Cidade dos Espíritos - RE
4 Biologia Intensiva
Saki disse que queria continuar acompanhando Toshio.
– Tem certeza...? Bem, acho que duas cabeças pensam melhor do que uma... Então vamos.
Toshio voltou para o carro. Saki fez o mesmo, sentando-se no banco do passageiro.
– O laboratório fica a uns dez minutos daqui... Bem, agora muito menos, já que não existe mais trânsito.
Toshio ligou o carro. Saki retirou o diário de sua mochila e voltou a escrever.
"Eu decidi continuar com Toshio. Por algum motivo, me sinto segura com ele por perto. Mesmo que aparentemente nenhum de nós entenda o que está acontecendo a nossa volta.
Eu continuo vendo e presenciando coisas estranhas, mas da última vez, Toshio também presenciou. Que bom que, pelo visto eu ainda não estou louca."
– Você realmente gosta de escrever nesse diário, não é? — Perguntou Toshio.
Saki confirmou.
– ...Eu tentei uma vez dar um diário para meu filho... Mas ele acha que isso é coisa de meninas, e acabou deixando de lado. Mas acredite ou não, eu tinha um diário quando tinha a idade dele. E eu escrevia todos os dias.
Saki disse que também gosta de escrever tudo que acontece em seu diário.
– É bom mantermos um registro de tudo que acontece em nossos dias. Depois podemos estudá-los para planejar melhor nosso futuro.
O carro virou uma esquina.
– ...Eu queria acordar.
Saki estranhou a fala de Toshio.
– Eu queria acordar e ver que estou na minha cama, na minha casa, com minha família. E que isso que estamos passando é apenas um pesadelo. Concorda?
Saki ainda raciocinava um pouco. Mas quando compreendeu, acabou concordando.
– ...Desculpe, acho que estou te incomodando com minhas falas aleatórias.
Saki negou.
– Ok, chegamos. Aquele pequeno prédio azul é o laboratório.
O carro de Toshio parou em frente ao tal prédio. Um letreiro dizia "Laboratório de análise e coleta de sangue".
– Eu cheguei a ver o doutor Keichi nesse local algumas vezes. Se ele tem algum envolvimento nessa história, acho que vamos encontrar pistas por aqui."
Toshio abriu a porta. Saki pegou sua lanterna.
A entrada era formada por uma sala onde havia uma recepção com um computador em uma mesa, algumas poltronas de espera, cartazes aleatórios, e uma mesinha de centro com revistas velhas.
– Ok... Temos duas salas para investigar... Ali é onde acontece a coleta de sangue... E ali é onde são feitas as análises. Como não temos eletricidade, vai ser inútil tentar checar os computadores...
Saki decidiu que queria começar pela sala de coleta.
– Perfeito, vamos.
Os dois se aproximaram da porta e Toshio a abriu. A sala de coleta tinha uma cadeira para os pacientes, um armário com vários frascos, uma pia e uma cama.
– Urgh... Não tem muita coisa pra analisar aqui... Eu vou checar o armário, você pode esperar.
Saki sentou-se na cama enquanto Toshio verificava o armário.
– Nada aqui... Nada... Frascos vazios...
Sentada na cama, balançando as pernas, Saki observou melhor o local. Até que algo prendeu sua atenção.
Enquanto Toshio verificava as gavetas da parte de baixo do armário, Saki notou que havia algo estranho... Em cima dele.
Em cima do armário, como se alguém a tivesse simplesmente largado... Havia uma cabeça humana. Não era uma cabeça comum. Era completamente preta. Só era possível ver os olhos brancos que olhavam para a parede.
Saki começou a ter dificuldade para respirar. De repente, a cabeça virou seu olhar para ela. Era um olhar ameaçador, como se quisesse lhe fazer mal. Saki perdia cada vez mais o fôlego.
– Saki!! O que houve?!
Toshio pegou Saki pelos braços. Ela se virou assustada para ele.
– Saki! O que está acontecendo? Você está bem?
Rapidamente, Saki voltou a olhar para cima do armário. Não havia nada lá.
– ...Eu achei que você fosse desmaiar... O que aconteceu?
Saki respirou fundo e disse que não era nada.
– ...Como assim não foi nada...?
Toshio colocou as mãos no rosto dela.
– ...Você está fria. Escuta, deixe que eu verifico esse local. Deve ter um banheiro na recepção, talvez ainda haja água nas pias. Vá lavar o rosto, Ok?
Saki pensou em negar a proposta, mas acabou aceitando. Caminhou até o banheiro e fechou a porta. Em seguida, olhou-se no espelho por alguns segundos. A garota bonita que Toshio havia mencionado algum tempo atrás agora dava lugar a um rosto de quem havia passado por situações apavorantes.
Ao abrir a pia, ainda havia alguma água. Saki a pegou e jogou em seu rosto. Em seguida, Saki sentou-se no chão e abriu sua mochila. Foi quando ela percebeu seu pingente, que estava brilhando. Será que era possível falar com suas amigas da outra dimensão sem que Toshio notasse? Ela resolveu arriscar. Alexia e Reika apareceram.
– Saki?! O que houve? Estamos tentando falar com você a horas! — Gritou Reika.
Saki pediu para que Reika ficasse em silêncio, e rapidamente explicou a situação com Toshio.
– Você está ajudando esse cara a procurar sua família? Mas Saki, você tem sua própria missão! — Disse Reika.
– Acalme-se, Reika... Nada impede que Saki encontre a sacerdotisa no trajeto. — Disse Alexia.
Saki explicou que Toshio estava por perto.
– Entendo. Mas, por favor, tente nos manter atualizadas, tudo bem? — Disse Alexia.
Saki concordou. Em seguida, as duas desapareceram. Saki pegou seu diário.
"Ok, eu quase... Eu sei lá, acho que quase desmaiei com a última coisa que presenciei.
Estou seriamente pensando se vou ter forças para aguentar essa missão até o final."
Saki guardou o diário e abriu a porta do banheiro. Toshio estava na sala de espera.
– Saki? Se sente melhor?
Saki disse que sim.
– Olha só o que eu encontrei. Acho que estamos chegando ao final desse mistério.
Toshio entregou um pequeno papel para Saki. Parecia um bilhete deixado por algum amigo.
"Doutor Keichi:
Por favor, mantenha esses seus experimentos longe do nosso laboratório. Sabemos que você está ansioso para testar seu novo 'projeto', mas por favor, não os traga para cá!
Você foi avisado! Se encontrarmos alguma coisa estranha aqui, seremos obrigados a denunciá-lo."
Aquilo parecia mais uma ameaça do que um bilhete de amigo afinal.
– Agora eu tenho certeza... O Doutor Keichi tem algum envolvimento sério nessa história. Ele fez alguma coisa com a cidade. — Disse Toshio se levantando.
Toshio saiu do laboratório, seguido por Saki. Alguns pingos de chuva caíam do céu.
– Fala sério... Nem o céu está colaborando com a gente... Enfim, Saki, tem dois lugares que eu pensei que poderíamos investigar agora. A casa do doutor Keichi, onde eu acho que ele certamente mantinha algum registro do que estava fazendo... E o hospital. Se alguma coisa aconteceu à população, eu tenho certeza que encontraremos algo por lá. Eu vou deixar você escolher.
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