Ciclo vicioso
1 E a roda gigante nunca para de girar...
Notas iniciais
Era uma sexta-feira normal como todas as outras. A brisa fria e cotidiana cortava meu rosto calmamente enquanto eu seguia para mais um dia de estágio no hospital veterinário. Minha colega Amanda me acompanhava, na verdade com suas pernas compridas estava quase dois metros a minha frente. Suspirei e inspirei, tentando juntar toda a energia possível pra mais um dia exaustivo e frustrante naquele lugar. Nada estava bom nos últimos dias, e eu lutava para parecer bem e saudável. Apesar de ter surtado algumas vezes. Meu “peguete” havia ido embora há quase uma semana, e eu ainda sofria com sua ausência, não que tivesse sido um lance bacana, mas era algo para aliviar os dias ruins. O único problema era o fato de me apegar fácil demais, me entregar tão rápido quanto a velocidade da luz. Mas com as outras pessoas não é assim, tudo não passa de um lance, e não foi dessa vez que fui exceção a regra, como foi deixado bem claro por ele. “Gostei muito de ti. Como um rolo, e foi só isso.”, essas foram às palavras dele, quando pela milésima vez eu tentei discutir uma relação inexistente. Assim que adentrei o enorme e velho prédio o vento cessou, mas o frio continuou lá. Logo ao chegar ao meu armário encontrei Alberto próximo a porta da cardiologia, que me recebeu com um sorriso caloroso e um abraço apertado. Beto era amigo do cara que mencionei anteriormente, fizemos estágio por um mês juntos até ele trocar de área e ir pra cardio, e também passei um final de semana na casa dele, mesmo assim não éramos tão íntimos, mas eu possuía um carinho muito especial por ele. Peguei minhas coisas, vesti meu jaleco e parti para mais um dia arrastado e cansativo. Pouco antes das 18h tive uma discussão feia com Amanda, por algum motivo banal que foi potencializado pelo estresse do dia-a-dia, mas foi motivo o suficiente para eu não querer ir pra casa. Caminhei até o saguão desesperançosa e procurando qualquer motivo que me impedisse de ir pra casa e foi então que encontrei Alberto sentado no canto da parede com seu notebook nas mãos, não parecia ter tido um dia bom também. Sentei ao seu lado e suspirei.
— Eai. – Me disse sem tirar os olhos da tela.
— Eai... – Respondi sem nenhum animo.
— Dia ruim? – Apenas assenti e permaneci em silencio por alguns minutos.
— Posso ir pra sua casa? Pago a cerveja. – Lancei de supetão, nem havia pensado sobre a possibilidade de estar sendo inconveniente e invasiva. Só queria fugir um pouco, e já estive lá antes. Claro que com outros propósitos. Mas o que teria demais?
Beto arqueou uma das sobrancelhas e deu um sobressalto, surpreso. Afinal, Otavio não estava mais lá. E então percebi quão patética eu parecia e dei uma risada frouxa, desesperada e me levantei, juntando os caquinhos da dignidade que ainda me restava. Alberto fechou o computador o guardou na mochila e a jogou nas costas se levantando.
— Bora lá. – E sorriu complacentemente. E por um instante eu senti meu corpo se aliviar, como uma válvula de escape.
Mandei uma mensagem pra Amanda pedindo desculpas e avisando que não dormiria em casa. No longo caminho até a casa do Beto fomos cantando musicas sertanejas e rindo, contei da discussão, contei que a semana estava difícil e escondi a parte de que seu amigo havia me machucado. E assim seguimos até o mercado onde compramos um caixinha de cerveja e depois até sua casa. Chegando lá, avisei que precisava de um banho e de roupas. Alberto era esguio e não muito alto, então me emprestou uma bermuda e uma camiseta. Confesso que chorei um pouco, o dia havia sido pesado, e aquela casa me trazia algumas lembranças. Recompus-me antes de sair do banheiro e coloquei meu melhor sorriso no rosto, eu não seria uma companhia ruim e melancólica aquela noite. Beto estava esperando na sala. Tinha jogado um colchão na frente da TV e colocado um catalogo de filmes no Netflix. Já tinha duas latinhas abertas do lado do colchão, então fui até a geladeira e busquei uma pra mim e me joguei entre os travesseiros.
— Vou tomar um banho, escolhe o filme ai. Qualquer coisa não melosa, por favor. – Disse enquanto virava a segunda latinha, pelo jeito que as coisas andavam, não importava qual filme eu colocasse, ele estaria dormindo nos primeiros 15 minutos.
Ri sozinha e comecei a ler as sinopses, mas nada parecia me atrair. Os pensamentos e lembranças invadiam minha mente como um bombardeio. Aqueles malditos olhos azuis. A minha maldita inocência. O meu fraco coração. E então as lágrimas voltaram a descer. Nem percebi que Beto havia voltado quando ele se jogou do meu lado e pegou o controle da minha mão, ignorando completamente aquele meu estado catastrófico. Ele não disse nenhuma palavra e evitou me olhar, como se estivesse me dando espaço. E foi o necessário para as lagrimas cessarem e minha respiração estabilizar. O filme que rodava era uma dessas comédias besteiróis bem idiotas, e já fazia quase 15 minutos que estava passando. Entre algumas risadas e expressões de nojo, ainda não havíamos trocado nenhum olhar. Eu ainda me sentia constrangida pelo que tinha acontecido.
— O Otávio é um cara legal. Só não é bom com as garotas. Não é sua culpa. – E foi enfim que ele me olhou no fundo dos olhos com uma doçura que quase me fez chorar de novo. Mas uma cena ridícula rodou na TV que nos fez cair na risada e cortou o clima de enterro.
As latinhas se acumulavam ao nosso redor, e eu já começava há perder um pouco a noção da realidade e o filme agora parecia mais distante. Nós conversávamos sobre tudo, e riamos com qualquer motivo. Parecia até que meus problemas tinham se extinguindo, mas eu sabia que eles estariam lá na manhã seguinte.
— Preciso ir ao banheiro. – Disse embriagada e com um desequilíbrio evidente.
Ao tentar me levantar senti o colchão macio ceder sobre meus pés e me vi caindo pra frente bem na direção de Alberto que os olhos saltaram quando viu me aproximar como uma bigorna. Meu corpo todo cedeu em cima dele que acabou tombando e batendo a cabeça na parede levemente, emitindo um grunhido de dor enquanto eu permanecia estática sobre seu corpo. Olhamos um pro outro e então caímos na gargalhada, daquele jeito mesmo sem nos mover. Meus olhos lacrimejavam de tanto rir, mas então o riso foi ficando mais fraco e a respiração mais tensa e nossos olhares se chocaram de uma maneira que me fez perder o ar. Então senti uma de suas mãos segurarem minha cintura e a outra agarrar meu pescoço com intensidade e me puxar contra teu rosto, sem nenhuma resistência. Nossos lábios se tocaram com urgência e as línguas fizeram seu primeiro contato, meu corpo parecia estar em estase e o beijo durou quase um minuto e então nos afastamos assustados e eu me joguei para o lado no colchão saindo de cima dele. Passamos um longo tempo olhando o teto.
— Isso não deveria ter acontecido. – Eu disse quando o ar e a consciência me retornaram.
— De jeito nenhum. – Ele disse serio. Ainda encarando o teto.
Eu me sentia desolada, não sabia o que fazer, nem como agir. Só queria pegar minhas coisas e sair dali, mas ir pra onde?
— Me desculpa. – E tentei levantar novamente, dessa vez com sucesso.
Alberto continuou deitado fitando o teto, por um minuto achei que estivesse morto. Mas então ele respirou e inspirou profundamente. Comecei a juntar as minhas coisas e segui até a porta, mas antes que eu a abrisse, Beto saltou do colchão e se colocou na minha frente.
—Onde você pensa que vai? – Me disse com um olhar sério.
—Não sei. Pra algum lugar. Eu não quero estragar tudo de novo. Olha a merda que estou me enfiando. Me apaixonando pelo melhor amigo do cara que partiu meu coração, E esperando que ele faça o mesmo. É um ciclo vicioso, Eu estou presa na porra de um ciclo vicioso! Parece que eu gosto da dor, que eu vivo por ela! – Estava um pouco exaltada, talvez pelo álcool, talvez pelas inúmeras decepções acumuladas durante o ano. Eu só queria que aquilo parasse. E as lagrimas desceram furiosamente.
— Eu não vou deixar você ir embora. – Ele falou serenamente, e pela sua entonação quase pareceu não falar apenas daquela noite.
Suas mãos secaram cada lagrima que teimava cair do meu rosto e ele esperou pacientemente até que cessassem, e então me beijou novamente, dessa vez um toque gentil, carinho. Sua mão segurava meu queijo com cuidado e a outra acariciava minha nuca.
— Vamos dormir. – E me levou gentilmente até o quarto, arrumou a cama e esperou que eu me deitasse. Deitou do meu lado puxou a coberta até que nos cobrisse e me aconchegou em seu peito. Desde o meu surto eu não consegui dizer mais nada, na verdade quase não me mexia. Então desejei um fraco ‘boa noite’ e fechei meus olhos, caindo em um sono tranqüilo com o coração leve, como não sentia há dias. Mas eu sabia que aquilo seria temporário e a tempestade chegaria logo em seguida.
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