Cicatrizes do Passado

12 Entre Recordações e Apoio


O sol da manhã seguinte iluminava a cidade de forma suave, mas o ar estava carregado de silêncio. Saya entra no gabinete de Riku, o que apanhou de surpresa Riku.

— Podes vir comigo este fim-de-semana? — disse, com hesitação. — Não quero ficar sozinha.

Riku aceitou sem questionar.

Saya preparava-se para a viagem à casa dos pais, para tratar dos últimos detalhes do funeral do pai. A tensão no corpo dela era palpável, misturada com a tristeza e a responsabilidade que sentia. Riku, como sempre, apareceu no momento certo, silencioso e firme.

— Vamos? — perguntou ele, sem necessidade de muitas palavras. O simples tom calmo da sua voz trouxe-lhe uma ligeira sensação de segurança.

— Sim. — respondeu Saya, respirando fundo antes de sair.

A viagem durou algumas horas, mas Riku manteve-se atento a cada gesto, cada sinal de cansaço. Ele não pressionava, apenas oferecia presença constante. No caminho, Saya manteve-se em silêncio, concentrada na cidade que passava pela janela, nas memórias do pai, e na estranha sensação de que, mesmo em momentos de dor profunda, podia confiar em alguém sem se sentir vulnerável.

Ao chegarem à residência dos pais, Saya entrou com passos hesitantes. A mãe olhou-a com uma expressão carregada de emoções contraditórias raiva, tristeza e desaprovação antiga. Riku permaneceu ao lado de Saya, atento, mas sem interferir, permitindo que ela enfrentasse a situação à sua maneira.

Nos dias seguintes, entre telefonemas, visitas a familiares e decisões sobre o funeral, Saya manteve-se concentrada, mas Riku estava sempre presente. Observava discretamente, oferecia ajuda quando necessário e nunca tomava o controlo sem ser solicitado. A presença dele tornou-se um apoio silencioso, quase imprescindível.

Durante um momento mais calmo, enquanto preparavam alguns detalhes fúnebres, Saya aproximou-se dele.

— Riku… obrigada por estares aqui. Não sei se conseguiria sozinha.

Ele olhou-a, os olhos transmitindo calma e firmeza.

— Não precisas de agradecer. Estou aqui porque quero, e porque precisas. Não estás sozinha, Saya.

A frase simples, mas carregada de significado, trouxe-lhe um conforto inesperado. Pela primeira vez em muito tempo, ela sentiu que podia confiar em alguém sem medo de julgamento ou abandono.

No dia do funeral, a atmosfera estava carregada de emoções. Familiares choravam, outros mantinham-se em silêncio, mas Riku permaneceu ao lado de Saya, segurando a sua mão discretamente, garantindo que não se sentisse só. A presença dele não apenas oferecia segurança física, mas também emocional, permitindo-lhe enfrentar a perda com dignidade, sem ceder ao desespero total.

Após a cerimónia, enquanto se preparavam para regressar, Saya voltou-se para Riku.

— Obrigado por tudo… mesmo. — disse, com a voz ainda trémula, mas firme.

Ele apenas assentiu, com um ligeiro sorriso.

— Não precisas de agradecer. Sei que é difícil, mas estás a lidar com isso da melhor forma que podes.

No caminho de regresso à cidade, Saya adormeceu, exausta, e Riku observou-a atentamente pelo espelho retrovisor. Havia algo na forma como ela se permitia relaxar na sua presença que ele nunca tinha visto antes. Ela confiava nele, ainda que de forma silenciosa, e isso começou a criar uma ligação que ia muito além do profissional.

Quando chegaram à cidade, Saya despertou lentamente, ainda sonolenta.

— Chegámos. — disse Riku, suavemente.

Ela assentiu, sentindo uma mistura de cansaço e gratidão.

— Obrigada Riku. — murmurou, o olhar dela mostrando pela primeira vez uma suavidade genuína que raramente revelava.

Riku respondeu apenas com um gesto de cabeça, mas os olhos dele diziam tudo: proteção, atenção e uma paciência que começava a penetrar as barreiras que Saya construiu ao longo dos anos.

Mas, enquanto Saya se preparava para entrar em casa, um sentimento de inquietação percorreu-lhe a espinha. Sem se aperceber, sentiu que alguém do seu passado estava a observar. Um sorriso malicioso, distante e familiar, fez o seu coração apertar-se. Algo lhe dizia que a sua vida, mesmo agora com Riku ao lado, estava prestes a enfrentar outro teste.