Cicatrizes.

2 Capítulo 1 - Trote.


Notas iniciais
Espero que vocês gostem.

Há coisas que, em situações pontuais, poderiam parecer extremamente assustadoras para a maioria das pessoas. Para Rodrigo, no entanto, tornaram-se rotineiras desde que a mãe de seu colega de casa o expulsara, aos berros, por conta de um baseado que não fazia a mínima ideia de como esta encontrara, uma vez que o seu quarto estava fechado, fazendo com que questionasse seriamente quão equilibrada a mulher era. Acordar só de samba canção entre um homem nas mesmas condições e uma mulher de short curto e camiseta masculina, sem se lembrar de boa parte da noite anterior, era uma delas. A boca seca e o irritante latejar na cabeça que o brindavam toda vez que abria os olhos também era uma presença constante, bem como a promessa nunca cumprida de que iria parar com as noites loucas regadas a whisky e LSD que a República Manicômio lhe proporcionavam.

Sentiu o cobertor sendo puxado e, em um reflexo que odiava, sentou-se rapidamente na cama, o coração disparando. Passeou com os olhos arregalados pelo quarto familiar, focando na porta de metal branco da varanda aberta, respirando fundo. Para a sua sorte, Nicolas já ignorava suas reações por vezes exageradas, sacudindo irritado a moça ao seu lado, que lhe deu um leve tapa na mão enquanto se levantava.

— Eu falei que ia tirar vocês da cama cedo hoje! — Nic lembrou, os olhos verdes brilhando, parecendo animado demais para alguém que deveria estar de ressaca. — E vocês me prometeram que iriam participar do trote hoje.

Amélia passou as mãos nos seus longos cachos dourados, ajeitando a juba da leonina, e esfregou seus olhos, como se tivesse dificuldade para conseguir pronunciar as palavras:

— Eu prometi que ia tentar. Você sabe que eu tenho documentação pendente para entregar na secretaria, mas se der tempo, eu participo.

Rodrigo não se surpreendeu quando viu o loiro a fuzilando com o olhar. Os dois pareciam gato e rato, e tudo o que Amy fazia parecia simplesmente irritar Nic em proporções nada saudáveis, desde a tosse incessante que as noites frias de Francisco Julião presenteavam aos calouros até o seu jeito de falar, com as palavras inteiras, dentro na norma padrão, e com o "r" pouco arrastado, em seu típico sotaque paulistano. Tudo isso piorava porque Amélia não hesitava em um segundo a rejeitar as propostas e convites que o loiro fazia – mais por formalidade, uma vez que este esperava que todos fizessem sua vontade – e, se isso já era um problema quando feito por qualquer pessoa, quando ela o fazia, era mil vezes pior.

Nicolas tinha o que a mãe de Rodrigo chamava de síndrome de menino mimado, mas havia certas coisas que o moreno aprendera a ignorar pelo bem da boa convivência – as birras do loiro, Kayque usando-o como exemplo de um "negro não vitimista" (apesar de ser ativo no movimento negro) e as ligações de seu pai. Pegou o seu dichavador e a maconha na mesinha de cabeceira, preferindo voltar a sua atenção para bolar um baseado – se iria andar embaixo no sol, nos dias de calor insuportável daquela cidade, iria garantir que pelo menos não estaria sóbrio o suficiente para se importar.

Apesar de não ter nenhum desejo de receber pinturas de tinta guache e pedir dinheiro em semáforo, tentava não negar muito os convites de Nic. O veterano havia lhe oferecido abrigo por tempo indeterminado quando precisou, e não queria irritá-lo ou dificultar de algum modo o convívio com este. Além disso, em geral, o rapaz não era uma companhia ruim. Os seus momentos eram apenas isso, momentos, e apesar de talvez ser alguém com que não andasse se as circunstâncias não fizessem a necessidade, não iria mentir: gostava das noites passadas com ele. Além disso, os outros moradores da casa – Arthur, Kayque e Davi – lhe faziam companhia nos jogos online, e Amélia era simplesmente adorável, o seu jeito peculiar lembrando o de uma lady – se ladys usassem roupas largas, samba canção e consumissem drogas.

— Estaremos no bar quando o trote acabar, vou pagar cerveja para os meus bixos. — Nicolas informou, dando um sorrisinho. — Apenas para os que participarem do trote.

— Eu não gosto de cerveja. — A loira bufou, dando de ombros e voltando a se cobrir.

Nic revirou os olhos, e os rapazes se vestiram rapidamente, pegando os maços de cigarros que acabaram deixando largados pelo quarto na noite anterior. Era impressionante como eles sempre apareciam nos lugares mais inusitados, como dentro de um tênis.

— Vê se não acorda o Tuco. — O loiro advertiu, puxando Rodrigo para fora do quarto, impaciente.

— E eu pareço ter adquirido tendências suicidas de ontem para hoje? — Ouviu-se, antes da porta fechar com um estrondo.

O moreno suspirou, seguindo o colega pelas escadas. Iria ser um longo dia, mas pelo menos estaria livre de discussões desnecessárias por algumas horas.

xXx

Fumar um baseado no bosque do campus havia se tornado uma das atividades prediletas de Rodrigo – e duvidava muito que isso iria mudar quando as aulas na Universidade Estadual Helenira de Rezende começavam. O local lhe transmitia uma certa paz, uma vibração que parecia combinar totalmente com o seu estado de espírito quando estava chapado. Não saberia explicar exatamente o motivo: talvez o cheiro de terra molhada, ou o modo como seus pés sempre acabavam sujos na lama que parecia ser uma constante ali, quem sabe o som do vento nas folhas, que era a única coisa que cortava o silêncio da paisagem verde. O fato era que se sentia extremamente triste quando tinha que ir embora de seu pequeno santuário nem tão particular e, sentado na calçada em frente ao prédio de vidro que abrigava a secretaria e o anfiteatro, sua vontade era voltar para lá e passar o resto do dia em estado de contemplação. No entanto, era um homem de palavra, por isso esperaria nem tão pacientemente assim a palestra oferecida pela diretora aos calouros acabar, ao lado de seus veteranos que insistiam para que entrassem.

Revirava os olhos toda vez que essa sugestão lhe era feita. Aquelas formalidades de inícios acabavam sendo sempre todas iguais, apenas mais do mesmo. Regras óbvias seriam passadas, e a maioria delas seriam quebradas na primeira oportunidade que cada aluno tivesse de o fazer sem maiores consequências. Palavras de acolhimento e de como a administração da universidade aberta seriam ditas, mas todos saberiam – ou aprenderiam futuramente da pior forma possível – que aquela era uma das maiores mentiras que já ouviram. Atividades extracurriculares seriam apresentadas apenas para atiçar quem já sentia o desejo de participar delas, e para entediar aqueles que não tinham o mínimo interesse. Provavelmente, seria passado um vídeo com apresentações das líderes de torcida do campus – os mesmos que poderiam ser vistos na página do Facebook destas, e em inúmeras oportunidades nos eventos em que participavam. A Dourada, iria tocar as mesmas músicas que poderiam ouvir em seus ensaios três vezes ao dia, ou em qualquer evento que alguém tivesse a infelicidade de dizer que a bateria esportiva do campus poderia se apresentar. Em resumo: não estava perdendo absolutamente nada que fosse do seu interesse, exceto seu tempo.

Acendeu mais um cigarro, levantando quando percebeu que as pessoas já estavam saindo do prédio. Já tinha o seu rosto e parte da barba pintados, assim como os seus braços e, bem, qualquer pele exposta a alcance dos cinco veteranos entediados. Alunos de outros cursos se aproximaram como abutres dos novatos animados, separando-os por curso com uma eficiência maior do que qualquer funcionário no dia da matrícula. Viu Nicolas perguntando para um grupo se eles tinham algum problema de ter tinta guache esfregada em seu rosto em um "H" ridículo para representar o curso de História e em outros símbolos que somente sua imaginação poderiam dizer quais eram. Como de esperado, ninguém que permaneceu para o trote negou, apenas algumas meninas pediram cuidado com o cabelo. Rodrigo as compreendia com perfeição: também não fazia a mínima ideia de como iria tirar a tinta seca de sua barba, mas cortá-la estava fora de cogitação.

Com a mão livre, segurou o infame cartaz onde se lia "Trotsky de História", tentando parecer ocupado demais para que Nicolas ou Kayque viessem encher o saco, observando os seus futuros colegas de classe se colocarem ao seu lado, esperando pela "diversão". Bufou, ao perceber que em sua maioria eram brancos – e por que não seriam? Era uma universidade sem cotas, de elite, onde só os que conseguiam passar pelo processo seletivo excludente poderia entrar. Poucos teriam vindo de escolas públicas e muitos, das melhores escolas particulares que o dinheiro do papai foi capaz de bancar. Não que não tivesse tido essa oportunidade: estudar em escola pública foi a punição que ganhara depois do terceiro incidente envolvendo drogas e o Conselho Tutelar, mas não era desonesto a ponto de fingir que não vira a diferença gritante de cores entre os colégios que estudara, muito menos de dizer que sem os professores particulares pago pela sua mãe e o cursinho na parte da tarde, estaria ali.

Uma moça em especial chamou a atenção de Rodrigo. Bom, era sinceramente difícil não olhar para ela, uma vez que era a única mulher de vestido no grupo. Uma peça muito bonita, tinha de admitir: ia até dois palmos acima do joelho, de um tecido escuro, porém levemente esvoaçante, que parecia se destacar pela saia ligeiramente rodada e destacava a cintura magra dela e com um decote em forma de coração preenchido pelos seios pequenos. O seu primeiro pensamento é que parecia pouquíssimo prático para as atividades que sabia terem sido planejadas, mas deu um pequeno sorriso, pensando em como a sua roupa evidenciava sua beleza. Admirou os traços de seu nariz e sua boca fina, combinando com o rosto pequeno de tez oliva e os cabelos quase negros curtos, ondulados, que iam até a altura de seu queixo.

— Me dá um cigarro? — A voz de Nicolas o despertou de seus pensamentos, e Rod voltou sua atenção ao loiro, pronto para o lembrar do maço quase cheio de Marlboro vermelho que sabia que este tinha, mas parou, percebendo que uma baixinha e pálida, de longos cabelos ruivos, tirava um Lucky Strike do maço e entregava para o mais velho. Conteve a risada, sentindo um pouco de pena dela: Nic era que nem criança, uma vez que o alimentava, iria querer mais. — Obrigada, bixete.

Para a sua surpresa, a ruiva revirou os olhos para a piscadela que Nic lançara. Não conteve uma risadinha dessa vez. Talvez tivesse subestimado a garota.

— Atenção, bixos e bixetes, atenção aqui por favor. — Kay levantou a voz, passando as mãos pelos seus longos cabelos castanho chocolate penteados para trás com gel. Esperou com uma paciência que não tinha as conversas irem diminuindo aos poucos e os calouros se reunirem ao redor dele, de Nicolas e de uma garota de cabelo ruivo alaranjado com cara de poucos amigos. — Eu sou o Kayque, esse aqui do meu lado é o Nicolas e essa mocinha simpática é a Tatiana. Nós somos os seus veteranos e estamos responsáveis por vocês no trote.

— Temos algumas atividades planejadas, mas queremos deixar claro que aquelas histórias absurdas que contaram para vocês sobre trote não acontecem no trote de História. Nós não somos monstros malvados, quem não quiser participar não vai sofrer nenhum tipo de retaliação e quem quiser participar não será forçado a fazer absolutamente nada. — Nic começou o seu discurso, com o rosto bem sério. — Ou seja, se alguém não se sentir confortável para fazer alguma coisa, não precisa se justificar nem nada do tipo, é só não fazer.

— Esperemos que todos os bixos aqui tenham respeito pelas bixetes. Esses dois aqui, eu garanto que não farão nenhuma gracinha. — Tatiana complementou, dando um olhar duro em direção aos rapazes. — Quero deixar bem claro que nenhum desrespeito ou assédio será tolerado. Se as bixetes tiverem qualquer reclamação a fazer, não precisam pensar duas vezes antes de me chamar ou ao Kay e o Nic, que nós com toda a certeza tomaremos as devidas providências.

— Recados sérios dados, eu vou pedir para todos vocês darem as mãos um para o outro e nos seguirem até a quadra de vôlei. — Kay não esperou os novatos assimilarem o que lhes foi dito, tomando a frente animadamente. — E vamos cantando: 1, 2, 3, 4! Bixo é burro, bixo é pato. 4, 3, 2, 1! Bixo é burro e eu sou um!

O coro de vozes começou tímido, alguns visivelmente incomodados pela letra. Rodrigo, perto demais dos veteranos, cantou a plenos pulmões – já que estava na chuva, era para se molhar. Nicolas revirou os olhos para a cara de insatisfação de alguns dos presentes: não era obrigatório cantar e sim, todo bixo era burro. Ele também o fora! Chegavam pela primeira vez morando longe dos pais, em uma cidade com a configuração provavelmente muito diferente de onde viviam. Iriam cometer os erros mais estúpidos, invariavelmente, seduzidos demais pela liberdade: não iriam levar agasalhos e acabar doentes, como Rodrigo e Amélia; iriam encher a cara em dia de semana e perder aulas importantes, talvez até mesmo provas e trabalhos por conta da ressaca; teriam pelo menos dois do grupo que iriam achar que sabiam mais do que os professores, e uma quantidade ainda maior que fariam perguntas óbvias na tentativa de impressionar antes de levar algum corte bem dado; muitos deles iriam se envolver sem moderação com álcool e drogas, na ilusão de que estavam no controle de tudo, e se tornariam dependentes; boa parte não usaria camisinha, e pelo menos três pegariam alguma DST, mais se tornariam pais antes do curso terminar; metade não chegaria até o final do curso.

Para Nic, a solução não se daria com palestras de prevenção, conselhos e tratando calouros como seres inocentes demais para não fazerem burrices. Obviamente, essas ações não deveriam ser cortadas, mas francamente? Era uma comunidade composta por jovens recém-chegados a idade "adulta", experimentando pela primeira vez o que supunham ser a liberdade, sem grandes responsabilidades uma vez que a maioria era sustentado pelo dinheiro dos pais. Era a receita perfeita para decisões estúpidas, e quanto mais tratassem aqueles temas como tabu, tornando-os pecados perigosos e proibidos, mais irresistível tornavam a ideia de fazer besteira. A despeito de qualquer aviso, qualquer orientação e conselho, bixos iriam ser burros e escolher o caminho mais espinhoso. Só precisavam saber que aquilo era normal, e ter estrutura para serem ajudados no campus – coisa que não tinham.

A caminhada até a quadra de vôlei foi relativamente rápida. Pararam no portão de entrada, na frente da ducha a céu aberto que ficava ao lado. Kayque deu um sorrisinho malvado, como se tivesse acabado de ter uma ideia genial, e abriu o registro.

— Vocês vão passar pela água correndo. — Anunciou. — Depois, vão entrar na quadra e rolar pela areia algumas vezes.

Os bixos ficaram olhando sem reação para a ducha, irritando o moreno. Rodrigo revirou os olhos, soltando o cartaz e passando seus cigarros e o celular para Nic. Não era algo difícil a se fazer, não precisava de tanta frescura. Passou correndo pela ducha, a água fria em seu corpo parecendo uma benção dos deuses naquele calor insuportável e abafado. Seguiu sem diminuir o ritmo até o meio da quadra, onde se jogou sem pensar duas vezes no chão, tomando o cuidado de fechar os olhos para evitar irritações desagradáveis. Conhecia o suficiente para saber que, naquele horário da manhã, a areia não estaria tão quente assim, sendo perfeitamente possível rolar várias vezes nela sem provocar queimaduras. Quando sentiu que já ia ficar tonto, sentou no chão, rindo.

Como o esperado, mais pessoas tomaram coragem depois de sua pequena ousadia. Os rapazes rolavam pelo chão, pedindo ajuda uns para os outros para levantar. As moças não ficaram muito atrás, embora tivessem o cuidado de tentar proteger o cabelo. Apenas alguns não quiseram rolar no chão, entre eles a garota ruiva que apenas levantou uma sobrancelha e a garota de vestido, que olhou como quem pede desculpas para Kayque, que apenas sinalizou com a cabeça para que não se preocupasse. Rodrigo não evitou uma risadinha: como o previsto, a primeira dificuldade do vestido.

— Ok gente, meninos de um lado e meninas do outro. — Nicolas ordenou, decidindo não especificar quem ficaria à direita e quem ficaria à esquerda. Pela sua experiência em seu ano de calouro, isso causava confusões levemente constrangedoras. — E façam um círculo!

De forma meio desajeitada, os novatos tentaram obedecer.

— Caralho, vocês sabem o que é um círculo? — Kayque perguntou, aproximando-se da forma meio oval que haviam feito.

— Geometria é matemática, nós somos de humanas. — Rodrigo justificou com um sorrisinho, dando de ombros. Não poderia perder a oportunidade de fazer uma piada naquela situação.

— Ih, olha lá, seu afilhado é engraçadão, Nic. — Kay riu, referindo-se ao fato de Nicolas ter apadrinhado o mais novo – uma antiga tradição universitária que aparentemente dava preferência nas trocas de xerox, pagamento de cervejas, lugares guardados na fila do Restaurante Universitário e negociações de sobremesas. — Ok, vocês vão passar uma bala pelo... pelo o que vocês chamam de círculo, com a boca. Vocês podem até mordê-la se quiser, mas sugiro que não o façam, pois só tem uma bala e ela tem que passar por todo mundo.

Alguns resmungos foram ouvidos, irritando Rodrigo. Aqueles caras só sabiam reclamar? Respirou fundo, obrigando-se a não revirar os olhos, já imaginando a razão do desconforto.

— É obrigatório participar? — Um rapaz com a cabeça raspada perguntou, fazendo uma careta muito exagerada e dando uma olhada desconfortável para o colega levemente afeminado ao seu lado.

— Ninguém é obrigado a nada. — Nic deu de ombros.

— Se sua masculinidade for frágil demais... — Rodrigo complementou, o sangue que lhe subiu à cabeça quando percebeu o preconceito do rapaz o tornando impulsivo. Percebeu que seu comentário não saíra tão baixo quando planejara quando o autor da pergunta o fuzilara com os olhos, olhando para os veteranos como se esperasse ser defendido. Como o previsto, ganhou apenas um bufo debochado do loiro.

Kayque desembalou a bala, colocando logo em seguida na boca de Rodrigo, que a prendeu entre os dentes e inclinou-se em direção a um rapaz gordo a sua direita. Com cuidado, aproximaram as bocas o suficiente para que a transferência fosse feita. Quem visse a cena de fora, teria certeza que eles estavam se beijando, pela posição em que estavam.

A adesão das mulheres na brincadeira dessa vez foi maior. No círculo dos homens, vários se negaram a participar, alguns soltando alguns comentários incômodos que em qualquer outra situação, teria gerado uma briga com parte dos que resolveram participar da brincadeira. A bala voltou para a boca de Rodrigo por meio de um rapaz alto, negro e com uma barba maior que a sua. Não foi isso, no entanto, que surpreendeu Rod, e sim o grande crucifixo de madeira que este usava. Deu um sorriso, cuspindo a bala no chão. Tinha a sensação de que iria se dar estranhamente bem com esse rapaz.

Não ficaram muito tempo na quadra, seguindo uma longa caminhada de mãos dadas até o centro da cidade. Agora, todos cantavam a plenos pulmões, já no clima da brincadeira. As letras das pequenas canções não muito comportadas provocavam olhares de repreensão por partes dos moradores da cidadezinha muito conservadora e religiosa, o que não fazia com que os jovens parassem. Vez ou outra, os veteranos faziam com que desejassem "bom dia" para desconhecidos na rua, ou que fizessem uma pequena provocação ao gerente de um mercado com fama de homofóbico. Houve outra sessão de "banho", dessa vez com uma mangueira usada para lavar carros cedida gentilmente por funcionários de um lavacar. Antes de chegar no semáforo, Rodrigo já estava rindo e pensando em agradecer a Nicolas pela participação quase forçada no trote: estava sendo bem mais divertido do que esperara.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.