Cidade Zero-Hora
1 Um Pecado Gentil
Notas iniciais
- Espero que gostem, realmente
- Antes, queria avisar que, com esse capítulo, começa a primeira parte, e como o nyah não permite esse estilo de postagem, colocarei as coisas aqui.
- A primeira parte se chama "As Estrelas da Noite", e o poema dela é:
"Vejo árvores verdes, rosas vermelhas também
Vejo-as florescer, para mim e para você
E eu penso comigo mesmo
Mas que mundo maravilhoso!"
(George David Weiss / George Douglas)
- Agora, sem mais delongas, fiquem com a fic!

O sonho era o mesmo de toda a noite.
Ian corria desesperadamente atrás daquela mulher. A garota ruiva, de madeixas cor de fogo. Admirava a beleza dela toda a noite que sonhava aquela mesma cena, e podia descrever o rosto dela com a mesma facilidade que descreveria o seu. Os olhos azuis diamantinos, idênticos aos de seu irmão menor. Mas os dela eram maiores, imploravam para ele não o fazer.
Já era a quinta curva daquela perseguição que fazia, e podia jurar que escorregaria na próxima. O dia estava chuvoso, o que fazia as pequenas poças de água obstáculos notórios. As ruas pouco iluminadas eram lindas aquela hora da madrugada. O único barulho audível era o som de seus passos, pois a garota não fazia ruídos ao andar. Viu a vítima pular o muro de um prédio, driblando a gravidade e mergulhando como um morcego ágil do outro lado, sem fazer barulho algum para aterrizar.
Procurou por uma entrada mais acessível, mas não achou. Teve de escalar a grade, torcendo para não haver nenhum tipo de cerca elétrica na parte superior. E caiu do outro lado, com um baque pesado. Não estava fora de forma, pelo menos era o que seus familiares e conhecidos diziam. Era um jovem alto, talvez um pouco acima que a faixa etária, mas nada abundante. O pequeno prédio ficava no centro suburbano da cidade, com poucas luzes acesas nas janelas. Era compacto e achatado, uma arquitetura tão horrível e desgostosa de se ver. Os ladrilhos estavam em tons mais escuros, e Ian nunca acreditara que eles já haviam sido do mais alvo branco.
Não perdeu tempo, correu em direção as escadas. O lugar parecia abandonado, e, se alguém vivesse ali, não estava reparando no fato dele correr sem discrição alguma, fazendo barulhos altos com o coturno que calçava. A pistola que carrega no coldre — preso ao cinto — o incomodava na hora de correr, junto do cantil de água benta e a adaga com entalhes dourados, que ganhou do pai em seu décimo sexto aniversário. Enquanto subia os degraus, a consciência voava longe, lembrando das cenas do treinamento de tiro com seu pai auxiliando-lhe, sendo seu único instrutor, relembrou deles treinando na mata da cidade, lugar ideal, o pai dissera, sem pessoas para encher o saco. Voltou a prestar atenção a sua volta quando atingiu o ponto máximo do prédio, um terraço de telhas tortas e malfeitas. Uma chaminé exalava uma fumaça densa e suspeita.
A ruiva estava em pé, na beira do prédio. O vento soprava seus cabelos, fazendo-os se assemelhar a labaredas dançantes. A roupa escura contrastava ainda mais, a jaqueta de couro preto junto com as calças jeans de mesa cor. As botas subiam acima das canelas, feitas do mesmo material que jaqueta, brilhando intensamente, refletindo a luz da lua cheia. Poderia pintar um quadro, com toda convicção, seria lindo. A menina de expressão séria e maxilar rijo, contra as luzes intensas da cidade atrás, as estrelas longínquas e a lua, observando tudo.
Ela levantou as mãos, em um gesto de rendição.
— Eu me rendo. — anunciou. A boca calma dizendo as palavras fúnebres aos ouvidos do caçador. Os dentes eram completamente alvos, e os incisivos, como os de todos os vampiros, eram enormes ao ponto de escaparem da boca.
Ele se aproximou dela. Com uma das mãos buscou a pistola no cinto, o metal frio ao toque. A arma tremeu em seus dedos. Sentia todos os músculos de seu corpo se enrijecerem, estava chegando ao ápice, a sensação de todas as noites. A boca tremia em dizer algo para a garota, no entanto, nem mesmo Ian sabia o que dizer. A arma foi apontada contra o peito da vampira, onde poderia haver um coração pulsante, caso ela não fosse uma morta viva. O indicador correu para o gatilho.
— Antes. — ela interrompeu, os olhos diamantinos implorando para que ele não o fizesse. Ela estava calma, apesar do que estava prestes a acontecer. Os cabelos haviam finalmente se acalmado, e repousavam nas roupas escuras. A boca sem cor dizendo: — Posso saber quem te contratou?
A dúvida passou pela cabeça do caçador também, era a pergunta que não respondia, nunca. Mas abriu uma exceção, sempre abria a exceção para essa garota. Um único nome pulsou dentro de sua cabeça.
— Amadeus.
O gatilho foi puxado. O tiro saiu, quase junto com a capsula cuspida pela arma. O cheiro de pólvora por todo o local, o barulho rouco do tiro ecoando por toda a cidade. O sangue escuro da ruiva era quase do mesmo tom dos cabelos. O manchara a roupa escura que trajava também. Olhou para as mãos manchadas de sangue, a ponta dos dedos em tons escarlates. O que havia se tornado? Se perguntou.
O estrondo do corpo da garota se chocando com o chão era sempre o último som do sonho.
Ian acordou assustado, assim como todas as noites anteriores.
Seu primeiro impulso era jogar as cobertas para fora da cama, mesmo estando frio. Pingava suor, o corpo era como um vulcão e a mente entrava em erupção todas as vezes que via aquelas imagens. Era horrível sentir-se um assassino, um mercenário, matando a garota por algum objetivo não específico. Já havia processado aquelas imagens, mas não bastava, repensava nelas todas as noites das últimas semanas. Ao mesmo tempo de ser tudo repetido, era tudo muito recente.
Se levantou da cama lentamente, mesmo tendo pressa de deixar aquele lugar quente. A camisa regata que vestia estava ensopada, grudada ao corpo. Ian conseguia ver que estava magro, um pouco fora de forma, com poucos músculos contornados. Se dirigiu para o banheiro, e ficou receoso em acender as luzes. O clarão invadiu-lhe a vista, desnorteando-o por segundos. Sentiu os olhos queimarem na sensação típica de acender as luzes do banheiro, sem estar preparado para o fazer. Depois de fechar a porta, se desfez da camisa, a tirando por cima da cabeça. As roupas inferiores ele não fez cerimônia alguma para retirá-las, jogando a calça e a cueca junto das roupas sujas no sexto. Antes de entrar para se banhar, viu-se no espelho.
Seu rosto era cumprido, alongado e delineado suavemente. Ainda haviam as marcas avermelhadas das espinhas que o assombraram por toda sua adolescência, agora, com quase dezoito anos, eram constrangedoras. A boca estava rosada, fina e contornada com um sorriso leve de sono. Os olhos eram castanhos escuros, herdados do pai. Sempre quisera ter os olhos da mãe ou o do irmão mais novo. O azul quase branco era lindo, fascinante para ele. Passou uma mão nos cabelos escuros e cortados recentemente. Queria que houvesse uma maneira de deixá-los de uma forma não espalhafatosa, mas parecia ser impossível.
Enfim adentrou no box e pôde tomar seu banho quente, contrariando o calor que seu corpo sentia. O vapor subia, deixando os vidros do local opacos. Os azulejos brancos refletindo a brancura da luz incandescente. Ian sentia o relaxo de todos os músculos de seu corpo, sempre considerou o banho uma espécie de terapia, onde pensava sobre a vida e suas atitudes tomadas e não tomadas. Lembrou que, quando menor, escrevia com o dedo nos azulejos o que faria, e depois apagava por bobeira.
Um pensamento bateu na janela de sua mente como um pássaro em alta velocidade. Os olhos da garota, eram exatamente como os do irmão mais novo. O azul, a brancura, ela parecia ser cega. Ian poderia jurar ver Levi no lugar da garota, ver ele atrás das vistas da desconhecida. Podia ver a tristeza que o olhar ostentava.
Ian gastou minutos pensando como chegou na situação que se encontrava. Levi o odiava, e isso era um fato. Desde pequenos eles sempre foram muitos apegados, Ian se se dedicava muito para ser o melhor irmão mais velho do mundo, como dizia. Era apenas três anos mais velho que Levi, a diferença não era gritante. Costumavam correr e brincar no jardim de sua mãe, e depois replantar todas as plantas que retiravam com suas brincadeiras. Riam juntos nas tardes de primavera quando sua mãe gritava com eles. Conforme cresceram, Levi começou a se distanciar. Ian arrumou amigos, na escola, na rua, em qualquer lugar que ia. Era o tipo de pessoa amistosa, boa de conversa, diferente do irmão, muito tímido, sempre evitando conversar com estranhos. Logo não demorou para Ian passar e ver Levi poucas vezes no dia. Estudavam na mesma escola, mas em horários diferentes. Logo iriam se ver pouco, Ian planejava fazer faculdade longe, e seus pais apoiavam a ideia, Levi, a essa altura, não ligava mais. O mais novo passou a se tornar depressivo depois de anos, trocando poucas palavras com Ian a semana inteira. Levi passava tardes de sua vida lendo livros ou usando o computador para entretenimento, se perdendo e se escondendo do mundo exterior. Vivia preso em sua casca de vidro, e Ian sabia, se tentasse o tirar de lá, se feriria também.
A mão quente tocou o registro frio o fechou. A corrente de água fechou-se, secando aos poucos. Amarrou uma toalha na cintura. Um vento frio cruzou seu corpo quando ele abriu a porta, o choque do ar frio com o vento gélido. Ficou receoso ao andar, mas foi se destravando com os instantes. A janela do quarto que dividia com o irmão estava aberta, permitindo o vento adentrar. Era final de madrugada, o sol surgindo ao fundo , no meio daquela paisagem urbana e linda. As nuvens cinzentas da noite anterior haviam desaparecido, deixando apenas os orvalhos nas árvores. Reparou que Levi não estava mais no quarto, e que fora ele mesmo que abriu a janela. A cama do irmão menor estava arrumada, com os livros de Levi ajeitados na prateleira ao lado.
Levi odiava ver coisas desarrumadas, e Ian não seguia os gostos do irmão. Não era muito preocupado com o fato de ter um livro debaixo da cama, ou se seu lençol escapar por um lado.
Ian não demorou muito para vestir uma camiseta azul lisa, sem estampa alguma. Colocou um jeans surrado despretensioso. Enquanto mergulhava no guarda-roupas, vislumbrou uma calça preta que tinha, e uma jaqueta pesada. Eram as roupas que sempre usava, todas as noites, no mesmo sonho. O caimento daquelas roupas pesadas em seu corpo era estranhamente familiar, e sua locomoção improvisada era peculiar. Nas primeiras noites, correu para o guarda-roupas procurando algo que nunca achava. A pistola. Era um impulso estranho, procurar por algo que sabia que nunca iria encontrar. Não tinha uma arma no guarda-roupas, e nunca teria.
Ouviu o celular tocar em um dos cantos do quarto. Era uma mensagem nova de sua melhor amiga. As letras na tela eletrônica eram curtas e breves, dizendo para que, quando acordasse, fosse até a casa da menina.
Ian não seguiu as ordens pelo fato que, sabia que Tália ainda dormia. Havia mandando aquela mensagem tarde da madrugada, pensando que ele acordaria apenas depois da meio dia. Haviam conversado durante a madrugada inteira, assunto era o que nunca faltava a eles.
Ele saiu do quarto e atravessou o corredor escuro. A única luz acesa na casa vinha da cozinha. Quando desceu as escadas pôde ver o irmão mais novo. Levi. Sentado despojadamente contra o sofá da sala de estar. Ele vestia-se com pijamas dois números maiores, os cabelos mal aparados caindo sobre a face. Há dois anos Levi não cortava o cabelo, mesmo com a insistência da mãe. No entanto, Levi e Patrícia não se davam mal, eram praticamente iguais, física e mentalmente. Levi tinha o mesmo tom de pele da mãe —um alvo leitoso, que parecia nunca ter encarado o sol —, o rosto também era preenchido por ângulos diversos, fazendo um alvo fácil para garotas, mas ele não se importava.
Levi levantou o olhar quando viu Ian, os olhos diamantinos contra o irmão mais velho. Ian sempre os invejou, sempre quis tê-los. Todos comentavam sobre aquela brancura. Ele sempre procurou um nome para descrever a cor dos olhos do irmão mais novo, e as únicas palavras que se adequavam eram branco-gelo. Levi comia um pedaço de pizza, que pediram na noite passada. Com a mão livre segurava o celular. Voltou-se para o aparelho, desprezando Ian.
Ian foi em direção à cozinha. Viu que as chaves dos pais não estavam onde geralmente ficavam todos os dias, penduradas ao lado das outras.
— Eles ainda não chegaram? — perguntou, as palavras saíram calmas da boca.
— Não… — Levi respondeu, sem virar o olhar.. A expressão de tédio completo. — Relaxa, eles podem estar apenas aproveitando… — sorriu maliciosamente. Ian se assuntou, Levi sempre foi tão resguardado, não era de seu fazer aquele tipo de ironia. Ian retribuiu o sorriso.
Um choque passou por sua mente. Ian quase caiu no chão, as pernas bambearam e o tronco desceu. As mãos voaram até a cabeça, onde permaneceram. Uma estranha sensação se apossou de seu corpo, um enjoo, misturado com muita ânsia. Quando olhou para Levi novamente não o viu, e sim a ruiva.
Ela estava lá, os cabelos longos e vermelhos à pouca luz. Os dentes afiados como presas sorrindo para ele. Os olhos eram os mesmos.
— Ian? — Levi o chamou, e sua aparência mudou completamente de novo. Os olhos permaneceram, mas os cabelos escuros voltaram mais cumpridos e simétricos. O corpo de mulher era o mesmo, porém mais saliente. Era sua mãe ali, lhe encarando, com seus olhos enormes e expressivos. Ian balançou a cabeça e as alucinações se desfizeram, em segundos. Levi voltou a estar ali, encarando-o, sem mexer um dedo para ajudá-lo. — Você está bem?
— Estou. — mentiu, correndo em direção a saída. Seus pulmões pediam ar fresco, e o corpo necessitava se resfriar. Já bastava sentir aquilo todas as noites, agora sentia no meio do dia. Não! Gritava para si mesmo.
— Não parece… — Levi comentou, não soube se Ian ouviu.
Ele abriu a porta com o ombro. Saiu no jardim, na parte da frente de casa. O vento frio de inicio de inverno o envolveu, lhe abraçando e resfriando sua mente. Não suava mais, e o coração já não estava mais a ponto de explodir.
O que estava acontecendo com si mesmo?
A pergunta não parava de aparecer em sua mente. Relaxou os ombros conforme via a paisagem do sol, se erguendo contra os prédios. O choque elétrico ainda passava por seu corpo, fazendo seus membros tremerem. Aquilo não era normal. Tinha certeza.
Notas finais
- Tentarei não demorar muito para postar o cap 2!
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