Cicatrizes
1 Elas nunca se fecham.
Lembro-me que aquela foi a noite mais fria de todas. Não somente pelo vento gelado que soprava, como se estivesse anunciando algo de ruim, mas também pelos pensamentos que acabaram invadindo a minha mente... Nem preciso dizer que tiraram meu sono. Acordei.
Olhei para o relógio, e vi que era um pouco mais de 3 horas. Suspirei. E pude sentir o quanto fazia frio. Esfreguei o rosto, e então enrolei meu cobertor em volta do meu corpo. Apesar do frio, eu abri a janela do meu quarto, e fiquei ali, apenas observando. Tudo que eu conseguia ver era a lua. Digamos que ela sempre fez parte da minha vida: era o símbolo do meu clã, da cruz que eu sou obrigado a carregar, do destino incerto que ainda me assusta um pouco. E ela estava exatamente como eu sempre a vi.
Tantas coisas aconteceram. É irônico dizer que hoje, eu sou bem mais que apenas um rival do Kusanagi. Mais engraçado ainda é que eu ainda não consigo chamá-lo pelo primeiro nome. Maldito Kusanagi... Era o que eu diria se estivéssemos em uma luta e eu estivesse em desvantagem, porém é a mesma frase que eu uso todos os dias quando estamos juntos. Talvez ele sempre fosse o que me mantinha “vivo”, se é que essa palavra se encaixa... Eu nunca vivi, eu sempre fui movido pelo ódio e pela sede de vingança contra a família dele.
Mas... Eu me pergunto, se no fundo, essa obsessão toda era algum tipo de inveja que eu sentia dele... Ou até mesmo uma forma de estar sempre próximo a ele. Pelo jeito funcionou tanto, que hoje... Hoje... Somos amantes. Quem diria... Eu, o tão frio e insensível Iori Yagami, estaria assim. Não que eu tenha deixado de ser quem eu sou, mas eu mudei em certos aspectos. Eu nunca me importei comigo pra falar a verdade. Mas com ele eu me importo.
Confesso que é algo que vem do passado. É inevitável. Eu me pergunto se... Se eu realmente mereço fazer parte da vida dele dessa forma. Provavelmente a resposta seria sim, afinal, eu sou parte da vida dele, nossos destinos foram traçados desde que nascemos. Entretanto, nem eu mesmo sei por que eu estou nesse mundo. Eu me esforço para tentar demonstrar o que eu sinto, e me deixar sentir também. Acontece que é difícil.
Ainda mais para uma pessoa como eu, que nunca teve o afeto dos pais. Tudo que meu pai queria era que eu me tornasse o sucessor do clã. Nada mais. Ele mal se importava com o que eu pensava sobre isso, simplesmente me obrigava a treinar arduamente para substituí-lo, pois ele sabia que não duraria muito... Desde pequeno eu sabia do meu terrível destino. Sabia que era a morte, e pra ser bem sincero, eu não achei que fosse durar tanto. Talvez eu morra amanhã ou depois. Uma semana, um mês, um ano... Uma hora! Eu não sei, e nem quero saber.
Eu só não quero fazê-lo sofrer mais do que já fiz. Amedrontando-o, seguindo-o como se eu fosse sua sombra. Sem contar as lutas... Ele já me ajudou algumas vezes, e eu também o ajudei. Nunca irei esquecer daquele dia... A Revolta de Sangue aconteceu, e ele viu tudo. Viu o monstro que eu carrego dentro de mim, o que eu posso me tornar a qualquer momento. Ainda não aprendi a conviver com isso.
Eu vivo com medo. Toda essa pose que eu faço, é apenas para esconder o que eu mais temo: eu mesmo. É estranho, inclusive. Eu tenho medo de mim mesmo. Não sei o que poderei fazer daqui 5 minutos, por exemplo. Não sei se vou sair quebrando tudo como já fiz uma vez, se vou controlar... Aliás, não irei controlar. Eu não consigo, e esse é um fardo próprio da minha genética... Nenhum Yagami conseguiu, por que comigo seria diferente? Está no meu sangue, está no meu corpo, correndo pelas minhas veias!
Quando eu olho no espelho, eu não sei se vejo a mim, ou se vejo a sombra de Orochi me perseguindo. Tudo que vejo em meu olhar, é um grande vazio.E por incrível que pareça, é a voz do Kusanagi que me acalma. O olhar dele, a suavidade das mãos dele quando passam pelo meu rosto. Perdi as contas de quanto ele me acalmava, ou me abraçava enquanto eu tinha um pesadelo. Eu acordava atordoado, olhando tudo ao meu redor. E então, meus olhos encontravam os dele. Daí ele dizia: “Calma, ruivo! Está tudo bem... Foi só um pesadelo...” Eu me acalmava e logo sem seguida, jogava um travesseiro na cara dele. E ele ria. Eu tentava, mas eu não sou muito disso. Apenas dava um sorriso meio desanimado, e voltava a dormir.
Esses pesadelos me assombram, por mais que ele tente me ajudar. Ele está sempre pedindo que eu me abra com ele, mas eu não posso. Acho que esses pesadelos nada mais são do que premonições. Eu sinto que minha morte está próxima, é por isso que quero me afastar dele. Não quero vê-lo em desespero, ou em profunda tristeza por minha causa. Eu já disse que não me importo comigo, se eu tiver que morrer, que eu morra de uma vez! Até mesmo porque a dor é parte de mim. Essas cicatrizes nunca irão desaparecer.
Droga! Eu devia ter seguido o meu verdadeiro destino! Por que fui amá-lo? Por que fomos nos envolver dessa forma? Se nada disso tivesse acontecido, tudo seria mais fácil! Para mim...e principalmente, para ele. Odeio admitir o que realmente se passa dentro de mim! A pura verdade é essa: eu amo aquele filho da puta... Repito: maldito Kusanagi! Eu tento culpá-lo, como sempre tentei... Mas eu também tenho culpa nisso! Ou será que nenhum de nós tem?
Minha cabeça está uma bagunça... Tudo ficou confuso, e meus sentimentos começaram a se misturar. Eu olho para a lua, esperando por alguma resposta, que nunca virá. Eu fico esperando que ela mande algum sinal, que alguém ou alguma coisa me diga que está tudo bem, que é só um pesadelo. Assim como ele faz.
Acabo de tragar o 4º cigarro... estou acendendo o 5º. É assim mesmo quando tenho essa insônia. Hoje parece que quero me torturar. Fico relembrando meu passado, meu presente, mas não posso planejar meu futuro. Justamente porque eu não sei nem se ele chegará. Eu tento me manter firme, meu ex-rival acaba sendo meu alicerce... Mas talvez eu não consiga por muito tempo. Uma hora essas forças irão perecer, e eu vou me entregar. Sinto minhas mãos tremendo, mas sei que não é por causa do frio.
É “aquilo”. Sempre volta quando estou tentando me controlar. Minha cabeça está girando, e meu corpo começa a cambalear. Eu corro para meu quarto. Sento com muita dificuldade em minha cama. Respiro fundo. E vejo algumas gotas vermelhas tingindo o lençol. Aquele branco contrastando com o vermelho. Levo a minha mão ao meu nariz, e percebo que ele está sangrando.
Olho para o relógio, e já são 4 e meia. E vem aquele nó na garganta. “De novo não!”, eu penso. Acabo me levantando novamente, e começo a sentir uma tontura. Sei que vou desmaiar. Me encolho em um canto do meu quarto. Sento no chão, e espero “aquilo” ir embora. Mas nunca vai... ”Aquilo” permanece, consumindo minhas forças. Passo as mãos pelo meu rosto com desespero. Minha visão torna-se turva, e meus olhos começam a revirar.
Estou tendo convulsões. A última coisa que eu penso antes “disso” tomar conta de mim é... “Por favor... De novo não... Vá... Embora...” E sinto uma pressão imensa, e faço uma força descomunal para tentar controlar. Eu grito... Sinto algo explodindo dentro de mim. E então, “aquilo” toma forma. Acaba me controlando... Como sempre.
Reviro meu corpo pelo chão do quarto, sentindo o gosto de sangue escorrer, seja pelo meu nariz, ou pela minha boca. Começo a me contorcer. Quem está em meu quarto agora, é o verdadeiro Iori Yagami. Eu me levanto, e acabo destruindo muitas coisas. É como ter um acesso de raiva, só que bem mais forte. Não sei quanto tempo isso dura. Só sei que eu desmaio. E acordo um bom tempo depois...
Abro meus olhos lentamente. Ainda sinto um pouco de tontura. Levanto minha cabeça devagar... Sentindo uma dor muito forte. Olho para o relógio... E já nem me lembro quanto tempo faz que passei desacordado. Tento me levantar, mas minhas pernas doem. Então... Eu fico por lá mesmo. Deitado no chão. Sozinho. Com medo. Medo de mim mesmo. E é assim que meu resto de noite segue.
Sinto uma luz forte invadir meu quarto. Quando me dou conta, já amanheceu. Respiro fundo, mas consigo me levantar dessa vez. Olho para o “rastro” de destruição que “aquilo” deixou. E sinto raiva. Raiva de mim mesmo por não conseguir controlar, por não ter forças o suficiente para impedir. Vejo toda aquela bagunça, aquelas coisas quebradas. Sinto que vou pisar em alguma coisa. Quando me abaixo... Dou de cara com o porta-retratos totalmente espatifado, e uma foto...o mais irônico: uma foto dele. Inteira. Pego a foto, e coloco em cima da cômoda. Por sorte, dessa vez só quebrei o que estava em cima dos móveis...
Recolher cada pedaço dos objetos que já não existiam mais, era como recolher partes da minha vida. É o que eu tento fazer, quando me pego nesses momentos de dúvida. Repasso por momentos bons e ruins, do passado ou do presente. E quando junto tudo... Meu passado é como se fosse lixo. Já meu presente, eu procuro guardar... No caso, consertar.
Vou até o banheiro, e encaro o reflexo formado no espelho. E vejo aquela sombra... Vejo aquele demônio rindo...Rindo de mim... Rindo porque mais uma vez ele venceu! Grito “Foi a última, desgraçado!”, e então... Não é surpresa nenhuma eu dar um soco no espelho, e espatifá-lo. Minha mão sangra, mas nada que alguns curativos não possam resolver.
E mais uma noite se foi. Como sempre. A minha companheira insônia, e meu companheiro maligno, o meu sangue. Uma combinação que vem tirando tudo que eu tenho... Por isso que eu quero preservar a única coisa que me resta, que é ele. Se eu me afastar, vai ser melhor para nós dois. Não vou negar que só de pensar em me afastar dele novamente, sinto uma “ausência”. Não que ele tenha preenchido o vazio que eu guardo dentro de mim, mas ele praticamente mudou tudo. Meus planos, minha vida, meus pensamentos, meus sentimentos...
É... Não quero abandoná-lo. Mas no momento, é o melhor a se fazer. Eu não vou ficar aqui por muito tempo, e ele merece ser feliz. Ao meu lado, eu sei que ele nunca vai ser. Não completamente. Mas eu queria que ele soubesse... Que somente com ele eu aprendi o verdadeiro significado do que é viver.
Mas que coisa, eu acabei de olhar nos cacos do espelho que voaram no chão e vi um sorriso idiota formado em meu rosto! Odeio quando ele faz isso... Hoje eu sei que ele vai aparecer, e que vai perguntar o que aconteceu. Ele não verá essa bagunça, mas verá minhas mãos e minhas olheiras... Eu vou tentar mentir, mas ele sabe a resposta. Afinal, ele me conhece melhor do que eu mesmo. Talvez seja por isso que eu... Que eu... Enfim... Ele sabe o quê.
E só isso já basta.
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