Cicatrizes.

2 #2 – Beijo.


Notas iniciais
Como vocês puderam ver no Capítulo #1, irá ficar esse suspense/mistério: Quem será o assassino? Porque ele está fazendo isso? E você, já suspeita de alguém?

Depois de quase quatro horas de viagem, o avião pousou no Aeroporto Internacional Eduardo Gomes, em Manaus. Não esperava à hora de chegar no sítio, cumprimentar o sr. Ricardo e a sra. Sara, deitar por alguns minutos na cama do quarto que irei ficar e pensar na vida.

Durante quase toda a viagem alguém fazia comentários sobre a repentina urgência de Yasmin — que nem ao menos pegou suas malas do avião. Paula tentou algumas vezes, enquanto o avião não decolava, ligar para o celular dela, mas só dava fora de área. Enfim, os murmúrios pararam quando começamos a sobrevoar a imensa floresta amazônica.

Peguei minha pesada mala e minha mochila, e desci do avião.

Os casais – Davi e Lay, Amanda e Lucas – imediatamente deram as mãos ao descerem.

– Finalmente – disse Jef. – Não aguentava mais ficar dentro daquele avião.

– Todos já desceram? Não esqueceram nada? – Perguntou Lay.

Todos nós balançamos a cabeça.

– Então vamos! – Continuou ela.

– É isso aí, estou morrendo de fome – disse Lucas.

– E quando você não está? – Perguntou Gustavo dando um tapinha em suas costas e passando por ele.

Todos nós rimos.

– É verdade – concordou Lucas pegando o óculos escuro que estava na gola de sua camisa e colocando sobre o seu rosto moreno.

– Deixa eu ver isso aqui – disse Jef pegando o óculos escuro do rosto de Lucas e pondo no seu. – Já era! – Começou a correr.

– Devolve meu óculos! – Gritou Lucas para Jef, que já estava a alguns metros de distância, soltando a mão de Amanda e começando a correr atrás dele. Sua mala caiu duas vezes enquanto tentava alcançá-lo.

– Alguém pode dizer a eles que já somos adultos?! – Disse Paula ao meu lado, rindo.

– Você tentou ligar para Yasmin? – Perguntei, rindo também.

– Tentei agora a pouco – respondeu. – Ainda está dando fora de área.

– Estranho.

– Pois é. Vou tentar novamente quando chegarmos no sítio dos Dantas.

Quando saímos do aeroporto – logo depois de Lucas ter pegado seu óculos escuro do rosto de Jef –, duas BMW’s nos esperavam do lado de fora. A primeira, um X5 SUV prata, conduzido por Sara Dantas. O segundo – e o que me chamou mais atenção -, um Série 3 M3 Coupé Sport azul, conduzido por Ricardo Dantas.

– Uau! – Disse Lucas.

– Olá meninos. Meninas... – Disse a sra. Sara, nos cumprimentando.

Todos nós falamos “oi” quase ao mesmo tempo.

– Pedro?

Virei-me para ver quem me chamava.

– Oi sr. Ricardo – disse, após reconhecê-lo

– Quanto tempo – disse ele, se aproximando e me abraçando enquanto dava alguns tapinhas em minha costa. – E veja só! Deixou de ser aquele garotinho e agora é um homem.

Olhei ao meu redor e percebi que todos me olhavam. Que legal, odeio ser o centro das atenções.

– Pois é – foi à única coisa que eu consegui dizer.

– Deixa eu te dar um abraço – disse a sra. Sara já abrindo os braços para me abraçar. – Como você cresceu.

Retribuir o abraço, meio sem graça.

– Melhor irmos – disse Davi. – Estamos com muita fome.

Nunca agradeci tanto por Davi ser autoritário. Já estava ficando sem graça.

Lay, Paula, Jessica, Amanda e Davi foram no carro da sra. Sara e, Jef, Lucas, Gustavo e eu fomos no carro do sr. Ricardo. Peguei meus fones de ouvido, apertei o play no meu celular, e melodia da música Só os Loucos Sabem de Charlie Brown Jr. entrava em meus ouvidos, trazendo algumas lembranças enquanto olhava pela janela do carro.

Depois de quase duas horas, chegamos enfim ao nosso destino – dando, antes, uma parada de meia hora em uma lanchonete para comermos alguma coisa. — Olhei aquela grande casa – uma mansão para falar a verdade – e percebi que algumas coisas tinham mudado. As paredes, que antes eram pintadas de branco, estavam de um marrom madeira; não havia mais o balanço na varanda e nem o balanço feito com pneu – que nem os filmes americanos – pendurado na árvore que estava a poucos metros de mim; podia ver ao longe – onde ficava o quintal – uma piscina onde antes ficava o pequeno parquinho; e parecia... Não, espera... Com certeza tinham aumentado a mansão.

Entramos — todos admirados com a beleza do lugar – e subimos os degraus da escada à procura de um quarto. Ao encontrar um vazio, joguei minha mala e minha mochila no chão ao lado da cama e me deitei sobre esta. Estava cansado. Exausto. Tirei meus fones de ouvido e fiquei olhando para um ponto preto – acho que era sujeira — no teto forrado... Até fechar os olhos.

– Pedro? – Ouvi alguém me chamar. – Pedro?

Abri os olhos. E lá estava o ponto preto no teto novamente.

– Pedro, acorda.

Tombei minha cabeça para o lado da porta. Paula – com seus cabelos loiros e o corpo com cada curva em seu devido lugar – estava com um biquíni verde estampado, combinando com a cor dos seus olhos.

– Oi – disse, enfim.

– Você ainda nem se trocou – disse ela, rindo. – Estamos indo pra piscina. Se você quiser ir...

– Ah, sim, sim... – fiquei sentado na cama, meio tonto. – Já estou indo.

Virei para vê-la partir, sem sucesso.

Paula não era muito diferente de Lay – tirando a aparência, é claro. Paula tem os cabelos ondulados e loiros, Lay tem os cabelos lisos e escuros; Paula tem os olhos verdes, Lay tem os olhos escuros; Paula é alta, Lay é baixa; mas ambas são lindas. E as duas são muito próximas a mim.

E a mais grande das diferenças é que Lay eu considero apenas como amiga.

Há mais ou menos três meses comecei a sair com Paula. Claro, escondido dos nossos amigos, pois não queríamos que eles pensassem besteira – afinal, apenas saíamos e nunca rolou nada. Lembro-me da última vez em que nos encontramos...

[ANTES]

Estávamos andando pelo calçadão de Copacabana e tínhamos acabado de sair da faculdade. O sol estava quase se pondo e a praia ainda estava lotada. Paula estava com um vestido branco – que a deixava ainda mais linda. Sentamos em um banco e conversamos sobre tudo e mais um pouco até o anoitecer, e quando estávamos quase indo embora, ela falou:

– Esse já é o nosso sétimo encontro.

Olhei em seus olhos, e perguntei:

– Você está contando?

– É claro, nós mulheres fazemos isso – respondeu, rindo.

– E o que tem ser o nosso sétimo encontro?

– É que... Acho estranho ainda não termos nos...

– Beijado – completei sua frase, rindo.

– É – ela abaixou o rosto timidamente.

– Mas já nos beijamos antes.

– Estávamos bêbados em um bloco de carnaval! Aquele não vale!

Coloquei as mãos em sua cintura, e a olhei nos olhos por alguns instantes antes de começar a falar:

– Você tem razão. Mas primeiro quero conhecê-la o mais profundamente possível, e quero que você também me conheça. Sim, eu quero levar isso adiante, mas tudo o que é bom vem com o tempo. E tudo tem seu tempo. E não quero que seja um simples beijo... Quero que seja verdadeiro. — Olhei em seus olhos, peguei seu queixo e, lentamente, lhe dei um beijo na testa.

[AGORA]

Poderia tê-la beijado naquele dia, mas achei melhor não.

Fechei a porta do quarto e troquei de roupa. Olhei para minha mala – agora bagunçada – e ignorei o fato de que alguma hora irei ter que arrumá-la. Abri a porta, desci as escadas e fui para a piscina.

– Olha quem apareceu – disse Jessica, jogando a bola inflável em mim. – Pensei que dormiria o dia todo e perderia a diversão.

– Nunca! – Disse.

Tirei a camiseta, mostrando meu corpo pálido, e me joguei na piscina. Fiquei por alguns segundos debaixo d’água e ouvi a risada de todos quando voltei à superfície.

– Atenção galera! – Gritou Lay, da beirada da piscina. – O casamento será daqui a 3 dias. Mas até lá, vamos nos divertir!

Todos começaram a gritar.

Alguns pegaram uma taça e a encheram com o champanhe que Lay segurava, outros pularam na piscina. Lay olhou para mim e deu um belo sorriso.

As horas passaram rapidamente, mas nenhum de nós estava preocupado com o tempo. Pouco a pouco todos foram entrando na mansão e continuaram a festa por lá, até que eu fiquei sozinho. Sentei-me na beirada da piscina e vi que o sol já começava a se pôr, e logo o céu começaria a dar aquele espetáculo de cores. Ouvi um pequeno barulho ao meu lado e me virei, um pouco assustado.

– Te assustei? – perguntou Paula.

– Não – menti.

– O que você está fazendo?

– Vendo o pôr do sol.

– Posso ver com você?

Olhei para ela. Mas que pergunta idiota, é claro que ela podia.

– É claro – respondi.

Ficamos um ou dois minutos em silêncio, apenas vendo as cores que apareciam no céu.

– Sabe – disse quebrando o silêncio. – Hoje estive pensando no nosso último encontro.

– É? – Ela deu um pequeno sorriso. – Em que parte?

– A parte em que nós falávamos de quando seria nosso segundo primeiro beijo.

Ela apenas me olhava, sem dizer nada. Ouvi um pequeno barulho nos arbustos atrás de nós e me virei, mas não havia nada.

– Sabe, só pelo simples fato de você ter me aturado durante sete encontros, você já merece um prêmio – nós dois rimos. – E, além disso, significa que você é realmente especial. Não quero perdê-la. Não quero mais um ou dois encontros, e sim centenas, milhares, milhões de encontros com você. Sou idiota por ainda não tê-la beijado, mas não me arrependo de tudo o que fiz, pois assim, o que eu estou prestes a fazer se tornará uma lembrança muito mais especial para nós dois.

– E o que você está prestes a fazer? – Perguntou ela, dando aquele pequeno sorriso novamente.

– Isso...

Peguei seu queixo e a trouxe para mais perto, e lentamente – da mesma forma que eu havia beijado sua testa no último encontro – beijei sua boca. O sol continuava se pondo e ouvi novamente o barulho nos arbustos, mas não estava dando a mínima para o que estava acontecendo ao nosso redor, pois aquele beijo tinha toda a minha atenção.

Notas finais
Não percam o Capítulo #3, amanhã!