Cicatrizes da Alma

8 Esperança em meio ao Caos


Notas iniciais
Último capítulo.

Antes de mais nada eu queria agradecer de coração a todos que leram. Os reviews foram muito importantes e eu agradeço do fundo da alma.

Bem, drama não poderia faltar, claro, mas eu acho que seria mais estranho se não tivesse. Eu tentei pegar leve com o drama nesse último capítulo e acho que consegui. Espero que gostem do final e até uma próxima.

Boa Leitura.

Uruha sorriu e pegou na mão do amigo, mas não se levantou. Ainda estava visivelmente afetado por ter relembrado seu passado, e mesmo com toda a determinação de Kai, ele ainda se via preso entre querer viver ou se jogar na frente de um carro. Para ele era difícil achar que superaria o que houve, e pior ainda, sabia que se fosse procurar ajuda teria que contar novamente para o psicólogo todo o seu passado, e aquilo era angustiante.

- Sabe Kai, eu até tentaria buscar ajuda, mas ter que falar novamente tudo que aconteceu vai ser horrível.

- Eu sei, mas você precisa tentar, assim não vai mais se cortar, e também pense que, sei lá, talvez seja a última vez que você precise contar sobre isso, e que vai conseguir melhorar de verdade.

- Eu não sei não, tenho medo.

- Eu tenho também, mas acho que ia ser melhor para todo mundo.

- O Reita concorda.

Kai fez que ‘’não’’ com a cabeça.

- Eu tinha imaginado.

- O Reita se odeia. Ele só se olha no espelho com aquela faixa e vive achando que é uma aberração. Além disso, acha que o tempo que a gente vai usar se tratando vai prejudicar a banda.

- Ele sabe que é mentira.

- Sim, acho que essa foi a pior mentira que eu já ouvi dele. Ele sabe que dá pra conciliar, e é necessário, não tem porque não tentar.

- Se ele se odeia tanto, só pode ser por isso.

- O problema é que é exatamente por isso que ele deveria procurar ajuda, pra começar a se gostar mais.

- Acha que consegue convencer?

- Eu espero que consiga.

- Então tem o meu apoio, apesar de eu não ter decidido ainda. Mas eu te ajudo com o Reita.

Kai agradeceu e saiu do quarto. Os cinco estavam perturbados por todos os passados terem vindo à tona daquela forma tão intensa, e provavelmente precisariam dormir para poder pensar em algo sensato e tomarem uma decisão depois de onze anos sofrendo.

Bem-vindo a onde quer que esteja
Esta é sua vida, você conseguiu chegar até aqui
Bem vindo, você tem que acreditar
Que aqui e agora
Você está exatamente onde deveria estar
Bem-vindo a onde quer que esteja

Uruha rapidamente pegou no sono, para alívio de sua mente e seu coração. Ainda era complicado pensar em tudo sem se abalar, e dormir era mesmo uma boa opção, pelo menos no momento, ainda que todos soubessem que atropelar uns aos outros não ia dar resultados satisfatórios e podia deixar as coisas mais complicadas ainda.

- Colocar os pensamentos em ordem é a melhor coisa que todo mundo deve fazer no momento. – Disse Aoi um pouco mais calmo.

- Pelo menos agora todos sabem e isso é uma evolução. – Disse Ruki levantando-se. – E eu concordo com o Aoi sobre tentar descansar um pouco. Agora é o momento de vocês conversarem entre si e decidirem se vão continuar assombrados por esses passados ou tentar mudar.

- Você já tem um veredicto?

- Já Reita. Eu acho melhor vocês três, e até mesmo eu e o Aoi que vivemos, ainda que indiretamente isso com vocês, procurar ajuda.

- Me recuso.

- Reita.

- Nada de Reita Kai. Você sabe o que eu penso sobre mostrar esse rosto para outras pessoas.

- E viver amargurado não vai ajudar em nada.

Reita ia responder para Aoi, mas achou melhor não o fazer, afinal de contas sabia que ele tinha razão, não que isso fosse fazer sua mente mudar, mas de qualquer forma bater boca não ia adiantar. O melhor a fazer era repensar as coisas, e Reita apenas saiu do apartamento, e claro Kai foi atrás, deixando Ruki e Aoi sozinhos na sala.

- Cara, apesar de ter acontecido tanta coisa ruim, eu gostei de relembrar quando conheci o Uru.

- Foi engraçado.

- Eu era insuportável naquela época.

- Continua sendo.

Ruki riu e sentou-se novamente.

- Bendito Kouyou. Eu o achava sozinho e por isso fui atrás, encontrando um garoto tão machucado e que queria desistir de viver, mas que hoje é famoso, enfrenta a vida mesmo com esse passado e ta aí comigo, dividindo esse lugar há tanto tempo.

- Isso é bom, creio eu.

- É bom sim Ruki, mas eu nunca achei que fosse virar mais do que amigo dele.

- Você e a irmã dele são as últimas pessoas que lembram daquele Uruha triste e magoado que queria deixar de viver.

- Isso me faz sentir importante.

- Não teria como não fazer, você foi responsável pela maior mudança na vida dele.

- É como um motivo extra para eu não desistir de viver, sabe?

- O Uruha não seria muita coisa sem você. Digo, não teria tanta força pra continuar aí.

- Como o Reita e o Kai?

Ruki assentiu.

- O Reita deve se sentir horrível, vendo que o Kai perfeito e ele com a queimadura.

- Pra quem cresceu perto deles eu afirmo e reafirmo o seu pensamento. Nem perto do Kai ele tira aquela faixa. Quer dizer, ele tira, mas demora muito pra isso.

- Ninguém pode culpar ele, afinal de contas é uma dor e tanto, e é compreensível que ele queira esconder, apesar de fazer mal.

- Pro Reita aquilo é o maior castigo que ele podia ter recebido.

- Eles precisam de ajuda Ruki, e nós precisamos fazê-los procurar por ela.

- Inclusive nós também.

- É verdade, eu sempre quis carregar a cruz do Uru nos meus ombros, mas eu sei que não posso, não fui eu que senti tudo.

- Não no momento, mas sente agora que ta com ele, que ama ele. E eu sinto também, e os três sabem disso.

- Fico pensando se o Uru vai aceitar procurar ajuda. Ele tem tanto medo.

- Mas eu até achei que ele reagiu bem quando contou, apesar de que deve estar dormindo agora.

- O sono é o essencial no momento, mas eu também achei que ele iria surtar mais.

- E por falar em surto, como você ficou em relação aos cortes dele?

- Eu ainda me lembro de quando vi aquilo.

‘’ – Oe Kou, o que são essas cicatrizes?

- Eu vi a minha mãe fazer isso uma vez e lembro que ela disse pra aquele homem que era pra curar a dor do coração. Achei que fosse verdade, resolvi fazer igual, e me cortei com a gilete dela.

Yuu estava estático.

- Oe Kou, você tem que me prometer uma coisa.

- Diga.

- Prometa que não vai mais se cortar, isso só vai te fazer mal e não vai curar nenhuma ferida aqui dentro.

Yuu levou uma de suas mãos até o coração do namorado.’’

- Você reagiu como eu, Aoi.

- Sim, eu me lembro da sua reação. Você tava chorando bastante depois que o Uru terminou de falar e ficou assustado com as marcas.

- Com o Reita e com o Kai foi do mesmo jeito. De alguma forma aqueles três conseguiram deixar marcas internas e externas e em locais que é só bater o olho e ver, e tudo vêm à mente novamente.
— É uma ligação tão perfeita, principalmente com relação à dor.

- Isso me causa arrepios.

- Acho que qualquer psicólogo surtaria enfrentando esses três casos de uma vez.

Ruki riu.

- Eu também acho.

- E eu acho melhor esse assunto se encerrar antes que mais coisas venham à mente e nós comecemos a ficar mal também.

Ruki concordou e saiu do apartamento de Aoi aliviado. Esse tempo que passou conversando com ele serviu para não levar diálogos e cenas acumulados para casa, o que era reconfortante, pois, poderia dormir bem e descansar o suficiente para encarar Suzuki Akira da forma que ele sabia que iria precisar e botar naquela cabeça que ele era tão normal como qualquer outro ali.

Já Aoi começou a fitar as coisas de seu apartamento, divagando. Sempre que Uruha comentava sobre seu passado ou este vinha à mente de Aoi ele via as coisas de uma forma diferente por um tempo. Era como se um vaso não fosse somente um vaso, ou o porquê dele estar em cima de tal mesinha.

Aoi não tinha uma resposta exata para essas divagações, mas ele não gostava muito de pensar desse jeito. Resolveu ir para o quarto e encontrou Uruha coberto inteiramente por um cobertor. Sorriu para si e descobriu o namorado, cobrindo-o com um lençol, devido ao calor.

Deitou-se e começou a acarinhar o rosto de Uruha com as costas dos quatro dedos, observando-o dormir. Sua expressão era calma e Aoi até poderia dizer que ele estava sonhando com alguma coisa boa, tendo em vista que seus lábios estavam curvados quase formando um sorriso.

Era a paz total, e Aoi adorava aquilo. Apenas ele e Uruha, aquele apartamento cheio de segredos dos dois, o quarto e aquela cama que eles compartilhavam há tanto tempo. Era maravilhoso, e Aoi sabia como Uruha também gostava daquela paz. Talvez assim conseguisse convencê-lo a procurar ajuda, porque quanto mais Uruha estivesse bem, mas eles poderiam aproveitar aquela paz que tanto gostavam sem se importar com qualquer outra coisa e sem sofrer com lembranças de um longínquo passado que deveria ficar enterrado para não tirar mais o sorriso daqueles dois rostos.

- Como você ta, Reita?

- Ainda sem muita reação sobre o que aconteceu com o Uruha. Eu senti tantos calafrios.

- Aquilo deve ter sido demasiadamente horrível mesmo.

- Mas sabe dormir vai ser mesmo a melhor coisa.

- Só não esqueça que o seu namorado aqui vai ter uma longa e séria conversa com você sobre procurar ajuda.

- Ai esse meu namorado que não assiste TV quando eu to dormindo e vive me mandando procurar ajuda. O que seria de mim sem ele, Kami-sama?

- Nada.

Kai riu e saiu correndo até o quarto e Reita o seguiu, pegando-o na entrada do ambiente. Apesar de terem revivido seu passado há apenas dois dias atrás, eles estavam relativamente bem. Sorriam e riam bastante e saíram rolando pela cama de Kai até seu meio.

- Sabe qual é o pior, Uke Yutaka?

- Diga.

- Você tem razão.

Os dois riram e se abraçaram e Kai sentiu Reita beijar seu pescoço. Ele sabia que Reita não ia brigar caso ele insistisse no tal psicólogo, mas bem, nem mesmo o baterista queria pensar naquilo no momento.

Quando todos estão dentro e você é deixado de fora,
E você sente que está se afogando na sombra da dúvida
Todo mundo é um milagre do seu próprio jeito
Apenas escute você mesmo, não o que as pessoas dizem

Talvez não fossem de fato dormir, mas ficar pensando naquilo no momento não ia ajudar. Apesar de estar aparentemente relaxado, Kai sabia que Reita não ia ceder fácil, de forma alguma. Para ele aquela marca era sinônimo de desgraça e imperfeição e o fazia se sentir uma aberração, o que era totalmente mentira. Mas, Kai também sabia que para Reita não era fácil, de qualquer forma, encarar aquilo, apesar de saber que era necessário.

Ruki estava... Divagando. Chegou em casa aliviado, apesar de estar atordoado também. Sentou-se num dos sofás e ficou fitando o nada, mas pensando em tudo. Kai, Reita, Uruha. Todos eles tiveram coragem de contar e reviver aquelas dores, viver de novo aqueles pesadelos, e Ruki sabia perfeitamente que era preciso muita força para fazer o que eles fizeram. Ele só queria, no entanto, que Reita melhor do que ninguém entendesse que buscar ajuda era necessário.

Mas, ele sabia que não seria fácil. Lembrou-se de quando comentou junto com Kai sobre psicólogos com o amigo e como ele ficou. Disse que por nada iria, apesar de dizer na cara larga que era preciso. E claro que aquilo era confuso, afinal de contas, Reita aceitava que precisava de ajuda, mas não a buscava de jeito nenhum. Talvez fosse o orgulho, talvez fosse à vergonha. E claro que Ruki arriscava a segunda opção. Só precisava convencer o baixista de que ele não é como pensa e diz. Mas, sabia que não seria fácil.

Acabou, por fim, indo tomar um banho e dormir.

Aoi havia pegado no sono e quando acordou Uruha ainda dormia. Passava de oito da noite e o moreno demorou um pouco, mas acabou levantando. Pegou umas roupas e foi tomar banho, enquanto se lembrava de Uruha se cortando no banheiro. Limpar todo aquele sangue não foi fácil.

Aliás, lembrar de tudo aquilo não era fácil para ele. Não viveu a dor do namorado, mas só de amá-lo já conseguia sentir tudo. Por muito tempo desejou ter estado no lugar dele só para não precisar vê-lo chorando, principalmente escondido. Aquilo partia o coração de Aoi, e ele sabia que as coisas só iriam melhorar se Uruha procurasse ajuda.

Ele não sabia, ao certo, se o namorado ia aceitar fácil ou não, mas sabia que independente disso, talvez o mais difícil fosse fazer Uruha reviver aquilo uma terceira vez, contando para um psicólogo. Aquele era o maior medo de Aoi.

Quando parece que você está perdido, sozinho e para baixo
Lembre-se que todos são diferentes; apenas dê uma olhada em volta

Quando Aoi saiu do banho e voltou para o quarto, Uruha havia acabado de acordar e ainda despertava totalmente, sentando-se na cama.

- Hoje você vai me deixar ajudar a fazer a janta?

- Não. – Aoi riu.

- Aoi.

- Nada de Aoi. Vai tomar um banho enquanto eu faço as coisas.

- E se eu acostumar mal e não quiser fazer mais nada depois que estiver bem?

- Desacostumo na base do cacete.

Os dois riram e com certo custo Uruha foi tomar banho. Seus machucados ainda estavam sensíveis, mas ele conseguia tomar banho relativamente bem. O problema maior era que se tocar sempre o fazia lembrar daqueles cinco, e como havia relembrado aquilo há algumas horas trás, não era como se não fosse pensar mais ainda, apesar de ter tentado focar sua mente em outras coisas.

Lembrou-se de quando conheceu Aoi e como aquilo foi especial, engraçado e amedrontador. Ele achou que nunca mais fosse ver o moreno na vida depois de ter contado que havia sido estuprado, mas as coisas começaram a melhorar desde aquele dia.

Uruha também se lembrou de como Aoi sempre o apoiou, e sabia também que por várias vezes ele o tinha visto chorar escondido, com medo e vergonha. Aliás, vergonha era algo que ele realmente tinha. Imaginar Aoi tocando seu corpo violado tão intimamente e sem mostrar nojo deixava o loiro feliz, mas às vezes deixava confuso também, afinal de contas, mesmo sabendo que era por amor, Uruha não conseguia se conformar. Talvez fosse por ele mesmo ter nojo de si próprio o que era claro, uma explicação plausível.

Quando terminou de divagar o loiro finalizou o banho e de alguma forma que nem ele entendeu, colocou um short. Curto. Igual ao de Silly God Disco. Sentou-se na cama e fitou suas coxas e pernas. Era difícil não pensar, era difícil não chorar. E olhar para si mesmo também doía. E nesses momentos as lágrimas costumavam vir.

E claro, aquele momento não era uma exceção. Uruha só não imaginou que Aoi fosse aparecer bem na hora.

- Uru, o que foi? – Disse, indo até ele e abraçando-o.

- É esse corpo Aoi, essas malditas pernas, essas coxas, essa boca, tudo. Eu tenho nojo de cada detalhe do meu corpo.

- Uru, não fala assim. O seu corpo não é sujo. – Aoi não conseguia fitar o namorado nesses momentos, porque a dor que eles exalavam era grande demais.

- Escutar isso de você, que me toca há onze anos vai ser sempre maravilhoso, Aoi. Mas, eu não consigo me ver assim.

- Mas deveria Kou. Deveria porque você não é sujo, e nunca vai ser. E como você mesmo disse, quer prova maior disso do que eu ter tocado todos esses anos e estar abraçado com você agora?

Uruha tentava encarar as coisas daquela forma, realmente tentava. Mas era extremamente complicado.

- Queria que fosse mais fácil pensar assim.

- E pode. – Disse Aoi desvencilhando-se do namorado.

- Como?

- Procurando ajuda.

- Vai ser difícil contar tudo de novo. Definitivamente.

- Mas você deveria tentar. Principalmente por você.

- Acha que eu consigo superar isso?

- Tenho certeza.

Bem-vindo a onde quer que esteja
Esta é sua vida, você conseguiu chegar até aqui
Bem vindo, você tem que acreditar
Que aqui e agora
Você está exatamente onde deveria estar

Uruha deu um meio sorriso rápido e fechado e assentiu. Aoi respirou aliviado. Estava feliz pelo namorado querer procurar ajuda. Ele sabia que as coisas mudariam depois daquilo, e claro, esperava que Kai conseguisse convencer Reita a fazer à mesma coisa. Ia ser realmente bom.

Ele ainda permaneceu um tempo com Uruha no quarto antes de irem jantar. Dessa vez a janta desceu melhor e os dois conversaram sobre a banda e outras coisas que não fosse o estupro para se distraírem e não irem deitar com pensamentos ruins na mente. Não era fácil, mas eles tinham que tentar. Assim como Kai também estava tentando.

- Reita, por favor.

- Não Kai. Eu não vou mostrar o meu rosto pra psicólogo nenhum.

- Mas Reita, você precisa.

- Eu sei. Mas, não vou.

Fazia algumas horas que os dois haviam acordado. Kai tinha preparado a janta e enquanto eles comiam ele começou a tocar no assunto. Reita sabia que era para seu próprio bem e estava tentando ser o mais amável que conseguia, afinal de contas não era qualquer pessoa que estava ali, em sua frente. Mas, era difícil pra ele aceitar que teria que procurar ajuda. Muito difícil.

- Eu não consigo Kai. Não consigo.

- Mas você nem tentou.

- E não quero.

- Mas precisa.

- Eu não preciso de ajuda Kai. Não preciso.

Kai sabia que não ia ser fácil e quase levantou da mesa, visto que tinha perdido o apetite. Mas, acabou comendo, ainda que forçadamente, enquanto tentava pensar em algo para convencer Reita, apesar de não ter falado mais nada. Só terminou de comer e com ajuda dele lavou e guardou tudo, apesar de ter divagado a todo o momento sem dar muita atenção ao que o namorado falava.

Eles foram deitar em silêncio também, apesar de Reita o ter puxado para si abraçando-o. Claro que o baterista não ia protestar, visto que apesar de cabeça dura, ainda era seu namorado ali. Ele apenas respirou fundo e tentou dormir.

Seja quem você quiser
Seja quem você é
Todos são heróis
Todos são estrelas

Todavia, nunca foi saudável para Kai comer algo forçado ou passar nervoso antes ou depois de comer. Claro que aquilo não era bom para ninguém, mas para ele era pior ainda.

Acordou de madrugada quase pulando da cama com a pontada que sentiu. E as dores foram ficando piores. Ele levou uma das mãos à barriga e começou a suar frio. Há muito tempo não sentia aquilo e quase não conseguia se mexer, devido à dor. Mas precisava acordar Reita de qualquer jeito e acabou dando um berro quase matando o namorado do coração.

- O que foi Kai?

- Minha barriga.

Kai baixou a cabeça e algumas lágrimas desceram por seu rosto enquanto Reita levantou correndo para se vestir. Há muito tempo ele não via Kai pálido e sem conseguir se mexer da forma que estava acontecendo. Tratou de se vestir rapidamente e enfiou a carteira e as chaves no bolso pegando o namorado no colo e saindo as pressas do apartamento.

Para sorte dele o namorado morava no primeiro andar, o que era perfeito, visto que ele não esperou o elevador e desceu pela escada mesmo. Quase levou um tombo, mas conseguiu chegar com Kai até o carro.

Colocou-o sentado no banco do passageiro e saiu rapidamente do apartamento enquanto o namorado gemia de dor a seu lado.

Percorreu as ruas rapidamente, agradecendo por não ter trânsito. Chegou ao hospital o mais depressa que conseguiu e entrou com Kai nos braços dentro do local, notando mais ainda como ele estava pálido. Um médico veio rapidamente e levou o baterista para uma sala enquanto Reita falava com a recepcionista e tentava se acalmar.

Acabou indo para a sala de espera e só então notou que as pessoas o olhavam, não por ser O Reita, mas sim por estar sem a faixa. Tentou não pensar naquilo, visto que apenas Kai ocupava sua mente no momento, mas, era difícil. Havia mostrado sua marca para várias pessoas enquanto seu namorado agonizava de dor dentro de uma das salas daquele hospital.

Estava sendo sem dúvida a pior noite de sua vida. Apesar de que só depois de longos minutos Reita foi realmente entender que Kai era mais importante do que qualquer marca, mas mesmo assim ela acabava tomando mais espaço na vida dele do que ele desejava.

Aquilo o fez pensar que se focasse menos naquele machucado poderia focar mais em Kai, e claro, ele só poderia fazer isso com ajuda. A bendita ajuda que fez ele brigar com Kai e o fez passar mal. A maldita ajuda que Reita sabia que precisava.

Aliás, agora não só por ele. Queria estar bem tanto para si quanto para Kai, porque vê-lo passando mal daquele jeito por causa dessa marca partia seu coração ao meio. Ele não podia mais permitir que o namorado passasse mal por àquele motivo.

E claro, esperar estava deixando-o maluco. O médico apareceu quase uma hora depois e o chamou para perto do quarto onde Kai estava.

- Como ele está?

- Agora está bem. Eu lhe dei um sedativo que vai o fazer dormir até de manhã. Você pode ficar com ele, mas eu vou pedir que faça o mínimo de barulho possível. Ele precisa descansar.

Reita assentiu e adentrou o quarto. Kai dormia tranquilamente e estava retornando à cor normal para alívio de Reita que chegou perto dele e segurou uma de suas mãos, beijando-a.

- Por você, Kai. Por você eu vou me tratar.

QUANDO VOCÊ QUISER DESISTIR E SEU CORAÇÃO ESTIVER PRESTES A PARTIR

LEMBRE-SE DE QUE VOCÊ É PERFEITO, DEUS NÃO COMETE ERROS

Algumas lágrimas escorreram pelos olhos de Reita e ele se sentou observando Kai dormir. Sabia que não ia mais conseguir fazer a mesma coisa e tentou não chorar alto para não acordá-lo. Ficou observando ele dormir a noite inteira e um sorriso surgiu em seus lábios quando ele acordou.

- Como você ta, Kai?

- Agora melhor.

Reita não se levantou. Apenas respirou fundo e recomeçou a falar.

- Kai, eu não quero mais te ver mal desse jeito. A gente briga e você passa mal assim, e dessa vez foi por causa dessa maldita marca. Então pra que isso não aconteça mais com você eu decidi que vou me tratar.

Dessa vez foi Kai quem sorriu.

- Jura mesmo?

- Sim. Mas, quero que saiba que só vou fazer isso por você. Eu não quero mais te ver passando mal por nada nesse mundo, ainda mais sendo por causa dessa maldita marca.

- Mas Reita, faça por você também.

- Talvez, ao longo do tratamento eu realmente faça por mim também. Mas agora no começo vai ser só por você.

Kai assentiu de leve e Reita foi até ele beijando-o na testa. Talvez, pela primeira vez o baterista tenha agradecido pela crise que teve. Aquilo fez Reita ver que era importante pra ele se tratar e que eles iam, de uma vez por todas enterrar aquele passado e conseguir viver em paz.

Bem-vindo a onde quer que esteja
Esta é sua vida, você conseguiu chegar até aqui
Bem vindo, você tem que acreditar
Que aqui e agora
Você está exatamente onde deveria estar
E eu digo bem-vindo
Eu digo bem-vindo
Bem-vindo

Escrever é brincar de Deus.

Notas finais
Obrigada a todos que chegaram até aqui.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!