Ciel
2 O último abraço
Notas iniciais
Quando Ciel chegou em casa era noite e estava desacordado nos braços da mulher que o abordou à margem do riacho. Seu avô ficou espantado com o estado do garoto e somente quando o tomou nos braços e cuidou de suas feridas pode dar atenção àquela que o trouxe.
–Minha senhora… -ele começou iniciando uma reverência respeitosa.
–Por favor -ela o cortou. -Sei que fez o melhor pelo garoto, mas foi uma escolha dele não revidar. Somente ele é o culpado pelo estado em que está. –Justificou detendo-se por um momento na figura do garoto deitado sobre a cama simples. –Eu só posso agradecê-lo por ter cuidado desse menino nos últimos anos.
Ciel acordou com a risada do avô. Era um riso espontâneo e cristalino e era possível identificar como o avô estava bem e feliz. A conversa que ele mantinha com alguém era livre de qualquer peso ou responsabilidade. Aquele tom fez Ciel perder o sorriso que havia adquirido sem perceber. Nos anos em que viveram juntos, não lembrava de ter ouvido o avô rir daquela forma. Não diria que o avô nunca sorria, mas sempre sentia o peso da responsabilidade em suas palavras e até em suas risadas.
Não sabia explicar, mas se sentiu estranho com aqueles pensamentos.
Se levantou e caminhou para próximo do senhor que mostrava para uma criança como girar um peão.
–Olhe, esse brinquedo ganhei do seu avô. Nunca perdia um duelo de peões com ele! -O avô contava.
Ciel imaginou as feições que o ancião teria naquele momento, sorrindo para a criança e mostrando o tal peão. Não sabia como era o brinquedo, mas sua imaginação ditava as formas. Também não sabia como era o avô, mas mais de uma vez ele deixou que Ciel tocasse seu rosto para formar uma imagem em sua mente. E aquela imagem estava sorrindo de um modo diferente e que não conseguia montar…
–Vô! -A criança chamou. -Meu pai disse que o senhor conhece o Rei e já lutou com ele e conhece todos os elementais! É verdade?
–Seu pai é um exagerado. -Riu. -Você gosta dos Elementais?
–Aham. -O garotinho concordou. -Eu posso ser um Elemental?
–Bom… aí eu não sei. -Riu e notou Ciel de pé próximo o suficiente para participar da conversa caso fosse chamado. -Ah, Ciel. Venha até aqui.
O garoto deu um passo vacilando. Não queria ir até lá. Sentia um aperto no peito…
Sem notar, já estava se abaixando para se sentar ao lado do mais velho. Percebeu que ele estava deitado no chão brincando com a criança.
–Ciel, este é Uli. Filho de meu filho mais velho. Pequeno, este é Ciel.
Sentiu a mão do avô sobre sua cabeça, num gesto comum de afago, mas… Porque não disse que também era seu neto? Foi assim que o avô passou a apresentá-lo quando chegou daquela viagem com ele nos braços. O aperto no coração se tornou mais forte.
–Olá pequeno Uli. -Cumprimentou num fio de voz.
O garoto não disse nada e Ciel se sentiu desconfortável sem saber o que fazer.
Em breve teria que deixar seu avô e quando isso acontecesse aquele menino iria morar com ele? O avô iria ensiná-lo a ser um elemental? Iria ensinar como levantar uma espada e golpear o inimigo? Como afiar sua lâmina? Ensinaria controlar seu elemento? Ensinaria como pescar e o carregaria nas costas depois de descerem a montanha para caçar? O ensinaria a ler e escrever?
–Vô… porque os olhos dele são brancos? — O menino então perguntou baixinho para o avô.
Ciel sentiu seus olhos arderem e uma pressão que o fazia lacrimejar.
Sentiu quando o avô se movimentou, sentando-se sobre os calcanhares e imediatamente se levantou enxugando os olhos com as mãos. O ancião se levantou também e segurando Ciel firmemente pelos ombros o virou para si. Era incontrolável e por mais que as enxugasse, lágrimas não paravam de cair. Ciel escondeu seu rosto com as mãos sentindo-se envergonhado.
O mais velho conseguia sentir a confusão que se formava na mente do rapaz apesar de não entender sua origem. E por isso apenas abraçou o garoto deixando que ele chorasse em silêncio.
Ciel voltou a adormecer nos braços do avô como quando era mais novo.
Estava sentado numa poltrona com o futuro elemental no colo e o pequeno Uli brincando com o peão no chão, quando a mulher que havia resgatado Ciel tornou a entrar na casa.
–Cuide bem dele. Ou vou até lá puxar a orelha daquele seu marido! -O mais velho ameaçou fazendo a mulher sorrir.
–O rei cuidará muito bem dele. -Respondeu e tomou o garoto no colo levando-o para a nova morada.
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