Cidade dos Anjos
2 Capitulo 1 - Sonhos ruins
Notas iniciais
O celular embaixo do meu travesseiro apenas vibrava, anunciando que era hora de acordar. Sabia que Eliza odiava ser acordada com barulho ou susto, mas não me incomodei e olhando o ser que dormia feito pedra no colchão do chão do meu quarto. Peguei um travesseiro e joguei com força nela e a mesma se sentou depressa com os olhos arregalados e mão no peito. Não resisti e soltei uma gargalhada sentindo logos após uma pancada macia em meu rosto seguida de um "vaca!" dela. A observei e vi a mesma voltar a se jogar na cama soltando uns resmungos, resolvi ignora-la enquanto ainda ria e segui para o banheiro para fazer minha higiene matinal.
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O dia estava tranquilo com um tempinho bem gostoso, enquanto eu e Eliza caminhávamos na direção da escola bebericando um cappuccino que nós mesmas fizemos para o café da manha, bem eu caminhava, ela se arrastava. Já estávamos no terceiro bimestre da faculdade, e era meu 1° anos de arquitetura já Elizabeth estava no seu segundo ano de direito, ela jurava que queria ser delegada, mas com aquela preguiça, não sei onde ela iria parar. Desde que éramos pequenas, sempre fui de contos de fadas e ela de ação. Não dizem que os opostos se atraem? Deve ser por isso que eu e Eliza nos dávamos tão bem. Bom, não tão bem. Enquanto eu agia pelo coração, Elizabeth agia pela razão. Ela era boa de guardar magoa. É serio! Por exemplo, na oitava serie Michele, ou mais conhecida como Mitchie, que era uma garota bem folgadinha, grudou chiclete no cabelo de Eliza enquanto ela dormia. A minha amiga (que amava seu cabelo comprido) teve que corta-lo, muito curto e durante muito tempo usou touca, o que foi motivo de sarro por toda escola. Se fosse eu no lugar dela não teria coragem nem de sair de casa, mas, como a própria Eliza dizia, tudo o que vai volta, Michele teve o troco. Numa aula de artes Elizabeth aproveitou uma das tintas vermelhas e sujou "acidentalmente" a calça branca caríssima de Michele. Nem preciso falar a fofoca e o sarro que rolou não só naquele dia, mas durante uma semana, e Eliza, ao invés de encerrar o assunto, foi aumentando o boato de que sua arqui-inimiga tinha um problema do estilo "fluxo de sangue" que ao invés de sua menstruação durar cinco dias, durava um mês inteiro. Michele perdeu seus pretendentes, “suas amigas” e virou lésbica, o que assustou Elizabeth, porque segundo ela, a razão de Mitchie odiá-la era na verdade um amor secreto. Sim, às vezes minha melhora amiga era louca (ou sempre). Mas apesar dos acontecidos, eu virei amiga de literatura da Michele, o que rendeu a mim e a Eliza muitas brigas.
Ao lembrar do lance "briga" me veio a memória do sonho ruim que tive, e senti meu peito afundar com uma angustia que eu não sabia de onde vinha, só sei que naquele momento, abracei minha melhor amiga como se fosse a ultima vez e cochichei um "eu te amo" baixinho perto do seu ouvido. Eliza retribuiu o abraço um pouco tensa por ter sido pega de surpresa.
– Charlie, aconteceu alguma coisa? — me perguntou ela, parecendo preocupada – ou é aquele lance bipolar que você ta tendo ultimamente? – Ri com sua pergunta, me lembra de ter falado a ela que estava “naqueles dias”, uma desculpa para ela dormir na minha casa nos últimos dias. E era o que eu falava quando ela me pegava chorando do nada. Não queria dizer a ela a verdadeira razão para querê-la perto de mim. Aqueles sonhos estavam me deixando louca.
Afrouxei meu abraço o suficiente para encarar seus olhos e dizer:
– Ta tudo bem Granger deve ser mesmo minha TPM – sorri falsamente, e me afastei dela. Elizabeth me olhou preocupada por alguns segundos e pareceu querer dizer alguma coisa, mas apenas balançou a cabeça e enlaçou nossos braços e juntas, voltamos a andar rumo a escola. Suspirei fundo, e repeti meu mantra mentalmente: “vai ficar tudo bem, já esta tudo bem, nada de ruim vai acontecer” e era o que eu esperava que acontecesse de todo meu coração.
Eliza POV
Não estava tudo bem e não era de hoje que eu percebia isso na Charlie, quer dizer na gente. Já fazia um bom tempo que eu não estava dormindo bem por causa dos benditos sonhos estranhos, e estava tendo sensações esquisitas como se estivesse sendo observada. Não sei se era por isso que minha melhor amiga agia diferente. Não sabia se ela estava tendo essas sensações ruins já que pesadelos eu sei que ela tem. Peguei Char acordando de madrugada todas as noites que eu dormi na sua casa. Talvez fosse por isso que ela me queria por perto. Charlie sempre se apoiou em mim para tudo. Quando brigava com alguns paqueras, era eu que levava os chocolates e falava mal dos cretinos de todos os palavrões possíveis. Quando ela tirava nota ruim, era eu que conseguia faze-la se concentrar na lição, dizendo que eu não a deixaria em paz ate que ela entendesse a lição. E geralmente, era eu que a amparava nas vezes que ela me ligava de madrugada dizendo que teve um pesadelo, na maioria das vezes era dos seus pais a deixando com a avó e partindo para nunca mais voltar. Char era órfã desde que completou um ano, morava e viva com a avó materna desde então. Eu falo que nossa conexão foi criada a primeira vista. Eu a protegi na primeira seria de um garoto ruivo e gordinho que queria jogar areia no cabelo dela. Não lembrava direito o que eu havia feito, só sei que Charlie sempre me lembrava de que eu havia dado uma cotovelada no estomago do garotinho e que ele ficou tão vermelho quanto o próprio cabelo. Foi na diretoria que nos conhecemos melhor, e quando eu perguntei porque da sua avó estar lá e não os seus pais, ela me disse que era órfã. Foi ai que me simpatizei com ela. Não foi por pena. Foi por, mesmo ela ter sido “abandonada”, Charlie sorria. E não posso deixar de dizer que me senti descolada quando ela disse que queria ser tão durona quanto eu. Foi ali, naquele momento que nossos responsáveis discutiam o castigo perfeito para nós, que eu adotei Char como irmã. E eu não procurei perder meu tempo tentando entender como Charlie significou tanto para mim em tão pouco tempo. Eu fiquei feliz em saber que ela precisava de mim, ela só não imaginava que EU precisava dela. Não sou lésbica. Amo Charlie como irmã. Morreria por ela. Então não me importava se ela estava mentindo para mim sobre o lance da “TPM”. Não me importava se eu estava com medo sobre o que aqueles sonhos representavam. Ou sobre como eu estava pirando com aquelas sensação de estar sendo vigiada. Talvez fosse o destino tentando ver o quão longe eu vou com a minha ideia de ser policial. Mas não vou mentir e nem esconder, eu gostava da sensação de perigo. Da sensação de ter a adrenalina correndo minhas veias. O mistério seja La o que aquelas esquisitices representavam, eu ia descobrir. Eu não tinha medo de rir da cara do perigo. Eu só esperava não me arrepender no final.
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