronta pra ir?

– Sim. – Respondeu Jazmin delicadamente.

O carro arrancou, onde a cigana só observou a sombra de Camila espiando pela janela. Sorriu. Decidiu que iria aproveitar, afinal, como Camila dissera, é seu aniversário!

...


Mal se deu conta, mas o carro não estava seguindo para a direção onde normalmente havia os melhores restaurantes da cidade, onde normalmente Bernardo jantaria. Na verdade quando perguntou ao motorista este nem respondeu, tratou de ficar em silêncio. O carro seguia para o outro lado da cidade, para longe da parte que ela conhecia... Achou tudo aquilo muito estranho, desconfiou, mas preferiu não fazer nenhum comentário. A noite estava bonita, e de certa forma não era triste como as outras que havia passado... Isso deixava tudo mais especial. E era apenas por causa dele, Jazmin sabia disso.

Quando o carro parou a cigana não acreditou no que Bernardo a havia metido... Pensou em se esconder, sair de fininho ou pedir, por favor, para que o motorista saísse de lá e fingisse que se perdeu no caminho. Mas era tarde demais, Bernardo já estava esperando o carro do lado de fora.

O louro abriu a porta do carro. Vestido com trajes finos e mais elegante do que nunca, fitou a garota que acabara de sair do carro. Ele se perdeu em meio aqueles olhos e aquele corpo, aquela beleza enigmática e pura o fez dar um sorriso mais do que satisfeito. Ela parecia um anjo, e não seria nada exagerado dizer que todos os olhos estavam nela. Na sua cigana.

– Você me trouxe para uma festa? Por que não disse? – Perguntou a garota nervosa.

– Achei que iria gostar. É bom ser sociável, sabia? – Sorriu, enquanto caminhavam para dentro do salão.

– Está querendo dizer que eu não sou sociável? – Bernardo não respondeu, o que fez Jazmin interpretar como um sim. A garota sorriu debochada. – Vou te mostrar.

– Boa noite Sr Guilertina e senhorita? – Perguntou o homem robusto de sorriso agradável.

– Romero, Jazmin Romero. – Sorriu, estendendo a mão para o senhor que a beijou com enorme gosto.

– Encantado! Me chamo Frederick. – O homem aproximou-se de Jazmin, sussurrando em seu ouvido. – E a propósito... Parabéns!

– Há! Obrigado! – Sorriu.

O homem robusto se afastou saltitante, enquanto Jazmin fitou Bernardo de canto de forma desafiadora, fazendo o homem rir baixo.

– Não caçoe de mim

– Não estou. – Disse Bernardo prendendo o riso.

– Eu estou aprendendo. – Jazmin virou, ficando de frente para o louro. – Devia aprender um pouco de simpatia comigo sabia?

– O que? – Bernardo fechou a cara.

– Viu? Nunca consegue ser engraçado e nem receber elogios. Fica parado, super sério, parecendo um general! – Jazmin bateu continência fazendo Bernardo gargalhar.

– Eu sou um general.

E assim os primeiros minutos de festa foram passando, com Jazmin e Bernardo cumprimentando todos que vinham falar com eles da forma mais simpática possível, o que fez a cigana cansar de mostrar um sorriso. Por fim, conseguiu sentar-se enquanto Bernardo se afastou.

Ela percebeu como todos a olhavam. Aquele salão estava cheio, parecia que toda a cidade estava dentro dele e a analisando. Uns condenando, outros a olhavam admirados, outros de forma indiferente. Aquilo estava se tornando chato de certa forma.

Fitou Bernardo de longe enquanto conversava com um velho senhor, simpático até, falava sobre os anos em que foi casado com a esposa falecida e como era bom quando ela costurava suéter de tricô. Por fim, o louro se aproximou, tirando Jazmin para o meio do salão.

– E eu que pensei que lá na casa as meninas eram loucas, mas aqui... Nossa! – Comentou Jazmin recebendo um silêncio confuso de Bernardo. – Fale sério comigo! O que estamos fazendo aqui? De quem é essa festa?

Bernardo a olhou nos olhos, segurando delicadamente sua mão esquerda, enquanto acariciou seu rosto com a outra.

– É a sua festa!

Jazmin não acreditou... Teve que ouvir mais uma vez... Estava confusa.

– Minha festa? Como assim?

Bernardo deu um passo para trás, onde nesse momento, todos do salão pararam fitando apenas os dois.

– É a sua festa. – Sorriu. – Feliz aniversário Jazmin!

E assim todos bateram palmas inclusive Bernardo.

Por segundos a cigana observou melhor todo o salão decorado com suas cores favoritas, observando as pessoas e vendo Camila se aproximando com Michel, assim como Ana. Todos batiam palmas, todos sorriram em direção a ela. O dia mais desconfortável se tornou um dos dias mais lindos e especiais de toda a sua vida. Bernardo havia feito uma festa de aniversário pra ela! Como não suspeitara? Sua boca se abriu levemente, seus olhos brilhavam, estava sendo difícil acreditar em algo assim.

– E se a senhorita me permitir... Quero lhe convidar para a primeira dança da noite.

Bernardo se curvou, estendendo a mão em direção a ela. Jazmin limpou uma lágrima que escorrera teimosa. Não manchou a maquiagem que Camila tinha feito, mas isso também era o que pouco importava. Como ela estava feliz...

A cigana estendeu a mão, os fazendo caminharem três passos para ficar exatamente no meio do salão. A música começou calma, o que fez seus corpos se juntarem. Ele a guiava em cada passo, enquanto ela deixava ser levada por ele. Todos da festa fitavam admirados aquela cena que parecia ser de um conto de fadas. A princesa e o príncipe.

“Ele fez tudo isso por mim... Apenas por mim... Meu coração está acelerado... Eu estou tão feliz! Mas... Será que ele me ama da mesma maneira que eu o amo?” – Pensou.

A música não parou, eles continuavam dançando e tudo aquilo para Jazmin, parecia um sonho que ela não queria acordar nunca mais.

Bernardo a rodeara enquanto a garota sorria. Não que fosse questão de segundos, pois se eu disser a verdade, milésimos seria muito. Mas mesmo assim com tão pouco tempo, ela tinha certeza dos olhos que vira no meio da multidão de pessoas. Tantos olhares admirados, e apenas um raivoso lhe chamou a atenção. Era ele?

Jazmin tropeçou e quase caiu se não fosse Bernardo a segurar rapidamente. Percebeu suas mãos frias de uma hora pra outra e sua pele arrepiada... Ela tremia. O tropeção se transformou em um passo, pois assim ele beijou seu pescoço e a levantou novamente. Dançaram juntos, um colocado ao corpo de outro. Sentiam a respiração e cada batida do coração... A cigana fechou os olhos.

Bernardo fitou sua nuca discretamente, se afastando um pouco do corpo de Jazmin para o final da música. E sim, aquele momento foi igual a um conto de fadas imperfeito, afinal, era a vida de uma cigana e não de uma princesa.

A luz voltou a clarear todo o salão, mas antes de todos se dissiparem, Bernardo a beijou. Na frente de todos, beijou os lábios da cigana de olhos azuis a fazendo abrir os olhos como se estivesse renascido. Jazmin conseguia sentir a ansiedade nos músculos de Bernardo, e assim, fitou claramente em seus olhos após o beijo. Todos começaram a dançar na próxima música com seus pares, e apenas eles ficaram imóveis, olhando um em direção aos olhos do outro. Bernardo estava sério, e por incrível que pareça, com o mesmo olhar frio de quando a cigana o conhecera. Jazmin não compreendia aqueles olhos... Até que Bernardo a puxou para junto de si, aproximando os lábios de sua orelha.

– Eu vou matá-lo! – Sussurrou.

As pupilas de Jazmin se dilataram, e antes que pudesse se afastar Bernardo a segurou.

– Eu juro pra você... Juro que nunca mais ele vai encostar um dedo em você! Eu juro meu amor...

Bernardo se afastou de Jazmin, caminhando rapidamente de forma séria em direção a parte de trás do salão.

– Bernardo!

A cigana o chamou, mas a frieza ao falar aquelas palavras foi tanta que ela sabia que ele nunca voltaria atrás.

...


– Já o pegamos senhor.

– Comece e na diga nada, eu já estou chegando.

O homem moreno, Filipino, ouviu suas ordens e obedeceu. Desligou o celular, colocou as luvas e entrou na estreita sala. No meio, um homem estava amarrado na cadeira com um saco de pano sobre a cabeça. O homem Filipino lhe tirou, fazendo Gaspar cerrar os olhos pela falta de luz.

– O QUE É ISSO? ONDE EU ESTOU?

Gaspar observou o homem Filipino tirando uma pequena maquina velha de dentro do saco. Colocou sobre a pequena mesa que havia ao lado da cadeira e tirou quatro agulhas de ferro grosso.

– Acho que você mexeu com a pessoa errada, amigo. – Sorriu. – Na verdade, com a pior delas.

O homem lhe mostrou as agulhas, segurando a mão de Gaspar com força.

– NÃO! ESPERE! QUEM É VOCÊ? NÃO!

A primeira agulha perfurou a ponta do dedo de Gaspar para dentro, fazendo o homem gritar com toda a força de seus pulmões.

– Sabia que essa é a pior dor que o homem pode suportar? Estranho não é? Justamente na ponta dos dedos!

A segunda agulha lhe perfurou o outro dedo ainda mais fazendo seus músculos agirem involuntariamente. Gritou de dor.

– Hei! Só não desmaia! – O Filipino cutucou Gaspar.

– DROGA! SEU FILHO DA PUTA! – Gaspar cuspiu em seu rosto fazendo o homem limpar com um pano velho e empurrar para dentro de sua boca.

A terceira agulha perfurou o dedo indicador da outra mão, fazendo o grito de Gaspar sair grosso, abafado pelo pano em sua boca.

A quarta agulha veio logo depois, sem espera e sem palavras, apenas com gritos impossíveis de se ouvir em um lugar tão afastado.

– Sabe o que é mais engraçado nisso tudo? É que isso não é o pior!

O homem Filipino prendeu um fio de cobre sobre as agulhas e enrolou em um pino da maquina, enquanto Gaspar quase espumava pela boca de tanta dor. Fitou a ação do homem com ódio e medo, onde apenas um gesto com o dedo o fez experimentar a pior dor de sua vida. Uma onda de choque percorreu todo seu corpo. Desde a ponta de seus dedos até sua cabeça.

Quando Bernardo desceu do carro já havia se passado quinze minutos. O louro entrou no galpão abandonado, no meio da floresta, longe de tudo e de todos. Indo em direção a pequena porta, a abriu, fazendo o filipino desligar a corrente elétrica. Gaspar ficou inconsciente, enquanto Bernardo se aproximou, olhando em seu rosto. Em menos de dez segundos Gaspar abriu os olhos, encarando o olhar frio e impiedoso de Bernardo.

– Você... – Sussurrou Gaspar.

– O que disse? – Bernardo lhe socou o rosto com força. – Achou que eu não saberia? Achou que eu não encontraria você?

Bernardo lhe puxou o cabelo para trás, fazendo um corte exatamente na marca de bala que havia em seu rosto. Gaspar gritou, abaixando o rosto. Logo aquilo pareceu invadir a cabeça de Bernardo, aquela voz irritante, aquela risada da boca que saia justamente de quem já era para estar morto. Bernardo cerrou os dentes de raiva.

– Ela também te contou quando eu a penetrei com a mão? – Sorriu, encarando Bernardo. – Aquela vadia gritava pra mim parar! E quer saber? Acho que ela estava gostando!

O sangue de Bernardo ferveu, seus olhos se cerraram e seus músculos se contraíram. Ele sacou o revólver, atingindo o rosto de Gaspar várias vezes com o mesmo. Bernardo respirava de raiva, onde por fim, pressionou o revólver na cabeça de Gaspar.

– Você vai gritar, vai implorar pra mim o matar... Vai sofrer tanto que vai se afogar no próprio sangue... E isso é uma promessa, Gaspar.

Bernardo saiu pela porta enquanto o Filipino entrara. Os gritos de Gaspar não pararam o que fez Bernardo sentar-se no fundo da cabana e deslizar a mão sobre o cabelo.

– Vou matá-lo seu maldito! – Disse para si mesmo.

Após uma hora, seria fraco dizer que Gaspar estava irreconhecível. Afogava no próprio sangue como Bernardo prometera. Tossia, sofria a cada segundo. Era incrível como aquele homem na morrera de dor. Porém Bernardo aprendera tudo isso muito jovem, sabia o que fazer e como fazer para os homens sofrerem até o último segundo. Quando lutou na guerra foi assim. Os soldados usavam imensas formas de tortura para que revelassem o esconderijo do inimigo.

Bernardo entrou pela porta mais uma vez, agora levando a arma para o rosto deformado de Gaspar. Lentamente, o homem levantou a cabeça,

– Me mate! Por favor, me mate! – Suplicou Gaspar.

A arma estava pronta, seu corpo estava reagindo exatamente como ele queria, mas algo mais do que inevitável invadiu sua mente. Lembranças que nem ele, Bernardo, sabia que possuía.

“– Por que está tão feliz?

– Você me chamou de Jazmim!”


Bernardo balançou a cabeça, segurando a arma mais firme.


“– Por que choras?

Jazmim ergueu os olhos azuis, ainda mais brilhantes pelas lágrimas tristes.

– Não o mate.”


Bernardo respirou fundo. DROGA! POR QUE ESSES PENSAMENTOS TEM QUE SURGIR JUSTO AGORA? – Gritou em seu pensamento.


"- Se fizer isso, irá destruir a sua alma com o peso de uma morte, e não vale a pena."


"- por que não quer que eu o mate? Como pode me pedir isso?

– Não é por ele, Bernardo, é por você..."


O louro pressionou a arma mais forte em direção a cabeça de Gaspar, fazendo-o respirar fundo.


“– Nunca mais irei machucá-la.

– Promete? – Jazmim se deitou em seu colo, olhando nos olhos frios e verdadeiros de Bernardo.


– Eu prometo.”


Bernardo abriu os olhos, encarou o homem com ódio... Onde as duas balas vingativas sairam da arma com toda a força. O barulho quase explodiu seu ouvido, mas o gosto de sangue que espirrara em si foi quase como provar a vingança em um prato frio e cru. Afastou-se, respirou fundo... Havia sangue em suas mãos.



Notas finais
Aqui está algumas pequenas falas do próximo capítulo...
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Próximo capítulo:
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ódio...
- Eu não quero saber o que ele fez...
- JAZMIN VOLTE!
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Traição...
- Gostou dela Bernardo?
- Preciso esquecer uma pessoa.
- Por que?
- Percebi que nunca vou poder fazê-la feliz.
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- Eu o vi... Ele saiu com outra na minha frente.
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Tristeza...
- E TUDO O QUE PASSAMOS? E O ACIDENTE, A DANÇA, AS LÁGRIMAS? VAI ME DIZER QUE NÃO SENTIA NADA POR MIM?
- Eu não... Não sinto nada por você.
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- Bem-vinda de volta senhora... Rebeca!