Cicatrizes.

7 #7 – Desaparecimento.


– O que está acontecendo? – Perguntei para Jef, que estava ao meu lado — Eu não sei – disse ele, com medo.

Me sentei e ouvi os gritos agonizantes do lado fora. Estava acontecendo alguma coisa.

– Vou lá ver o que é – disse Jef, já se levantando.

– Jef, espera – falei. Mas ele não me deu ouvidos e saiu.

Podia ver pelo tecido da barraca uma luz forte, o que eu logo deduzi que fosse fogo. Pensei em sair daquele espaço pequeno e ajudá-los – seja lá com o que for –, mas após ouvir os gritos de Jef, perto da barraca, fiquei paralisado. Imóvel.

– Não me mate! – Gritou Jef.

Pude ver sua sombra projetada pelo fogo, alguém havia cortado seu pescoço e agora ele estava de joelhos, se agonizando pela dor. Podia ouvi-lo tentar falar. O que está acontecendo?

– Pedro! Pedro! – Ouvi a voz de Paula. – Pedro! Me ajuda!

Paula...

[...]

– Pedro, acorda – ouvi a voz de Paula em meu ouvido. – Já vamos voltar para a mansão.

Despertei daquele terrível pesadelo, recuperando o fôlego e me acalmando.

– O que houve? – Perguntou ela. – Você está suando.

– Nada – menti.

Olhei pelo tecido da barraca e vi que a única luz forte que vinha do lado de fora era a do sol. Que pesadelo estranho. Minha boca estava seca e eu transpirava. Olhei para o lado e vi que Jef já não estava mais na barraca e em seu lugar estava Paula, sentada, apenas me observando.

– Estarei te esperando – disse ela, me dando um beijo e saindo.

Fiquei sentado naquele pequeno espaço, peguei uma pequena toalha em minha mochila e enxuguei meu rosto, depois coloquei os cobertores dentro da mesma e fui para o lado de fora. A manhã se sexta estava ensolarada e podia ouvir o som dos pássaros cantando ao longe.

– Finalmente – disse Jef, ao se aproximar. – Pensei que você ficaria o dia todo lá dentro, Bela Adormecida.

– Não enche – disse.

Algumas pessoas arrumavam suas coisas e outras desmontavam as barracas.

– Nem acredito que hoje já é sexta-feira – disse Lay, aparecendo de repente ao meu lado.

– Os dias passam rápido quando a gente se diverte – disse. – O que você vai fazer nessas últimas vinte e quarto horas antes do casamento?

– Não sei... As meninas disseram que iríamos fazer uma despedida de solteira.

– Despedida de solteira, é? – Comecei a rir.

– Para – ela deu um fraco soco em meu ombro. – Sei que não tem nada a ver comigo, mas as meninas insistiram. Vocês poderiam fazer uma despedida de solteiro para Davi também.

– E quem disse que não estamos organizando?

– Ah é?

– É, o Gustavo está cuidando de tudo.

– Seu cunhado... – ela ficou me olhando. – Por que você não me disse que estava saindo com a Paula?

– Desculpe Lay, é que prometemos um ao outro que manteríamos nossos encontros em segredo. Queria muito poder contar a você – respondi, meio constrangido.

– Tudo bem. O que importa é que você está feliz – ela deu um largo sorriso.

– Gente, alguém viu a Amanda? – Perguntou Laís. – A vi saindo ontem à noite, mas ela não voltou.

– E ela não disse para onde estava indo? – Perguntou Davi.

– Não, ela apenas saiu – respondeu. – E ela levou as coisas dela.

– Ela deve ter voltado para a mansão – disse Jessica. – Ela não é muito fã de acampamento.

Após todos arrumarem suas coisas, seguimos a trilha de volta à mansão. Chegando lá, vi o sr. e a sra. Dantas nos esperavam na porta – quase da mesma forma em que foram se despedi na noite anterior.

– Como foi o acampamento? – Perguntou a sra. Sara.

– Foi ótimo – respondeu Lay. – A Amanda está aqui?

– Amanda...? – Disse a sra. Sara, tentando se lembrar. – Não, ninguém veio aqui desde que vocês partiram. Porque? O que houve?

– Ela sumiu – respondeu Lay. – Mas acho que daqui a pouco ela aparece.

– Não sei gente, acho melhor procurarmos por ela – disse Jessica, preocupada.

– Também acho que devemos procurá-la – disse Davi.

– Acho melhor vocês entrarem e comerem alguma coisa, depois vocês procuram por ela – disse o sr. Ricardo. – Não vai adiantar sair por aí, com fome.

– Meu tio tem razão, vamos comer alguma coisa e depois procuramos por ela – disse Lay. – Tenho certeza de que ela está bem.

Lay entrou na mansão e quase todos fizeram o mesmo.

– Você vem? – Perguntou Gustavo à Jessica.

– Não, não quero comer nada – respondeu.

– Jessica, você precisa comer alguma coisa – disse, tentando acalmá-la.

– Venha com a gente, Jessica – disse Paula, estendendo o braço para segurar sua mão.

– Tudo bem – disse agarrando a mão de Paula. – É que, sei que nós duas estamos brigadas por causa do que houve ontem, mas ela é minha amiga e me preocupo com ela.

Seguimos em direção a cozinha e, ao chegar lá, sentamos sobre a mesa.

– Todos dormiram bem? – Perguntou a sra. Sara logo em seguida.

– Sim – responderam todos quase ao mesmo tempo.

– Ah, tia – começou Lay –, acho que você ainda não está sabendo da novidade... – ela olhava diretamente para mim, sorrindo.

– Que novidade? – Perguntou ela, curiosa.

– O Pedro está namorando.

Olhei de Lay para a sra. Sara – que me olhava com uma cara estranha – e tive a vontade sair correndo daqueles olhares.

– E quem é a sortuda? – Perguntou a sra. Sara, alegre.

– Paula Oliveira – respondeu Lay.

A sra. Sara olhou para Paula, que estava sentada ao meu lado, e deu um largo sorriso.

– Parabéns aos dois, você formam um belo casal – disse ela. – Sabe, eu sempre pensei que o Pedro se casaria com Layanne... Se lembra Layanne, que você me disse que vocês haviam feito uma promessa, ou algo assim?

Naquele mesmo instante olhei para Lay. Ficamos nos encarando por alguns longos instantes e, naquele momento, sentia como se a marca em meu braço ardesse novamente.

– Nós éramos crianças tia, o tempo muda – respondeu ela, ainda me encarando.

Alguns minutos depois, senti meu iPhone vibrar em meu bolso e, logo em seguida, o telefone de todos começaram a emitir bips. Peguei-o e abri a mensagem de texto que havia chegado.

“Gente, me desculpe por sair sem avisar a vocês. Acho que vocês já devem ter notado minha ausência. Recebi uma mensagem do Lucas onde dizia para nos encontrarmos e resolvermos nosso relacionamento, então resolvi voltar com ele para o Rio. Desculpas Layanne, espero que você e o Davi sejam muito felizes.

Bjs, Amanda.”

Ouvi um barulho alto. Lay havia batido na mesa, derrubando seu prato, e levantou-se bruscamente, com raiva, seguindo em direção a sala de estar.

HORAS ANTES...

– Não estraga o clima – Amanda ouvia a conversa entre Pedro e Paula de dentro da barraca. – Seu chato.

– Minha boba – disse Pedro. E depois de alguns minutos em silêncio, continuou... — Acho bom irmos dormir.

Amanda ficava pensando o quanto Pedro e Paula tinham sorte por ter um ao outro, uma sorte que agora ela não desfrutava. Seus quase dois anos de namoro com Lucas haviam sido maravilhosos e nunca na vida ela tinha encontrado um cara que lhe fizera tão feliz. Mas depois da noite passada, depois de ter entrado no quarto da sua amiga e ver os dois dormindo juntos, os quase dois anos de felicidade haviam se tornado em fúria.

Ela ainda se lembrava da noite na pizzaria, quando Davi e Layanne deram a notícia da data de casamento, onde, depois de comerem, ela e Lucas foram ao cinema.

Sentados na poltrona, ele ficou a encarando sem se ligar que o filme já havia começado.

– O que foi? – Ela perguntou.

– Nada não. É que... Você é linda. Sabe, vendo Layanne e Davi tão felizes juntos me faz pensar em nós dois, e quando penso, um turbilhão de pensamentos felizes me vêm à memória. Uma casa, uma família, filhos e netos, nós dois velhinhos e gordos – ele começou a rir. – Não consigo imaginar meu futuro com mais ninguém, só com você.

E ao ouvir isso, ela o beijou.

Olhando para o teto da barraca, ela sentiu seu coração palpitar. Ela ainda o amava. E foi quando seu celular emitiu um bip.

“Amanda, quero conversar com você. Estou aqui na mansão.

Lucas.”

Pegando suas coisas com cuidado para não acordar Laís, ela saiu da barraca e foi em direção a trilha na qual havia seguido mais cedo. Ao entrar na floresta, arrependeu-se de não ter levado alguma lanterna. Alguns minutos se passaram quando ela começou a ouvir alguns passos distantes.

Olhando para trás, ela não conseguiu enxergar nada além de árvores.

– Tem alguém aí?

Silêncio.

Amanda então começou a acelerar os passos, tomando cuidado para não perder a trilha que seguia, mas os passos atrás dela continuavam a se aproximar. Quando ela ouviu que já estavam muito próximos, resolveu olhar para trás novamente.

Ela olhou para pessoa que agora estava na sua frente e demorou alguns segundos para reconhecer.

– O que você está fazendo aqui? – Perguntou.

A pessoa na sua frente apenas a olhava, sem dizer nada. Amanda olhou para baixo e viu que ela segurava um pedaço de madeira.

– Você está me assustando.

Vendo que a pessoa começou a andar lentamente na sua direção, Amanda ficou imóvel, sem saber o que fazer. Estava com medo. Nervosa. Confusa.

Levantando o pedaço de madeira que segurava, a pessoa golpeou-a na cabeça, fazendo-a cair no chão. Ainda consciente, Amanda voltou a olhar para a pessoa que se preparava para bater nela novamente.

– O que você está fazendo? – Perguntou, gritando.

Mas a pessoa não respondia. E a sangue frio, começou a dar uma série de golpes em sua cabeça. Amanda não sabia o que estava acontecendo e nem o porquê daquela pessoa estar fazendo isso com ela. Ela só queria encontrar o amor da sua vida, perdoá-lo, beijá-lo...

Mas agora a inconsciência a dominava e a dor estava insuportável.

Alguns minutos depois, o corpo dela jazia, sendo arrastado para fora da trilha e jogado no meio da floresta.

Notas finais
Estão gostando? Amanhã... Capítulo #8 – Incêndio.