Cidade Zero-Hora
5 Sem Luz
Notas iniciais

Ian entrou logo após ver Toni virando nas ruas da cidade dormente. Não fazia ideia de que horas eram, mas já era depois da meia-noite. Era comum aquele quietude ali depois da zero hora, Ian adorava ver a cidade dormir. Sentia a liberdade que aquilo dava, podia passar por todas as ruas admirando a beleza noturna daquele lugar. As ruas angulares a noite eram um ótimo passeio, principalmente as do Centro. Praças que ferviam durante o dia eram apenas monumentos mortos depois que os ponteiros atingiam a décima segunda badalada.
Quando entrou em casa, encontrou a última pessoa que esperava lá. Estava ansioso para rever o pai ou a mãe, e exigir com toda a razão uma explicação coerente de tudo aquilo. Sobre a vingança que ghoul comentara quando tentou o matar, sobre sua mãe mexer em sua cabeça como bem entendesse. Mas, em vez deles, viu Levi. Sentado no sofá, o encarando. Levi estava sentado com os pés no chão, de forma séria, como ele nunca fazia. Os mãos cerradas contra o colo.
Sentia a frieza no olhar dele.
— Onde você estava?! — perguntou o mais novo.
— Boa noite para você também, Levi. — Ian andou até o sofá, escorregou propositalmente, caindo de costas. Sentia o ardor nos músculos mal acostumados a alguma ação. A mente ainda trabalha a mil por minuto, pensando nas possibilidades sobre tudo. Resolveu responder a pergunta do irmão. — Ah, respondendo sua pergunta, eu estava sendo atacado por uma ghoul. Do outro lado da cidade.
— Você não foi o único. — rebateu, descontente.
Ian engoliu em seco, incerto. Não deveria ficar contente também, deveria se arrepender, ter vontade de ter salvo o irmão. Não sentia isso no momento, apenas encarava Levi e pensava nas palavras sólidas e distraídas de Toni.
Uma feiticeira, como seu irmão.
Pensava porque eram tão parecidos, e a resposta estava ali, na sua frente. Ian reconhecia o rosto da mãe nos traços masculinos do irmão. Os olhos eram os mesmos, cheios de frieza e fascinação.
— Você… — começou, mas não teve coragem de terminar. Uma parte de si queria que aquilo não fosse verdade, queria acordar naquele instante e ver que tudo não passara de mais um de seus sonhos conturbados. — é..
— Eu sou um feiticeiro. — A revelação de Levi não teve impacto real em Ian. Claro que a palavra do próprio irmão foi mais que o bastante para deixar Ian inquieto.
Levi estava ciente de tudo também, ou somente daquilo?
— Beth me falou de tudo. — prosseguiu. Levi suspirou, impaciente. Levi se levantou, olhou para Ian de soslaio. — Eu vou deitar, minha noite foi cansativa demais. Ainda há coisas que eu preciso processar.
Com isso, Levi subiu as escadas e sumiu pelos corredores acima.
Ian apenas deixou a cabeça cair no sofá, arfando pela última vez naquela noite. Agora estava seguro, e nada tiraria essa sensação dele. Podia descansar por horas de sono, o corpo pedia isso a ele. E o fez. Não demorou muito para adormecer, nas tão confortáveis e familiares almofadas do sofá quente.
Sem sonhos ruins.
Ian lampejou por um minuto, achando que nunca mais os teria, graças a quebra do feitiço em sua mente. Depois do dia anterior, tinha certeza que nunca mais acordaria assustado e suando, sendo obrigado a correr para o banheiro. A noite era confortável, e o calor da manta jogada sobre ele durante as horas de sono o envolveu como um abraço. Sentiria vergonha de si mesmo caso olhasse para como estava dormindo, mas só queria tempo para descansar.
Em um ponto da noite, Levi havia se levantando, para apagar as luzes e cobrir o irmão. Ian pensou que ele o acordaria o tentaria o levar para a cama, como Patrícia costumava fazer, mas Levi não era a mãe, e não gastaria saliva tentando o acordar, tendo certeza que Levi não o faria. Ian pensou no modo como Levi lidava com tudo aquilo, desejou estar na pele do irmão por um instante.
–
Você é um feiticeiro…
As palavras de Beth ainda murmuravam dentro de sua cabeça, no véu fino de seus pensamentos. No primeiro segundo, não soube como acabou concordando com aquilo. Não tinha como descordar, tudo apontava para aquela afirmação, desde o começo. Copos se quebrando, coisas rachando e colheres entortando com seu humor, não poderiam ser coincidência. Levi orava para que isso fosse apenas um sonho baseado nas histórias de ficção que lia pela internet. Sentia uma sensação incomparável quando vislumbrava o fulgor esmeralda entre os dedos. Os nervos entravam em êxtase, junto com a corrente sanguínea, que gelava no mesmo instante. Ali, entre seus dedos, estava a explicação de porque era diferente. As faíscas verdes saltando dos dedos enquanto raciocinava.
Entendeu o medo do pai. Pôde finalmente ver o motivo de sua relação forçada com Fernando. Obviamente o pai o temia, por isso tinha receio de se aproximar. Fernando não temia a própria esposa pois a conhecia há anos, e sabia que ela era capaz de se controlar, mas com Levi era diferente. Ele era como uma bomba relógio, que explodiria a qualquer instante, levando tudo e todos a sua volta.
Talvez o pai o matasse caso fizesse algo de errado. Descobrir o verdadeiro emprego do pai não o fez mudar em nada, apenas justificou as saídas que Levi nunca entendia. Descobrir que a mãe prestava serviços como feiticeira, e por isso tinha “plantões” extras em noites aleatórias o fez rever seu papel na sociedade. Deveria se inserir e começar a cobrar por seus serviços também, ou deveria seguir a vida como um ordinário, terminando o ensino médio como qualquer outro jovem?
Beth havia lhe falado que era uma maga, uma espécie de ordinário com habilidades mágicas exploradas, e que mesmo assim, exercia seu papel em ambas as sociedades, atuando de dia como enfermeira, e nas horas vagas, concertando encantos de disfarce. Não era difícil sobreviver naquele meio, ela havia explicado de maneira clara, sempre haviam trabalhos para feiticeiros ou magos. Invocações, encantos a serem restaurados, objetos mágicos, suspeitas, crimes, poucas coisas que geravam uma renda considerável. Tinha de pensar nisso agora, que os pais sumiram do mapa.
Acordou com o barulho agudo do celular.
O aparelho vibrava na escrivaninha, criando um ruído estrondoso. Levantou rápido o suficiente para que o barulho não o incomodasse. Olhou em volta, viu o quarto desarrumado. Era uma manhã de segunda feira, faltavam apenas uma semana e meia para o final do recesso escolar, e tinha de aproveitar os poucos dias. Espiou a janela e viu o sol saindo por detrás das montanhas, em meio a bruma de inverno.
Olhou a sua volta novamente, viu que nada realmente tinha mudado. Era o mesmo Levi de sempre. Depressivo, magricela, estranho e com face de desgosto.
Viu a tela do celular acender quando recebeu uma mensagem de Alex.
Alex.
Como pôde deixá-lo sem avisar? E desaparecer por completo depois. Ele devia estar preocupado, provavelmente procurou Levi depois do show de mágica, a noite inteira. A mensagem perguntava onde ele estava, e se estava bem. Alex o confortava com aquelas palavras breves, cheias de carga emocional. Era estranho, pensava, ele era única pessoa que realmente se importava com ele.
Levi não perdeu tempo em sair de casa.
–
Ian acordou com o sol banhando sua face. Abriu os olhos preguiçosamente, enquanto esticava os braços para cima da cabeça, se espreguiçando. Bocejou lentamente, enquanto olhava em volta. A sala de estar estava como sempre fora, nada havia mudado. Os sofás, a televisão no volume mudo e o balcão que levava à cozinha, com a porta de vidro para a varanda ao fundo.
Sentiu os músculos doerem quando voltou a uma posição de descanso. Os braços estavam aquecidos desde a fuga da noite passada. Certamente, não pôde negar aquilo para si, mesmo depois de acordar. Poderia alegar ser tudo um sonho, mas isso seria apenas se iludir temporariamente. Ainda sentia as mãos frias da ghoul envolta do pescoço, os dedos prontos para o estrangular, o bafo quente contra o pescoço desesperado, o frio metálico da arma de Toni.
Tremeu, mesmo estando coberto. Não era um frio físico, e sim mental. Um impulso que passava por todos os nervos do corpo, que fervia e esfriava o sangue nas veias. Os dedos tremiam. Envolveu a coberta fortemente, e viu-se como uma criança acanhada, contra todo o mundo.
Não sabia como seguir dali para frente. Não sabia como reagiria ao sair na rua e ver mais ghouls, encarar os olhos de serpente era uma hipótese que o fazia tremer. E seria tão fácil se só houvessem ghouls para o atormentar, mas, de acordo com Toni, existiam outras criaturas. Vislumbrou a menina ruiva, e pensou se todos os vampiros eram idênticos a ela, se tinham verdadeiramente aquela beleza alva e pálida. Certamente não, pensou. Ela, apesar de agora ser uma memória distante, ainda era fruto de sua cabeça, não podia se prender aquela ideia.
Era tão mísero perto daqueles seres. Um humano, um ordinário. Não era como o irmão, um feiticeiro, e, embora soubesse pouco o que Levi podia fazer, sabia que tinha habilidades extraordinárias. Via uma beleza sinistra envolta do irmão, uma aura que o deixava exposto, era como se descobrisse o real motivo de Levi sempre ser diferente dos demais a sua volta. Ele não se encaixava naquela sociedade porque realmente não pertencia a ela.
Ian se levantou quando concluiu que sentado não mudaria nada. Agora era ele contra o mundo. Foi até a cozinha, onde pegou a cafeteira em um reflexo padrão, despejou todo café que tinha em uma caneca e não demorou para secar o líquido escuro. Saiu na varanda enquanto degustava.
Era de tarde já. O sol já estava acima, dentre nuvens turbulentas. As chuvas nas últimas semanas diziam que hoje era um dia de paz temporária, mas as nuvens que vinham detrás das montanhas da Serra do Mar alegavam que os próximos dias seriam castigados de água e ventos fortes. Apesar de inverno, o céu estava com uma lustrosa coloração alaranjada, fazendo Ian se esquecer que havia vislumbrado o céu cinzento dos últimos dias.
Entrou de volta em casa. Deixou a caneca vazia em cima da pia, junto da louça acumulada de dois dias atrás. Era visível a falta de Patrícia naquela casa. Pratos sujos enfeitavam a cozinha inteira, aqui e ali, junto de copos vazios e com secreções de líquidos. Ian tinha que lavar aquilo, algo dentro de si sabia que Patrícia não voltaria tão cedo, e a pouca conversa com Toni no dia anterior confirmara isso de forma indireta. Já estava pronto para limpar a sujeira, quando um lampejo de ideia cortou as nuvens de pensamentos.
Deixou a louça ali, ela podia esperar.
A segunda gaveta no guarda-roupas da seu pai. Lá pode ter algo para te ajudar.
Passara uma grande parte da noite pensando sobre as palavras casuais de Toni. O que será que havia lá? Pensou em esperar Levi acordar para verificarem juntos, já que era tão filho de Fernando quanto Ian. Mas Levi já havia saído. Ian não aguentaria ficar mais tempo sem matar a curiosidade. Apressado, rumou até os quartos, subindo as escadas pulando os degraus. Entrou no quarto dos pais, quase teve o impulso de bater na porta.
Era o mesmo quarto de sempre. Mesmo vendo mundo com outros olhos, continuava o mesmo cômodo de sempre. A cama ao fundo, ao lado do guarda-roupas, à esquerda da penteadeira com um enorme espelho e madeira antiga. O tapete circular e verde no centro, enfeitando e dando um toque Patrícia a tudo.
Ian esperava ver coisas diferentes, como armas ocultas por feitiços penduradas nas paredes, mas suas expectativas estupefatas eram demais. Talvez teorizasse muito sobre os pais na noite passada que acabara exagerando. Relutante, rumou para onde Toni indicara. Abriu o guarda-roupas e uma papelada caiu aos seus pés.
Se assustou com o ruído ligeiro. Suspirou profundamente, tentando não gargalhar de si mesmo. Se agachou para pegar os papéis, viu o que eram. Envelopes e mais envelopes, abertos e rasgados. De início pensou serem cartas pessoais, estranhando quando viu os símbolos da companhia de energia, telefonia e de bancos. Arregalou os olhos. Eram uma família na dita classe média, Ian não pensou que teriam tantas contas acumuladas. Patrícia não comentava sobre isso, apesar de Ian perguntas as vezes. Ela dizia que a situação estava boa, ela mentia tanto.
As contas pareciam não ter fim. Ian via. Preços abusivos, uma mais cara que a outra. Tantos números que duvidou se apenas quatro pessoas gastariam aquilo tudo. Sentiu o celular vibrar no bolso.
Tália, pensou.
Pegou o aparelho apressado, finalmente pensando e lembrando claramente do dia anterior. Enquanto pensava a noite, sabia que esquecera de algo, era como um peso afundando no mar denso de seus pensamentos. A figura de Tália desaparecera por completo, se juntando as coisas ignoráveis. Ian se sentiu mal por pensar assim sobre a amiga, justo sobre Tália, que era como uma irmã.
Viu que as mensagens não eram dela, e suspirou de alívio. Olhou novamente e viu mais de dez recados pelo mesmo número. Eram textos curtos cheios de exclamações que chamaram sua atenção. Beth.
No final, todas as mensagens diziam a mesma coisa. Algo tinha acontecido com Toni aquela noite, logo depois de deixar Ian em casa. Uma espécie de acidente, que o deixara em um estado delicado. Ela precisava encontrar com ele no hospital, urgente.
Ian deixou tudo onde estava, os mistérios infantis que sustentava em sua mente podiam esperar.
–
A tarde quente não combinava com as nuvens cor de aço que sobrevoavam a cidade, de forma lenta e dolorosa, indicando que não iriam se retirar tão cedo. Apesar de quentes, os ventos eram úmidos e provocavam uma sensação de confusão. Ora era obrigado a colocar o casaco, ora tinha que tirá-lo para sobreviver.
Pegou o primeiro ônibus que viu, inconsequentemente, o mais demorado. Acabou por dar uma volta pela cidade em bairros desnecessários de se passar, até chegar a frente da Santa Casa, onde desceu, atropelando os próprios pés. Nunca tinha visto Beth tão desesperada antes. Ela ainda o mandava mensagens de texto, mesmo Ian dizendo já estar a caminho.
O hospital era uma construção bonita e antiga, por tanto, acabada e maltratada pelo tempo. Ocupava duas quadras, se resumindo em dois prédios achatados de cor branca, com detalhes em cor verde. Janelas acesas aqui e ali, mesmo ainda sendo quatro horas da tarde. As pessoas caminhavam pela rua sempre olhando involuntariamente para as portas de vidro, convidativas. Ian pensou o quão impossível era nenhuma daquelas pessoas já não estiveram lá dentro, sendo tratadas. A rede pública da cidade não era ruim, pelo contrário, ela muito elogiada quando comparada com a região em geral.
O salão era amplo. Um grande e espesso balcão de madeira ao fundo, com entalhes em cruz e símbolos bíblicos, duas atendentes do outro lado entregavam e revistavam papéis em suas mãos ágeis. Pacientes esperavam ansiosamente para serem chamados, pessoas de diversas índoles, com problemas e doenças. Paredes e chão branco se espalhando infinitamente. O local inteiro cheirava a álcool e biscoito de aveia.
Ian viu uma figura esguia e encolhida entre dois corredores. A mulher vestia o típico uniforme branco de enfermeiras do local, tão familiar quanto o da mãe de Ian. Os cabelos acinzentados presos em um coque improvisado, com um lápis transpassando o penteado. Os braços cruzados sobre o peito, que não parava de subir e descer. Os dedos cravejados de anéis lustrosos apertavam o antebraço, com força. Ian via a mão dela pressionando si mesma. Beth encarava o nada. Em certos aspectos, lembrava muito Patrícia. Ian quase nunca a via trabalhar, mas, quando via, ficava deslumbrado com a mãe no uniforme. Os cabelos escuros constatando completamente com o uniforme alvo. O mesmo rosto sério que Ian temia, imaginou como os pacientes não sentiam medo da mãe.
Mas Beth era diferente. Sempre sorria, com ternura. Era impossível sentir medo de Beth. Nunca duvidariam da índole daquela mulher de mechas cinzas e anéis brilhantes. Beth devia ser uma ótima chefe para Patrícia, Ian refletiu.
O olhar dela fixou-se nele, quando o captou na cena. Entre todas as pessoas ali, que passavam de um lado para o outro, agitadas, ela encarava apenas ele. Os olhos eram num tom de castanho escuro que realçavam a ansiedade do momento.
— Pronto. — Ian disse, para quebrar o silêncio entre eles. Beth apertou mais forte o braço. — Cheguei.
— Até que enfim. — ela se atropelava nas palavras. Tremia pelo corpo inteiro, os dedos inquietos. Deu dois passos afrente, virou-se para o corredor. — Vamos.
Juntos, rumaram por corredores que Ian tinha certeza que sozinho não teria acesso. Beth era a enfermeira chefe o local, muito respeitada e quase nunca barrada. Tinha que possuir acesso a todos os quartos e salas dali. Não demorou muito para chegarem no quarto 101, no segundo andar, depois de um curto lance de escadas. Ela abriu a porta, relutante. Olhava em volta, na dúvida se realmente podia confiar em Ian.
Era um quarto de inteiro comum. Paredes brancas com detalhes em verde, chão liso e alvo, com um tapete cor de musgo no centro. Aparelhos e mais aparelhos contra a parede e conectados em Toni, que repousava preguiçosamente em uma cama aparentemente confortável. Claro que a situação dele era delicada, estava preso a aparelhos que Ian não fazia a mínima ideia do que eram capazes de fazer. O brilho externo entrava pela enorme janela que quase pegava toda parede ao lado. Uma quarta pessoa estava lá, apreciava a vista, o trânsito abaixo.
Levi.
Ele estava como no dia anterior, e, como sempre, com seu olhar desinteressado. Segurava um livro grosso e velho na mão, quase com a ponta dos dedos. Os cabelos como sempre desarrumados, e o olhar com olheiras abaixo.
Ian engasgou quando viu o próprio irmão.
— Levi?
Levi se virou, relutante. Não o respondeu, apenas assentiu.
— Ele caiu de um prédio ontem. — Beth começou. Ela verificava os aparelhos. Uma caixa metálica ao lado apitava constantemente, deixando Ian inquieto. Antes dele perguntar detalhes, ela prosseguiu: — Por sorte, foi do segundo andar. Ele vai ficar bem, só precisa de cuidados.
— Como? — Ian perguntou, boquiaberto.
— A pergunta certa é quem o empurrou. — Levi o corrigiu, indiferente.
— Que seja. — Ian desdenhou. Olhou para Beth, aflita ao lado do marido. Ela havia se sentado ao lado dele, apertava a mão de Toni com os dedos cheios de anéis.
— Ghouls. — ela explicou, com poucas palavras. — provavelmente os mesmos que atacaram vocês ontem.
— O que acha que eles podem querer da gente? — Ian perguntou, preocupado.
— Mais nada, eu acho. Se os quisessem, teriam ido atrás de vocês, não de Toni. Temos inimigos nessa cidade também, Ian, isso é um fato. Há alguns anos atrás, seu pai e Toni mataram alguns ghouls por um bruxo, e eles voltaram agora. O que fizeram ontem, foi para atingir seu pai, não foi exatamente por vocês, entende?
— Então, ontem, foi só uma forma de fazer meu pai sofrer… — deduziu, sozinho. As palavras da mulher faziam todo o sentido agora, e a sua fúria era explicável. — Mas como meu pai não está na cidade, eles foram para o outro alvo..
— Toni. — ela completou. — Apesar disso, ainda quero que tenham cuidado. Ian, eu não posso fazer muito por você, infelizmente, mas quando o feitiço da sua mãe se dissipar por completo, você será o que já foi um dia. Espero que fique bem até lá.
O olhar cansado dela caiu sobre o marido, dormente. Toni parecia confortável ali, os olhos fechados com ternura, ela demoraria para acordar. Beth passava a mão pelo braço forte dele, alisando a pele que tanto amava. Ela sorriu com os lábios fechados. Beth se retirou por um instante, avisou que voltaria logo e apenas iria verificar os remédios de Toni.
Ian hesitou quando andou na direção de Levi. O irmão estava tão tranquilo ali, olhando para o povo no andar abaixo. Levi olhava as pessoas como realmente tinha que olhar, como diferentes.
— Está tudo diferente, não é mesmo? — Ian perguntou.
Levi não respondeu, muito menos anuiu. Apesar ignorou, como se Ian jamais tivesse dito nada. Os olhos cor de diamante contemplavam a beleza urbana entre os prédios do Centro. As ruas de paralelepípedos de pedra simples e antigas, as construções do século passado enfeitando as esquinas.
Ian apontou para o livro que Levi portava entre os dedos. Era surrado e gasto, as páginas ameaçavam escorregar entre as capas.
— O que é isso? — perguntou, interessado.
Levi o olhou, um olhar frio e distante.
— Se não se importa, por que pergunta? — rebateu, sem rodeios.
Ian foi atingido pelas palavras de peito aberto, sem fraquejar.
— Eu não me importo? Qual é o seu problema?! — elevou o tom de voz, impaciente. — Qual é, Levi, estamos juntos nessa. Não faça drama!
— Você diz ser tão bom, mas não foi capaz de me ajudar ontem, quando eu mais precisei.
— Eu também fui atacado!
— Mas e as outras vezes?! — Levi se alterou, Ian jurou ver uma lágrima nos olhos dele. Mas se enganou no instante seguinte, vendo apenas um brilho de raiva. — E quando eu apanhava na escola daqueles babacas? E quando eu explodi? Onde você estava mesmo?
— Eu quis apenas respeitar seu espaço! — Ian argumentou, apesar de saber estar errado.
— Talvez esse seja nosso problema, Ian! O espaço que há entre nós, talvez seja muito pequeno!
— Do que você está falando? Levi, eu não aguento mais esses seus chiliques, cara. Você já é grande, tem que parar de se comportar como se tivesse oito anos.
Levi abriu a boca para continuar a discutir, mas quando viu o vidro a sua frente rachou-se em vários pedaços, calou-se. A teia branca correu por toda a janela, junto ao um ruído e um estalo impactante, que os deixou quietos.
Os dedos de Levi vazavam faíscas verdes.
Ian o olhou de soslaio, rígido. Era a primeira vez que vira algo daquilo, e ficara fascinado. O que mais Levi podia fazer? O que era aquele fulgor entre os dedos?
Levi se virou e correu em direção a porta, ainda horrorizado com o que tinha acabado de fazer. Dessa vez não tinha conseguido controlar o fulgor, e o brilho esverdeado não se dissipava por completo. A fumaça girava agitada pelos dedos até os pulsos, Levi apenas encarava os próprios punhos como se não fossem dele.
Ele estava abrindo a porta, quando Ian o parou com suas palavras controladas.
— Levi! — o chamou, na esperança que dessa vez não o ignorasse. E, o surpreendendo, Levi não o fez. Olhou para Ian com o olhar baixo. — Fique, eu posso te ajudar.
Levi respirou fundo. Engoliu em seco.
— Não. — Ian temeu as palavras do irmão, eram a mais pura verdade. — Você não pode.
Levi saiu, batendo a porta atrás de si. Ian teve medo de Levi ter dito a verdade inegável, e ele realmente não podia o ajudar.
–
E a noite chegou como chegara todos os outros dias, lentamente e fria. As nuvens haviam se fechado mais ainda no céu, fazendo um oceano cinzento onde a lua cheia navegava atrás. O brilho leitoso era tampado pela cortina densa de nuvens carregadas, a chuva caia fina, mas era de certo que se intensificaria aos poucos da noite, apesar de Ian já considerar a noite madrugada, ou quase isso.
Eram onde horas e alguns minutos que não fazia questão de saber. Quando chegou em casa pelo começo do entardecer, mandara uma mensagem de texto para Tália se desculpa, até agora ela não havia respondido. Estava aflito com tudo aquilo e ainda mais com Tália, estaria ela bem? Ou, como Toni, fora também uma vítima daquelas criaturas. Tália era uma ordinária, e, apesar de bem treinada, ainda era uma simples humana, não conseguiria vencer um lobisomem sedento. Mas ela não seria caçada por um lobisomem, seria?
Ian afastou os pensamentos ruins da cabeça. Acabou adormecendo enquanto pensava no furacão que foram as últimas horas de sua vida. Levi, Toni, Beth, Tália, Ghouls, Infernais. Todos esses nomes e recordações voavam em sua mente, batendo forte em imagens e pensamentos teóricos. Acordou em plena noite, sem nada para fazer. Esperava Levi, que até agora não havia retornado. Ligou para o irmão duas vezes, na primeira, atendeu, mas desligou logo após de ouvir a voz de Ian do outro lado da linha. Talvez se fosse a calma e aveludada voz de Patrícia ali, ele daria continuidade a conversa.
Por impulso, consultou o celular novamente. Um papel escorregou do bolso, caindo no chão a frente do sofá. A pequena tira branca e amassada, com uma caligrafia leve e inusitada. O batom fortemente marcado contra o papel. Releu a mensagem, tentando descascar algum feitiço inexistente ali.
So. Quem seria aquela? Era claro que os eles que ela se referia no bilhete eram os ghouls, mas a dúvida sobre a pessoa ainda perpetuava na cabeça conturbada de Ian. Queria que Levi estivesse ali, para o ajudar. Levantou-se, quando lembrou que havia algo em aberto que não poderia deixar passar.
A gaveta ficava oculta entre dois cabides e um amontoado de roupa dobrada. Ian não teve dificuldades em a achar, principalmente depois que jogou o montante de roupa no chão, quando sua paciência se esgotara em segundo instante. Imaginou se, em dias atrás, não veria a gaveta e sim um espaço liso ali, focou-se, agora que estava ali, iria terminar o que começara de tarde. A madeira antiga deslizou seca, com um ronco que o fez puxar com mais força.
As armas balançaram quando Ian deu um tranco inesperado. Não sabia o que eram quando as viu, mas via o quão eram mortais. Certamente, aquilo era pouco, sabia que o pai tinha mais do que uma beretta antiga e uma faca prateada. A pistola — um modelo italiano de beretta, uma M92F — era prateada, com apenas os detalhes do cabo em couro negro. O machete era extenso e de lâmina fina, pronto para fatiar qualquer tipo de tecido. Haviam pentes de munição e arreios de couro também, espalhados por toda a gaveta rústica.
Ian pegou a beretta, fascinado. Então aquela era a arma que tanto sonhava, a pistola que usava todas as noites contra a garota ruiva, a sua arma. Não tremia ao vê-la, mas sentia o coração alterado, era como se encontrar com uma pessoa que não via há anos, sendo o toque dele contra o metal gelado o abraço que os ligava novamente. A estranha sensação de já tê-la usado o acompanhou enquanto ele mexeu na trava, e escutou o clip. Verificou a munição, viu que o pente estava lotado de projeteis de ferro. Buscou os arreios de couro ali, e achou o coldre de pano, que pendeu no cinto, deixando a arma ali. Sentia ela como parte de si, como sempre sentiu.
O cheiro de papel queimado assolou o local. Por segundos, pensou ter causado algum incêndio de maneira involuntária, mas viu uma pequena linha de fumaça acinzentada subindo acima da escrivaninha do quarto. Um papel queimava em efeito reverso, aparecendo conforma as cinzas avançavam. Logo a fumaça parou, fixa e estável, subindo até o teto e se dissipando, o papel já estava inteiro.
“ Preciso falar com você, urgente. Se receber isso, por favor, me encontre no Estrela, sem falta, até as 00:00. Não me desaponte. Prometo que dessa vez não vai se arrepender, é algo que vai te ajudar, e muito. É um trabalho urgente, sério.
– So”
Outro bilhete daquela pessoa, mas esse não tinha marca de lábios. Pelo contrário, Ian não conseguia sentir descontração alguma lendo as palavras em letra extensa e tensa. Enrijeceu os ombros, sentindo um calafrio pela espinha. Aquelas palavras escritas, eram para o pai, não para ele, não deveria nem ao menos estar lendo aquilo. Seja quem fosse, So desejava ver Fernando, e não Ian.
Ian deu de ombros, lembrando na situação que se encontrava.
Não podia ir pela ética agora. Não mais.
–
O céu coberto de nuvens escuras e sem estrelas o recebeu. Já era a quinta rua que virava, ainda com uma estranha sensação pelo corpo, o desespero de So o deixava inquieto o suficiente para ele ir com os braços cruzados boa parte do caminho. O Estrela, aquele nome lhe era familiar, era, com certeza, mais um dos lugares ocultos pelo feitiço da mãe. Estranhamente, não lembrava-se completamente do Estrela, nem o que era, e sim o caminho para lá. Havia feito o trajeto sempre de carro, e tinha de admitir que a pé era um pouco longe.
Não se lembrava da noite, e de sua beleza e peculiaridade. Era estranho ver a cidade inteira dormindo, as luzes ao longe de poucas janelas acesas sendo as únicas estrelas ali. Os postes iluminavam as ruas lustradas de água da chuva, que caia fina e calma. Ian não levava guarda-chuva, apenas um casaco com capuz, que ajudava a disfarçar o coldre na cintura e a machete presa em uma capa de couro, mesmo apesar de saber que ordinários não os veriam, por ser revestidos com feitiços de disfarce. Sentia-se livre, pronto para correr e fazer o que quisesse ali, sem ninguém o ver ou notar. Em contraparte, essa era a hora onde a outra sociedade se manifestava. Criaturas noturnas saiam de suas tocas, e se revelavam ao mundo.
E as ruas frias de Argema se desfizeram quando ele adentrou em Lima. Os comércios fechados a essa hora eram peças apagadas em um tabuleiro de xadrez fantasma. Bastou virar na primeira rua e seguir por uma ruela escura, guiado pela consciência. Logo avistou o único letreiro ainda não apagado. As letras piscavam improvisadamente, em tons de magenta e verde. Algumas letras não acendiam, mas não era difícil ver as palavras que elas formavam.
Estrela da Noite.
As memórias distantes vieram a tona, mas continuaram a não serem claramente visíveis. Agora Ian realmente sentia já ter estado ali, já ter queimado os olhos de tanto observar as letras piscantes, já ter sentido o cheiro ruim do beco onde se localizava. Tentava tatear a bruma do pensamento, mas ela escapava entre os dedos.
Andou relutante até a porta dupla feita de metal. Ela estava entreaberta, exibindo brilhos e barulhos abafados da parte interna. Engoliu em seco antes de entrar. Era decisivo aquilo, entrando ali, estava deixando tudo para trás. Não tinha como voltar.
Tudo piscava. A primeira impressão que teve foi captar a localização de todas as mini-lâmpadas magentas que piscavam na imensidão verde projetada por lâmpadas verdes que se projetavam do teto. As estrelas cor-de-rosa piscavam ao longe, confundindo-o. Uma fumaça densa saia de todos os cantos, empesteando o local. Tinha cheiro mentolado, o que o deixava levemente enjoado. O fluxo de pessoas ali era intenso. Haviam homens e mulher sentados em sofás espalhados pelo local, e eles riam e conversavam, com copos em suas mãos. Um balcão ao fundo exibia bebidas alcoólicas, junto com o que eram sacos de um líquido vermelho.
Sangue.
Eram bolsas de sangue, penduradas sob o teto. Ian percebeu que a bebida que todas degustavam, apesar das múltiplas cores do recinto, era vermelha, num tom escuro. Sentiu vertigem, e soube no mesmo instante o que sentia de ruim ao adentrar no Estrela. Ali era o covil dos vampiros, não era estranho beber sangue. Agradeceu por nenhum deles ter notado sua presença, além do segurança do local, um homem negro alto e corpulento, que mais parecia-se com uma porta. Ele esbravejou para Ian, insatisfeito, mas ele prosseguiu no mesmo instante. Viu que do canto da boca escapava um dos incisivos de tamanho exagerado.
Então que se perguntou algo crucial. Quem ali era a So?
Poderia ser qualquer um dos rostos pálidos. Não poderia ir perguntando de mesa em mesa, seria algo infantil a se fazer. Encostou-se no balcão, estático. Tentava manter a normalidade, mas estava difícil. Qualquer deslize resultaria em ser janta de vampiros. A sensação de estar sendo fuzilado por olhares e ridicularizado por todos não ajudava na sua segurança pessoal.
A atendente chegou mais perto, o encarando fortemente. Era uma mulher, no começo da fase adulta. Tinha cabelos escuros que alçavam à cintura, cortados em uma franja na parte da frente, que o cobria um dos olhos cor de carvão. Ela sorriu, contente. Os lábios grossos e vermelhos.
— Pensei que tivesse chamado seu pai. — ela disse, entretida. Se apoiou no balcão, os cabelos caindo como uma cortina escura.
Ian se surpreendeu, mas não perdeu a postura.
— Ele não pôde vir. — começou, contornando.
— Ian, você é um péssimo mentiroso. — ela disse. Soltou um olhar sacana para ele — Um pouco pior que seu pai.
— Quem é você? —Ian perguntou, pouco situado na história. Queria saber porque aquela mulher sabia seu nome, e quem era ela para conhecer tão bem seu pai.
— Solange. — se apresentou, com uma postura despojada. Avançou para beijar a bochecha dele, mas Ian continuou imóvel. Era uma linda mulher, ainda mais quando refletida com todas aquelas luzes. Tinhas curvas que deixariam qualquer homem louco de desejo. Os seios marcavam na jaqueta de couro escuro que vestia, e a cintura acentuada na calça. — Apesar de eu estar fazendo isso pela segunda vez, é um prazer, Ian.
— Então você é a amante do meu pai. —Ian afirmou mesmo que incerto, com um riso sem graça nos lábios.
— Amante? — ela repetiu, sem entender, — O quê? Não, bobinho, sou apenas uma grande amiga de seu pai. — Ian não percebeu quando se perdeu encarando os olhos dela, eram escuros como a noite mais densa que já vira. Ela brincava com os dedos, debruçada no balcão. Solange colocou o indicador contra o peito de Ian, mordeu os lábios e subiu até o queixo. — Fernando era fiel a sua mãe, Ian, infelizmente nunca cedeu. — O jeito que ela dizia as palavas fazia Ian se excitar e se assustar ao mesmo tempo. Era sombria, tinha de admitir, temia toda vez que via as presas no intervalo das palavas. — Você é muito parecido com ele. — ela contornou o rosto dele, estalou a una quando terminou. — Você é fiel a sua namorada?
— Talvez se eu tivesse uma, eu seria. — respondeu, sincero.
— Eu gosto disso. — ela comentou, brevemente. As palavras da boca vermelha atingiam Ian com uma intensidade que nem ele sabia o que iria acontecer. Solange era provocante, e ela, com certeza, sabia disso, usava seu charme combinado com sua inteligência, ela não era burra. — Já pensou, passar a eternidade com uma pessoa só, que romântico. Eu gosto disso.
— Não sei. — respondeu Ian, incerto. — Deve ser ruim não ver o sol e viver de sangue.
Ela tirou os dedos do rosto dele. O rubi que pendia no colar tremeu.
— Onde eu estava com a cabeça, não é mesmo? — Solange estalou os lábios, lentamente, retornou a postura normal. Ian não soube o que sentiu, ela era tão perfeita, e estava na sua frente, a poucos centrossimetria dele, se arrependeu de resistir ao impulso de beijá-la. Ela virou-se para o lado, parecendo encarar a multidão. — Você é tão novo. Acabaria com sua vida, não é mesmo? — ela suspirou quando Ian não respondeu nada, e permaneceu imóvel. — Então, o que veio fazer aqui no lugar de seu pai?
— Eu preciso de um trabalho, vou assumir o lugar dele enquanto ele está fora. — falou, sólido. Ian estava passando a confiança que precisava, pelo menos pensava que estava. Vi que está com uns problemas.
Solange se calou por poucos segundos, antes de falar.
— Ah, os lobisomens. — Ela revirou os olhos. — O que mais pode incomodar? Um colega meu foi morto ontem, obviamente por um lycan, mas como as coisas já não estão boas, não estou afim de piorar e fazer justiça com as próprias mãos. Entende?
Entendo, pensou. Já havia feito isso uma vez, não seria problema para ele fazer de novo, mesmo que a memória da menina ruiva ainda fosse um vislumbre distante.
— Mas é claro. — respondeu, relutante.
Enquanto falava mais sobre o local onde ele econtraria com os lobisomens — de acordo com ela, um prédio não muito distante dali, e abandonado — Ian ficava cada vez mais impressionado com ela. Lidava com tudo com a naturalidade que não tinha. Certamente que havia adquirido a casualidade ao longo dos anos no meio dos infernais, algo dentro de Ian dizia que ela não era uma adolescente indo para a vida adulta, e sim uma mulher com mais de cem anos. Em um momento da conversa, Solange ofereceu bebida a ele, que recusou. Quando disse que estava saindo, Ian recebeu um olhar dela, que o fez certeza das pretensões daquela vampira.
Diferente de todos ali, Solange o olhava com ternura. Mas Ian não queria ter certeza, ela não iria querer nada com um ordinário como ele, apesar de cair de amores por seu pai.
Ian saiu do bar exatamente como entrou, recebendo olhares desconfiados de todos os vampiros ali. Era desconfortável para ele pensar que Solange poderia pagá-lo para matar qualquer um daqueles ali. Ian não viu quando esbarrou na garçonete. Ela tropeçou, junto a ele, os corpos ocupando praticamente o mesmo espaço. Quase caíram, mas ela não perdeu o equilíbrio. Se levantaram, e, apesar de não conseguir captar muito as feições dela dentre as luzes piscantes, viu que era uma menina quase da sua idade, linda e com o rosto fino.
Os olhos verdes se destacavam ali. Os cabelos castanhos caiam até o pescoço, onde terminavam em pontas arrepiadas. A boca era uma linha fina e rosada, que ria levemente a ele.
— Desculpas. — ela disse. No mesmo instante, apesar do pouco conhecimento que tinha, Ian soube que ela não era uma vampira. Não foi por notar a falta de presas que não tinha na boca, e sim pela forma que dizia. Calorosa, humana. — Mil perdões. — Não esperou a resposta dele, e logo saiu andando.
Continuou estático, pensando sobre o que uma menina ordinária estava fazendo no meio dos vampiros.
–
Levi acordou com uma enorme dor no pescoço.
Dormira a tarde inteira, enquanto lia um grimório dado por Beth. Ela dizia que aquilo o ajudaria a entender sua natureza, já que a mesma havia escrito. E Levi tinha que concordar, mesmo que não o tomo não esclarecera todas as suas dúvidas, era útil paa o ajudar a aprender mais sobre as próprias habilidades. Acabou se empolgado e gastou a tarde inteira em frente as páginas surradas e gastas, cheias de anotações e palavras-cruzadas, que a princípio não entendeu, mas as letras foram e desmistificando aos poucos, como se uma bruma se dissipando.
Não soube ao certo quando dormiu, mas o fez. O livro agora repousava aberto no chão, e Levi mergulhou para o pegar.
Alex não havia mandado mensagem alguma naquele dia, o que, estranhamente, o deixava calmo. Agora o que mais queria era distancia de sua vida ordinária, poderia envolver em problemas aqueles a quem gostava, sendo a bomba relógio que era. Mais cedo, teve muito medo de machucar o irmão com o vidro do hospital. Poderia ter rachado o quarto inteiro, caso se descontrolasse mais ainda. Parte do nervoso naquele momento foi resultado de sua própria contensão. Era como se prender em uma jaula de transparente junto ao uma bomba, e você tendo a chave o tempo inteiro.
Levi se levantou do sofá onde dormira pela tarde inteira. Viu as horas no relógio, já era de madrugada e Ian não estava em casa. Também viu o celular do irmão em cma da mesa de centro, repousando, esperando o dono chegar. Foi até o banheiro. As luzes brancas queimaram-lhe a vista, como sempre faziam quando ele acordara. Não gastou tempo lavando o rosto, debruçado na frente do espelho. Viu as olheiras arroxeadas embaixo dos olhos, subindo e deixando os olhos fundos.
Aqueles olhos da cor do mais raro cristal. Eram a assinatura de qualquer feiticeiro. Lera que feiticeiros, diferente de bruxos ou magos, tinham uma espécie de sangue abençoado correndo pelas veias. As lendas rezavam superstições, dizendo ser sangue de anjo, ou dos primeiros homens que habitaram a Terra, mas Levi não se interessou muito. Queria apenas uma resposta, algo que o fizesse não parecer um estranho para si mesmo. Não o via ali, via alguém com poder, com habilidades ocultas que poderiam mudar o rumo de uma vida, não o jovem quieto que era.
Espiou a madrugada pela janela. As ruas calmas e praticamente mortas. Pertencia aquilo, era, mesmo não sendo, um infernal, um ser da noite, que tinha desejos sujos. Não podia evitar a fascinação pela zero-hora, de ver a cidade deserta e ter a liberdade da noite. Pertencia aquilo, mais do que nunca.
Levi procurou seu casaco, levantou o capuz e saiu, sem objetivo em mente.
–
O lar do lobisomem era mais do que um prédio abandonado, era um prédio em ruínas.
Diferente dos vampiros, os lycans não pareciam se importar com a estética, não tanto como seus rivais. Não havia luzes piscantes ali, nem fumaça, nem bebidas, muito menos música. O único som que Ian ouvia era um uivo que cortava a noite, indo em direção a lua cheia.
Ian não achou a porta, apesar de o local ser cercado de destroços de madeira. Entrou por uma fissura entre duas paredes caídas. Se esgueirou para não se ralar no concreto rústico. Sentia a pistola o acompanhar, presa na cintura. O machete também estava presa ao cinto, com sua lâmina prateada guardada para a hora certa.
O lado de dentro não o surpreendeu. Era como esperava: mais ruínas. Destroços por todos os lados. Madeira, concreto, gesso, poeira era como oxigênio ali. Tossiu algumas vezes, até que a garganta parou de coçar. Sentiu um forte cheiro de podridão, e percebeu que estava pisando em uma enorme poça de sangue. O líquido escarlate se espalhava por todo o local. Era mais escuro que o habitual, principalmente ali, que a luminosidade era pouca. Ian pegou no bolso a lanterna que achara na gaveta do pai, e o brilho forte tomou conta do local.
Se arrependeu de o fazer.
Viu restos de seres, por todos os cantos. A poça de sengue abaixo de si era na verdade uma piscina para os esqueletos de cachorros, gatos, cavalos, e pessoas. Crânios humanos jaziam por todos os lados, junto com tíbias e fêmures. A bile subiu pela boca, mas não vomitou. A mão coreu até a pistola, em um ato reflexivo. Não queria ser o próximo a nadar ali. Com a lanterna em uma mão, e a pistola — em riste — na outra, prosseguiu. Ouvia apenas os próprios passos ali no espaço quadrado. Ao fundo, havia uma escadaria, era seu único caminho.
Com passos controlados, continuou descendo. A mão que segurava a lanterna tremia. A luz falhava aos poucos, e Ian temeu que ela o abandonasse. Chegou a base da escada, quando seu peito apertou. Estava em um espaço quadrado de paredes cor de chumbo.
Ao fundo, dois olhos amarelados brilhavam.
Ouviu a primeira mordida ao longe, nas sombras mais densas, onde nem a luz ameaçava chegar. A segunda veio seguida da terceira, e a quarta chegou antes que pudesse contar. Várias outras, junto com o choro agudo do que parecia ser uma criança. As pernas de Ian bambearam, ele não queria subir a lanterna. Não queria mais aquilo para si. A beretta estava a ponto de cair no chão.
Suspirou fundo. Apertou os dedos envolta do cabo da arma, o indicador tomou posição no gatilho.
Levantou a luz.
A cena que viu por segundos foi rápida demais para que pudesse entender. Mas viu a besta. O lobisomem — um lobo enorme de pelugem escura, mais de três metros — estava em cima de uma criança, uma garotinha, que chorava por não ter mais as pernas. Ian continuou apontando a lanterna, via a baba escorrendo da boca faminta e as garras dilacerando aquela carne tão nova. O sangue pingava da boca.
A pistola levantou-se sozinha, na direção certa para o disparo. Ian fez o que o corpo mandou. Um, dois, três, quatro, cinco. Não soube quantos, todavia soube que atirou o suficiente para que o lycan gritasse de dor. O cheiro de pólvora empesteou o local, o tintilar das capsulas que se chocavam com o chão de concreto.
Um urro estrondoso o fez Ian recuar, enquanto o lobisomem avançava. Ian continuou atirando, e a basta correu em sua direção. Logo ele encontrou a parede, que o recebeu friamente, denunciando o fim do caminho. Não havia para onde fugir. O clique que indicavam o termino dos disparos, o fez acelerar. Não teria tempo para recarregar, o lobisomem estava perto demais. Estava raivoso, espumando algo denso e rosado no boca. Sangue vazava dos pequenos buracos abertos pelos tiros, mas no momento não faziam muito efeito.
A besta saltou contra Ian. Ele tentou se esquivar, mas caiu no chão, abaixo do lycan. As garras penetraram os ombros, rasgando-lhe a jaqueta e a pele. O sangue dele espirrou para os lados, manchando sua própria face. Ian jogou a luz da lanterna contra os olhos amarelados a sua frente, e foi o suficiente para atordoar o inimigo. Conseguiu libertar o braço, que pegou o machete no cinto.
A faca não fez barulho ao penetrar na carne do lobisomem, e rasgar os tecidos interno. Ian continuou aprofundando mais, com um ódio que despertara dentro de si.O lycan gritou de dor, um agudo que fez Ian lembrar que, mesmo sendo aquela besta de dentes pontudos, era um humano ali de baixo. Um menino, ou uma mulher jeitosa, que não tinha culpa de se transformar. No entanto, seu ódio não cessou. Como poderia ter feito aquilo com aquela garotinha, tinha que morrer.
A prata em contato com a pele de licantropo, começou a queimar, e uma fumaça com cheiro de carne podre exalou por todos os lados. Quando ele abriu a boca novamente para uivar de dor, a única coisa que saiu foi vapor.
Finalizado, Ian jogou o corpo da besta para o lado. Os olhos estavam estáticos e presos em um ponto fixo. Se levantou, com uma enorme dor na cabeça. Batera a cabeça quando caíra no chão, e a concussão doía agudamente.
Espalmou as mãos manchadas de sangue de lobisomem. Estavam quentes, agitadas pela adrenalina do momento.
Achou a beretta no chão, a limpou quando pegou-a. Não tinha mais nada a fazer ali.
–
Solange o esperava em uma esquina, do lado de fora do prédio em ruínas.
Estava apoiada em uma parede de um prédio qualquer, deixando vento do final da madrugada soprar seus cabelos escuros. O rosto encarava a luz, o olhar pensativo e complexo, que carregavam muitos anos de vida. Estava inquieta, e mordia o lábio inferior em um costume já evidente. Os saltos das botas a deixavam enorme.
— Pensei que você não voltaria. — ela disse, os olhos apagados ao olhar para ele.
— Uma boa noite para você também. — Ian respondeu. Encarou as feridas nos ombros, ardiam e o faziam chiar quando lembravam que elas estavam ali.
Solange tocou o ombro dele com seus dedos frios, ela avaliou a textura do sangue. As presas cresceram ao ponto de escaparem da boca. Ela contraiu o ato, colocando a mão na frente. Quando tirou a mão de cima dos lábios, estava sorrindo.
— Mil perdões. Há coisas que não podemos evitar.
— Eu entendo. — foi o que se limitou a responder.
— Samuel era um cara durão, pensei que não seria fácil mesmo.
— Ele era um animal descontrolado. — Ian lembrou-se da cena que viu. Gostaria de vomitar, mas não o fez.
— Nem me fale. — ela falou, entredentes. Ainda não abria a boca totalmente, e Ian pensou no impulso dela em avançar nele naquele momento. Era uma vampira, acima de tudo, sangue era seu maior desejo. Ela enfiou a mão em um dos bolsos da jaqueta de couro lustroso. — Enfim, aqui está sua parte.
Ian pegou as notas de cem que ela deu, todas presas em um elástico. Não contou na hora, mas sentiu o volume, eram muitas. Não sabia se deveria agradecer, mas o fez.
— Obrigado. — falou, vislumbrando o volume das notas. Sua cabeça voou para quando estava no bar, e o rosto daquela menina apareceu dentro seus pensamentos. Solange o encarou curiosa, já era para ele não estar mais ali.
— Mais alguma coisa? — perguntou ela.
— Apenas uma informação. — começou, tentando não parecer uma criança desesperada. — Aquela menina, que trabalha no Estrela. Ela não é uma vampira.
— Ah, a esquisita. — Solange falava com desprezo. — Desculpe, mas eu acho que não tenho muito o que te falar. Mikael, nosso líder, apareceu com ela há dois dias, não sabemos o que ele quer com ela.
Ian não prolongou muito a situação. Se despediu de Solange, ainda com a curiosidade não saciada. A vampira parecia saber mais, mas não estava com vontade de partilhar. Solange desapareceu quando ele virou de costas, como uma sombra no final da madrugada, como um vampiro.
–
Tália quase foi engolida por mais um beijo.
Já não tinha mais controle do que acontecia ali. A mão dela corria pelo corpo do rapaz, explorando lugares rijos que a excitavam. O peitoral dele contra o peito seminu dela. Os músculos duros como pedra, a pele fria trazendo um estranho prazer. Beijar um vampiro era diferente, não só no sabor que aquilo tinha, mas sim pelo fato deles serem mais rígidos do que meninos ordinários. As presas roçavam na língua dela. O vampiro batalhava por espaço na boca dela também, tendo moderação ao aplicar sua força. As mãos geladas dele a envolviam, e os braços sem vida a levantaram e a jogaram em cima da mesa.
Tália empurrou com seu quadril, sem querer, vários livros e objetos que não soube identificar. Seu calor corporal era suficiente para saciar a falta de vida no corpo de Cássio, o vampiro que conhecera há dois dias. Ele era um cara legal, e, apesar não nunca firmarem um relacionamento sério, aquela não era a primeira vez que aquilo acontecia. Mas Tália vetava o desejo dele na última hora, o deixando cada vez mais louco por aquele momento.
Ele parou de beijar a boca dela, desceu os lábios para o pescoço. Ela sentiu um calafrio depois que um pensamento percorreu sua mente, mas afastou as possibilidades, se concentrou apenas no momento. Cássio beijou sua nuca, calma e controladamente. Ela se afastou dele, e viu seu rosto pálido e cabelos enrolados.
Tália correu até a cama, onde pulou. Cássio foi logo atrás. Tália o abraçou e beijou seu rosto inteiro. Ela o deixou por baixo, ficando com a cintura acima da dele. Ainda estavam com as roupas inferiores. Tália ia desabotoando os botões da calça de Cássio, quando deu outro beijo dele. Esse foi o mais forte.
Ela esticou os braços até a cabeceira da cama. Ela contornou os muculos dos braços dele com seus dedos rápidos. Juntaram as mãos perto dos ferros e Cássio se perdeu nos beijos dela, e na intensidade dela. Era como fogo, que o queimava aos poucos de desejo.
Tália parou com os beijos. Cássio implorou aos sussurros para ela continuar, mas ela não o fez. Tália se levantou, e saiu da cama. Ele perguntou o que ela estava fazendo.
— Estou pegando uma coisa. — ela dizia quando estava na sala, procurando algo na bolso que atirou no sofá quando chegou.
Tália voltou sorrindo, agarrou o batente da porta de um jeito ousado. Mordia os lábios.
— Então, o que você pegou para mim? — Cássio perguntou, com o olhar cerrado e as presas a mostra.
Tália se aproximou, o hálito quente dela contra o corpo frio dele. Ele estava muito excitado, ela se lamentava pelo que estava prestes a fazer.
— Isso. — ela deixou o crucifixo em cima do peito dele.
A cruz ardeu em contato com a pele do vampiro. A marca escura começou a se alastrar. Cássio gritou e se contorceu na cama, querendo escapar, mas suas mãos estavam presas com cordas no batente da cama. Tália tirou o objeto sacro do peitoral do infernal.
— O que você quer? — ele perguntou, desesperado.
— Só uma informaçãozinha. — ela disse, calma e fria. Ela brincava com ele, passando o dedo na marca que ficara ali. Estava em cima dele novamente, e mexia o quadril de um lado para o outro, o tentando. Pegou o celular e mostrou a imagem da garota de cabelos castanhos para ele. — Eu sei que você conhece ela. Onde ela está?
Cássio franziu o cenho, confuso.
— Ela quem? — perguntou. — Não há nada na tela…
Tália sentiu o celular vibrar nos dedos e se sentiu idiota por mostrar a tela de chamada para o vampiro. Se levantou, observava a rua do apartamento enquanto atendia. O movimento invisível no final da madrugada.
— Daniel? — ela falou, incerta. — O que foi dessa vez? É bom que seja algo útil!
A voz do outro lado da linha era cansada e preguiçosa, de quem havia acabado de acordar.
— Tália, só liguei para falar que não precisa mais. — o tom ameno de Daniel a estressava. Ele era tão suave, o seu oposto.
— Como não?! — inquiriu, impaciente.
— Eu descobri, hoje de madrugada, que ela está morando aqui, no apertamento debaixo. Não é uma grande coincidência?
Tália se conteve para não arremessar o celular longe. Soltou todo o ar em uma baforada que fez Daniel ter medo do outro lado da linha.
— Então eu quase transei com um vampiro pra nada?! — ela gritou. — Quando era só você olhar para o lado?!
— Fala como se eu nunca tivesse te ajudado. — ela estalou a língua em repúdio, e teve a breve vontade de socar a cara dele. — Foi apenas para isso mesmo que eu te liguei. Até.
Daniel desligou antes dela responder e continuar gritando com ele. Odiava quando ele o fazia. Voltou-se para Cássio. Via o vampiro acuado como um morcego assutado em um canto escuro. A expressão caída, aquele olhar murcho contra ela.
— Desculpas por te envolver nisso… — começou, sem fôlego para continuar.
— Sem problemas, isso morre aqui. — ele atropelava as próprias palavras, ainda com desespero. — Eu prometo!
— Acho que não. — Tália deixou os lábios rígidos, puxou o maxilar. — A única coisa que vai morrer aqui é você. Por que Daniel tinha que estragar tudo? — ela reclamou com si mesma. Levantou uma das mãos e estalou os dedos, uma chispa de fogo nasceu. Se tornou uma brasa logo, quando ela se concentrou. Sabia que vampiros e fogo não eram uma boa combinação. Aproximou lentamente a chama de Cássio. — Eu não queria que isso terminasse assim. Você até que é bonitinho.
Ela fez o que tinha que fazer.
E o lugar se acabou em chamas.
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