Ciclo de Fogo - Fic Intertiva
4 Capítulo 4
Notas iniciais
– Faz um ano, mais ou menos. Eu comecei a vê-la depois que meus pais foram viajar. Eu presenciei três mortes desde então. Ou, espere, — Kenai mordeu seu hambúrguer – foram seis, tirando as pessoas que ficaram gravemente feridas.
Eva analisou o tempo de um ano. Ela presenciou as mesmas mortes. Um havia tido um ataque do coração na sala de espera do dentista. Segunda havia se jogado do décimo sétimo andar de um prédio por onde Eva havia passado uma vez. O terceiro havia batido a moto em que pilotava no ônibus em que Eva havia pegado naquele dia. E as três últimas...
– Eu não entendo. – Eva começou a falar. – Elas diziam que eu havia feito um tal de Rael Summers se apaixonar por mim. Sendo que uma delas era “apaixonadinha” – balançou os dedos, como se fossem aspas – por ele. Eu nem sei quem ele é.
Kenai se engasgou com uma cebola.
– Desculpe. Enfim. Rael é muito popular. Eu faço educação física com ele. Mas isso é estranho, eu já troquei algumas poucas palavras com ele. Mas isso é estranho porque no mesmo dia eu...
Uma luzinha iluminou a memória de Kenai. Ele arregalou os olhos e segurou nos ombros de Eva.
– Escute bem.
~#~
Eva caminhava como se quisesse que o chão quebrasse com seu peso. Estava com raiva. Como alguém carregava esse sentimento dentro de si? Ela havia armado tudo. Por que ela mantinha aquele sentimento? De onde tirara tanto ódio?
Ela parou na porta da sala do segundo ano. La estava ela conversando com o cara que ela sempre andava, que segundo Kenai, era o tal Rael Summers.
– Sua bruxa desgraçada!
Hani e o resto da turma se voltaram para a esquisita da escola. A morena levantou assim que viu a pessoa que tanto odiava andando em sua direção. Eva bateu em seu rosto, e não foi com a mão aberta. Hani logo se levntou e partiu para cima dela. A briga havia começado.
– Eu sei que foi você! Como teve coragem de fazer isso?
– Me solta, sua maluca! Está me machucando!
Eva continuava a bater e a puxar os cabelos lisos de Hani. Os enormes óculos que ela usava haviam caído e agora estavam jogados no chão, partido no meio. Hani, entre os ataques, havia tropeçado e caído no chão. E Eva agora estava em cima dela, ainda desferindo golpes. O nariz de Hani sangrava, havia um ferimento na testa e outro no lábio.
– Por sua culpa elas estão mortas! – Eva gritou por último, parando com os ataques para procurar ar, deixando que as lágrimas caíssem pelas suas bochechas vermelhas.
– Que porra você está falando... – Eva logo a cortou.
– Eu sei que você falou pr Amy coisas sobre eu ter feito Rael se apaixonar por mim. Se você não tivesse feito isso, mortes desnecessárias teriam sido evitadas. Esse seu egoísmo...
– Não fale do meu egoísmo. Minha raiva por você é muito maior do que o meu egoísmo – dessa vez foi Hani quem a cortou. Ela não chorava, estava apenas parada no chão, olhos fixos no teto.
Os jovens que estavam a sala haviam parado tudo o que faziam para acompanhar o desfecho da briga que acontecia ali. Queriam ouvir os lamentos da menina mais esquisita da escola. Não sabiam exatamente o que estavam escutando nem os segredos que estavam sendo revelados.
A verdade é que ninguém aturava nenhuma das garotas que haviam morrido e torciam, secretamente, pela morte das outras que estavam em coma no hospital. Ninguém estava verdadeiramente triste. Aquelas garotas eram cruéis e todos desejavam o mal pra cada uma delas. Ninguém se importava com ninguém além de si mesmo. Essa era a realidade do mundo. A triste e cruel realidade.
Mas ali estava Eva. A jovem loira estranha que ninguém queria ser amigo, lamentando pela morte desnecessária daquelas que a odiavam até o ultimo fio de cabelo.
– Saiam. – Rael disse, de repente. Os alunos apenas o olharam, mostrando que não iriam obedecer. Até que ele gritou. – AGORA!
Eva saiu de cima de Hani, deitando se do lado dela. Esfregava o rosto com as mãos, mas logo depois se arrependeu. Seu rosto ficou sujo e melecado. Rael jogou um lenço para ela, que logo pegou e usou em seu rosto.
– Pode me dizer exatamente o que essa desmiolada fez dessa vez? – ele perguntou a Eva, ainda sentado.
– Eu disse a Amy que você era apaixonado por ela. Eu sabia que a Amy, que era apaixonada por você, faria alguma coisa pra machucar a loirinha fisicamente. – Hani respondeu, apontando para Eva.
A verdade é que ele era mesmo apaixonado por ela. Mas esse detalhe Eva não sabia. E por Hani, jamais saberia.
Rael não disse nada. Não mudou sua expressão. Ficou imóvel, sem tirar os olhos de Eva por pelo menos um minuto, que se sentiu um tanto incomodada. De repente, ele voou pra cima de Hani, que havia se levantado.
– Sua pirralha egoísta de uma figa! O que você acha que fez – Ele gritava, puxando a relha dela.
– Aí, aí! Isso dói, Rael!
– Sua egoísta suja e maldita! Você tem minhocas na cabeça? Sabe o que fez? Por que fez isso, por quê?
Rael soltara a orelha já vermelha da morena e encarava os olhos negros dela. Estava triste. Desapontado. Decepcionado.
– Como teve coragem de olhar pra mim depois do que fez?
Hani começou a chorar enquanto a raiva de seu melhor amigo surgia aos poucos. Não era pra ele descobrir. Mas como a garota Eva sabia disso?
– Rael... Es pera, eu posso explicar...
Hani tentou segurar em suas mãos, mas ele não permitiu tal ato.
– Você é um monstro.
Rael deu as costas para sua melhor amiga. Hani chorava e soluçava. Seus óculos continuavam no chão. Eva, por um lado, sentiu-se estranha por ter feito Rael cortar laços com sua melhor amiga. Mas esse era o mundo que ela vivia; pessoas pagavam pelo que faziam, não importa como.
Rael saiu da sala, querendo apenas distância daquela que um dia ele confiou a vida. O corredor estava cheio de alunos, ele caminhava por entre eles, sendo empurrado e tendo o pé esmagado e palavras maldosas dançando pelo seu ouvido. Ao longe, no meio dos alunos, ele a viu. Estava de costas. Vestido preto.
– Isso já está virando uma palhaçada! – Ele gritou, fazendo todos os alunos se virarem para ele. Se não fosse pela raiva, estaria recuando. Já faz uma semana que você aparece todos os dias! Quer seja com essa merda de vermelho ou não! E nunca falou o que quer! Se seu objetivo era nos assustar, já deu!
Kenai e outro garoto apareceram do lado de Rael.
– E esse é o retardado popular da escola. Ele nem sempre grita pro nada, mas de uns tempos pra cá, isso pode ser comum. Alguma dúvida sobre nossa parada, Cauã?
O jovem Kenai apresentava a escola para um novato de 14 anos.
Era um jovenzinho chamado Cauã Dereenig. Kenai brincava e o apresentava a escola. Mas naquele momento, Cauã já não prestava mais atenção nele, e sim na garota de vestido preto mais a frente.
– Koby quer saber se você pode vê-la. – Disse Cauã, de repente.
– Acho que minha vida vai ficar cada vez mais interessante daqui pra frente.
– Koby disse que o vestido dela está mudando...
Rael rolou os olhos, bufando. Tudo estava acontecendo rápido demais. Uma semana atrás era apenas ele e Hani, curtindo a amizade dos dois. E agora eles haviam brigado e pelo menos umas três pessoas conseguiam ver o que eles viam. Algo estava errado. E algo muito maior deveria estar esperando por eles. Por todos eles.
– Vamos voltar pra sala – disse ele, de repente.
– Não adianta, já vimos a cor – Kenai falou, abaixando os olhos. Não importa quantas vezes olhava para ela, sempre sentiria medo.
O corredor estava cheio. E ninguém além daqueles três poderia vê-la. Ninguém além daqueles três poderia sequer imagina o que estava por vir.
– Vamos logo!
– Pra onde? – Cauã quis saber. Ele mostrou o cachorrinho para ambos. – Koby quer saber porque vocês conseguem vê-la. Por quê?
Rael sabia como ele se sentia. Sabia, de verdade. Mas não havia tempo para explicações. Então ele puxou o braço dele e saiu correndo.
– Depois as explicações. Se é que elas existem.
Em pouco tempo, Rael e os três estavam na frente da porta do segundo ano. Ele colocou a mão na maçaneta, mas hesitou por um tempo. Mas logo o pensamento mais importante penetrou na sua cabeça: impedir a morte de alguém.
Ele empurrou a porta.
– Eva! – Kenai a chamou, assim que entrou na sala.
Ela estava sentada em uma cadeira, seu rosto esbanjava surpresa. Estava com alguns arranhões no rosto. Os olhos arregalados. Olhava atentamente pra a janela.
– Eva? – Repetiu Kenai.
– Eva! – Rael que a chamou desta vez.
A jovem não respondia. Continuava olhando.
– Eva! – Rael e Kenai gritaram juntos. E nada.
Rael correu os olhos pela sala a procura de Hani. Não havia sinal dela em canto algum. Rael logo sentiu os pés falharem. Ele correu até a loira.
– Onde ela está? – Gritou desesperado. – ONDE?
– Aqui, rápido!
Alguns alunos gritaram, entrando na sala e correndo até as janelas. Kenai os seguiu, tirando alguns alunos a tapas da frente dele.
– Saiam da frente – dizia ele, com calma e segurança na voz. – Saiam.
Ele observou o pátio.
– Eu conheço a Hani. E sei como ela é. Digo, eu fui apaixonado por ela, sabia? Desde que ela cortou o cabelo, três anos trás. Ela estava tão fofa e linda. E então o cabelo dela foi crescendo. E até hoje eu espero pelo dia em que ela o corte novamente – Kenai virou-se para Rael.
– Do que está falando? – Rael berrou.
– É um fio de esperança que sempre vive em mim. Que ela não seja a pessoa que olhei agora. Por que ela tinha cabelos longos. Eu espero que ela tenha cortado o cabelo desde a última vez que a vi.
– Não brinque comigo!
Kenai escorregou do lado da janela.
– Eu sinto muito – Foi a ultima coisa que Kenai disse.
E então o jovem com os olhos da cor do céu de um dia sem nuvens correu. Passou correndo do lado dela. Não se importou com a presença dela. E nem notou a cor do vestido.
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