Ciclo da Vida
1 Capítulo Único
Quando se deu conta, estava andando em meio a avenida principal do centro da cidade, com sua roupa típica de trabalho. Olhou no relógio e já não estava mais em horário de serviço. Continuou andando sem saber muito bem para onde iria.
Começou a pensar na vida.
Finalmente havia arranjado uma namorada que o entendia, e que gostava de fazer as mesmas coisas. Aos finais de semana iam para bares, shows e casas noturna. Bebiam, dançavam e conversavam com quem e quando quisessem, sem ciúmes ou cobranças. Davam certo juntos. Ela não era a Clara. Não era tão intensa, tão profunda, tão inteligente, mas ao menos não tinham tantas brigas. Como havia visto em um filme, somente um amor incompleto pode ser romântico¹. E eram separados que ele e Clara se davam melhor.
Sentia-se culpado por manter contato com Clara. Como se estivesse traindo a Grazi. Mesmo que não insinuassem nada durante as conversas, ele sabia que se amavam, e que nenhuma mulher tomaria seu lugar. Mas ao mesmo tempo tinha a consciência limpa de que nunca faria sua namorada sofrer, uma vez que sabia que ele e Clara não dariam certo.
Pensou então em seu trabalho. Estava num emprego o qual havia tanto estudado, num cargo que há muito almejava. Todo seu esforço era reconhecido, e tinha um salário alto para alguém tão jovem. Era estável financeiramente falando. Já havia comprado seu apartamento, e tinha um dos melhores carros do ano anterior.
Sua família o amava. Estavam todos orgulhosos, e com motivo. Seus pais já não brigavam mais, depois que o pai largou o álcool de vez. A família, como um todo, nunca estivera mais unida.
Sentiu-se realizado.
Começou a pensar que havia chegado no ápice da vida, e que daquele ponto em diante não havia mais pelo que correr. Só restava colher os frutos de tudo o que lutou para conseguir. Só lhe restava viver…
Foi quando percebeu uma multidão numa esquina logo a frente.
Rodeavam um corpo. Havia sido um acidente feio pelo que os destroços do carro indicavam. Nunca gostou de ver essas coisas, mas por um ímpeto maior, entrou em meio aquele tumulto. Passou com uma facilidade, como se ninguém nem o percebesse. Quando olhou para o corpo, reconheceu-o imediatamente.
Era ele.
Com a mesma roupa que estava. Só que com um corte enorme na cabeça, muito sangue ao redor, e morto.
Foi então que tudo fez sentido. E ele simplesmente deixou de existir.
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