É segunda feira, 8 da manhã... Estou na frente do cobrador do ônibus de linha no exato momento em que recobro minha consciência, com uns trocados amassados em minha mão para pagar a passagem e passar pela roleta.

Já repeti este momento diversas vezes e meu coração ainda não se decidiu sobre qual escolha devo fazer.

Já me sentei em todos os assentos e já conheci todas essas pessoas que estão aqui e as que ainda entrarão.

No fundo, ao lado da janela, há aquele rapaz... O de boné, com fones de ouvido, camiseta branca grafitada e bermuda bege. E o que ele está escutando? Tupac! Ele não gosta de falar e se sente incomodado ao ser chamado enquanto está escutando músicas. Eu o entendo porque é realmente chato quando isto acontece, pois se estou de fones é porque obviamente não demonstro intenção de falar com ninguém, quero apenas relaxar ouvindo um pouco de música durante o percurso.

Mas eu precisei interrompê-lo! Mais de uma vez! Uma delas eu consegui quebrar essa barreira e saber um pouco sobre ele. O rapaz tem uma namorada do outro lado da cidade e está matando aula para ir vê-la, ao lado do seu pé há uma mochila encostada que não é visível para quem não está na mesma fileira.

Ele tem apenas 16 anos, porém tem um espirito rebelde, um forte desejo de liberdade e independência que lhe deixa muitas incertezas e conflitos para seu futuro.

Na outra ponta, na outra janela, vê aquele rapaz com Jeans Skinny escurecida e camiseta social bem justa? Cheio de estilo com seu óculos escuro e cabelo levemente arrepiado, barba por fazer e fones... Elegante e bonito certo? Ele está escutando Carry on wayward son do Kansas através de um celular com android, mas é o modelo mais ultrapassado. Ao seu lado, imperceptível para quem não está na mesma fileira, ele segura uma pastinha carregada de currículos. Esse moço tem 22 anos e foi muito educado ao falar comigo, é uma pessoa comunicativa e facilmente conseguirá emprego com essa sua personalidade e aparência. Entretanto, isso o faz diferente do outro rapaz? Na sua pasta há muitos currículos, mas nem um endereço aonde pretende entregar, nenhum objetivo assim como a sua lista de cursos diversificados e não concluídos. No seu dedo a marca de uma aliança que deve ter ficado por alguns anos...

É como se em cada janela eu pudesse ver o passado e futuro de uma mesma pessoa. Incertos, confusos e presos a uma visão distorcida de felicidade. Afinal, essa liberdade é utópica.

Ah! A primeira parada...

Ninguém desce, mas sobe uma senhora, idosa, baixa, gorda, com uma bolsa enorme. Ela faz um grande esforço para subir aqueles degraus altos do ônibus, o motorista apenas suspira impaciente com a lentidão da senhora. O cobrador está tão entediado e com má vontade que nem se esforça em olhar para a porta e ver quem está entrando, pois prefere manter a desculpa aparente de que não viu a senhora. Por fim, ninguém ajudou.

Eu poderia pular a roleta e ajuda-la? Poderia chamar a atenção do cobrador e do motorista?

Sim e já fiz isso nas primeiras vezes... Mas é uma cena que vai continuar repetindo, acabei me cansando de me importar. De certa forma, passei a gostar dessa visão, ver essa velha se esforçando degrau por degrau... Isso me motiva. Somos parecidos, mas... A minha escada parece não ter fim. Ao menos eu ainda não encontrei seu final.

Essa senhorinha, sempre que tento conversar com ela, ela recorda de seus filhos e netos. Não tem como, ela só sabe falar sobre coisas assim. A coitada está começando a caducar.

Mas há alguém que já passou dos seus próprios limites, aquele homem em pé próximo à porta do fundo, ele é um operário e por isso usa EPIs e suas roupas estão manchadas de óleo. Essa barba mal feita e rosto magrelo são reflexos de sua estafa física e mental. Ele mora sozinho há anos em um apartamento quase sem nada, pequeno e cheio de bolores. Sua única familiar, a mãe, lhe abandonou quando ele fez dezoito anos e foi morar no interior onde provavelmente deve se prostituir. Ele, o operário, trabalha seis dias da semana e nunca recusa horas extras nos domingos. Entretanto, se enganam ao achar que ele ganha bem, seu salário é uma mixaria que voa de seu bolso para pagar as absurdas contas de luz e água, provavelmente ocasionadas por gatos, fora o próprio aluguel. Ele não tem amigos desde criança e mal conversa com alguém, se tornou literalmente um robô preso à rotina: Acorda, vai trabalhar, volta, janta, toma banho e dorme.

E como descobri tudo? Aquela mulher gorda ali, sentada próxima à porta, ocupando dois assentos com sua enorme bunda. Ela mora no mesmo condomínio do operário, é do tipo que sabe a vida de todo mundo e adora falar sobre os outros. Desprezível, mas útil para mim. O fato de ela saber tanto sobre os outros já me diz muito sobre ela mesma e me poupa de ter que investigar sua miserável vida que viria recheada de mentiras. Provavelmente ela aumentou algo sobre o operário. Mas não me importo! Sobre ela, basta ver a expressão de inveja que faz a todos e olhar sua gigantesca bolsa pra saber que ela passará o dia inteiro em lojas gastando o dinheiro do marido com porcarias. Uma soberba mulher que gosta de exibir trecos baratos e falsificados pra desviar os olhos alheios de sua miserável e vazia vida.

Perto do cobrador, está aquela senhora magrela com uma criança e sua mochila de rodinhas. A pobre leva a garotinha todos os dias para a creche e busca no final da tarde. Talvez tenham se atrasado hoje, mas colocar uma criança numa escola por um período integral e nem sequer levá-la e buscá-la, que tipo de pais essa garotinha tem? Jogaram todo o peso para as costas da senhora!

Sentados na minha frente, dois pré-adolescentes, um menino e uma menina. Eles estão indo juntos para o cursinho. O garoto é bastante tapado por não perceber que sua amiga está gostando dele, mas ela não é muito bonita e já notei como ele olha para a moça do outro lado. Essa amizade acabará assim que ela se confessar e levar um fora dele.

A moça do outro lado é muito bonita não é mesmo? Vestindo roupas brancas e levemente justas que define bem as curvas de seu copo. Loira, pele bronzeada, traços finos... É difícil não perder a concentração olhando para ela. Essa jovem faz estágio de enfermagem, mas suas intenções são bem simples: Conquistar algum médico que garanta a ela uma vida materialmente luxuosa.

Sentado à frente dela, aquele senhor magro com uma bengala na mão. Ah! Aquele velho ranzinza, como foi difícil falar com ele. Sua vida de trabalho duro o transformou em um velhote amargurado. Têm tantos netos que nem consegue contar nos dedos e todos eles ganharam o mesmo apelido de seu vô: Demônios. É uma pena que ele não tenha se dado conta de como sua família cresceu e levam vidas razoavelmente boas graças ao trabalho duro e educação aplicada de um pai responsável para com seus filhos.

Infelizmente, meu tempo está se esgotando, eu deveria escolher alguém para salvar, de fato já salvei cada um deles várias vezes. Contudo, eu continuo repetindo está curta viagem! Quem eu deveria salvar desta vez?

Ele se levante e vai até os assentos próximos do cobrador.

— “Ei, garotinha” — Cochicha próximo à criança sentada com uma senhora, sem que a mulher pudesse notá-lo e escutá-lo! — Está vendo aquele assento lá atrás, aquele que fica acima da roda?

— “Uhum.”

— “Ele é alto né? Se você sentar nele consegue sentir o vento da janela, porque não experimenta?”

A Menina sorriu e foi correndo até o lugar, sua avó se assustou e preocupada ficou chamando a garotinha que se sentava alegremente naquele assento alto.

Debaixo de uma leve garoa, dois homens com capa de chuva, uma vermelha e outra amarela, estavam na esquina de um cruzamento apenas aguardando o evento seguinte.

Passou por eles o ônibus, o freio parou de funcionar e o motorista tentou desviar de um carro. A virada brusca e o asfalto molhado contribuíram com o desgoverno do ônibus, ele foi tombando para o lado enquanto fazia a curva e se chocou com um prédio da outra esquina. Como se não bastasse, alguns carros não conseguiram desviar e acabaram se chocando contra o ônibus.

Os dois homens apenas observaram o acidente acontecendo, após isso viraram as costas e saíram andando.

— Quantas vezes ele repetiu isso? — Perguntou o homem com capa amarela.

— Vai saber, já deve ter passado de duzentas, eu que não vou ficar contando.

— Mas... — Ele para e olha para trás — Não consigo entender, porque ele continua repetindo isso?

— Tsc, não é simples? — Permaneceu andando com as costas viradas

— O quê é simples? — O homem de capa amarela dá uma corridinha até o de capa vermelho e volta a acompanhá-lo na caminhada.

— Ele ainda não consegue decidir a quem salvar.

— Mesmo repetindo tantas vezes?

— Hahahaha! Tem muito que aprender ainda meu rapaz, por mais altruísta que seja ele também é um tanto egoísta. Eu adoro ver essas contradições, hehe! Apenas se ponha no lugar dele, quem você salvaria? Conseguiria arcar com o peso de julgar quem merece ficar vivo?

— Sim é um pouco complicado mesmo, mas basta pensar que um é melhor que zero.

— Tsc, que forma simplória e burra de analisar a situação! Vou colocar de outra forma. Cada repetição abre-se uma linha paralela e em cada uma delas, uma pessoa sobrevive! Mesmo tendo isto em mente, no momento em que ele se salva-se definitivamente, teria que conviver com as mortes das outras pessoas daquele ônibus em sua própria linha do tempo. Se ele não pode sequer compreendê-la, conseguirá se perdoar?

— Bem-

— Ainda não terminei! Tsc... Enquanto ele não se salvar ou decidir a quem salvar naquele ônibus, todos continuarão vivos! Haverá um momento em que a mente dele ruirá e quando isso acontecer será preso ao infinito. Agora, se colocando no lugar dele, você conseguiria estar bem consigo mesmo se sobrevivesse? No fundo, tudo não passa de uma questão em que não se trata da vida das outras pessoas e sim da sua própria vida.

O Rapaz de capa amarela parou de caminhar, confuso, olhando seu parceiro que permaneceu caminhando. E se perguntava: “Porque aquele rapaz?” “Porque eu?” “Isso foi uma lição?” “Um aprendizado?”...

E o homem de capa vermelha ganhando distância, começava a sorrir...

Notas finais
Da série: O homem da capa de chuva!

Outras obras da série: https://fanfiction.com.br/historia/706804/Toryanse_-_One_Shot/
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