Cidade Sitiada

9 Capítulo 08: La bomba tucumana


Notas iniciais
Aqui conheceremos mais do delegado Porcel.

Buenos Aires continuava na mesma situação: ninguém saía, ninguém falava, nada acontecia.


Aquela tarde definiria o começo do fim daquele horror, pelo menos era o que Porcel achava enquanto se preparava para sair, porém, sua certeza logo foi invadida por uma sensação profundamente ruim, como se sua intuição lhe falasse que tivesse muito cuidado com os passos que daria naquela tarde e nos outros que teria de dar.


— Preciso ser verdadeiramente forte, por Bella, Edward e aqueles que comigo se importam de verdade. Você sabe disso, não é? – disse Porcel apreensivo.


— Antonino, você sabe que poderá contar com aquilo que lhe dei quando você ainda era pequeno. Não tenha medo de usá-lo se precisar, mas, use com cuidado. Lembre-se, que isso é tão perigoso quanto o dom de Edward. Se agir imprudentemente, você pode não sair vivo – respondeu uma voz que somente o delegado sabia de onde vinha.


— Eu sei disso. Mas nunca lhe perguntei o porquê de me dar isso – disse o delegado aparentemente para o nada.


— Você tem um forte senso de justiça, piedade e amor junto com sua força de vontade inabalável. É por isso que a promotora maligna quer sua vida. Recusei-me a dar ela o que dei em suas mãos, porque elas são tão puras quanto seu coração incorruptível – a voz falava com alegria e exultação.


Maior do que o medo certamente era a coragem do delegado, que, desde seu início na polícia, era conhecido como “La bomba tucumana”.


O retrato na parede direita, que mostrava o então policial recém-formado Antonino Porcel, dizia que ninguém dava algo pelo garoto magro e franzino que entrara para a Academia Policial logo após a formatura do Ensino Secundário com muita conversa por parte da madrinha do rapaz, que alegara que apesar da falta de físico, lhe sobrava senso de justiça e coragem, mas que ao fim de dois semestres de curso, surpreendera desde o faxineiro até os superiores pela sua determinação em fazer o melhor que conseguisse e pela coragem em enfrentar as mais perigosas situações.


Especialmente quando ainda era um simples policial de tráfego pouco após sua formatura e saiu em perseguição a um perigoso fugitivo, ignorando as ordens superiores em nome de justiça por cinco vítimas de assassinato. A desobediência inicialmente valeria uma suspensão ou até mesmo expulsão em razão do risco causado, mas o chefe policial da época, impressionado pela corajosa atitude do oficial, o promoveu a policial investigativo e dessa forma, Porcel, continuando a trabalhar em nome do bem e da justiça, construíra uma sólida e meteórica carreira de policial, sendo promovido delegado com menos de trinta anos e assim tendo completado 32 anos no cargo e no mesmo departamento.


Ele sabia, entretanto, que embora houvesse aqueles que lutavam pelo amor e justiça, existiam outros que só se importavam com os próprios umbigos e se preciso fosse, cometiam horrendos crimes em nome de seus ideais deturpados, razão pela qual Antonino arriscara seriamente sua vida e carreira ajudando militantes antiditadura durante a década de setenta e início dos anos oitenta, pois sabia que muitos deles só desejavam que a Argentina fosse um país livre. Pensava em tudo isso e bem mais quando seu telefone tocara...


— Delegado? O senhor não ficou de vir nos encontrar na casa do Belmondo?


— Dios mío, Marujita! Perdí la hora! Estoy llegando en media hora! – exclamou ele pegando as chaves do carro e saindo.


— O delegado deve ter ficado ocupado com alguma coisa no departamento, pois ele não parece ser do tipo que se atrasa – disse Leopoldo, que havia recebido alguns minutos atrás o casal Cullen, os irmãos Morresi, Maruja e Lisandro.


— O Porcel deve estar saindo de casa agora. Ele deixou um colega meu no lugar dele porque queria almoçar com a Chinita – disse Maruja lembrando-se de quando Antonino ligara.


— Sei que o delegado Porcel sabe se cuidar sozinho, mas sair por essa cidade deserta dá medo – disse Edward tomando uma xícara de café feita por uma das criadas de Leopoldo.


— Mas isso logo terminará, Edward. É só encontrarmos os amuletos e os destruirmos – disse Belmondo olhando o caldeirão onde a poção que destruía as “Horcruxes” estava sendo feita.


— É, mas nós temos que pensar que, se o Mariano está se dando a todo esse trabalho, ele vai assegurar que ninguém atrapalhe, então, temos que estar prontos para enfrentar qualquer coisa no caminho, inclusive demônios. E é nessa parte onde eu e Leona entramos – disse José Armando ajeitando o bracelete que continha a invocação da Witchblade.


— Por um momento eu havia esquecido isso. Droga, eu odeio esquecer detalhes importantes, mas com todo esse stress, anda complicado manter a cabeça no lugar. Por conta disso, ultimamente eu ando bebendo mais sangue do que costumo – disse o espanhol, fazendo Bella tremer um pouco, mas ninguém notara o temor desta.


— Precisamos de todo o tipo de armas e magias porque se tivermos que enfrentar demônios e afins, vai ter que ser desse jeito – disse Lisandro.

— Em assunto de magias, María Luna poderá nos ajudar. Porém, há uma coisa que pode nos ajudar, mas no momento eu ainda não posso dizer o que é, pois não sei se é somente uma lenda ou se alguém tem – Leopoldo pensava e verbalizava.

— Se é o que estou pensando, isso não passa de lenda pelo que meu tio disse. Ninguém consegue semelhante coisa – disse Molina ao passo que Edward o olhou: — José Armando, com tudo o que vimos até agora, alguma coisa ser lenda parece uma piada.

— Isso, se for o que penso e lógico, se real, é muito perigoso e somente com muito treino pode-se garantir que não haverá riscos à vida e a integridade de quem o faz – disse o policial.

— Mas o que pode ser tão incrivelmente perigoso? – perguntou Bella, que se baseando nos estudos ocultistas da mãe, já começava a adivinhar do que eles falavam e confessava a si mesma que isso a apavorava.

— É melhor não falarmos sobre isso ainda, Bella. Pode ser que não precisemos e até mesmo pode não existir. Mas não vou negar que isso seria de grande ajuda – Leopoldo sorriu levemente.

— Por onde vamos começar a buscar os amuletos? Temos como rastreá-los? Localizamos, mas, não sabemos em que parte dos bairros esses troços estão – disse Maruja enfastiada.

— O delegado garantiu que iria olhar com cuidado os mapas dos locais, baseado no desenho sugerido pela menina, para dizer onde devemos ir – Belmondo folheava um livro sobre espíritos e rituais enquanto falava.

Aeroporto Internacional Ministro Pistarini (de Ezeiza), cinco minutos depois...

— Agora eu só preciso de um transporte para Buenos Aires e lá vou encontrar a Rose. Meus pais vão me chamar de louco quando souberem que menti sobre meu motivo de viagem, mas, eu sei que ela teve motivos fortes para me deixar. Irei descobrir quais são e não desistirei tão facilmente dela – pensou ele enquanto olhava em volta a imensa quantidade de policiais e soldados do exército que garantiam que ninguém entrasse ou saísse da cidade.

— Melhor ter cuidado, Emmett Cullen – uma voz surgiu de repente.

— Quem está falando? – o jovem olhou em volta e quando se virou para onde estava, deparou-se com um homem (ou mulher, ele não sabia dizer o que era) mascarado: — Eu sou “L”, Emmett. Encantado em conhecê-lo.

— “L”? Como o do “Death Note”? – Emmett não sabia o que perguntar para o desconhecido.

— Talvez sim, talvez não. Você decide o que pensar sobre isso – sua voz parecia sorrir, pois não era possível ver nada do rosto. Foi quando ele disse: — Você não me conhece, mas eu sei quem você é e qual seu objetivo nesta cidade. Muito louvável lutar por seu amor, mas saiba que esta jornada lhe trará perigos e muito risco.

— Pela Rosalie ou como ela se chame de verdade, vale todo e qualquer risco. Eu a amo – disse ele sorrindo.

— Fique com isto então – disse “L” dando às mãos de Emmett um misterioso amuleto verde com o formato de um número nove.

— O que é isto? – perguntou o jovem americano apavorado.

— É uma Magatama. Você poderá detectar criaturas e evitá-las. A cidade está cheia delas, especialmente à noite e o perigo ronda cada esquina. Pegue o jipe preto que está na saída esquerda vazia do aeroporto e siga pela estrada de Terra até o bairro da Chacarita. De lá, pergunte pelo delegado Antonino Porcel. Seja forte e que Deus o proteja, Cullen – disse “L” para depois desaparecer aparentemente sem nenhum rastro.

Emmett olhou para o amuleto misterioso e ao segurá-lo mais fortemente para ver o que acontecia, viu inúmeros fantasmas rondando os passageiros e alguns o olhavam de forma misteriosa. Apavorado, largou o objeto em um dos bolsos e logo os espíritos saíram de sua vista.

— Minha nossa, o Edzinho tinha razão quando falou que a cidade estava em estado de pânico. Cara, isso parece um daqueles filmes do John Carpenter sobre fantasmas – Emmett seguiu as instruções de “L” mesmo sem saber quem ele era direito, sentindo que ele estava certo de algum modo.

— Edward precisará de ajuda. Alguns espíritos são bons em se esconder e somente uma Magatama pode detectá-los, especialmente porque vários deles querem o corpo dele para poder se libertar deste mundo. De forma alguma posso permitir que ele corra riscos. Somente ele pode acabar com essa situação – “L” observava, invisível aos olhos comuns, Emmett afastar-se em direção à cidade.

Como fantasmagórico que costumava ser, “L” saiu do aeroporto sem ninguém notá-lo para poder ajudar os combatentes das trevas com seus objetivos.

Enquanto Emmett usava um mapa tirado do bolso do casaco para localizar o bairro da Chacarita no mapa de Buenos Aires, Porcel seguia para a casa de Leopoldo, porém, notou que seu carro estava sendo seguido por um Opala preto...

— Isso não pode estar certo! É exatamente igual ao carro que tirou meus pais da estrada, matando ambos em um acidente! O mesmo que me deixou em coma por dois meses e mais quatro para recuperação! – pensou ele apavorado.

O delegado logo acelerou o carro para sumir daquela rua e seguiu em frente, mas viu que o Opala vinha na mesma velocidade, parecendo ter intenção de bater contra ele, porém, em uma surpreendente virada do destino, como se algo batesse no carro inimigo, este virou e capotou cinco vezes, ficando somente de ponta cabeça. Porcel quis ajudar e chegou a sair do carro, porém, ao ver quem estava saindo praticamente ilesa do acidente, disse...

— Promotora Edgeworth? O que a senhora faz por aqui? E por que está me seguindo? O seu carro estava quase colado no meu.

— Eu estava procurando você, é claro! Afinal, não é porque a Cristina Kirchner declarou estado de sítio que a polícia e a promotoria vão parar – disse ela ficando em pé, deixando Antonino surpreso por ela ter saído praticamente andando do carro.

— Do jeito que você me seguia, achei que queria me matar – riu ele, deixando-a furiosa: — Ah, por favor, Porcel! Não tenho culpa se você é paranoico! Só porque meu carro é igual ao que bateu no dos seus pais não quer dizer que eu queira a sua vida.

— Espera aí, como você sabe disso?! – exclamou ele ao que ela respondeu na hora: — Considerando que os seus subordinados contam a sua biografia inteira quando vão falar de você com a alta cúpula, é difícil não saber. É capaz de essa gentalha saber mais da sua vida do que você mesmo. Meu Deus, se falatório fosse emprego e se cobrassem um peso por cada palavra dita, ninguém estaria desempregado ou pobre!

— Novamente, promotora, não insulte meus subordinados na minha presença. E, por obséquio, você sendo uma mulher da lei, deveria respeitar as leis de trânsito! Você podia ter se matado e até mesmo me levado junto! Sorte que a sua notável inabilidade com o volante se manifestou nessa hora. Mas o que você quer comigo? – disse ele querendo saber a razão de tão inesperada, e desagradável, presença.

— É sobre aquele homicídio do bairro da Recoleta ocorrido um mês atrás. Preciso que você leve os documentos na minha sala quando passar pelo prédio da promotoria já que você fez o favor de ignorar meus telefonemas. E te peço, deixe o seu celular ligado ou pelo menos no vibracall, assim se evita um desencontro – disse ela fingindo ofender-se.

— Tudo bem, considere a parte dos documentos feita. Mas agora preciso ir, já que está comprovado que apesar da gravidade, você está ilesa. Passe muito bem, senhora promotora – disse Porcel indo para o carro enquanto a promotora ficava furiosa por seu carro ter novamente ficado avariado: — Justo quando finalmente eu iria me livrar de vez desse delegado maldito, o volante do meu Opala me sacaneia! Preciso urgente de um carro com direção hidráulica e que não deslize na pista dessa forma quando estiver em velocidade alta! Ai como eu odeio essas modernidades!

O delegado, mais preocupado em chegar logo à casa de Belmondo, nem ao menos percebeu a fúria de sua arqui-inimiga, embora pensasse nas palavras sobre ela vindas da voz que com ele falava e logo estava seguindo novamente seu caminho e após 25 minutos dirigindo, chegou ao lugar, onde os outros já o esperavam, porém, antes de entrar, pensou: — Eu sei que Constância não é um exemplo de bondade e candura, mas ela é tão maligna quanto aquela voz pinta? A ponto de querer minha vida? Como assim ela queria dar o que tenho para aquela promotora? É,..., melhor eu tirar isso da mente e me focar no que é realmente importante. Depois pensarei nisso com calma.

Enquanto seguia para a casa após o portão, Porcel pensava em quanto estranha Constância Edgeworth parecia ser. Embora ela fosse muito bonita apesar de seus quarenta anos já passados, sua pele era levemente pálida e dificilmente era vista de dia sem usar óculos escuros, luvas e chapéu, que escondia, preso em um coque, os longos, brilhantes e fartos cabelos negros. A personalidade de difícil trato e o jeito arrogante não a tornavam muito popular entre os oficiais de polícia e o fato de que ela sempre dava um jeito de tentar culpar inocentes e inocentar culpados por afronta ao delegado tornava as relações ainda piores entre os dois.

Mas o que realmente incomodava Porcel desde que eles haviam se visto pela primeira vez era o fato de que ninguém, mesmo a alta cúpula, sabia de onde vinha Constância e o “não envelhecimento” dela desde sete anos atrás, quando ela se apresentara na promotoria. Era como se ela tivesse literalmente surgido do nada e o tempo se recusasse a passar para a mesma. Por inexplicável impulso, decidiu olhar seu telefone e de fato, havia pelo menos 20 chamadas perdidas feitas pelo mesmo número, porém, os pensamentos baseados em probabilidades estavam realmente incomodando o delegado.

Quando finalmente chegou à porta, bateu a sineta e logo estava sendo recebido pelo dono da casa no hall de entrada, que estava realmente preocupado: — Buenas tardes, licenciado. O senhor costuma, pelo que Maruja me disse, ser muito pontual, mas parece que hoje houve um imprevisto.

— Sim, mas está tudo bem. Foi só a promotora Edgeworth que me parou no meio da rua para me cobrar os documentos de um caso do mês passado. Ela me ligou pelo menos vinte vezes tentando falar comigo, mas quase sempre esqueço o celular nos bolsos ou na minha pasta sem o sinal de toque – disse ele omitindo mentalmente o acidente e torcendo para que Leopoldo não notasse.

— Os aparelhos de telefonia móvel são muito importantes hoje, delegado. Não deveria esquecer tanto o seu celular. Um dia, ele pode salvar sua vida – a frase por último soara excessivamente séria.

A seriedade da última fala do vampiro-prior fora tão grande que Porcel não pensou duas vezes em colocar toque alto no celular e deixá-lo no bolso de dentro do paletó, porém, algo nos olhos quase rubros do vampiro espanhol dizia a ele que tinha algo acontecendo, ele só não sabia dizer o que era, então, perguntou diretamente:

— Se tem algo a dizer, por favor, me diga. Eu posso não ser um conhecedor extremo de vampiros, mas seus olhos me dizem que você está vendo algo em mim. E sinceramente, não gosto de parecer tão... previsível.

- Na verdade, delegado, seu apelido de “La bomba tucumana” não foi dado à toa. Pelo que conheço de você, o senhor desde o seu começo na polícia ganhou esse “apodo” em razão da sua enorme coragem em arriscar seu bem estar em nome do bem comum. E quando você era tão somente uma criança, ganhou o apelido de ”El milagro de Tucumán” em razão de ter sobrevivido a um gravíssimo acidente de carro onde morreram seus pais – disse Leopoldo, certamente sabendo que mexia com o ponto fraco do delegado, mas, ele tinha motivos para tal.

— Infelizmente passei por essa horrenda situação e até hoje não sei explicá-la. Por mais que eu não goste de tocar nesse assunto, me vejo obrigado a admitir que não compreendo qual seria a provável intenção do motorista do Opala em matar a mim e meus pais – Porcel sentia que Leopoldo estava disposto a ouvi-lo.

— Talvez por você ter algo que interessasse ao assassino, considerando a clara lembrança que tenho da “Operação Caça à Abelha Rainha”, quando, querendo tirar a vida de Beatriz Salazar em razão dela ter assassinado um serviçal meu do qual eu muito gostava, testemunhei... – as palavras seguintes do espanhol fizeram o espanto atravessar o rosto do delegado: — Como?! Não pode ser! Ninguém mais deveria saber sobre isso!

— Eu suspeitava que a isso era real naquela época, porém, nunca pensei que você seria a pessoa com semelhante dom – disse Leopoldo deixando o oficial ainda mais nervoso: — Eu jamais contei a alguém sobre isso! Isso faria as pessoas acharem que posso ser algum tipo de feiticeiro do demônio!

— Antonino Porcel, nem que este mundo acabasse em desgraça amanhã mesmo, permitiria que tal conclusão se fizesse! Seu dom ajudou a muitos e se o espírito dela, eu suponho, o concedeu a você, ela tinha a certeza de que estava entregando tal tesouro a um alguém de coração puro e incorruptível. Não pedirei que você o use para me ajudar, apenas estou feliz por saber que sua pessoa foi forte o suficiente para dominar bem isso. Imagino que você saiba que pode ser perigoso se for mal utilizado, não? – o vampiro dizia calmamente.

— Sim, eu poderia morrer se usasse mal, mas graças ao bom e misericordioso Deus eu pude aprender a dominar isso e ser forte o suficiente para ajudar os que necessitam de justiça. E só uso quando extremamente necessário, se me perguntar. E caso questione sobre ela, ela vive no espelho do escritório da minha casa e frequentemente conversamos quando me sinto sozinho – disse Antonino aliviado por ouvir Belmondo dizer coisas tão belas.

— Vamos entrar e ver o que o senhor descobriu sobre a localização, estão todos esperando – disse o vampiro levando o delegado para sua sala, onde todos perguntaram repetidamente o que havia ocorrido para que ele se atrasasse.

Porcel explicou a razão, dessa vez contando a parte do acidente, deixando Leopoldo um tanto incomodado pelo delegado não ter dito isso logo de cara e Edward e Bella em alerta, considerando o que “L” dissera a eles no dia anterior sobre Constância, porém, o casal achou melhor não colocar mais problemas à mostra sendo que eles já tinham um muito grande para resolver.

— Meu Deus, a Constância saiu ilesa de um acidente desses?! – Maruja não queria acreditar no que ouvia.

— O único problema de fato é que ela vai ter que mandar aquela banheira velha para a oficina. Cara, ela devia vender aquele carro ou colocá-lo no ferro velho – riu Molina.

— Como nós sabemos, Maruja e Molina, é notável a falta de habilidade dela com o volante. Até eu, que sou da época que não existiam carros, dirijo melhor que ela – Lisandro não continha as risadas.

— Pero usted no tiene licencia de conducir, su pelotudo! – Porcel ficava sempre cobrando o vampiro para que ele fizesse autoescola.

— Quien necesita de coche cuando se puede volar? – o vampiro riu ao perguntar.

— Ah pelo amor de Deus! Olha, agora me deem licença que preciso mostrar os mapas dos bairros para que possamos acabar logo com esse problema e de preferência, eliminar esse Mariano e as coisas que estão certamente ajudando ele – disse o delegado para logo abrir sua pasta e pegar os mapas dos bairros Belgrano, Vila Devoto, Mataderos, Nueva Pompeya, Retiro, Almagro, Vila Crespo, La Patemal, Vila Santa Rita, Parque Chabuco e Caballito.

— E o senhor localizou os locais exatos? – perguntou Leona.

— Passei quase a noite toda fazendo isso e usando a ferramenta chamada Google Earth, localizei as ruas onde estão os amuletos, porém, teremos que percorrê-las um bocado para achar os locais certos. Posso até ser bom de saber coordenadas, mas não faço milagres – disse o oficial.

— Realmente, isso vai ser um pouco mais trabalhoso, mas meu olfato, o de Lisandro e o de María Luna irão servir muito em uma hora dessas. Sei que a cidade está ainda mais perigosa à noite, mas, teremos que arriscar. Podemos sair com o crepúsculo. Se sairmos agora, podemos ir até Almagro, Vila Crespo e Retiro. O caminho é longo e o processo para destruir os amuletos pode levar um bom tempo se tivermos que enfrentar criaturas horrendas – Leopoldo iria sugerir saírem de dia, porém, os poderes dele não funcionavam bem durante o sol.

— Antes de qualquer coisa, precisamos planejar nossos movimentos. Eu não deveria estar me metendo assim, mas tomar cuidado é essencial, pois vai Deus saber o que esse Mariano planejou de fato – disse Bella, que naquele dia estava vestida de forma mais simples e confortável em razão de que eles fariam uma jornada complicada.

— Você acha seguro sair conosco, Bella? Pode ser perigoso – disse Leopoldo ao que a jovem replicou: — Eu e meu amado Edward estamos enfiados até o pescoço nisso. Não podemos ficar parados vendo vocês fazerem todo o trabalho pesado.

— Nesse caso eu concordo. Meu dom vai ajudá-los a resolver isso mais rápido, mas eu terei de usá-lo com cuidado para que os servos daquele vampiro não contem a ele sobre mim. Seria muito perigoso se ele soubesse do “elemento surpresa” – disse Edward um tanto nervoso e apertando a mão de Bella com certa força.

- Realmente o Edward tem razão, é preciso planejar tudo com cuidado e não deixar nenhuma aresta sem aparar – disse Molina ao que todos começaram a dar sugestões sobre planejar os movimentos daquele dia.

A conversa sobre o trajeto daquele dia e dos demais se alongou por pelo menos uma hora e 45 minutos até que uma batida na porta interrompeu tudo e Leopoldo, enfastiado pela interrupção, mas não querendo ser mal educado, atendeu após dois minutos: — Buenas tardes. Quien es usted y que desea?

— Ai merda, meu espanhol é horrível – pensou ele apavorado, mas, arriscou, falando devagar: — Yo... soy... Emmett Cullen. Quiero saber… se este… es el barrio… de la Chacarita.

— Usted dije que se llama Emmett Cullen? Sí, estás en Chacarita. Pero, que buscas? – perguntou Leopoldo ao se lembrar da discussão entre Edward e Leona sobre o agora visitante.

— Procurando um local para ficar enquanto estou na cidade, mas não se preocupe, eu só perguntei ao senhor porque não tem viva alma na rua e ninguém atende nenhuma porta – disse ele arriscando não ser compreendido.

— Se procura um local para ficar, você já o encontrou. Entre, minha casa é sua enquanto estiver aqui – Leopoldo deixou Emmett surpreso e um tanto vermelho: — Olha, tem certeza? A sua casa não parece um hotel, eu acho.

— Eu insisto. Mesmo que você procure, não vai encontrar em razão de toda essa confusão. Você terá sorte se a polícia não pegá-lo por entrar na cidade sem permissão, então, venha logo. E como você entrou na cidade sem ser pego? – disse o espanhol, fazendo Emmett entrar e pedindo ao segurança vampiro que pegasse as malas do rapaz no jipe preto.

— Um tal de “L” me disse que eu deveria pegar a estrada de terra próxima do aeroporto e vir até aqui procurar um tal de delegado Porcel – respondeu ele quase normalmente ao que o vampiro congelou no hall: — L? Ele falou com você?

— Sim, inclusive ele me deu isso, seja lá o que signifique – disse Emmett pegando a Magatama do bolso: — Com isso, posso ver espíritos. Mas não entendo o motivo de logo eu ter recebido isso.

Leopoldo imediatamente olhou para o amuleto na mão do rapaz e o levou até a sala, onde o espanto foi geral, especialmente de Edward e Leona: — Emmett!

— Edzinho! Rose! Bella! Que felicidade em encontrar vocês! – disse ele sorrindo louco para abraçá-los.

O casal logo tratou de perguntar o que ele estava fazendo em Buenos Aires e Emmett deu sua resposta agarrando Leona para um beijo molhado e cheio de saudade, que ela quis recusar, mas não pôde porque seu coração falou mais alto que o perigo.

— Mas que putaria é essa?! – exclamou Molina separando os dois depois de dois minutos e meio e olhando o “cunhado”: — Então esse é o seu namorado? Ou é ex? Agora não sei mais nada.

— Se depender de mim, ela vira minha esposa amanhã de manhã – disse ele ao que ela respondeu emocionada: — Você arriscou tudo para vir me procurar?! Por quê?!

— Eu não poderia viver em um mundo onde não existem Emmett e Rosalie juntos ou seja como for seu nome de verdade – disse ele, deixando Edward e Bella sem reação, ao que “Rosalie” disse: — Leona María.

Edward, porém, logo abraçou o irmão com emoção: — Seu louco! Apesar das saudades suas, você tem ideia do que estamos enfrentando?!

— L me falou sobre isso e essa confusão toda saiu nos jornais e emissoras do mundo todo. Mas eu não podia continuar lá em Seattle sabendo que vocês corriam perigo. Ainda, como posso viver sem a mulher que amo? – ele tristemente falou.

Edward nada disse sobre L, mas pensou em quais eram os reais objetivos do misterioso ser para estar ajudando-os tanto. Foi quando Porcel apresentou-se: — Eu sou Antonino Porcel, amigo de seu irmão e sua cunhada e delegado de polícia. É uma honra conhecê-lo e admiro sua coragem de vir até aqui. Mas não compreendo o que a Magatama faz em suas mãos.

— O ser me disse que ela me ajudaria a detectar espíritos e fugir deles. E que alguns querem o corpo de meu irmão para deixar esse mundo de vez. Eu sei que o dom paranormal do Ed é perigoso e não raras vezes tivemos que nos mudar quando ele era pequeno porque os espíritos ruins o perseguem com frequência e muitos que são bons precisam de ajuda e ele não pode sozinho – disse Emmett com tristeza.

— Compreendo, mas não se preocupe, ficará tudo bem – disse ele tentando entender como o outro tesouro que a voz que lhe falava dizia existir estava nas mãos de Emmett.

— Sairemos em busca dos amuletos ainda hoje, no horário da noite. Será perigoso, então peço que você fique por aqui, Emmett – Leopoldo disse e o rapaz assentiu embora estivesse preocupado com o fato de que Bella e Edward certamente sairiam com ele, porém, sabia que eles eram muito corajosos.

— Fico com ele hoje à noite porque não penso ser seguro ele ficar sozinho. Desculpe Molina, mas hoje você terá que se virar sem mim – disse Leona feliz por estar ao lado de seu amor ao que o policial respondeu: — Nos últimos 18 meses eu tive que me virar sem você, então posso fazer isso de novo.

Emmett, muito feliz, beijou apaixonadamente Leona, que sentia seu coração completo agora que o homem que ela amava voltara e assim, as horas escoaram até que o crepúsculo chegasse a Buenos Aires, anunciando que mais uma noite escura e perigosa viria.

Após fazer os últimos ajustes, Leopoldo logo estava à frente de um grupo formado por ele, uma vampira bruxa, uma policial humana, um casal comum dos EUA, um vampiro aliado, um delegado e um caçador de demônios e eles foram até o bairro Vila Crespo, pouco antes da divisa com Almagro, onde María Luna os esperava após receber telefonema do irmão...

— O cheiro dos amuletos é bem forte. Você trouxe a poção?

— Sim, espalhei o conteúdo em um total de doze frascos para destruir as coisas malditas. Os vidros estão seguros dentro da caixa de metal onde os coloquei. Antes de qualquer coisa, precisamos descobrir o que nos espera, seja lá onde tenhamos que ir – disse Leopoldo, enjoado com o cheiro maligno.

— Nesta rua o cheiro é forte e ele está saindo do que parece ser uma confeitaria abandonada. Trouxe os lança-chamas para os que te acompanham, hermano mío? – perguntou María Luna.

— Sim, estão aqui no carro. Todos peguem um lança chamas e vamos começar o que já deveríamos ter começado. E a caixa está segura comigo – ordenou o vampiro.

O grupo, com exceção de Molina, que ativou a Witchblade, fez o pedido e logo eles estavam entrando no local abandonado onde estava o primeiro amuleto, porém, a aparente tranquilidade do local foi logo brutalmente quebrada pela presença de um demônio alado que estava guardando o amuleto, que apavorou os presentes embora alguns deles já estivessem acostumados às presenças malignas.

— Eu dou cabo dele! – exclamou Molina já indo em cima da criatura, que quase decepara-lhe a cabeça com um golpe de suas garras, mas conseguira afastar o caçador com um safanão quase fatal.

— Como passaremos por ele?! – Edward perguntou enquanto Bella ativara o lança-chamas com tudo o que podia ao que ele começou a fazer o mesmo após ver a esposa tão corajosamente agindo.

— Ele me parece ser um demônio bem poderoso – disse María Luna pensando em uma magia forte para acabar com ele quando uma estranha voz se fez no recinto: — Cuidem do amuleto, eu e Molina faremos o trabalho juntos.

— Rassilon?! – Molina achou que estava sofrendo de alucinação auditiva, porém, ao se virar para onde a voz falava, espantou-se com a visão que teve e logo notou que ninguém se mexia tamanho o espanto enquanto o demônio continuava rugindo e parecia pronto para matar a todos ali.

— Molina, eu criei este armamento, então use como o ensinei, garoto! – exclamou o criador da arma.

— O que é isso?! – Maruja não podia acreditar que seu chefe estava debaixo daquela “fantasia”.

— Cara, de todas as pessoas no mundo, tinha mesmo que ser ele? – Lisandro olhava incrédulo enquanto Bella deduzia o que era aquilo: — A Técnica de Canalização Espiritual do Vilarejo Kurain!

— Como pode ser?! Isso é uma lenda e pelo que sei, é algo muito perigoso! – exclamou Cullen quase aos gritos.

— Querem calar as matracas e fazer logo o serviço?! É uma questão de dois minutos até ele lançar um ataque mortal em cima de todos nós! Somente eu e Molina podemos impedir, então corram pelo lado esquerdo e pulem o corrimão já! E Molina, não se atreva a fracassar! – ordenou o espírito, que se moldara em aparência sobre o corpo do delegado Porcel.

— Fantástico Porcel! Eu sempre soube que você era um homem extraordinário! – exclamou Belmondo evidentemente empolgado com a cena e logo levando os outros pelo lado indicado ao passo que o demônio tentara lançar um ataque neles, mas fora imediatamente impedido por Rassilon e Molina, que lhe deram um forte chute energizado pela Witchblade.

Leopoldo e os outros, aproveitando o duelo entre o demônio e os caçadores, conseguiram subir a escada e ir até o cômodo onde estava o amuleto, porém, ele não parecia estar no local indicado, mas, María Luna conseguira encontrá-lo debaixo do chão de madeira: — Mariano achou que nos enganaria com essa. Idiota!

— Agora... – o vampiro-prior tirara o vidro de poção de dentro da caixa de metal, abrira e colocara cuidadosamente seu conteúdo sobre a coisa maligna, que logo se destruíra ao contato com o líquido.

A primeira parte do trabalho terminara, mas era apenas o começo de uma jornada. Uma jornada perigosa e mortal, onde somente com fé e força de vontade era possível vencer.

Entretanto, quanto mais vontade de lutar eles tinham, mais inimigos surgiriam.

Notas finais
Vocês podiam imaginar isso do delegado? Espero que tenham gostado!