Cicatrizes

3 Capitulo 2: Enterro


Notas iniciais
Voltei com mais um capitulo e queria agradecer Paty Everllark , do contrário essa história seria postada apenas no wattpad ♥ Obrigada querida

— Com quem estava conversando? — perguntou Adele voltando para pegar a bolsa que deixara com a filha.

— Ninguém em especial — respondeu, lembrando imediatamente da conversa com a mulher — Mas disse que te conhecia.

— Não me lembro dela — disse beijando a cabeça da filha — Me desculpe, amor! — disse com pressa — Mas eu tenho um compromisso muito importante, não posso ficar com você hoje.

— Está tudo bem — respondeu com um sorriso seguro que treinara durante anos, mas não, não estava nada bem. Queria ter alguém ali para abraçá-la e dizer que tudo ficaria bem, mas, principalmente, queria alguém para segurar sua mão quando visse o rosto de seus amigos esticados e pálidos com algodões em seus narizes e toda aquela cena que conhecia de filmes e séries.

Ela passou mais um tempo sentada ali, até porque não possuía muita opção, esperando o carro sumir em uma curva da rua em uma velocidade muito maior do que a que havia usado para ir até lá e, de fora, podia ver a mãe gesticulando com as mãos, visivelmente irritada com alguma coisa que diziam pelo aparelho, isso não era novidade.

Apesar de tentar esconder na semana que passou, Adele não se acalmava a anos, passava os dias agitada correndo para cima e para baixo, evitando pensar em qualquer coisa que não fosse o trabalho e Gabe pouco contribuia para o contrário, pois sempre fora a menina exemplo, a filha perfeita cuidando para que a mãe não se estressasse mais quando chegasse em casa. Mas dessa vez não havia o que fazer, se sentia menos do que a metade do que já havia sido, não podia se mover de verdade, não podia subir escadas, pegar ônibus era um tormento sem contar o olhar de ódio que as pessoas lhe dirigiam e mesmo algumas ruas eram bastante complicadas de se mover.

— Menina, o que faz ai sozinha? — perguntou uma senhora bastante “inha” que não passava de 1,55 de altura e com o corpo tão fino que poderia desviar dos pingos da chuva. A senhorinha trazia em seus lábios em cigarro que ainda não fora acesso e nos olhos óculos de sol com uma armação com estampada de oncinha.

— Olá, senhora Pivort? — perguntou a jovem observando a idosa com seus cabelos tingidos de um loiro cor-de-palha e escovados em salão se aproximar com as jóias brilhando ao sol daquela fraca manhã de inverno — Como está?

— Nada bem, filha — respondeu acendendo o cigarro que ainda repousava na boca com certa dificuldade, pois as mão tremiam. Tirou uma tragada e então o segurou entre os dedos da mão enrugada, expeliu a fumaça e continuou — A velhice está chegando mais rápido do que esperava. — ela disse com os olhos vidrados em algum ponto da calçada e parecia triste, como se aquelas palavras a machucassem — Você sabe como eu sei disso?

— Como? — perguntou sem real interesse, mas, por mais que gostasse de Erin Pivort, não gostaria de ficar naquele mortal silêncio que enchia a rua, mesmo com todos os carros que passavam nas avenidas ao redor. A igreja parecia mais morta do que nunca e a manhã judava nisso,talvez até mais do que a situação ou fosse apenas mais uma sensação causada pelo mau humor da aleijada.

— Quando as dores começam a vir — ela respondeu — Eu nunca senti dor, nem mesmo quando meu marido me largou — continuou, com um sorriso preguiçoso se formando nos lábios caprichosamente pintados de vermelho — Naquela época eu viajei, viajei o mundo inteiro e levei Carlos comigo. — o mundo inteiro pareceu se tornar mais cinza quando a senhora fechou os olhos e se inclinou levemente para trás — Deus! Eu não aguentava nem mais um segundo lá dentro, aquele padre falando como se conhecesse meu menino. — ela então fez uma pausa maior — E Frank, como odiava aquele garotinho — disse com um sorriso largo no rosto comprovando a mentira clara — Eu ainda posso ouvir a risada dele algumas vezes, sabe? — perguntou sem esperar uma resposta — Sentir o braço dele sobre meus ombros e o beijo estalado. Era um bom garoto — as cinzas voaram ao redor antes de cair sobre a água tóxica do chafariz e a fumaça incomodou o nariz de Gabrielle, mas a jovem não reclamou.

Gabe soltou uma risada triste, também se lembrava daqueles momentos e sentia falta deles.

— Provavelmente ele estaria aqui, sentado ao seu lado — disse ela segurando o cigarro entre os dedos e soltando a fumaça pelo que poderia ser a segunda ou a décima segunda vez — E seria uma companhia melhor que eu.

— Você é uma companhia melhor que algumas pessoas — respondeu fechando os olhos. Sentia falta de coisas banais. Se ainda tivesse as pernas estaria sentada na mureta do chafariz e teria colocado os pés sobre a fonte enquanto segurava os joelhos junto ao peito.

— Mas velhos fazem as pessoas pensarem em morte — respondeu com uma simplicidade ímpar para uma mulher que acabara de perder um neto de sangue e um de coração — E a morte não deve ser assunto para os jovens.

— É um pouco tarde demais para isso — respondeu com um sorriso tristonho. Era difícil manobrar a enorme cadeira, mas por forma do drama que sempre fizera questão de ter acabou virando de modo que pudesse ver a imagem pálida refletida na água amarelada da fonte — Não acha?

— Tem razão — respondeu ela jogando o filtro do cigarro que bateu exatamente no reflexo da menina — Vamos entrar, a missa já deve estar no fim. Vamos juntos até o cemitério, sim? Não quero você andando sozinha ai e muito menos acompanhada de algumas pessoas. Elas podem tentar se utilizar da sua dor. — disse com um meio sorriso enquanto se segurava firme nos pegadores da cadeira da mais jovem e a guiava em direção em direção às escadas da igreja, que foram transpostas com a ajuda de um homem que fora mantido, preventivamente, na entrada.

~~ o ~~

— Arthur! — reclamou Teresa puxando o travesseiro sobre os cabelos cor-de-laranja para poupar as orelhas do terrível som que o despertador fazia — Precisa mesmo colocar esse despertador a essa hora? — perguntou virando para o outro lado, tentava voltar a dormir, mas não conseguia.

— Desculpe, amor! — respondeu pegando o celular e jogando os pés para fora da cama box que dividia com a esposa. Não chegou a olhar para o lado a fim de ver os fios alaranjados espalhados pela fronha de cor creme do travesseiro.

Eles desceu a larga escada até a sala de estar e se atirou no sofá, com os pés apoiados no sofá branco de Tereza. Se estava pondo seu casamento em risco? Talvez. Se seria odiado eternamente pela esposa? Com certeza. Tereza normalmente era muito tranquila, com qualquer coisa como ser acordada as 2 da manhã porque o marido precisa ligar para a ex-mulher, mas como era ela quem arrumava a casa, com alguma ajuda de Isabel, simplesmente detestava que sujassem seu belíssimo sofá branco da sala de estar. Por isso mesmo a sala de TV tinha um sofá velho e surrado forrado com uma imitação de couro barato e negro.

— Adele! — chamou após os três primeiros toques quando a mulher atendeu.

— Bom-dia, Arthur! — respondeu ela — Que horas são, umas duas? Qual o motivo de acordar tão cedo?

— Minha filha, Adele! — ele respondeu com simplicidade — Não seria por saudades de você.

Eles riram. Eram amigos desde o ensino médio e Gabs não havia sido mais do que um erro de reencontro que os dois haviam cometido. Coisa de crianças ingênuas, que por desilusões paralelas decidiram que não se machucariam estando juntas, mesmo que o verdadeiro grande amor que nutrissem um pelo outro não passasse de fraternal.

— Eu imaginei que não seria por minha causa — respondeu, sorrindo, a verdade é que sempre gostara de conversar com Arthur e sentia que ter saído sem qualquer aviso de Manchas havia sido uma coisa terrível para os dois — Gabs está bem, acabei de deixar ela no enterro.

— Você está louca Adele? — ele perguntou, voltando os pés para o chão — A menina acabou de passar por um trauma e você deixa ela sozinha?

— Ela não está sozinha, Arthur — respondeu a mulher e tom complacente, afinal o ruivo sempre fora super protetor com Gabrielle, mesmo que ela fosse a que menos precisasse. — Me pergunto se você é tão super protetor com os trigêmeos? — questionou, era algo que sempre passava sua cabeça, desde o dia em que ele ligara para avisar a ela e a Gabe, não que a jovem quisesse saber do pai.

— Eles são a cópia perfeita da Gabs na idade deles — respondeu como se torna-se tudo óbvio — Então sim! Faço o possível para que eles não fujam no primeiro ônibus com destino à cidade.

A mulher soltou uma risada abafada do outro lado da ligação antes de dizer — Se você não inventar de casar com outra mulher.

— Não se preocupa, da Tereza eu não largo — respondeu, radiante. Amava a mulher que se encontrava deitada na cama com os cabelos muito laranjas atirados sobre os travesseiros e era algo que não conseguia esconder, mesmo que tentasse.

— Ok! — respondeu Adele — Escuta querido, tenho que ir, manda um beijo para todo mundo aí. Eu vou te manter informado sobre a moça rebelde aqui.

— Obrigada Adele! — ele disse se preparando para desligar — Tchau.

Ainda passou algumas horas sentado no sofá com o celular na mão. Estava simplesmente calculando sobre sua vida atual e como tinha tudo o que queria. Uma esposa, três filhos que estavam sempre por perto e muitos amigos, só havia uma coisa que o deixava mal: Não ter sua primogênita naquela casa e isso o levava a pensar se a mesma, em algum momento, teria perdido as pernas se tivesse ficado em sua casa.

Nesse momento Iven desceu as escadas com os pés descalços e os cabelos ruivos desarrumados em direções esquisitas. Era o mais velho dos trigêmeos e consequentemente seu primeiro filho homem.

— Pai! — chamou baixinho do sexto degrau da escada — Eu pensei que estava dormindo.

— Eu tinha que falar com sua irmã — disse erguendo o telefone. Os pequenos sempre souberam sobre Gabe, afinal ela tinha uma árvore grande e forte, muito maior do que a de qualquer um dos três plantada na clareira, por isso o garoto não estranhou — Mas e você, o que faz acordado a essa hora?

— Tive um pesadelo — respondeu com um olhar envergonhado nos olhos verdes.

— Vem cá! — chamou se levantando do sofá e erguendo o braço, no qual o menino se aninhou imediatamente — Porque não assistimos um pouco de TV, quem sabe seu sono não volta?

O rapaz não respondeu, mas deixou que o braço do pai o guiasse até o sofá negro e antes que percebesse o relógio já havia avançado mais de 30 minutos antes que o pequeno pegasse no sono.

~~ o ~~

A pequena comitiva deixou a igreja com um ar desolado e cada um entrou em um carro para seguir seu caminho até o cemitério. Com o crescimento da cidade, o cemitério precisou ser separado da igreja. Muitos anos antes, ainda havia alguns corpos enterrados sob o cimento, agora porém, apenas pequenas inscrições no calçamento indicavam onde estavam os antigos túmulos para que as famílias pudessem cultuar seus mortos, mas os enterros mais atuais já ocorriam lá, o que tornava bastante incômodo o deslocamento. A igreja justificava, no entanto, que seria por pouco tempo, só até a capela ficar pronta.

Erin tinha seu próprio automóvel e pediu que Gabe fosse junto a ela em um tom mais lento que os outros. Não havia sido fácil colocar a jovem no banco da frente e ainda mais complicado encaixar a grande cadeira de rodas no fusquinha azul calcinha, mas com alguma ajuda, Erin se certificou de amarrá-la bem sobre o teto para que não caísse.

Durante o trajeto silencioso, vez ou outra a mulher mais velha lhe oferecia a mão para ter certeza de que estava tudo bem.

— Você é uma das poucas pessoas que têm se preocupado comigo — ela disse com um sorriso.

— Acho que está sendo um pouco injusta com a sua mãe — respondeu a velha enquanto dirigia, mas, apesar das palavras duras, não havia censura em sua voz, apenas uma tristeza arrastada — Ela se preocupa muito com você e com Camille também. Não pense que foi fácil adaptar aquele quarto e o banheiro para seu retorno e tudo o que ela moveu para trazer sua irmã quando “aquilo” aconteceu.

— Tenho certeza que sim — respondeu a mais jovem se lembrando do calendário enorme na cozinha com a data do aniversário do sobrinho quase coberto por tantos outros compromissos “mais importantes” — Mas ainda sim, queria que ela pudesse estar comigo, só por hoje — ela respirou fundo e repousou a cabeça sobre o encosto — Eu sei que estou sendo egoísta e infantil, mas…

— Não, você não está — respondeu a mulher virando em uma curva e entrando na rua do cemitério, onde já se podia ver os carros estacionados e a comitiva de pessoas vestidas em preto com seu andar meio arrastado — Você perdeu pessoas importantes, é normal querer um ombro para chorar — disse com um sorriso enquanto estacionava e virava os olhos cobertos por um chamativo óculos escuro de lente marrom circular com armação de oncinha — Nunca subestime a sua tristeza, nunca pense que colocar suas dores acima dos outros é egoísmo, não é fácil carregar algo como a saudade ou medo e as pessoas têm dificuldades de lidar com isso. — ela falou no alto de seus 74 anos de sabedoria — Essas coisas pesam, Gabe! Para uns mais do que para outros — respondeu — Alguns quebram, mas você vai conseguir, vai ver, você é forte. — ela disse então abriu a porta — Agora alguém nos ajude a descer, que minha coluna está arqueando mais que a ponte de Londres e essa pobre jovem precisa de sua cadeira. — aumentou a voz consideravelmente, fazendo algumas cabeças se virarem para o velho fusca de um azul calcinha escandaloso e, se segurando nos braços de um dos familiares que vieram em seu encalço.

Outras pessoas. Rapazes conhecidos apenas de vista ajudaram a descer a cadeira e a colocaram no chão em frente a ela. Se prepararam para empurrá-la até o local, porém Erin fez questão de pegar os puxadores e se inclinou para sussurrar ao seu ouvido — Só espero que não caia.

Ao longe era possível ver Ivone Listers com um longo vestido de babados preto com o cabelo em coque e coberto por um chapéu panamá da mesma cor, ao lado do marido que vestia apenas uma camiseta preta e calça jeans de lavagem escura, em um contraste claro com Iliane Pivort com um belo e justo tubinho preto ao lado do marido que parecia — como sempre — impecável em seu terno da mesma cor, ambos usavam sóbrios óculos de sol de lente negra e a mulher fechava seu traje de luto com uma casquete1 preta de renda negra cobrindo parte de seu rosto.

— Eu vou cumprimentar Ivone, a pobre coitada está sofrendo o dobro — respondeu dando uns tapinhas na mão lisa e se afastou.

No mesmo momento, uma figura, toda envolta em um vestido ao estilo anos cinquenta com um chapéu pillbox2 com um véu semelhante ao do casquete da mãe de Carlos e luvas de pelica se aproximou e tomou o lugar deixado pela senhora, mas apesar da diferença no visual não havia dúvidas de que era a estranha mulher da fonte.

— Acho que deveria falar com Iliane — disse com simplicidade.

— Eu ainda não sei quem você é — disse a jovem a olhando um pouco assustada.

— “O que há em um nome? aquilo a que chamamos rosa, teria o mesmo perfume ainda que seu nome fosse outro” — recitou a estranha com extremo exímio — Romeu e Julieta, sei que já leu, achou um saco e não acredita que as pessoas possam morrer por amor. — ela fez uma pausa rápida, apenas para observar o lábio inferior de Gabe tremer em um movimento de admiração — E eu também sei que Iliane não fala com a irmã há semanas e tão pouco foi visitar o sobrinho na UTI — ela falou — Duas irmãs não deveriam se tratar assim, não quando precisam do apoio uma da outra.

— Não sei o que eu poderia fazer. — respondeu Gabe com a voz tremendo enquanto observava Ivone limpar os olhos ouvindo uma das história engraçada de Erin sobre Frank e quando voltou os olhos, já não havia nem sinal da mulher de negro.

Isso poderia ter sido muito prazeroso, não fosse a preguiça que Gabrielle tinha de guiar a cadeira.

~~ o ~~

Aelita tinha o costume de acordar cedo, mas não fora o que aconteceu naquela manhã. Acordou sem qualquer noção de tempo, nem teve vontade de olhar para o celular e ver que havia se atrasado para a aula que por uma incrível sorte ou coincidência, não possui no dia.

A casa em que vivia não era grande, na verdade moravam atrás do bar que o pai comprara quando se mudaram e consistia em não muito mais que uma sala, cozinha, banheiro e dois quartos, mas era o suficiente para os dois, ao menos agora, depois de diversas reformas que aumentaram o antigo sala/banheiro.

Chegou na cozinha com o relógio de parede marcando 7 horas da manhã, mas aquele relógio estava sem pilha há anos e marcava sete da manhã desde então. A mesa do café-da-manhã estava posta com pão de forma, margarina, queijo e mortadela com café ou suco de laranja para acompanhar e o pai se sentava na cadeira com o violão no colo, um jornal aberto à sua frente e um caneca de café ao lado.

— Acordado a essa hora? — perguntou se sentando à frente dele e pegando duas fatias de pão.

— Não tão estranho como você está acordando às nove — respondeu enquanto tocava um acorde para em seguida tomar um gole de café, virar uma página do jornal e então encarar a filha com os olhos castanhos.

— Segundo o relógio é sete horas — brincou apontando para a parede atrás do pai e passando a margarina no pão.

— Nós precisamos comprar pilha para esse dinossauro — respondeu o homem batendo com a palheta na lateral do instrumento.

— Para que? — perguntou ela com um meio sorriso — Eu acho que nem sei mais ler isso.

— Você não precisa ler,só ver os números — respondeu se levantando e beijando os cabelos cor-de-rosa — Mas vamos lá, você está com febre? — perguntou colocando a mão na testa dela para ter certeza que a filha não estava quente — Quer que o papai ligue para o seu patrão? — perguntou cutucando a barriga dela — Que nem fazia quando era pequenina. ‘Prof, a Lita não vai poder ir na aula hoje, acordou muito doente’ — satirizou, com os dedos postos na orelha imitando um telefone.

— Pai! — ela disse entre risadas enquanto o pai continuava a lhe fazer cosquinhas — Eu estou bem, é sério — ela disse, ainda sorrindo, após afastar as mãos do pai.

— Então porque dormiu até mais tarde? — perguntou o homem puxando sua cadeira mais para perto e tomando o violão novamente — Isso não parece com você.

— Eu estava cansada — respondeu com simplicidade se servindo de uma caneca de café — E, além do mais, eu não tenho aula hoje e vivo num país livre que me permiti dormir até mais tarde se quiser.

— É uma pena que o seu patrão não pense da mesma forma — respondeu o pai voltando a dedilhar o violão — Sabe, meu amor — começou ele, sem olhá-la diretamente e isso acendeu o sinal de alerta em sua cabeça — Eu acho que você deveria dar um tempo nas apresentação, afinal você tem a faculdade de manhã e ainda trabalha a tarde, não acho que cantar de graça no bar do seu velho pai esteja te ajudando muito.

— Eu não quero parar de cantar — comentou ela baixinho, encarando o mais velho com brilhantes olhos verdes. — Eu amo isso, pai.

— Então talvez esteja na hora de largar a enfermagem e se concentrar apenas na música então. Algo que não acredito que seja o melhor para você — a filha não disse uma palavra sobre isso, apenas mordeu o lábio inferior e abaixou os olhos, amava a enfermagem também e isso não era mistério — Aelita, olha — disse segurando a mão da filha e a encarando nos olhos — Eu sei que é difícil, mas você é adulta agora e adultos precisam tomar decisões difíceis.

— Eu sei, — ela disse e após uma pausa completou — Só não sei se estou pronta.

— Então eu vou ser obrigado a fazer por você — disse com um pouco de severidade — Você só vai cantar aos sábados.

~~ o ~~

Gabe não viu ninguém entrar no pequeno espaço coberto onde estavam expostos os três caixões, ao menos não no tempo que levou tomando coragem para entrar. Mas quando finalmente conseguiu, encontrou um espaço saturado de pessoas, desconhecidos em sua maioria, mas todos pareciam saber algo sobre ela, pois a paravam para cumprimentar e diziam: “Você é a namorada do Carlos!”, “Ele falava tanto de você” ou então “Trágico perder um amor na sua idade, mas outros virão” ela apenas sorria e acenava com a cabeça.

Frank descansava tranquilo, com o caixão aberto era possível ver todos os ferimentos que deformavam o rosto travesso do jovem e imediatamente Gabe se lembrou de um personagem de um livro. Ivone veio logo atrás e se ajoelhou junto ao caixão, com as duas mãos sobre a tampa falou.

— Fechem! — ela sussurrou forma quase inaudível, mas o pedido passou de boca em boca até que ganhou a sala em forma de ruídos e logo um grupo de responsáveis se aproximou para atender o pedido da mãe — Obrigada!

Gabe se afastou após colocar uma flor roubada sobre o tampo de madeira perfeitamente polido.

Quando Iliane entrou todo o espaço parou. Ela tinha as bochechas traçadas pelo negro do rímel que escorria junto das lágrimas e apareciam sob óculos escuros. Se aproximou do caixão do filho com passos curtos e confiantes, mas não se ajoelhou como a irmã, mesmo assim acariciou a face devastada e beijou a testa, fazendo com que mais lágrimas corressem.

— Iliane — falou baixinho quando se aproximou tocando o braço dela.

— Gabe! — falou abraçando a mais nova — Que bom que está bem.

— Obrigada — respondeu um pouco tímida, não sabia o que dizer — Ivone parece mal também.

— Não sei — respondeu da forma mais infantil possível, virando o rosto para longe — Maldita hora em que acolhi aquele rapaz.

“Nenhuma dor é egoísta”, as palavras ecoaram em sua cabeça.

— Não foi culpa dele — respondeu a jovem tocando a mão pálida e ferida de Carl — Nem da Tônia, nem de ninguém.

— Então quem foi o culpado? — perguntou a mulher — Carl não teria se descuidado não fosse a palhaçada dos dois — disse em meio às lágrimas.

— Se não fosse ele — respondeu Gabe baixinho — Seria outra pessoa.

— Que fosse! — falou ela com um tom irritado — Não seria o meu filho e só isso me importa.

Ela respirou novamente, pensando em toda a conversa que tivera com Erin há alguns minutos apenas e uma ideia surgiu na sua cabeça. — Talvez você devesse conversar com sua irmã um pouco — disse com seu tom ainda calmo e inabalável — Essas coisas pesam. Para uns mais do que para outros, é sempre bom ter um ombro amigo.

— Eu preciso ficar sozinha se não se importa — disse a mulher de negro ajeitando a saia do vestido. Parecia bastante irritada com a sugestão, mas não disse nada sobre isso, apenas saiu.

Gabrielle se aproximou do último caixão, era aquele com menos pessoas, apenas um homem de calças social clara e camiseta preta, coberto por um casaco de couro da mesma cor e junto dele estava a mulher de negro.

O homem não parecia percebê-la, mas a mulher se aproximou com passos largos da jovem, auxiliando-a a mover a cadeira para mais perto.

— Foi bom o seu trabalho com Iliane — disse com a voz baixa.

— Eu não fiz ela se reconciliar com a irmã — disse desanimada.

— Não! Mas às vezes uma palavra pode fazer mais do que se pensa — ela respondeu colocando a mão sobre o ombro dela e a conduzindo para o homem — Esperava que você soubesse disso, que toda palavra tem poder. De qualquer forma Ela vai precisar de um pouco mais de tempo, mas vai dar o braço a torcer, você verá — quando já estavam mais próximas do homem ela disse — Nova missão: Antonio está solitário, a filha era tudo que tinha.

A jovem franziu o rosto, mas não teve tempo de discutir, a mulher já havia sumido mais uma vez no meio da multidão, então apenas se aproximou do caixão fechado.

— Gabe! — ele disse.

— Não tem mais ninguém aqui não é? — perguntou os dedos finos batucando nas rodas da cadeira, movendo-o o corpo, ao menos mentalmente, para frente e para trás uma vez que a cadeira era pesada demais para se mover assim tão facilmente.

— Alguns amigos dela vieram e foram — respondeu o homem, há poucos anos havia perdido a mulher e agora a filha — Mas o que me faz mais falta são esses meninos que estão atirados nesses caixões. Fico feliz que esteja bem, não deve ter sido fácil ter vindo.

— Não! — ela respondeu com simplicidade, abaixando o olhar para o aparelho que era obrigada a levar para cima e para baixo.

— Como você veio?

— Minha mãe! — respondeu e então explicou — Ela me deixou na igreja e Erin me trouxe até aqui.

O silêncio cresceu, mas Gabe não se sentiu incomodada, apenas abraçou o homenzarrão na altura do quadril e ele retribui o abraço da melhor forma possível, colocando a mão sobre o ombro dela, deixando algumas lágrimas rolarem.

— Ainda bem que veio — ele respondeu com um sorriso — Antônia deve estar feliz de saber que está aqui.

— Quando vão descer os caixões? — perguntou ela, já pensando em ir embora.

— Não sei também, mas não fique mal se quiser ir embora — ele respondeu — Eu também já quero ir, não sei se aguento.

— Gabe! — disse uma mulher se curvando desajeitadamente sobre a cadeira e a abraçando pelos ombros — Está tudo bem?

— Sim! — respondeu ela e só então se deu conta de que precisava apresentar os dois — Mãe esse é Antonio o pai da Tônia, Antonio essa é a minha mãe, Adele Andrews.

— Prazer — respondeu a mulher esticando a mão para o homem — E sinto muito pela situação em que nos conhecemos.

— Não tem problema — respondeu com um sorriso muito breve — Ultimamente só conheço pessoas no meu consultório ou em velórios.

— Sinto muito — disse com tristeza clara nos olhos e abraçou a filha ainda mais perto.

— Você tem uma filha ótima — ele respondeu.

— Eu sei — ela disse ainda mais triste acariciando os cachos e beijando o couro cabeludo dela. — Já vão descer os caixões? — perguntou depois de alguns segundos de um silêncio esmagador.

— Não sei — ele respondeu — Mas acho que não seria uma má ideia partir antes de descerem. Estava falando com a Gabe, que talvez seja melhor, porque não sei se vou aguentar.

— Você está de carro? — perguntou a mulher, sendo o mais prestativa possível — Podemos lhe levar.

— Eu agradeceria — ele respondeu com um sorriso fraco enquanto as seguia até o sedã de Adele.

Notas finais
1 Acessório de cabeça, semelhante a um chapéu, porém utilizado na parte lateral da cabeça e fixado com grampos 2 Chapéu simples e de corte reto, popularizado na década de trinta pela atriz Greta Garbo e mais tarde (anos 60) pela primeira dama Jackeline Kennedy
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.