Ciel Bleu
4 Cheryl e seu Snoopy
Jake
– Olá Jake. E você deve ser... – Começou minha mãe – Cheryl. – Adiantei. Eu tinha medo de que Cheryl dissesse algo que desagradasse minha mãe. Minha mãe é o tipo de pessoa que odiaria Cheryl. E a recíproca seria verdadeira. Quando eu era pequeno, ela fez o possível e o impossível para me por na linha. Mas não conseguiu. Hoje ela nem se lamentava, apenas aceitava o que eu me tornei. – Muito prazer. – Apresentou-se Cheryl, sorrindo. Ela estava até conseguindo ser simpática. Mamãe estreitou os olhos. Eu estava rezando para que ela não lembrasse de Cheryl. – Cadê o espumante? – Perguntou mamãe. Peguei a garrafa e servi. – Obrigada. – Mamãe... Tem uma coisa que eu queria te dizer. – Sim? – Perguntou ela, acendendo um cigarro. – Bem, eu e Cheryl estamos juntos... – Disse, com cuidado. – Notei. – E... Bem, ela está grávida. – Mamãe passou um longo tempo encarando Cheryl. Então eu jurei ver uma chama se acendendo em sua mente. – Essa é a garota de uns anos atrás. – Concluiu ela. – Er... Sim. – Jake, tem certeza que é bom ter um filho com uma... Hm... Prostituta? – Mamãe, ela largou o passado. – Acalmei. Cheryl começava a se inquietar. – Como vou saber? – Está duvidando de mim? – Perguntou Cheryl, com a voz um pouco alterada – Sim. Quem garante que Jake não vai ser traído? – Mamãe ergueu uma sobrancelha. Então Cheryl ficou vermelha de raiva, pegou um prato, e o jogou em mamãe. Errou por milímetros. – Eu garanto! E você não vai duvidar disso! – Você não vai chegar perto do meu filho! Saia dessa casa! Saia agora! É uma péssima ideia ter um filho com uma ex-prostituta, Jacob! Saia daqui, Cheryl! Então Cheryl levantou-se da mesa e se trancou no quarto. – Mamãe... – Jacob, não me diga que vai ficar do lado dessa vadia! – Mamãe. É Jake. E sim, eu vou ficar do lado dela. Por favor, saia. – Jacob... – Mamãe, peça uma chave à Samwell. E é Jake. Mamãe saiu de casa e se dirigiu à portaria. Bati na porta do quarto. – Vai embora. – Mandou Cherry, chorando. – Não. Cherry, abra a porta. – Pedi. Após alguns minutos, ouvi o estalo do trinco. Girei a maçaneta. Cheryl estava chorando, agarrada com um Snoopy de pelúcia. – Cheryl. Olhe para mim. – Eu não quero. – Disse ela, afundando a cara no Snoopy. – Cheryl, meu amor. Você é uma ex-prostituta, eu sou um ex-alcoolatra. Nós somos feitos de passado. Não tenha vergonha dele. Se é "ex", é porque ficou para trás. Agora, olhe para mim. Você realmente pensa que eu te acho algo menos que perfeita? – Você é um cafajeste lindo, sabia? Cheryl deitou-se ao meu lado, e dormiu. Então o telefone tocou na sala. Fui atender. Era bem perigoso para um semideus falar ao telefone, porém eu nem me importava. A maioria dos monstros morreria se chegasse perto. Principalmente de Cheryl e do bebê. Atendi. – Olá, quem fala? – Perguntou uma mulher do outro lado da linha. – Jake. – Ah sim, será que Celine se encontra? – Quem gostaria? – Perguntei, desconfiado. Os paparazzi nunca chegavam ao ponto de ligar para minha casa a procurando. – Ah sim, somos da direção de Outer Ring, o filme que Belle veio fazer, e estávamos procurando Celine para completar a equipe, já que a atriz escolhida teve problemas... Será que Celine poderia? – Ela não está aqui mais. Chame na casa dela. – Obrigada. – A mulher agradeceu, e desligou. Mandei uma mensagem de texto para Celine, perguntando sobre o filme que Belle faria em breve. Celine respondeu que de fato se chamava Outer Ring, e que haviam acabado de ligar para ela, chamando-a para o elenco. Claro que ela iria. O sonho de Celine era ser famosa, então ela não recusaria o papel nunca. Então fui até a cobertura e me sentei na poltrona que havia atrás da porta de vidro. Vista para a neve. Olhando para a neve, me veio um pensamento à cabeça: Será que eu sou adulto o suficiente para uma... Criança? Digo, eu já falho em cuidar de mim. Será que eu sou capaz de cuidar de um pedacinho de gente? Será que eu sou capaz de mostrar para alguém que depende de mim qual o caminho certo, quando eu nem mesmo sei qual caminho é esse? Em menos de um ano, eu havia deixado de ser galinha, havia descoberto o amor. Mas será que um filho seria algo bom? Inconsequente. A palavra certa para mim. Como é que eu havia engravidado uma mulher tão jovem? E se ela descobrisse que não é um filho que quer? E se ela notasse que ter um filho era bem mais difícil? – Oi. – Chamou alguém, da escada. – Quem é? – Grosso. Não vai me oferecer uma taça de vinho? – Perguntou Eros. – Não. Vou te oferecer a chance de sair da minha casa sem reclamar. – Por que vocês me odeiam tanto? – Porque você é um idiota. – Não interessa. Vim lhe dizer que Hades tem negócios para com você. – Negócios de Hades. – É bem simples. Ele vai te devolver seu olho, porém você será capaz de ver a alma das pessoas, ao invés do que o seu outro olho vê.
– Eu tenho a opção de dizer “não”? – Negativo. – Então seja rápido. Eros estalou os dedos e eu senti meu olho gelar. Honestamente, não doeu. Eros virou a cara e foi embora. Ainda bem, eu não queria que ele ficasse na minha casa. Então eu tirei as bandagens do meu olho e me olhei no vidro da varanda. Meu olho estava realmente de volta. Até mesmo a cor era a mesma do outro. Sentei-me novamente na varanda e peguei uma taça e uma garrafa de vinho. Vício que eu não abandonaria nunca. E só por estar com uma garrafa de vinho na mão, previ que seria mais uma noite ínsone, como várias outras antes de Cheryl. Esta seria a primeira depois dela. Depois de Celine e antes de Cheryl, era difícil encontrar cores. Era tudo cinza, e negro. E quando eu estava com outra garota, o mundo ganhava as cores de antes mais uma vez, por algum tempo. E eu gostava daquilo, por mais que fosse por uma fração de tempo. Mas com Cheryl não. Não tê-la, não ter ninguém, era cinza. Brigar com ela, devia ser cinza. Quando eu achei que ela estivesse morta, tudo era cinza. Mas amá-la era quente. Vermelho. Quente como o Sol, ou até mais. E agora nós teríamos um filho. Pouquíssimo tempo para mostrar nosso amor um ao outro, e já deveríamos esperar por um filho. Será que ainda dava tempo? Seriam nove meses tão pouco assim? Será que a nossa relação pararia até que nosso filho nascesse? Será que nossa relação continuaria a mesma depois do bebê? Sim, eu havia decidido que sim. Nós dois não seríamos parados pela gravidez dela. – Cherry! Cherry! Seu passaporte está em dia? Arrume suas malas! Estamos viajando agora! – Gritei. – Hã? Jake, são três da manhã, não vamos viajar agora. Mas sim, meu passaporte está em dia. Imaginei que você iria querer sair em lua-de-mel alguma hora, então resolvi o problema de uma vez. – Disse ela, parecendo subitamente interessada em viajar. – Ah, você é demais! – Disse eu, colocando uma camisa na mala. – Faça suas malas! Ah sim, e termine de fazer as minhas, porque eu vou ligar para a agência de viagens. – Posso pelo menos saber para onde vamos? – Perguntou ela, pegando uma bermuda minha. – Caribe! – Respondi, discando o número do avião particular de minha mãe. Marquei o horário de embarque. Pedi o telefone de um hotel bom de lá, e a agente de turismo me passou. Liguei para o hotel, e felizmente o atendente falava inglês. Reservei a maior suíte do hotel, que estava na baixa temporada, por sorte. – Cherry, você está pronta? – Quase, já estamos indo? – O voo está marcado para quatro e meia. Seria bom se chegássemos lá às quatro. – Entendido. Avise Jesse e os outros de que estamos viajando enquanto eu termino de arrumar as malas. – Sim, sim. – Mandei uma mensagem para Jesse, explicando que eu e Cheryl iríamos estar fora por uma semana. Assim que enviei a mensagem, Cheryl apareceu, e nós fomos até a portaria. – Avise à minha mãe de que eu e Cheryl estamos indo ao Caribe. – Pedi à Samwell. Ele assentiu e chamou um táxi 24 horas. Entramos no táxi. Em alguns minutos, estávamos prontos para o embarque. – Jake, por que resolveu viajar de uma hora para a outra? – Somos jovens, Cherry. Ainda temos muito fôlego. – A voz chamou aqueles que iriam para Aruba no avião particular. Eu e Cheryl fomos à sala de embarque, e após as checagens dos documentos, entramos no avião. Então o avião decolou. O piloto anunciou que a viagem poderia ser um pouco longa, e que a refeição seria servida em uma hora. – Hm, parece que a lua de mel começou aqui no avião. – Concluiu Cheryl. – Pelo menos podemos ficar um pouquinho mais juntos. – Disse ela, chegando mais perto. – Cherry... – Não me diga que o rei da galinhagem resolveu virar santo. – Provocou Cheryl, chegando perigosamente perto. – Eu vou te mostrar o santo. – Respondi, desabotoando minhas calças. Admito que eu e Cheryl já havíamos feito muitas coisas em muitos lugares, incluindo um elevador e uma banheira que ficava em um lugar no qual estavam nos mantendo reféns. Mas um avião, a milhares de metros de altura, me parecia bem inusitado. Não que tenha sido ruim. Nunca era ruim. Por sorte a tripulação havia desconfiado de que nós poderiamos dormir durante o voo, e colocado um cobertor para cada um. Parecia ironia que nas poltronas onde Cherry e eu estávamos havia somente um cobertor de casal. Mas eu também não iria reclamar. Era o avião de minha mãe (E ela provavelmente me mataria quando descobrisse que eu havia colocado Cheryl dentro dele), e todos os empregados dele me conheciam desde pequeno. E eu tinha certa intimidade com eles, então não me importei de me levantar sem camisa mesmo, e buscar o jantar. Voltei com dois pratos de paella. – Está uma delícia. – Sim. – Jay, eu estou morrendo de sono, será que eu poderia dormir? – Por que está me chamando de Jay? E por que está me pedindo? – Não sei. Talvez você ainda queira algo... – Oh, Cheryl estava querendo... – Acho que eu li em algum lugar que grávidas ficam avessas ao pai da criança durante a gravidez... – Acho que você leu uma mentira. – Agora não era só Cheryl quem queria. – Será que você se importaria de provar? – Pedi, quase gaguejando de vontade. – Com certeza não. – Ela mordeu minha orelha. Acho que se nós dois fôssemos feitos de pólvora, explodiríamos. Não que não houvéssemos explodido de outro jeito. Mas com Cheryl sempre era uma explosão. Cheryl passou o resto da viagem dormindo, e eu passei o resto da viagem olhando ela dormir, e como ela era linda. Eu estava delirando em seu rosto quando o piloto me acordou de meu transe, dizendo que iríamos desembarcar no aeroporto em vinte minutos. Acho que o mínimo que poderíamos fazer era nos vestir. Cheryl acordou e se vestiu, e eu fiz o mesmo. Assim que o avião pousou, descemos e um carro fretado do hotel nos esperava na porta. Pegamos as bagagens e fomos até o hotel. A atendente nos levou até nosso quarto, e assim que ela abriu a porta, vi que a diária era um dinheiro bem gasto. O quarto era gigante, quase todo adornado com detalhes lindos que me lembravam o mar. Acho que era essa a intenção, uma vez que o principal atrativo do país eram as praias. O chão era um mármore alvíssimo, branco como leite, e a cama que ficava no fundo do quarto era grande o suficiente para sete pessoas dormirem nela com folga. Ao centro, uma mesa de mármore com tampo de vidro encimada por um lustre lindo de cristal. Nos criados mudos, uma pilha de revistas e um abajur. Ao lado dos criados mudos, um frigobar com as melhores comidas do mundo, e uma mesa servida com vários pratos. O banheiro tinha uma banheira grande o suficiente para um casal, e era todo de mármore negro. A varanda do quarto era vasta, com uma linda vista para a praia, e uma rede para que eu Cheryl víssemos o por do sol de camarote. A atendente disse que estava às ordens e se retirou. – E então, Cheryl. Aceita champanhe? – Perguntei, pegando uma garrafa e um par de taças. – Acho que uma vez só não tem problema... – Disse ela. Estourei o champanhe.
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