— Acorde Sophia! Temos que ir! Agora! – Senti os lençóis sendo arrastados de mim e o frio me tocar como pequenas adagas de gelo perfurando minha pele. Nada de “Bom dia, querida! Dormiu bem?” como minha mãe sempre costumava fazer, seguidos de uma xícara de café super quente. Sabia muito bem o que minha mãe escondia por baixo daquela máscara de mulher durona e temperamental. “Um divórcio pode acabar com uma pessoa”, era o que ela sempre dizia quando era casada com o cretino do meu pai e servia de consolo para suas amigas que descobriam as traições e podres de seus maridos perfeitos. Até o dia em que ela provou o gosto agridoce de suas próprias palavras. –Levante Sophia! Não temos muito tempo! – Ela soou ríspida mais uma vez. “Tempo para que?”, eu queria perguntar. “Para o começo do fim de nossas vidas?”

Então eu levantei bruscamente e uma rajada de vento soprou contra meu rosto. As cortinas dançavam ao sabor da brisa através das janelas abertas que, eu apostaria, ela abriu para me despertar mais rapidamente.

-Tudo bem! Posso pelo menos escovar os dentes? Estou com um hálito horrível. Duvido que você vai suportar. – Eu tentei soar descontraída, me opondo a agir com raiva, apesar de odiar ser acordada repentinamente.

-Claro que pode, portanto que seja rápida. – ela disse, mais calma. Me perguntei pela segunda vez qual o motivo de tanta pressa. Camden, Maine, não sairia do lugar, então por que ela agia tão apressadamente arrumando as malas desde ontem, selecionando itens básicos, somente o que é realmente necessário simplesmente para irmos morar no fim do mundo. Eu não entendia. Pelo menos não completamente. Mas tinha uma teoria. Talvez quando algo desse tipo acontece na sua vida, você só queira fugir para o lugar mais remoto possível, bem rápido para que todo o passado pareça não ter existido até que seja irrelevante. Como se fosse uma imagem desfocada na névoa densa. Mas isso era só fingimento e não há nada pior que fingir para si mesmo. Nada do que vivemos desaparece num piscar de olhos ou num estalar de dedos, por que por mais horríveis que sejam as experiências pelas quais passamos, elas compõem o que nós somos. Ora uma melodia triste para depois vir notas alegres ou ainda mais melancólicas. Sempre imprevisível. Eu não sabia como eu sabia isso. Simplesmente sabia. E meu breve conhecimento de dezessete anos que eu tinha de minha mãe me dizia que era exatamente isso que ela estava tentando fazer: fugir de tudo. Bom, só me restava dançar conforme a música.

Escovei os dentes, como disse que ia fazer. Tomei um banho rápido. Por mais que estivesse absurdamente frio e o aquecedor parecesse não funcionar, isso iria me ajudar a sair do estado zumbi. Vesti uma roupa quente, mas confortável e desci as escadas segurando no corrimão para me apoiar. Estava levemente tonta e tinha medo de cair. Só mais dois degraus e estava no piso. De volta à realidade.

Havia apenas duas malas ao pé da porta. Minha mãe estava com tanta pressa que dispensou minha ajuda para arrumar minhas roupas, mesmo eu insistindo. Ela disse que eu não sabia agir imparcialmente em relação a elas, o que só dificultaria as coisas, já que não podíamos levar muito. Ela estava certa em relação a isso.

-Está pronta? – Ela perguntou, mal olhando para mim. Percebi as olheiras abaixo de seus belos olhos azuis. Muitas noites mal dormidas desde que ela havia descoberto sobre meu pai. Ela contratara um detetive particular para espioná-lo alguns dias antes. Eu ouvi a conversa atrás da porta entre ela e o homem robusto que usava boina. Uma imagem de Sherlock Holmes me veio à mente. Quando ele girou a maçaneta, saí correndo para os fundos tentando não fazer barulho, mas ela me flagrou. Depois que o Sherlock foi embora, ela me chamou.

-O que você ouviu? – ela perguntou com a cara dura.

-Nada – respondi um pouco rápido demais. Ela ergueu uma sobrancelha, como ela sempre fazia quando eu estava mentindo. – Tudo. – Cedi à verdade.

-Bom, então deve saber de minhas suspeitas sobre seu pai. – Me limitei a menear a cabeça.

-Mas isso é impossível. Quero dizer, é meu pai. Matt Smith, o incorruptível. – Falei, abrindo os braços para dar uma ênfase dramática às minhas palavras. Não conseguia acreditar que meu pai, o delegado de polícia que levava em cana os policiais que se rendiam ao tráfico. O cara que me levava todos os domingos a igreja e que orava antes das refeições. O cara que era meu pai e havia me criado, me ensinado boa parte de tudo que eu sabia. Mas aqui estava eu, um mês depois. Contra todas as expectativas que eu tinha de que não fosse verdade, mas era.

-Acho que sim. – respondi, sem muita força na voz. Claro que não estava pronta. Como estaria preparada para sair da cidade que sempre chamara de minha. Ser obrigada a esquecer todos os amigos que conhecia desde que era uma criança. Ainda mais para ir a uma terra desolada como o Maine, onde só havia frio e nevasca. Onde nunca mais sentiria os dedos do pé reagindo aos meus esforços mentais. Mas, obviamente, eu estava exagerando. O Maine despertava em mim curiosidade. Ele carregava um mistério sombrio que eu sempre quis desvendar. Porém em outras circunstâncias. Queria ir para lá para passar férias e por opção, não por obrigação. “Mas é a coisa certa a ser feita.” Eu repetia para mim como um mantra. Assim me convenceria de que não estávamos fazendo uma grande burrada. Talvez a maior de nossas vidas.

-Então vamos. –disse ela, pegando uma mala em uma mão e estendendo a outra para mim que peguei rapidamente, segurando firme, minha única proteção quando o mundo como eu sempre o conheci desabava ao meu redor.

Ela não olhou para trás. Talvez temesse que, caso olhasse, desabasse. Fiz o mesmo. Não gostaria de guardar uma última imagem de minha casa (sim, pois, apesar dela estar no nome do meu pai, ela sempre seria minha). Mas não consegui, não tinha a força de minha mãe. Enquanto ela dava a partida, observei pelo retrovisor, até a grande e imponente Smith Hall se transformar em um pequeno ponto preto no fim da rua. Era exatamente como eu me sentia naquele momento. Um pontinho no meio do nada. Sem importância, apenas uma linha traçada pelo Criador e que grande plano ele tinha para mim!

Tinha encostado a cabeça na janela do carro e tinha quase cochilado, quando senti um toque em minha mão. Agradeci silenciosamente pelo toque singelo.

- Você sabe que eu não estaria fazendo isso se não achasse que é o certo a se fazer, não é, Sophia? – eu concordei sem falar nada. – E vai ser bom para nós duas um pouco de paz. – Concordei de novo, por mais que discordasse completamente. Então perguntei...

-De todos os lugares por que Comden?

-Ah. É onde sua avó mora. Esqueceu? – Mas é claro, como poderia ter esquecido. Mas olhando por outro lado, minha mãe quase nunca falava dela. Às vezes pensava que ela havia morrido. Talvez a família de meu pai não gostasse tanto da família dela, eu pensava. Bom, finalmente iria conhecer minha avó. Pelo menos uma coisa boa aconteceria disso tudo.

-Hurrum. Como ela é?

-Ah, tenho certeza que você vai gostar dela. – Ela sorriu pela primeira vez em muito tempo. Esperava que ela estivesse certa.

-Vamos morar lá? – Era incrível o quão pouco eu sabia dos planos de minha mãe. Ela nunca me deixava a par de nada.

-Por enquanto sim. – e depois ela ficou calada durante o resto do trajeto. Eu também não estava a fim de falar nada. O silêncio podia ser inconveniente para alguns, mas para mim era um dos meus melhores amigos, ultimamente.­

Como minha mãe não tinha um gosto musical seletivo, qualquer coisa que eu colocasse para tocar era bem-vindo. Abaixei o assento do carro para formar uma cama improvisada enquanto a cadência quase mística de “Evil”, do Interpol entrava na minha cabeça. Me deixei levar pela voz arrastada e sexy do cantor. Então adormeci rápido e violentamente, segurando o pingente em formato de anjo que ganhara quando criança de minha mãe e desejando que tudo voltasse ao normal. Mas eu sabia que isso não ia acontecer. Talvez nunca.

***

Minha avó morava em um sobrado corroído pelo tempo, mas que guardava um certo charme. A fachada não era extravagante, pintada em cores neutras e tons pastéis, mas uma vidraça chamava atenção no segundo andar, bem como uma janela redonda, sem dúvida, no sótão. Antes de bater, a porta já se abria lentamente e uma velha senhora estava postada do outro lado. De tudo o que havia pensado sobre minha avó, certamente não fora isso que eu imaginara. Ela trajava um vestido preto, mas muito brilhante cheio de purpurina e lantejoulas e um chalé tão extravagante quanto nos ombros. Seus cabelos eram tingidos em uma cor laranja nada natural e tinham alguns dreads. Ela era uma hippie que esquecera que ser hippie não estava mais na moda. Mas quem sou eu para ditar o que as pessoas devem ou não vestir. Mas o que mais despertou meu interesse foi o olhar de pura alegria que ela lançou para mim e minha mãe, como se tivessem se visto ontem. Estendeu os braços e abraçou fortemente minha mãe e depois foi minha vez. Senti um estremecimento e um leve arder nas minhas costas no momento em que ela estava com os braços em volta de mim.

- Querida! Rosemary, já faz algum tempo desde a última vez que esteve aqui. Não posso acreditar que me privou todos esses anos de conhecer minha neta. Devo admitir que nunca em mil anos, imaginaria que ela fosse tão linda assim. – ela deu uma risada calorosa. – Mas também com a mãe que tem! – eu simplesmente sorri, entre levemente alegre e entediada.

-Obrigada... –não sabia se a chamava de vó ou...Deus, nem sequer sabia seu nome.

-Pode me chamar de Marigold, querida. Quando sentir-se mais a vontade, adorarei ser chamada de vóvó. – e riu mais uma vez como se fosse a piada mais engraçada. Pelo visto, não era difícil arrancar-lhe uma gargalhada. Então entramos, minha mãe decidida, eu, cautelosa. Seria uma ótima incursão viver um tempo na casa em que minha mãe crescera. Ela nunca falava muito sobre a infância. Quem sabe quais segredos aquele lugar guardava.

-Acabei de fazer chá e café e tem bolo saindo do forno. – Marigold disse, quase cantarolando.

-Não precisava ter se preocupado, mãe.

-Besteira Mary. Prefere chá ou café, querida? – ela se dirigiu a mim.

-Chá, por favor. – O cochilo da viagem não tinha sido suficiente e eu ainda me sentia meio sonâmbula e não queria café para despertar.

-Com açúcar ou leite?

-Puro. – ela fez como eu disse e ofereceu-me a xícara. – Obrigada. –ela sorriu em resposta.

-Muita coisa mudou na cidade, Mary – minha mãe fitava a cornija acima da porta. Não acreditava que ela estivesse prestando muita atenção no que Marigold falava. – As únicas coisas que permanecem são as fofocas e as celebrações de domingo, mas nem isso é como antes. Bem, não lamento nenhum pouco quanto à língua afiada das fofoqueiras de plantão. – ela tinha um jeito pomposo de falar que era bonito de ouvir. Mas não me imaginava falando daquele jeito. Ia me sentir...bem, uma velha. Minha mãe assentiu.

Senti algo roçando meu braço. Um gatinho me apalpava com a sua cabecinha, querendo carinho. Não pude resistir e passei a mãe levemente atrás de suas orelhas pontudas.

-Marley, saia de cima da mesa. Você sabe que eu não gosto. – disse Marigold, tentando soar brava, mas sem muito sucesso. Como se Marley tivesse entendido, pulou da mesa e aterrizou perfeitamente no carpete. – Bem, soube que vocês tiveram que se desfazer do seu cachorro de estimação. Aqui tenho muitos gatos. Que estereótipo, não? A velha com doze gatos! – ela tinha a incrível habilidade de rir de si mesma. Essa arte eu não dominava. – Mas por enquanto, tenho apenas cinco. – De fato, eu sentia muito a falta de Raziel. Ele tinha sido meu porto seguro durante os dias fatídicos. Quando as lágrimas irrompiam pelo meu rosto, ele simplesmente abanava o rabo, mexia as orelhas daquele jeito fofo e me confortava como só um cão consegue. Sentia mais sua falta do que dos meus amigos. Antigos amigos, agora.

Elas conversaram algumas amenidades enquanto eu me deleitava com o bolo quente, que estava realmente bom. Parecia que eu experimentava sonhos e eles afloravam as minhas papilas gustativas. Elas deveriam ter muito para contar uma à outra, mas falaram apenas dos velhos tempos, pelo que entendi. Não estava prestando muita atenção e o chá me deixara sonolenta. Me sentia um tanto intrusa na conversa, pois minha mãe falava algo e olhava para mim no momento seguinte, como se estivesse se policiando para não dizer nada que eu não gostasse de ouvir. Sempre me tratando como criança. Marigold percebeu e disse:

-Querida, seu quarto é subindo a escada à direita no corredor. Se quiser descansar, pode ir até lá. – ela não precisou falar duas vezes e logo subi as escadas de mogno e abri a porta do quarto. Para minha surpresa tinha uma cama de casal. Como eu amava ter espaço para dormir. O quarto era grande. Muito grande. Eu poderia andar de skate ou patinar ali dentro. Mas não era muito mobiliado. Talvez por isso, dava uma impressão de ser maior do que era. Além da cama no meio, tinha apenas uma cômoda, uma penteadeira e um guarda-roupa que, eu podia jurar, se o abrisse me levaria direto para Nárnia.

Caí com um estrondo na cama e dormi Deus sabe lá quantas horas. Nem me importei de não ter tirado os sapatos.

***

Ainda faltavam alguns dias para eu retornar a escola. Estudaria no colégio local, mas não estava nem um pouco ansiosa para isso. Até porque não me sentia compelida a fazer novas amizades. Não tinha paciência para a simpatia que isso exigia. Então passei os dias seguintes lendo meu exemplar de O morro dos ventos uivantes. Meu livro preferido até então. Adorava a forma descritiva das paisagens e a triste história de amor não concretizada. Não sei por que gostava e me mutilava lendo aquele livro triste. Mas a verdade é que não ficava mais tão consternada, depois das inúmeras vezes que o li, já sabia a história de cor. Todos os diálogos passavam pela minha cabeça antes mesmo de lê-los.

-Porque você não vai dar uma caminhada, querida? – estranhamente eu gostava de ser chamada de querida por minha avó, principalmente por que ela me fazia sentir assim. Na voz dela não soava falso ou forçado. – Não pode ficar o dia todo mofando nesse sofá. – Na verdade podia sim e era um ótimo passatempo, entretanto segui seu conselho e vesti um moleton.

Estava tão frio quanto se podia estar lá fora e eu senti minha espinha tremer por baixo das camadas de roupa. Apesar disso, ainda não nevava e os pinheiros e arbustos conservavam um pouco do verde que logo mais se esvairia, dando vida ao branco completo. Caminhei mais rapidamente, sem correr. Soar um pouco fazia bem e aumentava a temperatura do corpo. Segui por uma trilha de mata fechada. Apenas um risco de cascalho por onde eu andava, quase tendo que me equilibrar. Aos poucos, foi ficando mais esparso e solto e me vi adentrando uma clareira. De soslaio, pensei ter visto um vulto negro, mas quando direcionei meus olhos não havia nada além de uma árvore alta. Caminhei mais um pouco. Uma estrutura sólida se erguia do chão. E, em seguida, vi as lápides e as cruzes apontando para o céu nublado. Estava em um cemitério. Uma carga de adrenalina percorreu meu corpo, me alertando para um perigo eminente. Mas eu não devia ter medo dos mortos. Pelo menos não mais do que tinha dos vivos. A curiosidade sempre falava mais forte quando se tratava de mim e abri os portões enferrujados do lugar. Não havia sinal de ninguém. Ainda bem. Não queria encontrar com um coveiro enterrando um moribundo. Na verdade não queria encontrar ninguém naquele lugar amedrontador. Vi um gato preto com olhos muito amarelos e uma pupila em forma de elipse ainda mais negra pulando de uma tumba para outra. Talvez fosse um dos gatos de Marigold. O que ele fazia tão longe de casa? Pensei ter ouvido um pio baixo. Parecia vindo de um corvo e tão logo escutei, ele alçou vôo com suas asas de penas ainda mais pretas e viscosas que o pelo do gato. Foi então que eu vi um garoto sentado em um dos últimos túmulos, escrevendo em um caderno. A imagem me fez ri internamente. O que algumas pessoas não faziam para buscar inspiração. Ele estava vestindo jeans surrados e rasgados em alguns pontos, uma blusa branca por baixo de uma jaqueta de couro preta, semelhante aquelas de motoqueiros. Ele pareceu me notar e acenou com a cabeça para mim.

-Oi. – ele disse, tímido, porém com um sorriso no canto da boca.

-Oi. –respondi de volta. Não ia perguntar o que ele estava fazendo ali, apesar de ter vontade, porque era óbvio. – Não vou lhe incomodar. Já estava de saída. – disse, apenas para interromper o silêncio incômodo.

-Não está incomodando. De qualquer forma, não estou fazendo nada mesmo.

-Não parece que você não está fazendo nada. – rebati.

-Ah isso, você diz? – ele apontou para o caderno. – Não é nada. – ele disse, mas percebi o tom de sua voz falhar.

-Se você diz. – tentei parecer desinteressada contra meus instintos. Na verdade aquilo me intrigava. Um garoto um tanto gótico sentado em um túmulo em um cemitério no meio do nada. Era no mínimo instigante. O que será que aquele caderno continha. Me senti disposta a descobrir.

- Você é nova aqui, não é? – ele perguntou com os olhos semicerrados e meu Deus, que olhos eram aqueles. Tão negros (aparentemente tudo ali tinha tons de cinza e preto) que pareciam um mar de noite pontilhado por estrelas cadentes. Mas havia algo neles que me espantavam. Não era um mar calmo e sim, tempestuoso. Depois que recobrei a consciência, assenti afirmativamente. – A neta de Marigold. – Era uma confirmação e não uma pergunta, como se minha aparência respondesse por si só.

-As notícias correm rápido aqui, pelo visto. – disse descontraída.

- Você nem imagina o quanto. – Suas meias palavras pareciam guardar meias verdades. Como se tudo que ele dissesse fosse metafórico. Estava oficialmente paranóica. Talvez a névoa carregada na altura dos meus pés contribuísse para isso. Me sentia em um show do Kiss, só faltava a guitarra e a voz metálica. Os efeitos pirotécnicos já tinham.

Pensei ter visto algo, mas achava ser só imaginação. Eu estava vendo vultos com mais freqüência do que gostaria, mas naquele momento alguma coisa disparou no meu cérebro. Um gatilho que me dizia que não estava sozinha. Não humanamente falando. Havia algo ou alguém além daquele garoto bonito na minha frente. E uma palavra se formou na minha mente. Perigo. Foi então que eu vi um homem à espreita, observando de longe. Ele tinha bigodes e barba louros e usava um chapéu de soldado. Seus trajes também eram de soldado, assim como suas botas enlameadas.

-Quem é você? – perguntei.

-Não acha que essa é uma pergunta íntima demais?

-Não estou falando com você! – eu disse. Quase um grito.

-Então com quem você está falando? Não há mais ninguém aqui.

-Você não está vendo aquele homem... – e no exato instante que eu disse, me arrependi. O homem não estava mais ali. Não havia nada além de lascas de pedra e gramíneas molhadas pelo orvalho da manhã. Mas não é possível, quase disse em voz alta. Mas me contive. Já devia parecer louca o bastante.

Ele olhou para onde eu tinha apontado. Não disse nada, apenas negou com a cabeça. Um sutil ondular de pescoço, mas que eu percebi. Estranhamente, ele não me julgou nem disse que não regulava muito bem. Ele compreendia, mesmo eu não sabendo como. Talvez fosse apenas uma impressão. Ou um desejo insano do meu subconsciente. Senti uma vertigem no estômago e bile subir pela garganta. Quando estava prestes a cair, uma mão me amparou. Ele me pegou pelos braços e me pôs junto a seu peito. Me senti protegida, mas era um sentimento bobo.

- Qual o seu nome? – perguntei. Ele arregalou seus lindos olhos que pareciam guardar os segredos do universo, como se achasse ter coisas muito mais urgentes para fazer no momento que dizer seu nome.

- Christian. – Sucumbi à mórbida sensação de estar no olho de um furacão. Tudo parecia girar ao meu redor em uma confusão de cinza, branco e preto. Mas uma coisa fazia minha cabeça repousar e tinha os olhos mais belos que eu vira e se chamava Christian.

***

Os dias se arrastavam torturantemente. Eu não sabia o que fazer para preencher as horas que passavam lentamente, quase sem fim. Era um alívio quando chegava a noite e eu ia dormir, tamanho o tédio em que eu me encontrava. Ouvir o tic-tac exaustivo do relógio de pêndulo era igualmente enlouquecedor. Colocava meus fones de ouvido no máximo, para esquecer de mim mesma. Era o poder que a música desempenhava na minha vida. Uma válvula de escape eficiente. Marigold ia à feira da cidade em sua caminhonete toda manhã bem cedo e me chamava algumas vezes para acompanhá-la. Em outras situações eu rejeitaria a oferta de pronto. Fazer compras, ainda mais de legumes e vegetais não era minha idéia de diversão. Mas acabei cedendo. Ainda não tinha explorado a cidade. Não conhecia praticamente nada ali, a não ser o lugar onde morávamos, onde os vizinhos mais próximos ficavam a um quilômetro de distância.

-Pode pegar a cesta no banco de trás, querida? – Marigold falou, quando estávamos descendo do carro. Peguei-a e fomos andando pelas tendas nas calçadas da rua. Você consegue, Sophie. Vai ser até divertido. Escolher quais cebolas são ou não boas. Pegar as laranjas menos rugosas e blá-blá-blá. Passamos um tempo fazendo isso e uma idéia me fisgou.

-Vó. – eu disse, sabendo que teria rapidamente a sua atenção chamando-a assim.

-Ora, ora. Como é bom ouvir essa palavra. Pode repetir? – ela sorriu, realmente satisfeita por eu ter dado esse “grande” passo.

-Eu queria saber se a senhora conhece algum garoto chamado Christian? – ignorei seu pedido e fui logo ao ponto.

Eu gostaria de dizer que não tinha pensado naquele garoto misterioso. Mas a quem eu queria enganar, a verdade falava por si só. Eu pensava nele o tempo todo. Na forma como seus cílios faziam sombra nas suas bochechas. No franzir de suas têmporas com a minha loucura repentina. E principalmente em seus olhos holísticos. Mas a realidade era que eu não sabia nada sobre ele. E isso era o pior. Ele tinha sumido tão rápido quanto surgira. E a única coisa que me deixara foi um nome e uma boa primeira impressão, apesar de eu não poder dizer o mesmo sobre mim. Até cogitei ir ao cemitério mais uma vez, mas o medo não permitira. Não propriamente o medo do lugar. Eu só não queria ver aquele homem estranho de novo. Ainda tentava me convencer de que fora uma alucinação, mas quanto mais tentava, mais sabia que era uma mentira com o único propósito de me acalmar temporariamente. Para depois tais pensamentos me ameaçarem de novo. Eu era uma caçadora de mim mesma.

-Não. Não conheço. Por quê? – ela perguntou, curiosa.

-É só alguém que encontrei em uma caminhada. – ela não pareceu acreditar, mas era a verdade. Quase.

-Hum, deve ser um garoto bonito para chamar sua atenção. – E como, eu queria dizer. – Agora que estou pensando, o senhor Lewis tinha um filho com esse nome. Não sei se Christian ou Christopher, algo assim. Mas ele era enfermiço e vivia sendo visitado pelo senhor Willians, o médico da cidade. Pobre garoto cheio de espinhas, uma visão ruim e um pomo de Adão protuberante demais. Duvido que tenha se interessado por ele. Onde exatamente você o viu?

- Estava andando e o encontrei na interestadual. – eu disse.

-Foi pra muito longe, querida. Não deveria se arriscar assim. Sei que é uma cidade pequena, mas não devemos tentar a sorte. Acho estranho ter encontrado esse garoto nos limites de Camden. Ninguém anda por ali.

-É, mas talvez ele só estivesse caminhando como eu.

-Ninguém anda por ali. – ela repetiu, mais enfaticamente. Não entendi muito bem o que ela queria dizer com aquilo. Como assim ninguém?

- Em todo caso, você poderá encontrá-lo na escola. – ela disse, dando o assunto por encerrado.

-É. Talvez. – disse, tentando parecer despretensiosa, mas uma fagulha de esperança assolou em meu íntimo. Camden school já tinha um motivo para me fazer levantar todas as manhãs.

***

Quando voltávamos de carro, minha avó me disse:

-Você sabe que pode contar comigo, não é, Sophie? – achei estranho ela dizer isso, mas concordei. – Sei que não nos conhecíamos até semana passada, mas eu sempre estive com você, no meu coração. – não acreditava naquela ladainha, mas se isso a fazia se sentir bem, que seja. Sua mãe está passando por um momento muito difícil e você também. Já passei por coisa semelhante. Talvez pior, mas isso não vem ao caso. Só espero que você seja compreensiva, pois é o que ela precisa agora. – acenei com um “sim” implícito, mas só o que eu pensava era em “já passei por coisa pior”. Do que será que ela estava falando? – Nós duas temos que ajudá-la. Precisamos fortalecer uma a outra. O pussy Power. – e deu uma risada fogosa. – Só me perguntava de que livro de auto-ajuda ela tinha tirado aquelas frases de efeito. – Segunda você volta a estudar e quero que você se dedique a isso, ouviu mocinha. –ela mudou drasticamente de assunto. – Já sabe quais disciplinas vai cursar? – queria cursar a disciplina de “nadas” e “coisa alguma”, mas isso não era opção. Na verdade, eu não tinha pensado nisso. Não tinha pensado nenhum pouco.

-Acho que vou fazer algumas básicas até saber o que eu realmente quero. – ela se contentou com aquela resposta e ficou calada o resto do percurso. Os pneus cantando no chão pedregoso.

Na calada da noite, sai da cama e fui silenciosamente até a cozinha. Estava com insônia, o que era comum e pretendia surrupiar leite da geladeira. Leite sempre me fazia pegar no sono mais rápido. Mais algo mais forte também serviria. Vodka ou vinho. Na nossa antiga casa, quando eu, minha mãe e meu pai ainda vivíamos de aparências, eles fingindo que eram um casal feliz, enquanto o berço matrimonial desmoronava e eu fingindo que não percebia nada, costumava roubar um pouco do vinho tinto forte e amargo da adega que meu pai mantinha, ciumentamente. Tomava alguns goles de umas muitas garrafas para que ele não percebesse que tinha menos. Depois já com a visão embaçada e tropeçando, cambaleante, nos meus pés voltava para cama e dormia com os anjos cantando músicas doces para mim e acordava no dia seguinte sem ressaca alguma.

Abri a geladeira e uma presença me excitou. Se não tinha despertado ainda, com certeza estava agora. Mas era só minha avó.

-O que você está fazendo? – ela perguntou com a voz um pouco etérea.

-Só pegando um pouco de leite. – não encontrei nem sinal de um estoque de bebidas, mas eu sabia que minha avó escondia em algum lugar, sempre a via com um copo de uísque ou um cálice à mão.

-O que você está fazendo? – ela soou assustadora. Franzi o cenho e uma descarga de adrenalina disparou pelo meu corpo. Ela veio até mim e eu recuei um passo para trás, batendo na parede.

-Você não pode despertar o que você não conhece. Não tente barganhar com o mal. Chamas vão cobrir seu corpo de cicatrizes e você queimará com o fogo celestial. A descida ao inferno é fácil, feita de fumaça e aço você é, mas quando o Hades clama e você recebe o chamado, não há outra escolha senão obedecer. – Ela fez uma pausa – Os céus anunciam. Uma beleza sombria foi concebida. Vinhas de ira estão por vir. Não ouse despertar aqueles que sofrem no calvário eterno. – então ela pareceu sufocar sem ar e engasgou suas últimas palavras. – Vá enquanto pode. Nada será como antes. –Seus olhos anormalmente esbugalhados voltaram ao normal e as pupilas que quase sobrepunham aos seus olhos também diminuíram novamente. Ela soltou meus braços que estavam atados por suas mãos incrivelmente fortes e onde suas mãos haviam tocado, uma vermelhidão veio à tona, como se sangue maculasse minha pele. Pequenas bolhas pululavam formando uma trilha sanguinolenta em meus braços. Ela havia me queimado. Mas isso era impossível. “Nada será como antes”, suas palavras ecoavam na minha mente. Eu queria fazer aquele som horrível parar, mas não podia.

-O que aconteceu, querida? – ela retomou a consciência e viu com asco o que tinha feito. – Vou pegar gaze para cobrir isso. Como você se queimou? – ela não se lembrava de nada do que tinha dito. Como explicar isso? Eu me perguntava, boquiaberta. Nada fazia sentido. Minha vida estava mergulhada no terror de aberrações e fenômenos macabros. Eu só queria dormir e esquecer tudo.

Ela enfaixou meus pulsos e me perguntou mais uma vez como eu me queimara.

-Estava fazendo pipoca, fui pegar a panela e me queimei. – A pior mentira de toda a minha existência. Mas Marigold não discutiu, mesmo sabendo que não havia panela nenhuma no fogão.

-Tem pipoca instantânea na despensa, bobinha. – ela falou, séria. Algo me disse que ela tinha uma idéia do que havia acontecido. Mais do que uma idéia. Ela sabia o que tinha acontecido. Talvez não tudo, mas uma parte. Mas não falei mais nada. Naquele momento a linha tênue que tinha nos aproximado se desfez e um grande abismo foi posto no lugar. Eu não confiava mais em minha avó.

***

A primeira semana de aula não tinha sido tão difícil quanto eu previra. Foi normal. Mas essa palavra não tinha mais o mesmo significado que eu costumava empregar. Ela parecia vazia e destituída de sentido, mas sim, ir para a escola de novo foi até bom, de certo modo. Ver pessoas da minha idade, conversar com algumas delas. Flertar um pouco. Tudo isso despertou a adolescente que estava um pouco adormecida dentro de mim. O sinal tocou alto indicando o fim do dia, que havia sido particularmente exaustivo; aquele som não podia ser mais bem recebido. Quando estava quase atravessando a porta, Liddy me encurralou:

-Você vai para o festival de Halloween, não é? – Ela perguntou empolgada. Liddy foi a primeira pessoa que falou comigo, enquanto um mar de desconhecidos se contentava em abaixar a cabeça quando eu passava ou fofocar pelas minhas costas sobre “a garota nova”. Eu gostava dela, do seu jeito espontâneo e demasiadamente alegre.

-Festival de Halloween? Não poderiam ter arranjado um nome melhor? Acho que nunca iria a uma festa com esse nome. É meio broxante. – ela riu da minha piada, assim como ria de todas. Eu suspeitava que ela ria até mesmo quando não entendia, só para socializar. O que era engraçado, já que eu deveria fazer esse esforço por ser caloura e não uma veterana popular.

-Bom...então está decidido: você vem! – ela falou, sem dar abertura para discussão. Ela tinha vencido essa. – Agora, temos que arranjar uma fantasia.

-Alguma coisa em mente? – perguntei.

-Na verdade sim. Você ficaria muito sexy naquela ali. – eu procurei. Ela estava apontando para a vitrine da loja “Fantasias” (que criativo!). Devia ser o único momento no ano inteiro que aquela loja faturava alguma coisa. – Aquela de diabrete! – ela subiu uma oitava com a voz irritantemente fina.

-De jeito nenhum que vou usar aquilo. Você ficaria muito melhor nela. – eu disse porque era verdade. Liddy tinha curvas mais acentuadas que as minhas. Enquanto seus seios eram fartos e sua bunda avantajada, eu não tinha muito das duas coisas. Tinha o corpo de uma modelo, mas isso não era elogio para mim.

-Só tem um jeito de descobrir. Vamos experimentar! – ela bateu palmas. Fiz um esforço para não revirar os olhos. Liddy era o tipo de amiga que convencia você a fazer coisas que normalmente você não faria. Às vezes eram legais e outras desastrosas. Quando as idéias magníficas dela (palavras da própria) falhavam, pelo menos eu tinha histórias engraçadas para contar para os meus filhos.

Atravessamos a rua em direção a loja com o nome “enigmático” e, de súbito, ouvi um barulho. Era muito semelhante a garotos se esmurrando. Vinha do beco no lado da loja.

-Você ouviu isso? – perguntei à Liddy.

-Não, o que?- ela estava muito compenetrada estudando as fantasias.

-Vá entrando. Eu chego já. – ela nem olhou pra mim e já foi entrando. De esguelha, vi-a pedindo um vestido a vendedora. Essa era rápida na tacada.

Fui rápido para o beco. Por mais que fosse manhã, em Comden sempre parecia ser noite. Era como se o sol não atravessasse a névoa soturna que voava acima de nossas cabeças. Quando virei para a direita, senti-o antes de vê-lo. Christian estava no chão agarrado a outro garoto, tão musculoso quanto ele. Dava cotoveladas nas costelas do oponente. Me perguntei o que aquele garoto havia feito para merecer essa fúria.

-Saia de cima de mim, Chris. Só vê aquela garota uma vez e já acha que está apaixonado?! – não entendi no começo sobre o que ele falava, mas uma luz acendeu em minha mente. Aquele menino não podia estar falando de mim, podia?

Fazia algumas semanas desde aquele encontro que tive com Christian. Mas não tinha passado um dia sem lembrar seu nome. Da sua aparência. Da sua voz e dos seus olhos. Ele exercia um magnetismo sobre mim que eu não lembrava ter sentido antes. Já tive alguns romances, mas nada muito emocional. Namorei um cara chamado Ebenezer, mas terminamos quando percebi que não podia ficar com um garoto que tinha aquele nome. Para simplificar as coisas, o chamava de Ben, mas mesmo isso não foi um artifício suficiente. No final, não combinávamos, de qualquer forma. Mas com Christian era diferente. Mesmo não tendo conversado com ele por mais de dez minutos, havia algo nele que me atraia. Me puxava das minhas profundezas e me içava como uma vela. Christian. Seu nome tinha uma sonoridade agradável quando saia dos meus lábios. Como música. Então ele recebeu um soco bem dado no maxilar e gemeu de dor. Sangue jorrando da sua boca, manchando o chão respingado de neve.

-Não suporta ser derrotado uma única vez, não é, Chris? – o garoto pronunciou com intimidade e ao mesmo tempo, como se fosse um palavrão. – Tem que vencer todas! Não consegue ser menos que o rei? – ele falava com um olhar meio insano, cuspindo enquanto as palavras saiam. Se virou para o público que os assistia. Outros garotos descamisados que formavam um círculo ao redor deles. Porque um deles não dava um fim naquilo? Se não fosse um deles, bem...seria eu.

-Já chega! – me dei conta do que tinha dito alguns segundos depois. Não sabia de onde tirei coragem para me por entre dois garotos ensandecidos e apartar a briga, mas o tinha feito.

-Aí está ela! Gostou da surra que seu namoradinho levou? – Decidi que não gostava nenhum um pouco daquele escroto. Tão arrogante que me enojava.

-Ele não é meu namorado. Nem o conheço. Se a violência é a única forma que conhecem de resolver suas questões, vou ter que chamar a polícia. – eles riram zombando.

-A polícia não nos deteria, garotinha. – odiei o tom que ele usou ao falar “garotinha”. Se possível, o detestava ainda mais. Mas eu só olhei descrente para ele, torcendo para que minha raiva fosse evidente. Então uma voz falou atrás de mim:

-Venha Sophie, não dê ouvidos a ele. Ele só é um babaca. – Quando Christian parou, o “babaca” avançou para cima dele, mas foi detido por outros dois garotos, um de cada lado.

Eu ajudei Christian a se levantar. Ele era mais pesado do que aparentava e eu não sabia se serviria para alguma coisa.

-Você pode me ajudar a andar até minha moto. Ela está bem ali. – ele apontou para a Harley com o guidão alto do outro lado da rua. Será que ele estudava na Camden school? Provavelmente não. Eu lembraria se o tivesse visto lá. Com o meu braço envolto de suas costas, fomos andando lentamente até sua moto. Olhei para trás, mas todos os outros garotos não estavam mais lá. Não era possível que tivessem se deslocado tão rápido. Mas as barreiras entre o possível e o impossível se desfaziam diante de mim cada dia que passava. Me dei conta de que estávamos mais próximos do que jamais estivemos. Eu e Christian. Gotas de seu suor pingando da testa e caindo na minha nuca. E, de repente, aquele encontro que tivemos no cemitério parecia ter acontecido à milênios atrás. De alguma forma, eu o conhecia e ele a mim. Não sabia como.

- Sophie, aqui está bom. – Algo havia me passado despercebido. Eu nunca tinha dito meu nome a ele.

***

-Como você sabe o meu nome? – perguntei, um tanto desesperada.

-Da mesma maneira que você sabe o meu. – falou ele, misterioso.

-Mas eu nunca lhe disse. Não tem como você saber.

-Você tem certeza disso? – Do que ele estava falando? Sim, eu tinha certeza. Mas um turbilhão de pensamentos e emoções me assaltaram quase me tirando do chão. Eu havia dito meu nome para ele, mas em sonho. Quando acordei um dia antes do que aconteceu no cemitério, eu havia tido um sonho. Estava de volta ao cemitério. Uma voz me chamava, mas retumbava de longe. Era uma voz desesperada, clamando por socorro. Fiquei triste por não poder ajudar a pessoa que emitia a voz, mas não podia fazer nada. Então o vi de novo, sentado na mesma lápide, no mesmo lugar, com seu caderno a mão, um corvo empoleirado em seu ombro como o papagaio de um pirata.

-O que tem no caderno? É um diário? – perguntei, a curiosidade me sufocando.

-Claro que não é um diário. Não sou nenhum maricas. – ele tentou parecer ofendido, mas esboçava um sorriso, um repuxar de lábios revelando covinhas nas bochechas.

-Ter um diário não faz de você menos másculo, meu caro.

-Na verdade faz. O que você faz aqui?

-Eu poderia perguntar a mesma coisa para você?

-Eu sei muito bem o que estou fazendo.

-Você adora toda essa aura de mistério em volta de você, não é?

-O que posso dizer, é um charme natural. – ele disse, sorrindo maliciosamente.

-Quem disse que você é charmoso?

-Há coisas que não precisam ser ditas. Os olhos já se encarregam disso. E seus olhos me disseram isso. – ele falou com uma estranha sabedoria por trás de suas palavras.

-Se você diz. – ergui as mãos me rendendo. – O que você faz no caderno então?

-Digo com uma condição.

-Qual seria? – pergunto, afiada.

-Me diga seu nome primeiro.

-Sophie. – eu disse e podia jurar que em seguida ele diria “belo nome”. Era o que todos diziam, mas ele não falou nada. Talvez ferisse sua masculinidade. – Cumpri minha parte do trato. E quanto a sua? – ele se levantou e me entregou o caderno, o corvo abriu as asas e alçou vôo e em nenhum momento ele deixou de me fitar. Ele me despia com o olhar e isso era muito embaraçoso. Abri o caderno na primeira página e vi um lobo gigante desenhado. Era perfeito. Traços bem trabalhados, um jogo de claro-escuro digno de aplausos. Fui virando as páginas e vi mais lobos correndo em florestas. Uivando para a lua. Vi uma cachoeira caindo em cascatas. Um farol. Um cais no porto. E na última pagina vi desenhado meu pingente de anjo.

***

-Isso não é possível, Christian. Como você conseguiu entrar no meu sonho? – eu estava tão consternada quanto minha voz denunciava.

-Por que você me chamou.

-Eu o quê? Eu não o chamei! Como poderia ter feito isso?! Quer saber de uma coisa? Tudo isso é loucura. Vou para casa, agora. – mas a expressão dele me deixou aflita. Não podia deixá-lo ali possivelmente com o punho ou uma costela quebrada. Mesmo assim, levantei e virei os calcanhares. Ele pegou minha mão antes que eu pudesse dar um passo.

-Venha comigo e eu prometo que posso lhe explicar tudo. Pelo menos algumas coisas. – Ele parecia realmente interessado em clarear minha mente, então aceitei.

-Para onde?

-Não lhe ofereço risco, Sophie! – não foi isso que eu quis dizer. Sabia que ele não era perigoso. Quer dizer, ele exalava um pouco de perigo, mas não um mortal. Era mais para sedutor.

-Tudo bem. – eu lhe disse, mas nada estava bem. Ele subiu na moto e me deu a mão para que eu conseguisse subir também. Procurei algo para apoiar as mãos. Mas não tinha nada.

-Acho que você vai ter que se agarrar em mim, Sophie. – algo no modo como ele dizia meu nome era hipnótico. Não podia recusar. Apertei meus braços ao redor de seu abdômen rígido. Apenas algumas faixas de roupa separando nossos corpos. – Eu ando rápido.

-Deixa adivinhar. Sem capacetes também? – perguntei.

-Sem capacetes. – ele confirmou. — E a propósito, eu teria ganhado aquela luta. – eu juntei as sobrancelhas por um instante, sem saber sobre o que ele estava falando, então lembrei.

-Claro que sim, mas por que recusar ajuda quando ela é oferecida de graça? – eu falei e ele apenas estremeceu o corpo. Eu estava com frio mesmo de casaco. Ele não vestia nada além de seu habitual jeans surrado. – Não tem nenhuma blusa para vestir, não?

-Não preciso. – ele respondeu. – Sou quente. – eu podia ver a malícia em seu rosto, apesar de estar de costas para ele. Podia ser apenas uma brincadeira, mas ele realmente estava muito quente. Inumanamente quente, ainda que a neve caísse em flocos suavemente. Não era o suficiente para cobrir as ruas e torná-las inteiramente brancas, mas era mais que suficiente para causar frio até minha espinha. Abracei-o forte, tentando capturar todo o calor que ele oferecia. Ele saiu em disparada e estava certo, andava velozmente, seus cabelos fazendo cócegas no meu rosto.

***

O desenho que Christian fez do farol era muito fiel ao real. A luz forte já estava ligada, pois a noite já vinha de mansinho. Um conjunto de pedras pontudas separava o farol do mar e rebentação criava ondas bem altas. O barulho era ensurdecedor.

-Venha! – gritou Christian depois de estacionar a moto. Ele abriu a porta de acesso ao interior do farol e subimos as escadas quase pulando. Ele abriu outra porta lá em cima que dava para uma sacada que rodeava o farol. – Não é bonito daqui? – Eu olhei a minha volta. O farol era tão alto que dava para ver a vila de casas de Camden, o hospital, o colégio onde eu começara a estudar, a prefeitura, o sobrado de minha avó. A luz penetrava o ar denso, condensando-o, parecendo uma chuva em pequena escala. As ondas tão fortes, que eu sentia a maresia chegar até nós.

-É sim! –eu disse, tentando parecer tão animada quanto ele.

-Aqui é o ponto mais alto de Camden. Por alguns minutos seremos os reis dessa cidade. – ele gritou, o eco repetindo aquilo três vezes. – Repita comigo: Nós somos reis.

-Não vou falar isso. Que ridículo! – então ele me pegou pelo quadril e começou a fazer cócegas na minha cintura. E essa era uma das minhas zonas de acesso proibido. Mas ele continuou e eu ria devido à tortura. Uma tortura feliz. Não me importaria se ele me torturasse assim todos os dias. Depois de um tempo fazendo isso, ele tirou algumas frutas do bolso e colocou um morango na minha boca, sem perguntar. Eu aceitei de bom grado e havia algo muito erótico naquele gesto. Depois ele me deu algumas azeitonas roxas, minhas preferidas, e ficamos escutando o mastigar um do outro, observando o sol se pondo no horizonte, apesar de entre nuvens, era uma visão muito bela. Laranja e rosa se fundindo.

-Você deveria ver o sol se pondo no outono. Não há coisa mais bela. – ele falou, poético. Ele se esforçava pra dar uma de machão, mas não fazia aquele papel o tempo todo.

-É mesmo? – eu perguntei só por perguntar.

-Na verdade, tem algo ainda mais belo. – e sem esperar que eu perguntasse “o quê”, ele disse: — Você é mais bela. – eu não sabia o que dizer, então o beijei. Primeiro só foi um atrito entre lábios, depois ele abriu minha boca com sua língua e nos perdemos um no outro por muitos minutos. Senti sua ereção contra o meu ventre e tudo era intensificado pelo fato de ele estar desnudo da cintura para cima. Então paramos, deleitando-nos mais um pouco. Seus lábios estavam vermelhos, assim como os meus também deviam estar e seu rosto corado.

-Quando eu era criança, eu vinha pra cá quando uma tempestade estava a caminho. – ele disse, olhando para o nada. – Uma vez eu estava andando de bicicleta e começou a chover muito, então eu saí correndo em direção a minha casa, tentando chegar o mais rápido possível, quando o tronco de uma árvore caiu bem em cima de mim. Não era muito grande, mas machucava e eu estava sozinho. Então fiz o máximo de esforço pra sair de baixo, enquanto a água formava uma poça lamacenta. Eu mal respirava. Mas consegui sair debaixo e vim correndo pra cá. Não sei por que vim parar logo aqui, no meio do nada. Acho que o lugar me atraiu. E tinha um homem, acho que ele cuidava do farol e vestia umas roupas estranhas. Mas ele me consolou e logo passou a virar rotina. Toda vez que vinha uma tempestade eu vinha para cá e o homem do farol me acalentava dizendo que eu não precisava me preocupar. Era só uma chuvinha e ia passar logo, logo, ele repetia. Depois de um tempo perdi o medo de tempestades e parei de vir aqui e nunca mais vi aquele homem. Ainda não sei como as luzes do farol acendem sozinhas – ele parou e respirou fundo. Não sabia como encarar aquela confissão. O garoto que algumas horas atrás estava aos murros com outro, agora falava de sua infância, docemente. E então percebi que Christian era muito mais do que um bad boy encrenqueiro, se é que era isso que ele era. Ele tinha uma alma de artista e um coração delicado, mas aposto que riria de mim se eu dissesse isso em voz alta.

-Não sabia que aqui tinha tempestades. – assim como você não sabia de quase nada dali sua tonta. O garoto dos meus sonhos (literalmente) falando uma história triste do seu passado e a única coisa que eu disse é “não sabia que aqui tinha tempestades”. Queria me enterrar abaixo do meu nível de insensibilidade. Afaguei a mão dele e o abracei, tentando reparar meu erro.

-E não tem com freqüência, apenas uma vez por ano, no máximo. – ele falou inerte, como se ainda estivesse no passado.

-Quem era aquele garoto no beco? – eu perguntei para mudar de assunto.

-Meu meio-irmão. – ele disse como se falasse do clima, sem importância. Achava que ele era um rival ou coisa do tipo. Se bem que ser meio-irmão de alguém não eliminava a possibilidade de ser um rival, mas você entendeu meu ponto de vista. – Minha mãe morreu e meu pai casou com a mãe dele há uns dois anos. Ele sempre quis chamar atenção do meu pai e me considera uma ameaça para ele em relação a mãe. Daniel é muito cimento. Gosto da mãe dele, mas não a considero minha mãe, ela é apenas alguém que meu pai casou. Mas ele não entende isso.

- Sinto muito. – eu disse e tentei empregar todas minhas condolências naquelas palavras tão genéricas. Abracei-o ainda mais forte, para que ele soubesse que não estava sozinho. Ciúmes era um motivo muito torpe e vazio para iniciar uma briga. Não queria duvidar de Christian, mas senti que ele escondia alguma coisa de mim. Alguma coisa importante. – Vem, vamos descer. – eu disse e o levei pelas escadas. – Gostei do nosso encontro.

-E isso foi um encontro? – ele perguntou.

- Não foi? — eu rechacei.

-Claro que não, se fosse teria feito melhor. Isso só foi uma prévia do que você terá pela frente. – o Christian habitual havia voltado. Me questionei quantas garotas haviam caído naquela lábia. Eu diria que muitas.

-Mas você parte do pressuposto de que eu vou aceitar. Caso isso não aconteça... –deixei as palavras soltas no ar.

-Você vai. – ele disse direto, sem dúvida. Eu apenas sorri em contrapartida.

Depois disso, tudo ocorreu muito rápido e eu fiquei confusa e zonza. Ouvi uivos de lobos e patas silenciosas vindo em nosso encontro. Christian me pegou pelo dorso e me colocou de novo dentro do farol, fechando a porta. Pressionei a maçaneta e nada. Estava trancada. “Fique aqui”, Christian sussurrou de maneira que só eu ouvisse. Ouvi ele gritar:

-Você já não teve o suficiente, Daniel? Quer perder dessa vez? Você sabe que aquilo não contou como uma vitória. – mas não ouve resposta a suas inquisições. De repente, um silêncio soturno se fez e depois ouvi um ganido, um som que parecia duas facas raspando uma na outra e o ar ficou pesado. Eu sei que isso é puramente metafórico, mas você não diria isso se estivesse no meu lugar. Depois escutei rugidos, não gritos, e mordidas rasgando pele. Não consegui respirar de aflição. Se tivesse acontecido algo a Christian eu não me perdoaria. Não estaríamos aqui se não fosse por mim. Sei que isso não era lógico, mas me sentia culpada. Se eu tivesse seguido meu rumo, ele teria seguido o dele e estaríamos seguros em casa. Nós demos tempo para que Daniel e seus asseclas nos rastreassem. Depois de um tempo quase infindável, um barulho de escapamento cortou o ar. Algo me dizia que não era Christian que pilotava sua moto.

***

Tentei de tudo para abrir a porta, mas nada funcionava. Peguei até uma pedra que estava ali por acaso e atirei nela, mas como previsto, nada aconteceu. Então sentei no pé da escada, me sentindo fracassada. Queria voltar lá pra cima e encontrar um pouco de paz, mas só o que eu veria era o breu. Já havia passado muito depois do pôr do sol. Um frio incomum me surpreendeu. Estava frio antes, mas isso era diferente e muito familiar. Então ele se mostrou para mim.

-O que você quer? –perguntei, ácida. Já não basta eu estar presa aqui, ainda tinha que aturar a presença de um fantasma ou um espírito ou o como se chamassem pessoas que morrem e permanecem vagando aqui na Terra. Eu não sabia quando tinha tirado essas conclusões. Deve ter sido pouco depois que ele apareceu para mim no cemitério. Eu sabia que não era imaginação. Era algo maior. Pior.

-Não se trata do que eu quero e sim do que preciso. –Do que ele estava falando? O que eu tinha para oferecer a ele? –Eu preciso de você para fazer a passagem. –Continuei sem entender o que ele falava.

-É óbvio que eu sou a pessoa errada, não é?

-É óbvio que é! Eu não passei mais tempo em morte nessa terra que em vida para me enganar agora. Esperei muito por isso e você vai ter que me ajudar. Querendo ou não. –Eu fiquei paralisada. Não acreditava que estava falando com um fantasma e ele ainda por cima estava me impondo coisas. Era surreal.

-E se eu não quiser. Não se leva em conta minha vontade no seu limbo espiritual. –tentei soar debochada.

-Você não tem nem idéia do que um espírito pode fazer com alguém se sua vontade for recusada. Eu posso puxar seu pé à noite enquanto dormir. Sussurrar coisas na sua cabeça até você não souber distinguir se sou eu falando ou a pessoa que está na sua frente. Até por fim, lhe levar a loucura. Mas aposto que isso não será necessário, não é mesmo? –Eu ouvia as ameaças atentamente. Com certeza não queria ficar louca, mas uma vozinha no fundo de minha mente disse que aquele homem estava blefando, ou que ele não era tão mal quanto tentava demonstrar. E alguma coisa nele me era muito familiar, mas eu não conseguia dizer o que.

-Tudo bem. Só me diga o que fazer, então. E eu faço. Estou ao seu dispor. – eu disse com uma reverência exagerada.

-Eis a questão, eu não sei o que você deve fazer. Até onde eu sei, eu não tenho nenhum assunto pendente nessa dimensão. Tudo o que eu tinha que fazer nessa terra, eu fiz e morri com honra. Simplesmente não sei o que me prende aqui e isso tem me torturado por uma eternidade. –Eu senti pena daquele homem-barra-espírito-barra-fantasma, por mais que ele tenha me ameaçado apenas segundos antes. Não sabia como é viver ainda depois de morto, vagando sem rumo. E não queria descobrir. Por isso me senti compelida a ajudá-lo de qualquer forma. Ele tirou o chapéu de soldado e o segurou com as duas mãos numa posição resignada. Ele deu dois passos e chegou bem perto de mim. Perto o suficiente para eu sentir seu hálito. Se fantasmas tivessem hálito, claro.

-Eu vou lhe ajudar. Vou tentar, pelo menos. –Parece que foi o suficiente para ele. Uma lágrima brilhante caiu de seu rosto e a emoção tomou conta de mim. Então, eu soube. De alguma forma eu soube que era ele. –Foi você, não foi? Todos esses anos? Era você que o consolava quando ele vinha para cá com medo das tempestades. –Ele assentiu se desvanecendo lentamente como a areia no vento. E, um momento depois, ele não estava mais ali. Mergulhei na escuridão arrasadora, me sentindo mais solitária do que nunca.

***

Estava deitada no chão duro e frio em posição fetal sem saber o que fazer. Tudo tinha virado de cabeça para baixo. Como as coisas podem mudar da água para o vinho tão rápido? Nunca teria a resposta para aquela pergunta. Então, tentei mais uma vez abrir a porta. Magicamente ela se moveu ao meu toque. Não me surpreendeu muito. Coisas mágicas estavam acontecendo com freqüência demais na minha vida para me surpreender com aquilo. Quando abri a porta da minha liberdade, soube exatamente quem havia me ajudado. Era uma troca justa. Ele me ajudara. Eu deveria retribuir o favor. Minha casa não ficava tão longe, mas era uma boa caminhada dali. Ainda bem que estava de tênis e que eu tinha visto em que direção ficava a casa de minha avó do alto do farol.

Cheguei lá ensopada de suor, sorvendo todo o oxigênio que meus pulmões exigiam, desesperada por um copo cheio de água. Mas quando abri a porta, encontrei minha avó e minha mãe enterradas no sofá com uma cara de preocupação.

-Onde você se meteu, garota? –perguntou minha mãe. Eu não a via periodicamente, às vezes no máximo uma vez ao dia, quando eu ia em seu quarto visitá-la. Minha avó levava as suas refeições, mas ela nunca comia muito. Por isso, estava visivelmente mais magra, os sulcos de seu rosto meio cadavéricos. Mas, aparentemente, eu infligira seu período de reclusão. –Fiquei tão preocupada com você! Nunca mais faça isso de novo, está me ouvindo? – Me abraçou tão forte que eu não me lembrava da última vez que ela fizera isso com tanto amor. Me senti protegida e a sensação era boa. Minha avó se juntou a nós em um abraço triplo. Eu consenti, mas sabia que ela escondia segredos de mim. Talvez não por mal. Todo mundo tem segredos. E alguns as pessoas não tem pretensão de revelar, mas minha necessidade suicida de saber o que escondiam de mim sempre falava mais alto.

-Não aconteceu nada. Estava na casa de Liddy, uma amiga minha. – mas acho que minha mãe não deu importância, pois não falou nada em represália.

-A filha dos Carter. Ela é uma boa menina. Fico feliz que esteja se entrosando, querida.

Não falei nada, só atravessei as escadas e entrei no meu quarto, tomei um banho quente e me agasalhei, esperando dormir até o dia seguinte, mas eu sabia que não conseguiria. Não com minha cabeça fervilhando por causa de Christian. Ele não estava a salvo e eu me sentia completamente impotente diante daquela situação. O que eu poderia fazer para ajudá-lo? Nada. Mas tinha algo que eu podia fazer que estava ao meu alcance. Dormir. Curiosamente o que eu mais queria naquele momento era também o que de mais útil eu podia realizar. Fechei os olhos e murmurei o nome que parecia mel em meus lábios. Christian. Me escute. Por favor.

***

Estava de volta ao cemitério. As lápides decrépitas parecendo mortos saindo de suas tumbas. Aparentemente, todos os sonhos compartilhados entre eu e Christian teriam aquele local como cenário. Mas eu estava em um lugar que não tinha ido das outras duas vezes. Na minha frente havia uma escultura de um anjo segurando um cálice, como se derramasse alguma coisa. Suas asas suntuosas abertas em um ângulo de 180º graus. A perfeição da estátua quase me fez estremecer, como se por um instante eu estivesse sendo observada pelo anjo. Christian apareceu, sua imagem se materializando lentamente.

-Christian, onde você está? – eu perguntei, correndo para abraçá-lo. Podia ser um sonho, mas era tão real quanto se não fosse.

-Estou bem. Não precisa se preocupar. –ele ignorou minha pergunta, com essa resposta volúvel. Eu sabia que ele não estava bem.

-Então porque você não soa muito convincente para mim?

-Não preciso ser convincente, por que estou dizendo a verdade...

-Mas não toda ela, não é? –interrompi-o. O problema da verdade é que ela é muito maleável, pensei.

-Escute, há coisas que você desconhece...

-Então me fale. – cortei-o de novo. Isso devia ser irritante.

-Acontece que não posso. Você não sabe o quanto eu gostaria, mas simplesmente não posso.

-Então me conte o que lhe é permitido. –eu estava carente de informações. Carente dele.

-Daniel e o resto da alcate...dos rapazes me raptaram e me prenderam. Eles eram muitos para eu conter. Aqueles cabeças-ocas fazem tudo o que o puto do Daniel manda. Eles me levaram para a floresta e me amarraram a uma árvore. Mas meu pai e outros lob...amigos estavam passando por lá e me encontraram. Eu expliquei toda a situação para ele e ele disse que só há uma coisa a ser feita. Um duelo entre eu e Daniel. Raptar um de nós é uma espécie de desafio. Ele me desafiou e o ganhador será o próximo líder do bando. –eu não sabia o que falar, o que pensar. Tudo aquilo estava além da minha compreensão. Palavras como “duelo” e “bando” não faziam sentido algum.

-Que tipo de duelo?

-Com espadas. –ele parecia confiante.

-O quê? Como assim com espadas? Em que mundo vocês vivem? Estamos no século XXI. Não existem mais duelos com espada. – eu queria gritar e deixar jorrar toda a fúria que se instalava em mim.

-Infelizmente é assim que resolvemos nossas questões. Somos meio, como posso dizer, temperamentais.

-Isso não parece apenas uma falha de comportamento para mim.

-O que posso dizer Sophie, é como as coisas são.

-Então pelo menos prometa que vai ganhar. – eu pedi. Não, implorei.

-Vou fazer o possível. – a confiança anterior se anuviou um pouco.

-Não, você vai... –mas sua imagem ficou desfocada e logo sumiu e ele foi embora. Ele não conseguiu dizer as palavras. Não conseguiu dizer que iria sobreviver. Por mim. Mas já era tarde.

Eu caí no chão com um estrondo, o quadril ardendo com a pancada. Ví caminhantes brancos vindo sorrateiramente até mim. Eram mais espíritos. O que queriam de mim agora? Era um som terrível o lamento dos mortos. Eu sentia vontade de chorar, de gritar, sentia pena, culpa, solidariedade e repulsa por todas aquelas almas. Fizeram um círculo ao redor de mim. Trajavam as roupas que usavam antes de morrer. Alguns mortalmente, outros nem tanto. Um homem tinha a cabeça quase inteiramente decepada e por isso ela balançava com o esforço. Outro estava bem penteado e usava terno. Uma mulher usava uma camisola longa que outrora fora branca, mas estava encharcada de sangue. Pelo visto havia divisão de classes até depois do fim. E eram dezenas de almas voando, me deixando ensandecida.

-O que vocês querem de mim? – gritei o mais alto que pude.

-Diga à minha filha que a amo e que deixei uma caixa embaixo do piso – disse a mulher ensangüentada.

-Mate meu assassino. Ele não merecia estar vivo. Eu sim merecia. – falou o homem com a cabeça quase fora do lugar, ela pendendo do pescoço, estranhamente.

-Eu preciso fazer meu testamento. Meus filhos brigam feito cão e gato pelo dinheiro. Não era para ser assim. –bradou o de terno. Todos em uníssono, como um coral fúnebre entoando uma lamúria. Eram tantas e indefiníveis vozes que eu já não sabia a quem pertenciam. Não distinguia nem mesmo a voz de meus pensamentos. Por um momento eu senti como se fosse todos eles e eu mesma. Nós éramos um só. Eu era a mediadora que eles precisavam para fazer a passagem, entretanto não podia atender tantos de uma só vez. Iria parar em um manicômio. Então organizei minha mente e tomei coragem para dizer:

-Eu não posso fazer o que estão pedindo. Não dá para fazer o que todos vocês querem. Só um de cada vez, por favor. – Corri até os portões do cemitério. Claro que não tinha intenção de falar com nenhum deles em particular, mas isso pareceu dissuadí-los. Eles me seguiram. Senti através do frio pungente. Alguém me atravessou com a mão e foi pior do que se tivessem me cortado com umna faca. Por um momento senti como se não fosse ser feliz de novo e tudo estivesse perdido. Por um momento. Mas foi o bastante para não querer experimentar aquilo de novo. Abri o portão e desci correndo a clareira.

-Você não quis nos ajudar, então não nos responsabilizamos pelo que nós iremos fazer. Nos aguarde no baile. – falaram alguns deles, mas não dei importância. Só queria sair dali e nunca mais voltar. Os espíritos quando contrariados podiam ser vingativos e quando isso ocorria eles assemelhavam-se mais à demônios. Corri, corri e corri até perder o fôlego. Então percebi que estava sentada na minha cama com o corpo febril, olhando para meu quarto. De alguma forma eu tinha estado em dois lugares ao mesmo tempo. Tinha certeza de que havia estado no cemitério. Mas estava no quarto agora. Não sabia explicar, mas eu tinha me dividido e desafiado as leis físicas junto. Mas não era em física que eu pensava agora. Como aqueles espíritos demoníacos haviam falado: eu tinha que me arrumar para um baile.

***

Estava na casa de Liddy. Contra minha vontade ela comprara a roupa de diabrete para mim. Porém eu já não me importava mais, dado os eventos passados até ali. Eu podia ir nua que não faria diferença.

-Vai ser demais. – ela dizia animada. Se soubesse de metade das coisas que eu sei, talvez seu sorriso não fosse tão recorrente. Batia selfies de si mesma e algumas comigo que seriam fruto de muitas risadas, devido minha carranca repreensível. Passamos nas casas de outras amigas de Liddy na limosine que seu pai alugara para ela. Como não estávamos no último ano, a única coisa mais importante era o baile do Halloween, antes do baile de formatura, portanto todos consideravam algo grandioso.

O motorista estacionou em frente a Camdon School e Liddy me puxou, surpreendendo-me e quase me fazendo cair. Ela estava vestida com uma fantasia de fada madrinha um tanto vulgar. Sua saia sequer cobria a calcinha. Aposto que se os garotos imaginassem que toda fada madrinha era daquele jeito, quebrariam muitos dentes e não se importariam se uma moeda não fosse deixada embaixo do travesseiro.

O ambiente era soturno, como tudo em Camdon. Os organizadores do evento realmente se esforçaram para dar um ar sombrio ao salão de esportes. Haviam câmaras “secretas” enfeitadas por catapultas quase realistas. Era cômico dizer que nada daquilo me causava calafrios. Aranhas coladas as paredes. Alguns diziam serem aranhas mortas de verdade, mas eu sabia que era só para propagar o terror. Morcegos pendiam do teto, inofensivos. Tive vários pesadelos consecutivos depois daquela noite no cemitério. Ainda podia ouvir os lamentos como se estivessem ocorrendo nesse exato momento. O que só me deixava mais temerosa para o que estava prestes a acontecer.

Bebi dez conchas de ponche até onde pude contar. Tal número de copos não seria necessário se a vodka contida nele não fosse tão escassa. Depois me senti aérea, uma sensação gostosa de levitação. Olhei para o piso e ele parecia estar distante a metros.

-Sophie! – Liddy gritou do outro lado. – Encontrei um par para você essa noite.

-Não estamos no baile de formatura, Liddy. – disse, revirando os olhos. – Sem ofensas. – disse ao cara a qual era apresentada. Ele não era nada mal, mas havia outro que dominava meus pensamentos. – Dispenso – Sussurrei no ouvido de Liddy. –Ele é todo seu.

-Acontece que já tenho um acompanhante. – falou ela, perceptivelmente bêbada. –Mas dois nunca é demais. – E saiu correndo tropeçando nas próprias pernas até a boate improvisada gritando algo como “Vamos extravasar galera!” e um “U-hoo” como só ela sabia fazer.

Fui ao banheiro retocar a maquiagem. Era estranho eu me preocupar com coisas tão triviais quanto passar batom. Pressionei minha cara contra o espelho para me ver melhor. Fechei os olhos por um segundo e no seguinte, ele estava lá.

-Você de novo. – eu disse.

-Sim, você ainda não cumpriu com o combinado.

-Não me diga que você vai se juntar ao covil de espíritos assassinos. –Aquilo soava ridículo.

-Na verdade vim lhe orientar.

-Por quê? Se como você disse eu não fiz o que prometi.

-Por que essa é, provavelmente, sua única chance de impedir que todos aqueles adolescentes felizes não sejam possuídos nesta noite. – Ele falou “felizes” com amargura na voz. A felicidade não fazia parte de sua pós-vida à muito tempo. Talvez nunca tivesse feito. Era visível em seus olhos sempre cabisbaixos, porém instigantes.

-Do que você está falando? – Nos últimos tempos aquela frase era meu bordão.

-No Halloween os espíritos têm liberdade de possuir qualquer ser humano e fazer o que quiserem com o corpo. É uma maldição camdoniana. Não sei quem foi o estúpido que deu início a isso, mas é fato consumado.

-O que eu posso fazer para interromper isso? – Escutei atentamente suas próximas palavras, sem deixar passar nada e por fim, sabia exatamente o que deveria fazer.

Ir ao cemitério mais uma vez era um prova de coragem que eu não estava ansiosa para passar. Mas não senti nada. Nenhum frio cortante. Apenas o silêncio e o feixe de luz da minha lanterna guiando o caminho. Talvez os espíritos tivessem se dispersado procurando a presa mais apetitosa. Fui até a estátua do anjo, como Owen me falara. Ele dissera seu nome como prova de lealdade. Aparentemente os nomes de um espírito podem fazer muito mal a eles e é uma arma poderosa ao que o possui. Na pedra sob a qual o anjo havia sido esculpido havia uma gaveta escondida, que continha armas capazes de matar demônios. E como no Halloween os espíritos agiam como demônios, não fazia muita diferença. Entalhado na pedra havia uma inscrição:

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Cantei sobre o caos e a noite eterna,

Ensinado pela musa divina a me aventurar

No declínio sombrio, e subir para reascender...

-John Milton, Paraíso Perdido

Palavras animadoras. Como estava apelando para qualquer divindade levemente bondosa, pedi para que aquela musa guiasse meu caminho. Foi fácil abrir a tal gaveta. Não havia nenhum corredor pelo qual puxar, ou botão que a fizesse abrir magicamente. Era só usar de força bruta. Logo vi as armas que Owen tinha falado. De prata com o cabo esculpido em marfim. Ele dissera que a alguns séculos um meteoro caíra naquela região e um aficionado por demônios criou balas feitas do material do tal meteoro. Na verdade, não me importava de onde aquelas balas tinham vindo, portanto que funcionassem.

Peguei a mochila e sai correndo daquele lugar repulsivo, esperando ardentemente que nunca tivesse que voltar até ali mais uma vez.

***

Voltei para o colégio na caminhonete de minha avó. Tinha passado em casa antes de ir para o cemitério. Tudo parecia calmo. Calmo demais. Estava tão paranóica que mesmo quando tudo estava calmo, eu ficava alerta, sempre esperando por algo inesperado. Eu já tinha as armas, só faltava à habilidade de atirar. Não querendo ser pretensiosa, mas meu pai havia me ensinado bem em um curso básico de tiro ao alvo para pais e filhos na delegacia onde ele trabalhava e eu era razoavelmente boa. Com alvos parados. Desejava que não fosse tão diferente com alvos móveis. Owen me explicara que os tiros não iriam ferir as vítimas. Os corpos, melhor dizendo. Só iam banir os espíritos demoníacos para o limbo ou para a inexistência eterna. Não estava preocupada com seu destino. Eles não foram os mais gentis comigo.

Acho que eu realmente tinha o dom de prever coisas antes que elas acontecessem. Porque tão logo meu corpo relaxou, senti o frio característico de presença não humana. Mas dessa vez não só o frio, como também um odor podre. Uma mistura de ovos fétidos, enxofre e borracha queimada. As pessoas no baile não pareciam sentir. Continuavam animadas e alegres, como se não houvesse um mundo espiritual bem diante de seus olhos. Onde anjos e demônios se enfrentavam. Quer dizer, nem eu sabia disso, mas gostava de acreditar em ilusões. De vez em quando faz bem, porém definitivamente não agora.

Ouvi as vozes racharem meu crânio antes mesmo de enxergar de onde estavam vindo. Os mesmos espíritos do cemitério e mais algumas dezenas estavam vindo. Escutei um estralar de colunas enquanto eles possuíam, sem pudor, os corpos daqueles inocentes. Primeiro Robin. Depois Jason. Seguidos de Mitchell, Lucas e tantos outros que eu não conhecia. Peguei duas armas da mochila. Pensei que mirar em dois alvos ao mesmo tempo me ajudaria a acertar mais-. Estava enganada. Isso só me atrasou mais. Atirei uma, duas, três vezes sem acertar em nenhum deles.

Todos eles tinham olhos negros, sem nenhuma parte branca, como se fossem todos feitos de pupilas. Olhos de lagarto ou cobra. Jason lançou para mim um olhar de reconhecimento. Me perguntava qual daqueles espíritos demoníacos havia o possuído. Qual favor teria me pedido. Ele dava saltos altos, dois metros acima do chão e depois correu até mim. Eu mirei, mas era difícil com um alvo tão inconstante. Ele surgiu atrás de mim e me derrubou no chão. Suas duas mãos grandes sufocando meu pescoço me deixando sem ar. Soltei a arma com o impacto do choque, mas ela estava a poucos centímetros de mim. Me esforcei ao máximo. Minha vista estava ficando embaçado. Via pontinhos pretos ao redor dos meus olhos, sentia o último filete de vida quase se esvair, quando ouvi um disparo que cortou a noite. Um tiro certeiro na testa de Jason. Vi uma fumaça podre sair dele e seus olhos voltarem ao normal. Me virei para ver quem era e me surpreendi com o que vi. Minha avó portava uma arma do tamanho de seu anti-braço e aquilo combinava com ela mais que as lantejoulas.

-Aceita ajuda querida? – ela perguntou risonha. Seu humor nunca morria.

-Claro. Era exatamente do que estava precisando. – perguntei por minha mãe, mas ela não precisou responder. Ela estava com duas armas atirando sem parar. Demônios saindo de corpos a cada rasgo. Seus sons de lamentação soavam como se falassem debaixo d’água, muito roucos.

-Acho que vocês vão ter que me explicar uma coisa ou duas quando estivermos em casa. – elas concordaram, mas não tínhamos muito tempo para desperdiçar.

De repente algo se chocou contra mim e ouvi um craque agudo. Vi um extintor de incêndio caído ao meu lado. Olhei para frente e minha mãe e minha avó ainda lutavam, incansáveis. Alguém me puxou pelos cabelos e me ergueu, meus pés não encostavam no piso. Então a risada inconfundível me acertou como um tiro de bala. Era Liddy.

***

Estava sendo arrastada pela floresta. Sabia disso por causa da escuridão mais intensa que o habitual. E porque ali não conseguia ver a lua, mesmo estando cheia, ou as estrelas. Os pinheiros eram muito colados e quase não conseguia andar sem me defrontar com um tronco a frente. Não sabia para onde o demônio que possuíra Liddy estava me levando.

-O que você quer de mim? – perguntei, ousada.

-E porque você acha que desejo alguma coisa de você, garotinha? – a voz era grossa como a de um homem. Como vozes de demônio eram no meu imaginário, com um amplificador natural.

-Todos vocês espíritos querem.

-Não ouse me comparar a um espírito. Sou muito mais do que aquelas pobres almas amedrontadas sem saber que rumo tomar. Tão perturbadas, coitadas. – Senti um impulso de ri. Aquilo seria cômico, se não fosse trágico.

-Então o que você é?

-Sou Abbadom – ele falou tão teatralmente que aguardei que fogos de artifício disparassem atrás dele. Mas nada disso aconteceu. Quando ele viu que continuava sem fazer a mínima idéia de quem ele era, me estapeou no rosto, mas não doeu. – Sou Abbadom, o general dos demônios, eu faço a passagem daquelas almas, quando estão livres para ir. Eu as aprisiono nos portões do inferno e as torturo dia e noite. Vocês humanos me decepcionam, não aprendem demonologia no colégio? Acham que todos os demônios são iguais, um Satanás. – na verdade, era exatamente o que eu achava.

-Bom saber, mas isso ainda não diz o que você quer de mim! – gritei, na esperança de que alguém ouvisse.

-Sua insolente! – Ele me estapeou mais uma vez e dessa vez doeu. Senti sangue descer até a borda dos meus lábios. – O que quero de você é a passagem permanente para ficar aqui, ora. Ficar nessa dimensão e torturar mortais como você parece um passatempo bem divertido.

-Mas porque eu de todas as pessoas?

-Porque você foi marcada pelas sombras. Você tem o dom. Os mortos lhe procuram para que você os liberte. Você é da geração de meus filhos enviados a Terra. Quando os mandei que corrompesse o leito das belas donzelas humanas e maculassem sua linhagem. Você é uma de minhas criações e como tal, mais suscetível a me abrigar. – Não conseguia pensar naquilo, ele estava delirando. A loucura não era doença de exclusividade humana. Tentei pensar em mim como filha do demônio, mas não era possível. Eu não sou má.

Amarrada em um tronco, os galhos me espetavam. Abbadom desenhou um pentagrama de sal em uma parte lisa do solo e começou a entoar um cântico em uma língua que eu nunca tinha ouvido antes. Mas tinha certeza que ele não cantava coisas felizes, porque eu senti aquela sensação horrível de alegria esvaziada e tristeza profunda. Cheguei a pensar que a morte poderia ser um fim desejável. Mas não podia me entregar tão facilmente. Não agora. Não enquanto Christian ainda tinha uma luta para travar. Clamei pelo nome de Christian. Derramei lágrimas salgadas que faziam o sangue em minha bochecha arder como cinzas. Meu pingente de anjo brilhou em um tom de azul forte, como uma estrela cadente mergulhada em fogo celestial.

Abbadom se virou pra mim e se demônios poderiam ficar perplexos, era precisamente como ele estava.

-O que é isso? Ele tentou pegar meu pingente, mas queimou sua pele, expelindo o sangue de Liddy. – Não é possível. Onde você achou isso? – não respondi por que não queria, mas porque não podia. Como se eu tivesse esquecido como se fala, diante da beleza estonteante de meu pingente. Parecia uma lágrima no meu peito, entre minhas clavículas. Um segundo coração pulsante. Uma lágrima de anjo.

Vi vultos passando rápido atrás das árvores. Vultos grandes. Animais selvagens. Lobos. Uma alcatéia inteira. Vi a cabeça de Liddy ter sido estraçalhada por dentes grandes e afiados e virei o rosto. Torcendo para que fosse uma alucinação. Mãos desprenderam as cordas que me amarravam e me colocaram no chão úmido e escorregadio de musgos. A terra estremeceu embaixo de mim, quando o corpo de Libby caiu com um estampido. Então eu soube que a linha tênue que separava a morte da vida havia sido rompida e ela estava morta. A expressão de espanto delineada em seu rosto me fez ter certeza de que eu não esqueceria aquela imagem.

-A garota não tinha chance. Quando Abbadom toma alguém, é tomado para sempre. Ela já estava morta a muito tempo. – persegui o rosto ao qual a voz pertencia. Era um homem alto e robusto, com uma única faixa de cabelos brancos na cabeleira negra. Seu rosto me parecia familiar.

Senti uma pressão leve na minha mão e vi que era uma pata. A pelagem vermelho-alaranjada e negra nas patas, rabo e focinhos do animal me lembravam uma raposa. Em proporções gigantescas. O lobo se curvou diante de mim, afagando meu rosto. Era incrível que um animal tão grande e capaz de matar, pudesse ser também carinhoso. Assim como Christian era capaz de gestos singelos e brandos, mas também de ira cega. Eu reconheci aqueles olhos lupinos. Eram olhos que pareciam me convidar para conhecer o universo e, felizmente, eu aceitei.

***

Despertei lentamente, manhosa como o amanhecer em dias invernosos. Senti uma compressa gelada na minha têmpora e mãos apalpando as minhas. Minha avó estava sentada ao meu lado na cama.

-Onde está Christian? – perguntei, em desespero.

-Ele está aqui, querida. Acalme-se. Quer que eu o chame? – Fiz que sim. Ela desceu, os tamancos fazendo barulhos ocos no chão de madeira. Esperei o que pareceu uma eternidade, mas ele veio.

-Você está bem? – eu disse.

-Melhor do que você, ao que parece. – ele sorriu. Eu também e por um momento tudo estava perfeito.

-Era você na floresta, não era? – ele consentiu. – Como sabia sobre meu pingente? No seu caderno tinha um desenho do meu pingente.

-Eu não lhe disse, mas eu sonho com você à meses. – eu devo ter parecido descrente por que ele ergueu uma sobrancelha. – Eu nunca via seu rosto, apenas seus cabelos revoltos, mas seu pingente sempre ficava visível nas minhas visões então, era a única coisa que eu desenhava.

-São lindos. – eu disse.

-O quê? – ele perguntou um pouco confuso.

-Seus desenhos. Nunca vi nada igual.

-Assim você me faz corar. – ele tentou ser tímido, mas a timidez não era uma qualidade que combinasse com ele. – Bem, agora vou ter muito tempo para desenhar você, não só seu pingente. – eu levei minha mão ao meu pescoço e me assustei por não sentir o toque íntimo.

-Procura por isto? – ele tirou algo brilhante do bolso e meu pingente saiu, irradiando a luz que passava pelas venezianas. – Deixe-me colocá-lo de volta ao lugar dele. – Eu levantei meus cabelos e ele prendeu o fecho de meu colar, traçando uma trilha de beijos pelo meu pescoço, fazendo meus pelos eriçarem.

Ele me beijou suavemente. Não havia maldade em seu toque, apenas afeto e me senti grata por isso.

-Vou deixar você descansar mais um pouco. – era a ultima coisa que eu queria fazer, mas assenti, derrotada. Deixei minha cabeça cair até o travesseiro, mas acabei batendo na parede. Um peso de papel ia caindo no meu rosto, mas o interceptei antes. Havia uma rubrica tracejada na capa dura. Não era exatamente uma rubrica, mas a junção de duas letras. Duas iniciais: M e O. Havia uma foto solta na primeira página. Um homem vestindo coturnos, uma bota enlameada e um chapéu. Era Owen. Gritei por minha avó e ela veio prontamente. Christian também. Ela olhou para mim, como se tivesse sido desmascarada.

-O que isso faz aqui? – ela só continuou olhando fixa para mim ou mais propriamente para a foto.

-Essa foi a última foto dele tirada com vida... – ela falava balançando, meio delirante. – Eu disse para ele que não precisava ir pra guerra. Que ele tinha a mim. Propus que fugíssemos para longe, esquecêssemos tudo, mas ele não quis. Era patriótico até a veia e não via honra nisso. Se ele pelo menos soubesse o que aconteceria...Oh Deus. – ela prorrompeu em lágrimas, uma cascata de água, a vermelhidão se alastrando pela face enrugada. Minha mãe a abraçou longamente.

Eu o senti, mas não o vi. Apenas um faiscar de neblina no lugar onde ele tentava se materializar. Talvez seu tempo estivesse acabado e fosse hora de atravessar a linha. De finalmente partir. Senti uma tristeza breve. Eu sabia que ele estava comigo em todos os momentos importantes, mesmo na floresta quando achava que a morte dissera “olá”. Ele me protegeu a sua maneira e eu seria eternamente grata por isso. Senti sua mão em meu rosto.

-Ele está aqui, não está? – minha avó perguntara. – Diga que eu o amo. Nunca deixei de amá-lo.

-Não preciso. – eu disse. – Ele sabe.

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