Cidade Da Noite
5 Capítulo 4
Notas iniciais
Então, demorei um pouco pra escrever esse porque me incentivaram a postar uma outra fic - "Venam" - e acabei me empolgando com ela kkkkk enfim, ai está!
Carol não dormiu nada naquela noite. Limpar o apartamento dera mais trabalho do que pensara e, aproveitando-se que era madrugada, limpou também o rastro que se estendia pelas escadas, acabando exausta e tensa no dia seguinte.
– Por que não veio pra escola, amiga? – Letícia indagou pelo telefone.
– Não estou me sentindo muito bem, Leh. Só preciso descansar um pouco.
– Sei... Victor também não está aqui, é difícil acreditar que você está apenas indisposta. – E deu uma risadinha.
A garota ficou imediatamente alerta. Victor não fora para a escola. A imagem da barriga de seu namorado sangrando fez com que ela sentisse que lhe faltaria o ar. Estaria num hospital? Alguém o teria encontrado? Estaria jogado em algum lugar por aí perdendo sangue?
Sentiu que não deveria ter obedecido quando ele pediu que ela fosse. Pensando agora, não sabia nem porque havia feito aquilo. Sentiu medo da última pessoa que faria mal a ela e que, ainda por cima, estava machucada.
– Durma, Carolina – a voz do gato sussurrou em sua mente. – Você não vai ajudar ninguém assim.
– Não vou me perdoar se algo acontecer a qualquer um deles – ela respondeu automaticamente, sem notar que também usara o pensamento.
– Não posso prometer nada por eles, mas você... Você eu vou proteger, menininha.
– Sabe que não preciso de proteção – respondeu mentalmente já perdendo a consciência.
– Isso é o que você pensa. – E deu uma risadinha.
Quando acordou, a conversa com o gato não passava de um borrão em sua mente, não sabia nem se havia sido um sonho. Pegou o celular e olhou por alguns segundos antes de ter certeza de que não havia nada: nenhuma ligação ou mensagem de Victor. Então se sobressaltou ao ver a hora, já eram 13h30min.
Resolveu não se olhar no espelho, ou acabaria querendo se arrumar e se atrasando ainda mais. Correu para o carro e dirigiu até o hospital, deixando o gato no carro.
– Eu gostaria de falar com o Dr. André – disse para a mulher na recepção.
– Aguarde só um instante.
Não demorou muito e ele apareceu, abrindo um sorriso para ela, que sorriu de volta.
– Você dormiu essa noite? – ele indagou enquanto eles andavam pelos corredores.
– Na verdade não – admitiu.
Ele assentiu e permaneceu andando. O hospital parecia enorme, agora que ela parava para reparar. Começou a viajar, olhando as paredes e portas, imaginando quem estava atrás delas. Se estavam morrendo ou lutando para viver, se tinham familiares tristes ou...
Carol olhou para os lados perdida, por que tinha um obstáculo no meio do corredor? Levantou os olhos e o que viu fez seu coração disparar. Ben. Esbarrara nele de novo. Não, ele não podia estar ali. Estava imaginando coisas. Procurou o médico com o olhar e o viu parado a alguns passos dali, os olhos arregalados, murmurando algo incompreensível.
Virou-se novamente. Colocou as mãos no rosto de Ben e puxou as bochechas dele com força para os lados.
– Ai! – ele reclamou esfregando a bochecha. – Isso dói sabia?
– Por que está aqui? Desse jeito você vai se matar seu idiota! – Ela sentia-se subitamente enfurecida.
– Eu estou ótimo, Ana. Olhe para mim. – E abriu os braços para mostrar que não havia nada errado.
E realmente não havia. Ela podia ver nitidamente as marcas esbranquiçadas de cicatrizes onde no dia anterior estavam os cacos de vidro.
– Um milagre – o doutor finalmente conseguiu falar.
– O que, doutor? – Ben perguntou.
O Dr. André se aproximou e olhou o braço de Ben onde antes havia o machucado mais feio. A parte de dentro do cotovelo estava marcada por uma linha fina e branca. Nem aberto, nem sensível, nem dolorido. Nada. Então colocou os dedos médio e indicador em seu pescoço, sentindo a pulsação. Estava ali, forte e estável.
– Viu? Está tudo bem! Agora, Ana, podemos ir para casa? Esse lugar está me dando náuseas.
Ela virou seus olhos para ele por um instante, depois se voltou para o médico.
– Podemos ir, doutor?
André pareceu voltar a si por um instante.
– Não, ele precisa ser examinado para termos certeza de que nada está errado e...
– Corta essa, doutor. – Ben deu um sorriso travesso.
O garoto abaixou-se e pegou Carol pelas pernas, depois correu pelo hospital com ela pendurada nas costas e gritando, pedindo para coloca-la no chão. Ele apenas a soltou quando chegaram ao carro.
– Por que você fez isso, Ben? O médico disse...
– Estou perfeito, Ana. Melhor impossível. Aquele lugar... – Ele olhou para o hospital e estremeceu. – Tem muita dor por lá, muita tristeza, aquilo estava me matando.
– Que diabos você é? – ela indagou enquanto entrava no carro balançando a cabeça.
– Espero que isso não seja uma indireta – ele rebateu achando graça.
– Você não pode ser comum, e depois desse gato aparecer – Ela apontou para a forma escura no banco de trás –, não me surpreendo se você me disser que é imortal.
Ele soltou uma gargalhada. Foi tão natural, que ela acabou sorrindo também. Então Ben virou-se para ela e ficou observando-a.
– Você dormiu essa noite?
– Por que todo mundo me pergunta isso? – ela resmungou.
– Porque você está com uma cara péssima, já se viu no espelho?
Carol suspirou e seus olhos foram rapidamente até o celular. Nada. Nem sinal de Victor. Será que...
– Ligue para ele.
– O que? – ela indagou.
– Isso mesmo, ligue para seu namorado, sei que você quer, embora ele não seja um cara bom o bastante pra você.
Ela arqueou uma sobrancelha. Sabia o que ele esperava que ela dissesse agora: “e quem você acha que seria melhor?”, e definitivamente não queria que a conversa tomasse aquela rumo. Ligou para ele.
– Fala.
Carol engoliu em seco. O tom de voz de Victor ainda era frio, sentiu-se escorregar no banco.
– Você está bem?
– Estou, obrigado. Já cuidou de Ben, posso apostar.
– Pare de falar como se eu tivesse cometido um crime, Victor.
– Você realmente não cometeu, quanto ao garoto que resolveu estilhaçar garrafas em cima de mim...
Ela virou-se para Ben, que permaneceu olhando para ela. Ele não tinha ouvido a conversa, mas deveria deduzir instantaneamente com a expressão que ela o fitava naquele momento. Sua mente girava enquanto pensava nos últimos dois dias e em como as coisas pareciam ter mudado.
– Se quiser conversar com racionalidade, apareça lá em casa mais tarde. – E desligou, se virando para Ben. – Me explique por que Victor disse que você quebrou garrafas em cima dele. Pensei que ele tivesse partido pra cima de você!
– Agi antes que ele o fizesse.
Ben balançou a cabeça e seus olhos ficaram tristes, seus ombros curvados, como se carregasse um enorme peso.
– Não foi fácil sabe. Cada vez que eu o acertava era como se eu mesmo sentisse a dor. – Ele estremeceu. – Mas há algo de errado nele, algo cruel, não posso deixa-lo perto de você.
– Acredite, se tem algo de errado com alguém aqui, é com você.
Ela entrou no condomínio e pensou o que deveria fazer agora. Expulsar Ben já que ele poderia ser violento? Confiar no gato que dizia insistentemente não haver nada de mal nas intenções do garoto? Não sabia de mais nada.
Quando chegou até o corredor de seu apartamento, viu sua vizinha aos prantos conversando com um policial.
– E então, ela não estava mais lá – completou entre soluços.
– Becca? O que houve? – Carol perguntou aproximando-se e confortando a mais velha em um abraço.
– A Jenifer foi brincar no pátio ontem e não voltou. Desci para chama-la, ela não estava lá e em lugar nenhum. – Lançou um olhar irritado na direção do policial. – Estou ligando desde ontem para a delegacia e só me atenderam esta tarde, e quando fui até lá, simplesmente disseram que estavam muito ocupados naquele momento.
O policial ignorou o comentário enquanto escrevia algo em uma caderneta. A mulher apoiou-se em Carol, tremendo com os soluços. A menina entendia, Becca havia perdido a filha de 10 anos, a linda Jenifer com seus cachos loiros e sorriso contagiante.
– Vamos investigar o caso e fazer o possível para encontrar sua filha, senhora – o policial disse com uma cara de idiota.
Depois o homem sumiu de vista, deixando um Ben com sobrancelhas franzidas parado olhando para as duas. Então ele se aproximou, colocando a mão sobre o ombro da mais velha, que pareceu relaxar instantaneamente, levantando os olhos lacrimosos para o jovem.
– Você precisa descansar. Tente relaxar, os policiais estão fazendo o trabalhos deles, não há nada que possa fazer por enquanto. – Carol se surpreendeu com a voz calma e melodiosa de Ben, que parecia cantar para uma criança dormir.
E, fazendo com que ela arqueasse as sobrancelhas, a mais velha assentiu e entrou no próprio apartamento. A menina virou-se para o garoto, assustando-se mais uma vez ao notar que ele estava prestes a chorar, os olhos carregados de tristeza.
– O que está havendo aqui? Como você fez aquilo, Ben?
– Eu não sei. – Ele deu de ombros. – Acho que é mais uma coisa que temos que descobrir sobre mim.
Mais tarde naquele dia, Victor bateu à porta, sua expressão era indecifrável enquanto olhava Carol dos pés a cabeça, como se procurasse algo. Depois fitou Ben sentado no sofá e estreitou os olhos.
– Então, aqui estou.
Carol suspirou, ela havia dito que queria uma conversa racional.
– Me desculpe – ela começou. – Não sei porque deixei você pra trás ontem, eu deveria ter ficado e te ajudado...
Ela parou quando notou seu namorado balançando a cabeça.
– Não é isso que está em questão. Você fez o que eu pedi, estou feliz que tenha feito.
– Não parece – a garota murmurou.
Victor, como se estivesse se segurando até então, aproximou-se dela e passou o polegar em sua bochecha, os olhos subitamente carregados de pesar. Fitou os olhos dela de forma intensa, fazendo com que ela quisesse se aproximar mais e sentir o toque familiar de seus lábios.
– Estou tentando te proteger, meu amor, você não percebe? Eu queria me certificar de que ele não faria nada a você e, bem, ele começou a quebrar vidros sobre mim. – Victor balançou a cabeça. – Acho que você não tem ideia do valor que tem.
– Agora vem você também falando de me proteger como se o mundo conspirasse contra meu bem estar – ela resmungou lembrando-se do que o gato dissera mais cedo.
Por um instante, e pela primeira vez desde que eles estavam juntos, o garoto hesitou. Então deu-lhe um beijo gentil nos lábios e afastou-se apenas o suficiente para que ela visse seus olhos cor de mel.
– E se eu disser que ele conspira?
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