Cicatrizes da Alma
7 ‘’Adeus, querida e bela inocência’’
Notas iniciais
Sinto cometas na minha cabeça, mas acho que eu sobrevivo auhahuhauuhahuauh
Boa Leitura.
Seu professor o levou para o fundo do grande terreno enquanto os outros três ficaram vigiando.
Kouyou foi jogado no chão com violência e o homem postou-se sobre o garoto, arrancando-lhe com violência a camiseta e passando a língua naquela região desprotegida do garoto, causando-lhe um arrepio de medo.
- Ah Kouyou você é tão apetitoso. E continue chorando assim, bem baixinho, porque se você gritar, eu vou ter que enfiar essa faca nesse seu corpinho todo bonitinho, e isso vai ser um desperdício enorme.
Kouyou estava desesperado. Chorava muito e um medo maior tomou conta dele quando bateu os olhos na faca que havia na calça de seu professor, que, aliás, começava a retirar a peça, fazendo o garôo tremer e chorar mais ainda.
- Se quiser culpar alguém por isso, que seja a diretora da sua escola, por ter me contratado.
O homem arrancou a própria calça e a cueca, e fez o mesmo com Kouyou, que estava estático.
Um entendimento é impossível
Num único impulso, o homem abriu as pernas de Kouyou e o penetrou com toda a força que conseguiu, tendo que colocar a mão na boca do garoto pelo grito que ele deu.
Era uma dor lancinante. Kouyou apertou os olhos e só conseguia chorar. Sentiu que alguma coisa lhe escorria por suas coxas, mas ele não fazia idéia do que, ainda que não tivesse forças para pensar naquilo, embora tivesse quase certeza que era sangue. O homem apertava sua boca para que ele não gritasse e forçava sua cabeça contra o chão, causando um terrível incômodo.
Todavia, Kouyou não conseguia pensar em nada. Estava com medo e queria estar em casa, com sua irmã, e apesar de tudo, com seus pais, porque, se sentia seguro em seu lar.
Mas, não. Estava na mão de quatro homens que tinham a vil intenção de lhe machucar o quanto pudessem.
E claro que o fariam sem pestanejar. O professor começou a investir fortemente dentro do garoto, enquanto urrava de prazer, apesar de não muito alto. Arrancava sangue de Kouyou a cada vez em que investia sobre ele, arrancando também gritos abafados e clamores que ele mal entendeu, e que se o tivesse feito não teria diferença, afinal de contas, quanto mais lágrimas e dor, melhor era para aqueles quatro.
E era exatamente aquilo que tomava conta de Kouyou. As lágrimas de dor e o medo de tudo aquilo. Era algo que ficaria marcado para sempre na vida do garoto, caso ele saísse vivo daquele lugar.
E bem, ele não sabia se queria mais viver. Estava muito assustado e todos os gemidos de seu professor ecoavam por seus ouvidos, enquanto ele sentia sua cabeça pressionada contra o chão e suas costas nuas eram rasgadas pelas pedras que havia no lugar.
Eram dores por diversos lugares, junto com o terror que tomava conta de sua alma. Kouyou tentava mexer as pernas, mas quando o homem pegou a faca e colocou contra seu pescoço, ele se deu por vencido. Só podia deixar aqueles homens lhe machucarem e deixar que as horas passassem. Afinal de contas, nada mais tinha importância.
Se acordar, um teto escuro
Uma voz risonha afunda nos ouvidos, está suja
E a violência me estupra
O homem investia com toda a força que tinha, enquanto apertava uma das coxas de Kouyou com a mão livre. Era sem dúvida o menino mais bonito que ele havia estuprado durante todos aqueles anos. Tinha coxas grandes e lábios também, fora o corpo, que apesar de magro, era sedutor, apesar da pouca idade do garoto.
E bem, ele ia abusar o máximo que conseguisse de Kouyou. Há algum tempo sangue não escorria, não que de fato importasse para ele. O orgasmo era seu único objetivo e ele o alcançaria não se importado com mais nada.
Apertou com força a coxa de Kouyou e aumentou a intensidade de suas investidas, agilizando-as e gemendo mais frequentemente.
E Kouyou quase não entendia. Sentiu uma dor terrível quando o homem começou a se movimentar mais rápido dentro de si e sentiu que alguns minutos depois ele o preenchera com alguma coisa em seu canal, enquanto respirava fortemente, e o encarava, novamente lambendo os lábios.
- Foi uma boa refeição, garoto. E não se preocupe por ter sido rápido, ainda tem mais três para se divertirem, e claro, divertirem você.
O homem soltou a boca de Kouyou e ele sentiu sua cabeça doer. No entanto, não estava preocupado com aquilo. Aliás, nada mais importava. Ele estava fora de seu corpo e não conseguia pensar ou ver nada, apenas um buraco negro que parecia lhe sugar cada vez mais, levando-o para um abismo negro e profundo, do qual ele jamais sairia.
Um entendimento é impossível
Por que fui escolhida? Alguém deveria responder
Quando o segundo homem chegou, Kouyou continuou do mesmo jeito, imóvel, apenas deixando o homem introduzir seu sexo em sua boca e o obrigando a chupar e fazer o que ele quisesse.
Como não podia fazer nada, Kouyou apenas desejou que tudo acabasse logo e ele pudesse ficar perto de seus pais, com esperança de que eles dessa vez o ouvissem e acreditassem nele, tentando lhe dar um último suspiro de esperança, porque Kouyou sabia que se fosse novamente abandonado, acabaria de uma vez consigo mesmo, sem se importar com nada.
Foi quando, no meio daquela escuridão, Kouyou lembrou-se das palavras de sua irmã, lhe pedindo que voltasse logo. Talvez, por ela, ele ainda desejasse lutar. Ainda desejasse viver, caso aqueles homens permitissem, depois de se divertirem com seu corpo.
Corpo esse que agora ele odiava. Odiava e sentia nojo. Kouyou definitivamente queria poder ter escolhido seu corpo enquanto crescia. Porque, o que antes ele achava bonito, desde a sexta série foi motivo de raiva e nojo.
Eu gostaria que você me respondesse de algum modo que é tudo um sonho horrível
O homem rasgava a carne de Kouyou a cada estocada que dava. O garoto não gritava mais, aliás, não reagia a mais nada. Sentia tudo, mas seu corpo não esboçava reação. Era como se ele tivesse perdido a vontade de viver, apesar de pensar em sua irmã. Mas, também ninguém poderia julgá-lo, afinal de contas, a cada segundo que passava ele sentia cada vez mais nojo de tudo, principalmente de seu corpo e de sua vida. E o medo tomava cada vez mais conta de sua alma, sugando-lhe.
Sentiu o homem jogar seu prazer dentro de si, assim como sentiu o dos outros dois homens. A última coisa que viu, no entanto, foi seu professor chegar perto de si e lhe chutar fortemente na cabeça. Depois foi apenas escuridão.
E o tempo passou... Um dia, dois, e só depois de três dias após ter sido estuprado Kouyou acordou.
Demorou demasiadamente para despertar totalmente, e quando foi se mexer sentiu que tudo doía. Suas coxas, sua cabeça, braços, pernas, e seu frágil e agora violado canal, que faziam o garoto encarar as coisas de um modo diferente. Sua inocência havia sido arrancada de si e em troca lhe deram medo, dor, angústia, e uma enorme vontade de se jogar na frente do primeiro carro que visse.
Só não o fez porque novamente lembrou de sua irmã, e de quanta falta ela fazia em sua vida.
Por ela, e somente por ela Kouyou se levantou e vestiu as roupas rasgadas, criando um mínimo de coragem e saindo de sua prisão.
Seu mundo estava destruído e distorcido. Suas pernas fraquejavam, mas ele tentava se manter em pé. Queria abraçar sua amada irmã uma última vez, e talvez assim pudesse morrer em paz, já que tudo havia perdido o sentido.
O quanto eu deveria gritar, me contorcer e sofrer até estar bom?
Por favor, eu gostaria que você me dissesse que é tudo um sonho horrível
Não importava quantas vezes eu gritasse com minha voz que parecia rasgada em pedaços
As pessoas o olhavam assustadas, mas ele não lhes dava atenção. Seu único objetivo era chegar em casa e poder rever sua família novamente. Nem que fosse a última vez. Aliás, talvez fosse mesmo à última vez, tendo em vista que ele não queria mais viver.
Demorou quase uma hora até chegar à rua de sua casa, e tomou um último fôlego, rumando até ela. Achou estranho que tudo estivesse calmo e nenhuma viatura estivesse em frente de sua casa. Novamente o sentimento de abandono começou a tomar conta de si, e lágrimas escorreram por seus olhos.
Adentrou sua casa desesperado à procura de sua irmã. O que viu, no entanto, foi seu professor de educação física ao lado de seu pai. Ambos sérios... Muito sérios, e encarando Kouyou com toda a força que tinham em seus olhos.
- Infelizmente, senhor, foi isso que aconteceu. Eu vi seu filho farreando com outros dois garotos no terreno da escola. Uma atitude deplorável, vindo de um garoto que parece ter tudo em casa.
Não há mão arrumando o cabelo desgrenhado
Uma voz risonha afunda no ouvido, a temperatura em queda varia em pleno inverno
Seu coração e sua alma estavam partidos. Kouyou não podia imaginar que aquele homem teria a coragem de ir em sua casa e dizer aquelas coisas para sua família. Já não bastava tudo que ele havia feito, agora iria mesmo terminar de destruir a alma de Kouyou por inteiro?
Bem, talvez ele não. Mas a pessoa mais improvável para isso, sim.
- Eu vou dar um belo castigo para ele, professor. Agradeço por isso e minha esposa vai te acompanhar até a saída.
Kouyou viu o homem sair da sala de sua casa e quase no mesmo instante seu pai o agarrou fortemente pelos cabelos e começou a arrastá-lo para o quarto. Só então ele viu sua irmã.
- Kou-nii-san!!! – Ela chorava e gritava, tentando segurar a mão do irmão, que sentia seu coração começar a morrer.
Imoto-chan, imoto-chan é tudo mentira, aquele homem me machucou e você precisa fugir daqui, agora!
A garota estava assustada, mas fez o que o irmão mandou. Pegou uma das chaves e saiu correndo, passando por sua mãe e correndo até o portão. Abriu-o e correu rapidamente, passando inclusive pelo professor de seu irmão, que por sorte não havia visto-a dentro de casa.
Claro que ela também estava com medo, e não sabia ao certo o que fazer, decidindo ir até a polícia. Tinha que salvar seu pobre irmão de seu pai e dizer que seu professor havia machucado ele. E rezava para que a polícia acreditasse em suas palavras.
Minha voz morreu e eu ouvi meu eu que sumia dizer
Não perca os vivos de vista
Minha voz morreu e a noite em que eu estava tremendo se afogou em dor
Perdoe minha respiração que parece parar…
Kouyou fora arrastado até o quarto de seu pai e jogado com violência sobre a cama.
- Takashima Kouyou você me deixou três dias preocupado enquanto estava por aí descobrindo a sua sexualidade com sei lá quem?! Você me paga.
- É MENTIRA!!! – O garoto chorava e gritava o máximo que conseguia – ELES QUE ME TOCARAM, ELES QUE FIZERAM MAL PRA MIM, EU NÃO ESTAVA POR AÍ COM NINGUÉM!
- CALA A BOCA KOUYOU! Eu não quero ouvir mais nenhuma palavra sua. Você vai pagar pelo que fez da mesma forma. Vão ser elas por elas. Assim você aproveita e descobre de uma vez por todas se nasceu pra ser mulher dos outros.
Kouyou não podia acreditar no que estava ouvindo. Chorava muito e tentou fugir de seu pai, mas ele o pegou e novamente o jogou com força na cama, postando-se por cima dele, e terminando de rasgar sua calça e sua cueca, enquanto tirava as próprias.
- Pai, pelo amor de Deus, é tudo mentira, eu jamais fugiria de casa.
- Não quero saber, já mandei você calar a maldita boca. Os motivos não me importam. O que importa é que você vai pagar independente se você ou aquele professor tem razão.
O homem arrancou a própria roupa e escancarou as pernas do filho, penetrando-o, e fazendo-o dar o grito mais alto que já havia dado em toda sua vida. Era a pior dor que já havia sentido. Tudo ardia e a sensação de ter sua carne rasgada novamente preenchia seu ser, enquanto aquele que devia tê-lo amado terminava de destruir sua alma por completo.
Ele se mexia tentando tirar o pai de dentro de si, mas sem sucesso. Logo sentiu que algo, provavelmente sangue, escorria pelas pernas novamente enquanto seu pai investia fortemente contra seu tão frágil e machucado canal. E por mais que Kouyou implorasse o homem não ligava. Apenas continuava ferindo seu próprio filho física e mentalmente, assim como arrancando um pedaço de sua alma. Era torturante.
Eu gostaria que você me respondesse de algum modo que é tudo um sonho horrível
Kouyou chorava e implorava para seu pai parar. Batia em seus braços, mas o homem não ligava. Pensava apenas em machucar e castigar o filho e tirar prazer disso, como se Kouyou fosse um lixo ou algo descartável.
E o mais doloroso disso tudo, é que ele era seu próprio filho, ali, deitado, chorando, implorando por clemência, pedindo perdão por coisas que ele nem havia feito, dizendo que amava o próprio pai e que o perdoaria por aquilo, se ele parasse por alguns minutos e escutasse tudo que ele tinha para dizer.
Mas, nada adiantava. O homem se negava a escutar aquelas palavras que partiriam o coração de qualquer pai e mãe que tivesse o mínimo de amor por seus filhos.
Mas ele não escutava. Estuprava com violência a criança que ele ajudou a colocar no mundo e que deveria ter amado, mas não, que ignorava e só machucava, dessa vez da pior forma possível.
Aliás, aquela era a primeira vez que dava àquela atenção para o filho. Nunca o fizera, e quando decide fazê-lo é da pior forma possível, friamente, e ignorando as palavras roucas e quase sem forças de seu filho, que só desejava que aquilo fosse um terrível pesadelo, e que se ele fechasse e abrisse os olhos, ia encontrar tudo como deveria estar.
O quanto eu deveria gritar, me contorcer e sofrer até estar bom?
Escuridão, abismo, profundezas, inferno, dor, agonia, tristeza.
Essas e outras palavras começavam a rodear a mente de Kouyou enquanto seu pai terminava de lhe matar, finalizando com um soco forte no rosto assim que chegou ao orgasmo.
Novamente Kouyou estava envolto por uma escuridão que parecia sugá-lo cada vez mais. Sua vida havia sido destruída e seu coração havia chegado ao limite. Ele não sabia mais se queria tentar viver novamente ou se deixaria o abismo lhe sugar.
Ele não sabia nem se teria forças para abrir os olhos novamente. Porque esses ajudavam apenas ao garoto ver como a maldade era forte e como ela havia se incrustado nas pessoas mais próximas a ele, tornando aquilo que ele chamava de vida, a pior coisa possível. ’’
Por favor, eu gostaria que você me dissesse que é tudo um sonho horrível
No fim eu quero tentar rir apenas mais uma vez.
Uruha rompeu em prantos e abraçou Aoi no mesmo instante em que terminou de falar. Aquilo doía muito e ele não tinha coragem de olhar para ninguém. Aliás, até abraçar Aoi dava nojo, já que para Uruha seu corpo era sujo, e ele não entendia porque Aoi, mesmo sabendo daquilo se deitava com ele. E por mais que o moreno dissesse que era por amor, ele sabia também que Uruha há muito tempo não sabia mais o que era amor.
Reita e Kai estavam estáticos e várias lágrimas desciam silenciosas pelo rosto do baterista. Uma angustia muito ruim invadiu seu coração, imaginando tudo que aconteceu. Era uma sensação horrível.
Ruki levou às mãos ao rosto. Lembrou-se de quando os três lhe contaram os problemas que tiveram. Foi um choque na vida do vocalista. E tanto tempo havia passado, mas ele não conseguiu esquecer, ou melhor, a dor não amenizou. Pelo menos até agora. Ruki começou a pensar que talvez agora que tudo estava esclarecido, as coisas realmente melhorassem o que ia ser uma benção para todos.
Aoi também chorava, mas em silêncio. Notou que Uruha tremia, e tentou manter a calma, visto que teria que terminar aquilo.
‘’ Kouyou acordou no hospital. Sua irmã estava ao seu lado e também seus tios. Todos o olhavam apreensivos, mas suas faces amenizaram um pouco quando o garoto acordou.
- Kou-nii-san, você finalmente acordou.
Sua irmã o abraçou como podia, e aos poucos ele foi lembrando de tudo que aconteceu. Permaneceu sério a maior parte do tempo, e quando sua irmã saiu do quarto, seu tio lhe contou tudo que havia acontecido. Seu professor e os capangas foram presos junto com seus pais e Kouyou junto com sua irmã passaria a morar com seus tios e por sorte iria mudar de escola, para uma onde o colegial era junto com o fundamental.
Para ele era ótimo, já que se livraria de muitos problemas e fantasmas. Talvez agora conseguisse mudar um pouco sua vida conturbada, apesar de que não fazia mais tanta diferença. Kouyou havia perdido a vontade de viver e provavelmente nada faria o garoto mudar de idéia, nem mesmo sua irmã.
Chegou à casa de seus tios três dias depois de ter ficado no hospital, passando por testes psicológicos e ter falado com alguns médicos. Estava novamente introvertido e raramente falava, mantendo sempre uma expressão fechada e um olhar triste.
Só conversava com sua irmã e com seus tios, que por sorte eram amáveis com eles. Mas, nem mesmo com eles Kouyou sorria. Aliás, pensou que nunca mais faria isso. Seu mundo agora era nublado e sem vida ou qualquer outro sentido. Ele passava horas sentado na janela olhando os dias passarem e não estava nem um pouco animado quando suas aulas começaram.
Aliás, para ele era apenas uma obrigação que empurraria com a barriga, já que tudo havia perdido o sentido. Ele só respondia a chamada e falava quando era preciso. Fora isso não havia feito amizade com ninguém e vivia sozinho no intervalo, num canto onde ninguém ficava.
E assim os meses passaram, e o inverno chegou. Para Kouyou era bom porque o inverno consolava-o, de certa forma. Os dias eram sem vida, e o sol, que agora incomodava o garoto não aparecia, tornando as coisas mórbidas e mortas, confortando Kouyou.
Suas aulas estavam quase acabando, quando, num dia qualquer, Kouyou havia acabado de ir para o intervalo, e estava indo para seu característico canto com dois livros na mão, quando sentiu alguns passos atrás de si.
Um medo subiu por sua espinha e ele se virou, vendo um garoto vindo em sua direção. Ele era um pouco mais baixo que Kouyou e seus negros cabelos batiam quase no meio de suas costas. Tinha um ar misterioso e os lábios também grandes como os de Kouyou, não que ele tivesse prestado atenção naquilo no momento.
O garoto sorria fechado, mas Kouyou soltou os livros e deu longos passos para trás, suando frio. Notou que o garoto fez uma expressão curiosa e abaixou-se para pegar os livros que Kouyou deixou cair, enquanto ele ia cada vez mais para trás, assustando-se quando se encostou à parede.
Respirava descompassadamente e um sentimento ruim lhe veio à mente quando o garoto se aproximou, estendendo os livros e novamente sorrindo, apesar de ter ficado curioso e tenuamente assustado pela reação do outro.
- Oe, você está bem?
Sua voz era calma e suave e atravessou o coração de Kouyou de uma forma que ele nunca pensou que aconteceria e mesmo sem querer sua cabeça assentiu que sim. Ele não sabia o que estava acontecendo, mas de alguma forma se sentia feliz, apesar de ainda estar assustado.
- Sabe, faz um tempo que eu vejo você vindo aqui e ficando sozinho. Você não gosta de companhia?
Kouyou assentiu que não, e o garoto sorriu, sentando-se a seu lado, quando Kouyou foi para o canto.
- Sabe isso não é bom. Ter amigos é legal.
- Eu não acho. – Disse hesitando e alguns minutos depois, abraçando os joelhos.
- Por quê?
- Porque todas as pessoas me maltratam.
- Isso também não é bom. – Disse o garoto baixando o rosto, e fazendo Kouyou virar o rosto e fitá-lo.
- Você também vai me maltratar?
- Não, de forma alguma. Eu não tenho motivos para isso.
- Então não se importa de ficar aqui comigo?
- Na verdade eu ia fazer isso mesmo se você não deixasse.
Depois de quase seis meses Kouyou sorriu e riu.
- Você devia fazer mais isso. – O garoto continuou.
- Fazer o que?
- Sorrir.
- Você acha?
- Sim, o seu sorriso é bonito, mas desde que eu te vejo você não faz isso. Essa é a primeira vez, e é como eu imaginei um sorriso muito bonito.
- Obrigado.
Agora foi a vez de o outro sorrir.
- Mas, sabe você não vai falar comigo por muito tempo.
- E por que não?
- Porque você vai sentir nojo de mim.
- Oe, não diga isso, eu não tenho motivos pra ter nojo de você.
Nesse momento Kouyou foi abraçado e seu coração quase parou devido à surpresa, mas logo se desvencilhou do garoto.
- Não me abrace.
- Só fiz isso pra você ver que não tem porque as pessoas terem nojo de você.
- Oe, eu não sei quem você é, mas eu fui estuprado e não preciso de alguém que finja ser meu amigo e depois vá embora. Meu mundo é negro demais pra isso.
Kouyou quase saiu correndo quando notou o que falou. O garoto o encarava incrédulo, mas não fazia menção de sair dali. Só olhava para Kouyou assustado.
- Desculpe, eu não devia ter te abraçado. – Agora ele abraçou os joelhos.
- Você não vai embora?
- Porque eu deveria?
- Porque eu fui estuprado.
- Isso não é motivo para odiar alguém ou ter nojo e se afastar dessa pessoa. Quem fizer isso com você é porque não te merece. E não se preocupe, eu não vou falar nada para ninguém. É o nosso segredo.
Aquilo parecia mentira. Como aquele bendito garoto havia aparecido assim, do nada, e mesmo sabendo do passado de Kouyou, ainda assim estava ali com ele? Parecia surreal, mas fez com Kouyou pensasse se, de alguma forma, ele ainda tinha direito de viver nesse mundo, e mais importante, se ele queria viver e ia arrumar motivos para isso.
Talvez todos sejamos diferentes, mas ainda assim somos iguais
Todos temos o sangue do Éden correndo em nossas veias
Sei que às vezes é difícil para você ver
Você fica preso entre quem você é e quem gostaria de ser ’’
Agora era Aoi que chorava, ainda que silenciosamente. Uruha ainda estava abraçado com ele e chorava muito, mas Aoi sabia que ele também estava aliviado por contar, apesar de que ter revivido tudo aquilo era um castigo imenso para a mente e o coração do namorado.
E de fato era mesmo. Ainda sem olhar ninguém Uruha se levantou, e acompanhado pelos quatro olhares dirigiu-se para seu quarto. Costumava dormir quando estava triste ou deprimido, apesar de que bebia também, mas como estava tomando remédio para seu braço, sabia que não podia, embora não estivesse de fato preocupado com isso, apenas precisava mais do que nunca ficar sozinho e tentar colocar sua mente no lugar.
- Ele vai ficar bem sozinho, Aoi? – Disse Reita depois de certo tempo.
- Eu espero que sim. Pelo jeito foi dormir. – Disse o moreno enquanto enxugava as lágrimas.
Kai respirou fundo e se levantou, fazendo menção de ir até o quarto. Encontrou Uruha deitado e coberto, apesar do calor; fechou a porta e sentou-se devagar na cama, mas ainda assim o guitarrista descobriu o rosto e mostrou para o baterista que ainda chorava. Hesitou um pouco, mas levou alguns dedos aos olhos do amigo e enxugou as lágrimas.
- Como você ainda consegue me tocar, Kai?
- Da mesma forma que eu sempre toquei. Nada mudou.
- Nada mesmo?
- Nada. Mas, aposto que essa é a verdade mais difícil de acreditar que você já viu sair da minha boca, não?
Uruha riu.
- Tem razão.
- Eu jamais vou te culpar por isso, é uma dor tão grande que eu não faço idéia como você consegue usar short ainda.
- Não é fácil, não mesmo. E os seus problemas são tão ruins também.
- Usar uma camiseta é difícil mesmo. Mas, a gente acostuma.
- Quero me acostumar com o meu estupro sem pensar que não sou ninguém.
- Você pode, — Disse Kai estendendo a mão para o amigo. – Basta querer.
Se você se sente sozinho, perdido e precisa de um amigo
Lembre-se que todo novo começo é o final de algum outro começo
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