Notas iniciais
1 Mês havia se passado os residentes estavam confiantes Mas o passado de Kate estava batendo na porta e ela teria que decidir em confiar na familia que construiu no hospital para revelar a sua vida... e seus fantasmas.
MANSÃO DE MÉDICI — SUÍTE MASTER

Quarta-feira, 6h30

A luz dourada do amanhecer filtrava através das cortinas de seda da suíte master, criando um caleidoscópio suave sobre o mármore do piso. Katherine estava sentada na borda da cama, ainda em seu roupão de cetim azul-acinzentado, observando o lago através da janela panorâmica. Seus cabelos loiros caíam em ondas soltas sobre os ombros, e suas mãos seguravam o celular corporativo com uma tensão que Alessandro reconheceu imediatamente.

O som da notificação havia ecoado no quarto silencioso às 6h15, interrompendo o despertar tranquilo do casal. Alessandro, que estava ajustando a gravata diante do espelho, parou imediatamente ao ver a expressão de Katherine mudar.

— Kate? Sua voz carregava preocupação enquanto se aproximava. O que foi?

Katherine ergueu os olhos verdes, agora turvos por uma mistura de ansiedade e determinação:

— Dr. Henrique Almeida. O advogado do caso do meu pai. Sua voz saiu mais rouca que o habitual. Ele quer uma reunião urgente hoje à tarde, após minha visita à penitenciária.

Alessandro se sentou ao lado dela na cama, envolvendo-a com o braço:

— Urgente pode significar boas notícias, amor. Talvez ele tenha encontrado algo.

Katherine se recostou contra o peito dele, permitindo-se um momento de vulnerabilidade:

— Ou pode significar que descobriram algo que complica ainda mais a situação. Ela suspirou profundamente. Alessandro, eu sinto que algo está mudando. Como se uma tempestade estivesse se aproximando.

Alessandro beijou o topo de sua cabeça, inalando o aroma suave de seu shampoo de lavanda:

— Então enfrentaremos essa tempestade juntos, como sempre fizemos.

Katherine se afastou ligeiramente para encará-lo:

— Há algo que preciso fazer hoje. Algo que venho adiando há um mês.

— O que, meu amor?

— Preciso contar aos residentes sobre minha história. Sobre meu pai, sobre minha mãe... Sua voz falhou ligeiramente. Se Valéria decidir aparecer, eles precisam estar preparados.

Alessandro segurou o rosto dela entre as mãos:

— Tem certeza? Não precisa carregar esse peso sozinha.

— Preciso, sim. Sua determinação retornou. Eles confiam em mim, Alessandro. Merecem saber quem realmente sou, de onde vim. E se minha mãe tentar usar o hospital para me atingir...

— Então faremos isso da forma certa. Alessandro se levantou, já planejando. Marcarei uma reunião para as 13h00. Auditório do 2º andar. Os seniors já sabem de tudo, podem nos apoiar.

Katherine assentiu, sentindo um peso se erguer de seus ombros:

— Obrigada por me entender.

— Sempre, Kate. Sempre.

HOSPITAL VITALIS AETERNUM — AUDITÓRIO 2º ANDAR

13h00

O auditório estava configurado de forma mais íntima que o habitual. As luzes estavam ajustadas para criar um ambiente acolhedor, e apenas as primeiras fileiras estavam ocupadas. Os cinco residentes — Rebecca, Lucas, Beatriz, Michael e Luara — sentavam-se na primeira fileira, suas expressões misturando curiosidade e leve preocupação.

Após um mês de convivência intensa, eles haviam desenvolvido uma percepção aguçada dos humores de seus preceptores. A reunião convocada de última hora, sem agenda específica, era inédita.

Na segunda fileira, os cinco seniors se posicionaram como uma muralha silenciosa de apoio. Luana, Nicolas, Nicole, Rafael e Hinata conheciam cada detalhe da história de Katherine e estavam ali não como preceptores, mas como família escolhida.

Rebecca sussurrou para Lucas:

— Você tem ideia do que pode ser?

Lucas balançou a cabeça negativamente:

— Mas pela expressão da Dra. Katherine hoje de manhã, é algo sério.

Beatriz, sempre empática, observava:

— Ela parecia... vulnerável. Nunca a vi assim.

Michael, analítico como sempre, notou:

— Os seniors estão aqui para apoio, não para ensinar. Isso é pessoal.

Luara, a mais reservada do grupo, murmurou:

— Seja o que for, estamos aqui para ela.

Às 13h00 em ponto, as portas laterais se abriram. Katherine entrou primeiro, vestindo um conjunto social cinza-escuroque realçava seus olhos verdes, mas sua postura habitual de autoridade estava temperada por uma humanidade rara. Alessandro a seguiu, sua presença reconfortante como sempre.

O silêncio no auditório era absoluto. Katherine caminhou até o centro do palco, suas mãos entrelaçadas à frente do corpo. Por um momento, ela apenas observou os rostos jovens que a encaravam com atenção total.

— Obrigada por virem, ela começou, sua voz mais suave que o habitual. Sei que esta reunião foi convocada de última hora, e vocês devem estar se perguntando o motivo.

Alessandro se posicionou ligeiramente atrás dela, uma presença silenciosa de apoio.

Katherine respirou fundo:

— Há um mês, vocês entraram neste hospital como residentes. Hoje, quero falar com vocês como... família.

A palavra ecoou no auditório, carregada de significado.

— Vocês conhecem a Dra. Katherine Luna De Médici, co-fundadora deste hospital, cirurgiã renomada, esposa do Dr. Alessandro. Ela fez uma pausa. Hoje, quero que conheçam apenas Katherine. A mulher por trás dos títulos.

Rebecca se inclinou para frente, completamente absorta.

Katherine começou a caminhar lentamente pelo palco:

— Nasci Katherine Luna Romero, em uma família de classe baixa. Meu pai, John Romero, era formado em administração, mas trabalhava fazendo bicos para sustentar nossa família. Minha mãe, Valéria Carson, era... ambiciosa.

Sua voz ganhou um tom mais distante, como se estivesse revivendo memórias:

— Quando eu tinha dez anos, minha mãe nos abandonou. Ela não suportava a pobreza e escolheu um homem rico em detrimento de sua própria filha.

Beatriz levou a mão ao peito, visivelmente emocionada.

— Meu pai e eu ficamos sozinhos. Ele trabalhava incansavelmente, e eu... bem, vocês sabem que ingressei na faculdade aos dez anos.

Lucas murmurou impressionado:

— Dez anos...

— Aos treze anos, comecei a trabalhar como diarista e babá para ajudar nas despesas. Estudava medicina durante o dia, trabalhava à noite e nos fins de semana.

Katherine parou no centro do palco:

— Aos dezesseis anos, quando minha carreira começou a decolar, minha mãe reapareceu. Não por amor maternal, mas pelo cheiro do dinheiro.

Sua voz endureceu:

— Ela orquestrou a prisão injusta do meu pai, tentando conseguir minha guarda para explorar minha crescente fortuna.

Michael se endireitou na cadeira, chocado.

— Consegui minha emancipação legal e cortei todos os laços com ela. Meu pai permanece preso há nove anos por um crime que não cometeu.

O silêncio no auditório era ensurdecedor. Rebecca tinha lágrimas nos olhos.

Katherine olhou diretamente para cada residente:

— Conto isso porque vocês merecem saber quem realmente sou. E porque... há possibilidades de que minha mãe tente reaparecer.

Alessandro se adiantou:

— Valéria Carson descobriu recentemente sobre o patrimônio de Katherine. Uma fortuna de 950 bilhões de dólares.

Luara sussurrou:

— Meu Deus...

— Se ela aparecer, Alessandro continuou, tentará usar qualquer meio para se aproximar de Katherine. Incluindo este hospital.

Katherine retomou:

— Por isso, se qualquer pessoa se apresentar como minha mãe, se jornalistas aparecerem fazendo perguntas sobre minha vida pessoal, se qualquer situação estranha ocorrer... vocês devem encaminhar imediatamente para nosso departamento jurídico.

Rebecca se levantou, sua voz trêmula mas firme:

— Dra. Katherine, obrigada por confiar em nós. Sua história não muda nada sobre quem você é para nós.

Lucas se juntou a ela:

— Você é a médica mais inspiradora que conhecemos. Sua origem só torna isso mais impressionante.

Beatriz estava chorando abertamente:

— Você transformou dor em propósito. É por isso que a admiramos tanto.

Michael, sempre prático, declarou:

— Protegeremos este hospital e sua família. É nossa casa também agora.

Luara, finalmente encontrando sua voz:

— Você nos ensinou que excelência vem de superação. Agora entendemos de onde vem sua força.

Katherine sentiu os olhos marejarem — uma reação rara que só acontecia em momentos de profunda emoção:

— Obrigada. Vocês... vocês são mais que residentes. São família.

Alessandro se aproximou:

— Katherine precisa se ausentar esta tarde para resolver questões pessoais relacionadas ao caso de seu pai. Conto com o apoio de todos.

Nicolas se levantou da segunda fileira:

— Dra. Katherine, todos nós estamos aqui para o que precisar.

Luana acrescentou:

— Este hospital é nossa fortaleza. Ninguém a tocará aqui.

Nicole, com sua ternura maternal:

— Você cuidou de todos nós. Agora é nossa vez de cuidar de você.

Rafael, ajustando os óculos:

— Qualquer ameaça legal será tratada com máximo rigor.

Hinata, com sua elegância característica:

— Sua dignidade será preservada. Temos sua palavra.

Katherine desceu do palco e foi envolvida em um abraço coletivo espontâneo. Residentes e seniors se uniram em um círculo de apoio ao redor dela e Alessandro.

— Obrigada, ela murmurou. Obrigada por serem minha família escolhida.

ESTACIONAMENTO DO HOSPITAL

14h30

Alessandro acompanhou Katherine até seu Bentley Continental prata no estacionamento privativo do hospital. O sol da tarde criava reflexos dourados no capô polido, mas a atmosfera entre o casal era carregada de tensão e ternura.

Katherine ajustou a bolsa de couro italiana no ombro, seus movimentos revelando nervosismo mal disfarçado. Ela vestia um conjunto social discreto em tom de azul-marinho — uma escolha consciente para a visita à penitenciária.

Alessandro segurou suas mãos:

— Tem certeza de que não quer que eu vá com você?

Katherine balançou a cabeça:

— Preciso fazer isso sozinha. Meu pai... ele se sente culpado por não poder me proteger. Sua presença pode intensificar esse sentimento.

Alessandro beijou sua testa:

— Então vá. Mas ligue se precisar de qualquer coisa. Qualquer coisa, Kate.

— Vou ligar assim que sair da reunião com o advogado.

— Promete?

— Prometo.

Alessandro abriu a porta do carro para ela, um gesto cavalheiresco que mantinha mesmo após sete anos de casamento:

— Te amo, Katherine Luna De Médici. Nada do que descobrirmos hoje mudará isso.

Katherine segurou o rosto dele:

— Te amo também. Obrigada por ser minha âncora.

Eles se beijaram — um beijo suave, carregado de amor e apoio mútuo. Quando se separaram, Katherine entrou no carro, ajustou o espelho retrovisor e deu a partida.

Alessandro permaneceu no estacionamento até o carro desaparecer na curva da estrada, uma oração silenciosa em seus lábios.

PENITENCIÁRIA ESTADUAL DE SEGURANÇA MÁXIMA

15h30

A Penitenciária Estadual de Segurança Máxima contrastava brutalmente com a elegância do Hospital Vitalis Aeternum. Muros altos de concreto cinza, torres de vigilância e arame farpado criavam uma atmosfera opressiva que sempre fazia Katherine se sentir pequena e vulnerável.

Ela passou pelos procedimentos de segurança com a eficiência de quem os conhecia bem: detector de metais, revista pessoal, confisco de objetos pessoais. Sua bolsa foi guardada em um armário, e ela recebeu uma pulseira de visitante com número de identificação.

A sala de visitas era um ambiente estéril com mesas de metal fixadas ao chão e cadeiras desconfortáveis. Câmeras de segurança observavam cada movimento, e guardas se posicionavam estrategicamente ao redor do perímetro.

Katherine se sentou à mesa número 7, suas mãos entrelaçadas sobre a superfície fria do metal. Aos 25 anos, ela havia feito essa jornada centenas de vezes, mas a ansiedade nunca diminuía.

A porta de segurança se abriu com um ruído metálico, e John Romero entrou acompanhado de um guarda. Aos 52 anos, nove anos de prisão haviam deixado marcas visíveis: cabelos completamente grisalhos, rosto mais magro, ombros ligeiramente curvados. Mas seus olhos castanhos ainda brilhavam com o amor incondicional que sempre dedicara à filha.

— Katherine! Sua voz carregava alegria genuína. Minha menina.

Ela se levantou e o abraçou — um abraço rápido, limitado pelas regras da instituição:

— Oi, papai. Como você está?

John se sentou à sua frente, estudando seu rosto com atenção paternal:

— Melhor agora que você está aqui. Mas você parece preocupada. O que aconteceu?

Katherine sorriu — mesmo após nove anos de prisão, seu pai ainda conseguia ler suas emoções perfeitamente:

— Dr. Almeida pediu uma reunião urgente para hoje. Depois da nossa visita.

John se inclinou para frente:

— Urgente pode ser bom, filha. Talvez ele tenha encontrado algo.

— Ou talvez tenha descoberto que ela está se movimentando novamente.

John suspirou profundamente:

— Valéria.

— Papai, hoje contei minha história para os residentes do hospital. Sobre você, sobre ela, sobre tudo.

John a observou com orgulho:

— Foi corajoso da sua parte.

— Eles merecem saber. E se ela aparecer...

— Katherine, John interrompeu suavemente, você não pode viver com medo dela para sempre.

Katherine segurou as mãos do pai sobre a mesa:

— Não é medo, papai. É proteção. Proteger você, proteger Alessandro, proteger Lunna... proteger tudo que construímos.

John apertou suas mãos:

— Minha filha, você construiu um império. Tem uma família linda, um hospital que salva vidas, uma fortuna que pode ajudar milhões de pessoas. Não deixe que os fantasmas do passado manchem isso.

Katherine sentiu os olhos marejarem:

— Mas você está aqui por causa dela. Há nove anos, papai. Nove anos longe de mim, não conheceu sua neta...

— E cada dia aqui dentro valeu a pena sabendo que você estava livre para se tornar quem é hoje. Sua voz era firme, sem traço de amargura. Katherine, se eu tivesse que escolher novamente, faria tudo igual.

— Não diga isso.

— É verdade. Você é meu maior orgulho. Quando os outros detentos perguntam sobre minha família, eu falo da minha filha que é médica, que salvou milhares de vidas, que construiu um hospital. Eles me olham com respeito.

Katherine limpou uma lágrima que escapou:

— Lunna pergunta por você. Ela quer conhecer o avô.

O rosto de John se iluminou:

— Como ela está? Conte-me tudo.

Katherine sorriu genuinamente pela primeira vez na conversa:

— Ela tem cinco anos agora, papai. É inteligente como você não imagina. Já sabe ler, adora livros sobre medicina, e tem uma paixão por cavalos.

— Cavalos?

— Alessandro ensinou ela a montar. Você deveria ver como ela fica radiante no estábulo.

John riu — um som que Katherine não ouvia há meses:

— Ela puxou a você. Sempre foi determinada.

— Ela desenha você, sabe. Mesmo nunca tendo te visto pessoalmente. Eu mostro fotos antigas, e ela desenha o 'vovô John' em seus cadernos.

John fechou os olhos por um momento, emocionado:

— Um dia eu vou conhecê-la pessoalmente. Um dia vamos ser uma família completa.

— Papai, e se Dr. Almeida não trouxer boas notícias? E se...

— Katherine Luna De Médici, John usou seu nome completo com autoridade paternal, você é a mulher mais forte que conheço. Enfrentou abandono, pobreza, preconceito, e construiu um império. Não vai deixar que uma reunião com advogado a derrube.

Katherine respirou fundo:

— Você tem razão.

— Sempre tenho, John piscou. Sou seu pai.

Um guarda se aproximou:

— Cinco minutos para encerramento.

Katherine se levantou:

— Papai, independente do que Dr. Almeida disser, não vou desistir. Nunca.

John se levantou e a abraçou novamente:

— Eu sei, minha filha. E eu estarei aqui, torcendo por você, como sempre estive.

— Te amo, papai.

— Te amo também, Katherine. Agora vá descobrir o que o advogado tem para nos contar.

Katherine saiu da penitenciária com o coração pesado mas determinado. A conversa com o pai sempre a fortalecia, lembrando-a de suas raízes e da importância de lutar pelo que é certo.

ESCRITÓRIO DE ADVOCACIA ALMEIDA & ASSOCIADOS

17h00

O escritório de Dr. Henrique Almeida ocupava o 20º andar de um edifício comercial no centro da cidade. Com vista panorâmica para o skyline urbano, o ambiente combinava elegância clássica com tecnologia moderna. Estantes de mogno repletas de códigos legais contrastavam com telas de última geração e sistemas de videoconferência.

Katherine foi recebida pela secretária, Sra. Carmen, uma mulher de meia-idade que a conhecia há anos:

— Boa tarde, Dra. Katherine. Dr. Almeida a está esperando.

— Obrigada, Carmen.

Katherine foi conduzida ao escritório principal, onde Dr. Henrique Almeida a aguardava. Aos 58 anos, o advogado criminalista era uma figura imponente: cabelos grisalhos perfeitamente penteados, terno sob medida e uma reputação impecável construída ao longo de três décadas.

— Katherine, obrigado por vir tão rapidamente. Ele se levantou, cumprimentando-a com um aperto de mão firme.

— Dr. Almeida, sua mensagem me deixou ansiosa. O que descobriu?

Ele gesticulou para que ela se sentasse em uma poltrona de couro diante de sua mesa:

— Antes de tudo, como está seu pai?

— Forte, como sempre. Preocupado comigo, como sempre. Katherine tentou sorrir. Ele perguntou se eram boas notícias.

Dr. Almeida se recostou em sua cadeira, um sorriso discreto brincando em seus lábios:

— São.

Katherine se inclinou para frente:

— Como assim?

— Katherine, após nove anos de investigação, finalmente encontramos a prova que precisávamos.

Ele abriu uma pasta sobre a mesa, revelando documentos e fotografias:

— Lembra-se de Marcus Vieira, o homem com quem sua mãe se casou após abandonar sua família?

— Lembro. Um empresário rico.

— Ele morreu há dois anos. Câncer de pâncreas.

Katherine franziu a testa:

— Não sabia. Mas o que isso tem a ver com o caso do meu pai?

Dr. Almeida sorriu mais amplamente:

— Marcus deixou uma confissão em vídeo. Uma confissão completa sobre como ele e Valéria forjaram as evidências que incriminaram seu pai.

Katherine sentiu o mundo parar:

— O quê?

— Aparentemente, Marcus desenvolveu consciência pesada nos últimos meses de vida. Gravou um depoimento detalhado confessando que pagou suborno para policiais, falsificou documentos e coagiu testemunhas.

Katherine levou as mãos ao rosto:

— Meu Deus...

— Há mais. A irmã de Marcus, Sra. Helena Vieira, encontrou o vídeo entre os pertences dele e decidiu entregá-lo à justiça. Ela disse que não conseguia viver sabendo que um homem inocente estava preso.

Dr. Almeida ligou um tablet e mostrou a Katherine:

— Este é um trecho do vídeo.

Na tela, um homem visivelmente debilitado pela doença, mas com olhos lúcidos, falava diretamente para a câmera:

— "Meu nome é Marcus Vieira, e estou gravando esta confissão porque não posso morrer carregando este peso. Em 2015, eu e Valéria Carson forjamos evidências para incriminar John Romero. Pagamos R$ 50.000 para o investigador Carlos Santos plantar drogas no carro de John. Subornamos a testemunha Maria Silva para dar falso testemunho. Falsificamos documentos bancários para sugerir envolvimento de John com tráfico de drogas..."

Katherine estava chorando:

— Ele confessou tudo...

— Tudo, Katherine. Nomes, valores, datas, métodos. É uma confissão completa e irrefutável.

Dr. Almeida pausou o vídeo:

— Já protocolei o pedido de revisão criminal. Com esta evidência, a absolvição de seu pai é questão de semanas, não meses.

Katherine se levantou, caminhando até a janela:

— Nove anos, Dr. Almeida. Nove anos da vida dele.

— Eu sei. Mas agora podemos devolver a liberdade e a dignidade a ele.

Katherine se virou:

— E Valéria? Ela será processada?

Dr. Almeida assentiu gravemente:

— Falsidade ideológica, corrupção ativa, denunciação caluniosa... Ela enfrentará múltiplas acusações. E desta vez, as evidências são irrefutáveis.

— Quando meu pai pode ser libertado?

— Se tudo correr como esperado, em duas a três semanas. O juiz já sinalizou que analisará o caso em caráter de urgência.

Katherine voltou a se sentar, tentando processar a informação:

— Dr. Almeida, como posso agradecer? Você nunca desistiu, mesmo quando eu perdi a esperança.

— Katherine, seu pai é um homem íntegro que foi vítima de uma injustiça terrível. Lutar por ele foi uma honra.

— Quanto devo pelos honorários adicionais?

Dr. Almeida balançou a cabeça:

— Nada. Este caso sempre foi pessoal para mim. Ver a justiça sendo feita é pagamento suficiente.

Katherine se emocionou:

— Obrigada. Do fundo do meu coração, obrigada.

— Agora vá para casa, Katherine. Conte as boas notícias para Alessandro e prepare-se para receber seu pai de volta.

HOSPITAL VITALIS AETERNUM — 15º ANDAR — SALA DE KATHERINE

18h45

Katherine entrou em sua sala no 15º andar com passos ligeiros, o coração ainda acelerado pelas notícias extraordinárias. A sala, com sua decoração elegante em tons de azul e prata, nunca lhe pareceu tão acolhedora.

Alessandro estava de pé diante da janela panorâmica, observando o movimento do hospital lá embaixo. Ao ouvir a porta se abrir, ele se virou imediatamente:

— Kate! Como foi?

Ela fechou a porta e se encostou nela por um momento, tentando encontrar as palavras:

— Alessandro... meu pai vai ser libertado.

Alessandro atravessou a sala em três passadas, envolvendo-a em seus braços:

— O quê? Como?

Katherine se afastou ligeiramente para encará-lo:

— Marcus Vieira, o homem com quem minha mãe se casou, morreu há dois anos. Mas antes de morrer, ele gravou uma confissão completa.

— Uma confissão?

— Ele confessou tudo, Alessandro. Como eles forjaram as evidências, subornaram testemunhas, plantaram drogas no carro do meu pai... tudo.

Alessandro segurou o rosto dela entre as mãos:

— Meu Deus, Kate. Depois de nove anos...

— Dr. Almeida disse que é questão de duas a três semanas. Meu pai vai voltar para casa.

Alessandro a beijou profundamente, um beijo carregado de alívio e alegria:

— Lunna vai conhecer o avô.

Katherine começou a chorar — lágrimas de felicidade que havia guardado por anos:

— Ele vai conhecer a neta. Vai ver o hospital. Vai estar livre.

Alessandro a guiou até o sofá de couro da sala:

— Sente-se. Conte-me tudo.

Katherine se acomodou ao lado dele, ainda segurando suas mãos:

— A irmã de Marcus encontrou o vídeo e decidiu entregá-lo à justiça. Ela disse que não conseguia viver sabendo que um homem inocente estava preso.

— E Valéria?

— Será processada. Múltiplas acusações. Dr. Almeida disse que desta vez ela não escapará.

Alessandro a puxou para mais perto:

— Como você está se sentindo?

Katherine pensou por um momento:

— Aliviada. Assustada. Feliz. Ansiosa. Tudo ao mesmo tempo.

— É normal. Você lutou por isso durante nove anos.

— Alessandro, quando meu pai sair da prisão... ele não tem para onde ir. A casa onde morávamos foi vendida para pagar advogados.

Alessandro sorriu:

— Ele vai morar conosco, é claro. Na mansão há quartos suficientes para uma família inteira.

Katherine o encarou:

— Você tem certeza? É uma mudança grande...

— Kate, ele é seu pai. É o avô da Lunna. É família. Nossa casa é a casa dele.

Katherine se jogou em seus braços:

— Te amo tanto. Como tive tanta sorte de encontrar você?

— A sorte foi minha, Alessandro murmurou contra seus cabelos. Você me ensinou o que é amor verdadeiro.

Eles ficaram abraçados em silêncio por alguns minutos, processando a magnitude das notícias.

— Precisamos contar para Lunna, Katherine disse finalmente.

— Hoje à noite. Ela ficará radiante.

— E para os residentes e seniors amanhã. Eles merecem saber que a história teve um final feliz.

Alessandro beijou sua testa:

— Quer ir para casa? Celebrar em família?

Katherine assentiu:

— Quero abraçar nossa filha e contar que ela finalmente conhecerá o avô.

— Então vamos. Anna preparou lasanha de frango com molho branco — sua favorita.

Katherine sorriu — o primeiro sorriso genuinamente feliz em semanas:

— Perfeito. Absolutamente perfeito.

Eles se levantaram, Alessandro ajudando-a com o blazer. Enquanto caminhavam em direção à porta, Katherine parou:

— Alessandro?

— Sim?

— Obrigada por nunca ter duvidado. Por ter acreditado na inocência dele mesmo sem conhecê-lo.

Alessandro segurou sua mão:

— Eu acreditei em você, Kate. E você nunca me deu motivos para duvidar.

Juntos, eles deixaram o hospital em direção à mansão, onde uma nova fase de suas vidas estava prestes a começar. Uma fase onde a família estaria finalmente completa, onde a justiça teria prevalecido, e onde o passado doloroso poderia, finalmente, ser curado.

O Hospital Vitalis Aeternum continuava sua rotina noturna, mas hoje havia uma energia diferente no ar. Uma energia de esperança, de justiça restaurada, e de amor familiar que superou todas as adversidades.

Na mansão, Lunna os aguardava com seus desenhos do "vovô John", sem saber que em breve esses desenhos se tornariam realidade. E em uma cela da penitenciária, John Romero dormia tranquilo, sem saber que sua liberdade estava a apenas algumas semanas de distância.

A tempestade que Katherine havia pressentido pela manhã se revelou não uma destruição, mas uma limpeza — lavando anos de injustiça e abrindo caminho para um futuro mais brilhante do que ela jamais ousara sonhar.


Notas finais
Kate finalmente teve uma noticia boa, mais por quanto tempo a paz iria durar?