Notas iniciais
Ela queria viver, mais sua mente e seu coração queriam esquecer...

UTI VIP — QUARTO 1501REUNIÃO JURÍDICA — CHAMADA DE ALESSANDRO

Sábado — 12h15

Dr. Roberto Martinez apareceu na porta do quarto, visivelmente hesitante:

— Dr. Alessandro, preciso falar com o senhor.

Alessandro não tirou os olhos de Katherine:

— Fale aqui mesmo.

— É sobre questões legais relacionadas ao acidente. Precisamos de sua presença na reunião.

— Não vou sair daqui.

Dr. Martinez insistiu:

— São questões importantes sobre responsabilidade civil, seguros, processos criminais...

— Disse que não vou sair daqui, Dr. Martinez.

Foi nesse momento que Rafael entrou no quarto, acompanhado da equipe de neurologia:

— Alessandro, posso falar com você?

Alessandro se levantou relutantemente:

— O que foi, Rafael?

— Preciso fazer uma avaliação neurológica completa em Katherine. Vai levar cerca de duas horas.

— Então vou ficar aqui observando.

Rafael colocou a mão no ombro do amigo:

— Alessandro, você precisa resolver essas questões legais. Eu cuido dela pessoalmente. Prometo que não saio do lado dela nem por um segundo.

Katherine, que havia voltado a dormir após a visita de Lunna, estava visivelmente cansada:

— Vai, amor. Resolve o que precisa resolver. Estarei aqui quando voltar.

Alessandro hesitou:

— Tem certeza?

— Tenho. Rafael é um excelente médico. Confio nele.

Alessandro beijou a testa de Katherine:

— Volto em uma hora. No máximo.

— Estarei esperando.

E logo depois ela adormeceu.

AVALIAÇÃO NEUROLÓGICA — O INÍCIO DO PESADELO

12h45

Rafael coordenava a equipe de neurologia enquanto Katherine dormia tranquilamente. Dr. Fernando Costa, neurologista sênior, realizava testes de reflexos e respostas neurológicas.

— Vamos começar com estímulos auditivos, Dr. Costa instruiu.

Eles tentaram acordar Katherine com chamadas pelo nome:

— Katherine? Katherine, pode me ouvir?

Nada.

Aumentaram o volume:

— KATHERINE! ACORDE, KATHERINE!

Nenhuma reação.

— Isso é estranho.Dra. Carla Mendes, neuropsicóloga, observou. Ela deveria responder aos estímulos.

Rafael começou a se preocupar:

— Vamos tentar estímulos táteis.

Tocaram suas mãos, pés, rosto. Katherine não reagiu.

— Vamos para estímulos dolorosos leves, Dr. Costa sugeriu.

Aplicaram pressão nos leitos ungueais, beliscões suaves. Katherine permanecia completamente inconsciente.

Rafael estava visivelmente alarmado:

— Solicitem exames imediatos. Tomografia, ressonância, EEG. Preciso entender o que está acontecendo.

RESULTADOS DEVASTADORES

14h30

Rafael estava na sala de laudos, analisando os resultados com crescente desespero. Os exames chegavam um por um, e o quadro que se desenhava era assustador.

— Todos os sinais vitais estão preservados, ele murmurou para si mesmo. Pressão arterial estável, frequência cardíaca normal, oxigenação perfeita...

Dr. Costa se aproximou:

— Mas o EEG mostra algo muito preocupante.

Rafael estudou as ondas cerebrais:

— Atividade cerebral mínima. Como se o cérebro dela tivesse... desligado.

— Exatamente. Não há comando neurológico ativo. É como se ela tivesse se induzido ao coma.

— Sem motivo aparente?

— Sem motivo físico. Isso pode ser uma resposta ao trauma psicológico extremo.

Rafael pegou seu bip médico com mãos trêmulas:

— Preciso chamar Alessandro. E todos os outros. AGORA.

CHAMADA DE EMERGÊNCIA

14h45

No 14º andar, Alessandro estava em uma reunião tensa com advogados quando seu bip emitiu o sinal de emergência máxima.

Ele olhou para a tela e sentiu o coração parar.

— A reunião acabou. AGORA.

Dr. Martinez tentou protestar:

— Dr. Alessandro, ainda temos pontos importantes...

— KATHERINE PRECISA DE MIM!

Alessandro correu para as escadas, descendo os degraus de três em três.

REUNIÃO DE EMERGÊNCIA

15h00

O quarto estava cheio quando Alessandro chegou: Rafael, Luana, Nicolas, Nicole, Hinata, Rebecca, Lucas, Beatriz, Michael, Luara, Dr. Costa e toda a equipe de neurologia.

Alessandro entrou como um furacão:

— O que aconteceu? Ela estava bem quando saí!

Rafael se aproximou, visivelmente abalado:

— Alessandro, preciso explicar a situação.

— EXPLIQUE. O QUE ACONTECEU COM MINHA ESPOSA?

Rafael respirou fundo:

— Katherine entrou em coma. Todos os sinais vitais estão preservados, mas o cérebro dela não comanda mais nada.

Alessandro sentiu as pernas fraquejarem:

— Como assim não comanda mais nada?

Dr. Costa se adiantou:

— Dr. Alessandro, o cérebro dela desligou. Se induziu ao coma sem motivo aparente.

— Isso é possível?

— Em casos de trauma psicológico extremo, sim. É um mecanismo de defesa.

Rafael mostrou os exames:

— Não podemos fazer mais nada além de esperar o cérebro dela acordar e ela reagir.

Alessandro olhou para Katherine, imóvel na cama:

— Quanto tempo isso pode levar?

— Não temos previsão. Pode ser dias, semanas, meses...

— Ou nunca, Dr. Costa completou baixinho.

A Palavra "Nunca" Caiu como um peso nos ouvidos de Alessandro, ele não conseguiria suportar tudo isso sozinho.

ALESSANDRO MANTÉM A POSTURA

15h15

Alessandro ficou em silêncio por longos momentos, processando a informação. Todos esperavam que ele desabasse, que gritasse, que quebrasse algo.

Mas ele não desabou. Não ainda. Não agora.

Ele manteve a postura à força, sua voz saindo firme:

— Posso me ausentar por um momento? Preciso fazer uma ligação.

Rafael assentiu:

— Claro, Alessandro.

Alessandro saiu do quarto em silêncio, caminhando em direção à varanda do hospital.

LIGAÇÃO DESESPERADA

15h20

Na varanda, Alessandro pegou o celular com mãos trêmulas e discou para a Itália.

— Mamma? sua voz saiu quebrada.

— Alessandro! Meu filho, como está Katherine?

— Mamma, eu preciso de vocês aqui. Preciso muito.

Donatella percebeu imediatamente o desespero na voz do filho:

— O que aconteceu, Alessandro? Conte para a mamma.

— Kate entrou em coma, mamma. Ela não acorda. Os médicos não sabem quando ela vai voltar, se vai voltar.

O silêncio do outro lado da linha foi ensurdecedor.

— Nós já estamos pegando o primeiro voo, meu filho. Chegamos aí logo.

— Obrigado, mamma. Eu... eu não sei o que fazer sem ela.

— Você não está sozinho, Alessandro. Nunca.

RETORNO AO QUARTO

15h30

Alessandro retornou ao quarto em silêncio. Os seniors se levantaram para sair, dando espaço para ele processar a situação.

Quando os residentes se preparavam para sair também, Alessandro os deteve:

— Esperem. Fiquem.

Os cinco residentes pararam, esperando.

Alessandro se voltou para eles, sua voz controlada mas carregada de emoção:

— Quero que vocês saibam que não vou assumir mais caso nenhum. Não vou trabalhar até ela voltar.

Rebecca se adiantou:

— Dr. Alessandro...

— Vocês devem seguir o curso do hospital. Devem coordenar tudo ao lado dos seniors. O hospital não pode parar.

Lucas assentiu:

— Entendemos, Dr. Alessandro.

— Estaremos aqui para o que precisar,Beatriz acrescentou.

Michael se pronunciou:

— Sua dedicação à Dra. Katherine é inspiradora. Admiro ainda mais o senhor por isso.

Luara, sempre tímida, murmurou:

— Vamos cuidar de tudo. O senhor cuide dela.

Alessandro sentiu os olhos marejarem:

— Obrigado. Vocês são mais que residentes. São família.

Os residentes saíram um por um, deixando palavras de apoio e encorajamento.

Alessandro se sentou ao lado de Katherine e pegou sua mão:

— Prometi que estaria aqui quando você acordasse. E vou cumprir.

CINCO HORAS DEPOIS

20h30

Alessandro havia saído do quarto apenas duas vezes em cinco horas — uma para assinar documentos urgentes e outra para respirar ar puro na varanda.

Os residentes estavam todos próximos ao quarto quando ele saiu para a segunda vez.

Rebecca sussurrou:

— Deve estar sendo muito difícil para ele.

Lucas observou:

— E mesmo assim ele se mantém firme. Não desabou nem uma vez.

Beatriz limpou uma lágrima:

— O amor dele por ela é impressionante.

Michael analisou:

— Ele está sendo forte por ela. Mesmo estando despedaçado por dentro.

Luara murmurou:

— Espero que ela acorde logo. Ele precisa dela.

CHEGADA DOS PAIS

20h45

Hinata apareceu no corredor, sussurrando para os residentes:

— Os pais do Dr. Alessandro chegaram da Itália. Estão subindo.

Alguns minutos depois, o silêncio se instalou. Um casal imponente entrou no andar, mas seus olhares varriam o ambiente com ternura e preocupação.

Ângelo Vittorio De Médici, mesmo após uma viagem transatlântica de emergência, mantinha a elegância natural — terno preto impecável, cabelos grisalhos perfeitamente penteados. Donatella Mia De Médici usava um conjunto social em tom de rosa claro, com um lenço delicado no pescoço.

Hinata sussurrou para os residentes:

— São os pais do Dr. Alessandro.

Antes que o casal pudesse perguntar algo, Alessandro surgiu do outro lado do corredor, retornando da varanda.

Ao ver a mãe, seus olhos ameaçaram derrubar lágrimas, mas ele as segurou e apenas chamou:

— Mamma...

O DESABAMENTO

20h50

Quando os braços da matriarca o embalaram, Alessandro finalmente desabou.

Ele chorou. Chorou como não chorava desde criança.

— Mamma, eu tenho medo. Tenho muito medo de perder a mulher que tanto amo.

Donatella o segurava como se ele fosse novamente o menino pequeno que corria pelos jardins da Villa De Médici:

— Ssh, meu filho. Estou aqui. A mamma está aqui.

— E se ela não acordar, mamma? E se eu perder ela?

— Não vai perder, Alessandro. Katherine é forte. Ela vai voltar para você.

Ao se soltar dos braços da mãe, foi a vez do pai. Alessandro deu dois passos e Ângelo abriu os braços.

Ali ele se permitiu ser apenas um menino com medo.

Ele chorou ainda mais, o medo em sua voz quando falava de Kate era perceptível:

— Papai, se acontecer algo com ela, eu... eu não vou conseguir continuar.

Ângelo o segurava firme:

— Vai conseguir, meu filho. Porque ela vai precisar de você quando acordar.

Enquanto o pai o segurava, os residentes tentavam esconder as lágrimas insistentes.

Mas Donatella fez sinal para que não escondessem e disse suavemente:

— Não escondam. Isso os torna humanos. E vocês jamais devem deixar de ser humanos e de sentir.

NO QUARTO DE KATHERINE

21h00

Quando Ângelo finalmente afastou o filho, os três foram para o quarto.

Donatella se aproximou de Katherine, tocou em seu rosto com delicadeza e penteou seus cabelos com as mãos.

Os residentes a viram chorar e implorar:

— Katherine, minha querida filha, volta para nós. Volta para seu marido, para sua filha, para sua família.

— Por favor, querida, não nos deixe. Alessandro precisa de você.

— Você é nossa filha tanto quanto se tivesse nascido do meu ventre.

E ali os residentes viram o quanto a família De Médici amava Katherine como se ela fosse deles de sangue.

E ao final, ela realmente era.

Ângelo colocou a mão no ombro da esposa:

— Ela vai voltar, Donatella. Nossa nora é uma lutadora.

Alessandro segurou a mão de Katherine:

— Meus pais estão aqui, amor. Toda sua família está aqui esperando você acordar.

Mas Katherine permanecia imóvel, em silêncio, perdida em algum lugar profundo de sua mente onde nem mesmo o amor de sua família escolhida conseguia alcançá-la.

O quarto mergulhou em um silêncio carregado de esperança e desespero, enquanto três gerações da família De Médici velavam pela mulher que havia se tornado o coração de todos eles.



Notas finais
Ela precisava acordar, e apenas uma presença seria capaz disso....