Cicatrizes
1 Prólogo: Tempestade
Notas iniciais

O carro rodava e rodava. Gabe não conseguia se concentrar em qualquer coisa, pois tudo mais parecia um borrão de imagens disformes do que algo que realmente pudesse compreender, havia a grama, mas ela se encontrava contra um céu cinzento, encoberto por nuvens das típicas tempestades de verão que cobriam aquela região no começo de dezembro e havia também troncos de árvores realmente grandes espalhados pelo chão.
E não podia se esquecer do fogo e do cheiro forte de gasolina que ficaria em sua mente para o resto da eternidade.
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É engraçada as coisas que passam pela cabeça de quem está a beira da morte. E com Gabrielle não foi diferente.
A manhã estava luminosa, era u fenômeno raro para aquela época, uma vez que uma fina camada de geada ainda da noite anterior cobria o gramado verde da pista de modo que grandes caminhões passavam derretendo e secando o gelo. A jovem de cabelos cacheados quase podia sentir o frio que atravessava a lã grossa da blusa de lã e fazia tiritar até mesmo os ossos, porém a tensão era tanta que o frio nem ao menos era registrado pelo cérebro ocupado demais em repassar cada movimento que faria na pista.
Torceu os dedos e respirou fundo. Toda a função com a grama estava acabada e ela deveria subir em seu cavalo e brilhar. Relâmpago não era seu cavalo, nunca daria um nome tão ridículo a um animal tão gracioso quanto o corcel malhado.
Ela podia sentir o dorso do cavalo se movendo sob ela em perfeita sincronia. Correndo e saltando. Nada no mundo podia lhe causar tão sensação. Ela simplesmente se sentia viva agarrada às rédeas e levando o animal com delicadeza a realizar cada um dos movimentos elegantes.
Gabes se lembrava daquele dia como se tivesse acabado de sair do treino. As pernas bambas fosse da falta de uso ou da força do corcel que estivera sob suas pernas ainda há pouco tempo, os dedos ardiam das rédeas que segurara com tanta força para evitar ferir seu companheiro mais precioso.
Lembrava como se vivesse o momento em que seu treinador lhe avisar que estava a classificada para o campeonato mundial de hipismo. Como vibrou naquele momento. Sentia cada músculo do corpo tremer quando a noticia finalmente assentou-se em seu lugar no fundo da mente. Havia sonhado com aquilo ao menos uma centena de vezes, mas nunca realmente imagino que conseguiria, nunca lhe passara pela cabeça que podia vencer qualquer uma das garotas de cabelos arrumados no cabeleireiro e que se agarravam com os homens que cuidavam de seus cavalos.
Por um instante, Gabe pode até se lembrar do pensamento que cruzara sua mente. Sempre quisera alguém para limpar o estábulo por ela, afinal era um trabalho sujo e simplesmente odiava fazer, mas o pouco dinheiro que tinha vinha de ajudar naquele lugar, fazendo exatamente o trabalho de menina dos estábulos. Não que alguém cavaleiro quisesse realmente se agarrar com ela, por algum motivo eles não tinham qualquer vontade de abraçar uma garota que fedia a suor e bosta de cavalo.
O pensamento que seguiu aquilo foi o seguinte: ‘Nem todos!’. Afinal Carlos havia conhecido ela quando estava suja e suada, com os cabelos alaranjados caindo sobre os olhos e colando na testa molhada.
Acordou de repente. Não estava na hípica. Tudo aquilo realmente havia acontecido, tinha realmente passado e teria que se apresentar no fim do mês para participar do mundial, mas não fora isso que a acordara e sim a luz forte de um farol que vinha na direção contrária.
No carro ainda estavam Tanara, Frank e Carlos que puxara a direção de forma brusca para evitar a colisão direta com carro esportivo da Mitsubishi que vinha na direção oposta.
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Carlos tentou manter o controle do carro e voltar para a estrada, mas já era tarde demais e o automóvel já se encontrava estraçalhando a barricada que separava a auto-estrada do barranco e das árvores lá embaixo. As lascas e os pedaços maiores de madeira meio apodrecida se estilhaçaram para todos os lados, inclusive no golzinho que pertencia à Carl. Porém, antes que o carro rolasse pela ladeira, ele soltou o cinto de Gabe.
— Pule para fora e tente levar Frank com você — ele disse rapidamente — Tônia, solte o cinto e saia do carro, você também — ordenou sem ao menos se virar para ver se a ordem era cumprida.
— Não vai dar — respondeu a loira em pânico quando o carro alcançou a ponta da estrada e começou a inclinar sobre o barranco — Nós vamos morrer! — ela estava apavorada, com os olhos muito arregalados e a testa franzida com um machucado por conta de um pedaço particularmente grande de madeira que lhe atingira no local e o ferimento sangrava, mancando o rosto pálido de um vermelho doentiamente vivo que pingava sobre o suas roupas e no chão.
— Não se vocês saírem — disse ele com uma tensão palpável — Nós vamos apenas nos machucar um pouco, ou muito, mas não morrer. — ele prometeu, mas Gabe sabia que nem ele acreditava nas palavras que proferia e tão pouco ela que já podia sentir a presença fria da morte descendo sobre o carro, como um ar gélido que lhe subiu a espinha apenas para se alojar em algum lugar próximo ao seu coração.
E o impacto veio pouco depois, os vidros estouraram quando o teto do automóvel se encontrou com o chão e começou a rodopiar e rodopiar, levando areia e mato para dentro do golzinho 2002 que continuava a rolar em direção as árvores lá em baixo, que deveriam estar muito distantes, mas não estavam.
Um lugar que deveria parecer muito distante agora parecia se aproximar com pressa em um borrão de verde, marrom e negro. Os cacos de vidro se enterravam com força nas peles, fazendo o sangue respingar pela parte interna do carro, onde Carl e Tônia batiam de um lado para o outro, presos pelo cinto. Gabe conseguiu sair graças ao namorado, mas a porta de Frank parecia trancada e ele não teve a mesma sorte, mesmo assim não pode vê-lo se bater contra os outros dois em um peso multiplicado por várias vezes graças às forças da maldita física, pois desmaiou assim que a cabeça, ferida por alguns dos milhões de estilhaços, bateu contra a terra negra e já meio estéril do chão e foi abraçada por algo ou alguém que nem ao menos conhecia, mas podia ouvir a voz reconfortante e de alguma forma familiar como de algum personagem de alguma série que assistira.
— Você conhece alguma canção que possa cantarolar em sua mente?¹ — perguntou em uma clara referencia ao episódio que começara a passar repetidas vezes em sua mente.
— Uma que aprendeu na escola — completou se aconchegando em quentes braços que não estavam de verdade ali.
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Gabe acordou no hospital, a cabeça latejava, o corpo formigava e a luz que refletia nas paredes do quarto de paredes e teto excessivamente brancos e quase enlouquecedor incomodava os olhos; dos braços saiam tubos que levavam à soros e maquinas que mantinha tortuosos sinais sonoros agudos em seus ouvidos, garantido que ainda estava viva ou em algum ponto próximo a isso. Na cama ao lado estava apenas Frank, seus melhor amigo. Ele tinha o pescoço coberto por uma coleira de gesso e na testa havia um esparadrapo, o olho esquerdo estava terrivelmente inchado, nas mãos haviam queimaduras de terceiro grau e pelos braços e pernas de segundo, era horrível vê-lo daquele jeito, com os cabelo vermelhos e sedosos transformados em uma palha chamuscada e a pele clara e meio avermelhada pelo sol e pelas sardas que pontilhavam o nariz e as bochechas tomadas pelo negro e pelas bolhas das queimaduras, isso onde não havia apenas o doloroso vermelho dos músculos expostos ou o pus que se formara e escorria dos ferimentos
Seu corpo também possuía fios que ligavam a mais máquinas, com dificuldade verificou que, apesar de baixos, os sinais indicavam que ele ainda estava mais vivo do que morto. Sentiu vontade de chorar, não era justo que alguém vivesse com aquelas condições, mas não tinha lágrimas para fazê-lo. Queria gritar, mas a voz não parecia existir dentro da garganta ressecada, então apenas desviou o olhar para não ter mais que encarar a abominação que se tornara Frank.
Juntando toda a coragem possível, Gabe correu os olhos pela sala em busca de Carl ou Tônia, mas não encontrou qualquer um dos dois, em vez disso seu olhar parou na mesa de apoio ao lado da janela próxima a sua cama, onde um recorte de jornal dizia:
“CARRO DE AMIGOS CAPOTA” em grandes letras garrafais. Era, sem dúvida alguma, a manchete de um jornal local qualquer do dia e a história continuava por mais algumas linhas.
“Ontem, dia 20 de dezembro, um grupo de amigos(Carlos Pivort,Franklin Listers, Antônia Quertin e Gabriele Richards, da esquerda para a direita)” dizia a legenda de uma imagem bastante recente, tirada poucos minutos antes de embarcarem, ainda na casa de Antônia, provavelmente o senhor Clarke teria disponibilizado a imagem que se encontrava guardada em seu telefone como qualquer bom pai viúvo e coruja “se dirigia para Tanara, quando o carro, um gol 2002 prateado, se chocou a outro, o carro dos amigos capotou e pegou…”
A jovem parou de ler, parte por não conseguir tirar da cabeça as imagens borradas que ainda restavam na lembrança do acidente e agora voltavam com força para atordoa-la e parte por que o recorte se encontrava dobrado, o que tornava metade da reportagem completamente ilegível, mas havia uma outra foto em seu ângulo de visão que apenas a aterrorizava mais: Um carro destruído, sem uma das portas e com os vidros quebrados, preso entre duas árvores secas e enegrecidas pelo fogo que tomou conta do carro quando a bomba de combustível estourou. Já não havia mais fogo na imagem, mas vários paramédicos em jalecos brancos apareciam levando macas cobertas por panos para dentro de duas ambulâncias com grandes cruzes pintadas nas laterais e sirenes, mas havia uma que destoava, ela não era completamente branca, tão pouco possuía cruzes, mas sim inscritos, de qualquer forma, mesmo sem conseguir o inscrito ou ver as cores na imagem em preto e branco, Gabe sabia que era um carro do Instituto Médico Legal e isso não era um bom sinal.
Tentou mover os braços, mas a dor a fez coloca-los de volta, junto ao corpo, rezando, para que a dor parasse logo, mas quem quer que estivesse cuidando de sua vida lá em cima, parecia não ouvi-la há mais tempo do que poderia se lembrar.
Ficou imóvel, olhando para o branco do teto (ou das paredes, não fazia qualquer diferença no fim das contas) enquanto esperava por alguém ou por qualquer coisa, mas tudo o que conseguiu alcança-la foi a monotonia e o desgosto, a vontade de gritar tomou conta de seu corpo e não se deixou conter. Com toda a força que tinha, ouviu o grito bater contra as paredes de um branco doentio e voltar a atingi-la com força, mas não se importava, queria que a atingisse na esperança de que a levasse de volta para sua vida, lhe acordando no banco do passageiro do gol prateado de quatro portas de seu querido Carl, junto de seus amados amigos, indo passar o natal na cidadezinha de Tanara, onde os avós de Carl tinha uma pequena fazenda.
Depois de pouco mais de meio minuto, não conseguiu nada além de chamar uma meia dúzia de enfermeiros, que entraram apressados com injeções em mãos e uma irritação muito mais forte que a anterior em sua garganta que já não sabia o que era água há tempos.
— Está tudo bem querida? — perguntou uma das mulheres enquanto os outros corriam ao redor procurando o que poderia ter perturbado a paciente — As queimaduras irão doer por muito tempo ainda, mas, qualquer coisa, há uma campainha ai ao seu lado, se sentir muita dor é apenas apertar que será atendida de imediato — ela continuou e a jovem sentiu o corpo amolecer ainda mais após a enfermeira colocar uma seringa em seu braço com um liquido transparente — Você teve sorte, as bolhas levantaram rápido e fora algumas escoriações e membros quebrados por conta da queda, não teve maiores problemas — ela soltou um olhar grave e tristonho para Frank que adormecia ao seu lado, com o corpo terrivelmente deformado, mas não falou mais nada.
Não teve necessidade de perguntar o que era, sabia que aplicavam morfina em casos muito graves, o que imaginava ser o seu. Ela abriu a boca tentando falar, mas a única coisa que saiu foi um som horroroso.
— Tragam água para ela — disse a mulher e logo um homem se aproximava com um copo de plástico cheio até a boca.
Tomou ávida por saciar a sede que sentia, fazendo os filetes escorrerem pelos cantos da boca e pingarem em seu avental. — A reportagem — disse por fim ao sentir uma ardência um pouco mais confortável por conta da água gelada que começava a anestesiar as pregas.
A mulher agarrou o recorte com uma das mãos e leu o resto da reportagem em voz alta, uma voz confortável e familiar encheu todo o recinto — “Frank e Gabe, como eram conhecidos pelos amigos e familiares, tiveram ferimentos graves e queimaduras de segundo e terceiro graus, mas passam bem, Carlos, que estava dirigindo, morreu na hora e Antônia foi resgatada com vida, mas pereceu no caminho para o hospital, ambos possuíam queimaduras muito graves e contusões por conta de um elemento solto dentro do carro.
Frank que se encontrava sem cinto na hora do acidente foi projetado alguns metros antes do carro bater e os policiais acreditam que isso salvou sua vida, mas também causou a morte de seus dois amigos.
A perícia revelou que nenhum dos quatro estava sob o efeito de drogas ou álcool.
Os ocupantes do outro carro já estão sendo procurados.”
Pela primeira vez, lágrimas silenciosas escorreram pela sua face, traindo o seu rosto frio e impassível. Sua vida estava acabada, seu namorado havia morrido, Antônia também, Frank, seu melhor amigo, provavelmente ficaria para, se não tetraplégico e nada iria mudar isso.
Ela fechou os olhos desejando nunca mais acordar.
Notas finais
Espero que tenham gostado e até mais.
Próxima postagem dia 30/05/2017
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