Ciberlove

5 Capítulo 5


- Matchmaker? — Peter questionou sério — Eu esperava mais de você, querido sobrinho.

Com o decorrer do dia Derek acreditou que o pior já tinha acontecido e que provavelmente ele teria de matar Peter (de novo). O maldito tinha tido acesso ao seu maldito perfil, por meios que Derek não fazia ideia, e não conseguia passar por ele sem usar o "apelido carinhoso" para chamá-lo.

Ele manteve sua irritação sob controle quase o dia inteiro, até que no fim da tarde, enquanto estava na varanda, seus olhos brilharam vermelhos, seus dentes se expandiram imediatamente e no segundo seguinte voltou ao normal. Olhou para todas as direções vendo a floresta tornando-se alaranjada com a chegada do crepúsculo. Seu olfato captando coisas que um humano jamais perceberia, assim como sua audição.

- Há algo aqui. — ele afirmou para o nada. Sua intenção era avisar seu tio, mas o homem havia saído minutos atrás sem dar maiores explicações.

Pegou o celular e discou para seus pupilos, avisando que eles deviam vir com extrema rapidez e tomar cuidado por onde passavam, pois algo havia ultrapassado as barreiras de seu território.

Os três adolescentes chegaram quase juntos usando suas jaquetas de couro combinadas, como se fossem integrantes de alguma boy band, e excitados com a possibilidade de conseguir um pouco de ação, bom, ao menos Erica pensava assim. Boyd parecia não se importar com a situação mais do que o necessário e Isaac ouvia cada uma das palavras de Derek com extrema atenção.

Depois de ordens de Derek para se manterem juntos e atentos, os quatro seguiram para a mata, distanciando-se a longas passadas da proteção das sombras da mansão em direção às sombras cada vez mais escuras por entre as árvores.

Todos estavam transformados: focinhos, orelhas, presas, olhos e garras. Andavam em um ritmo rápido e tentando captar qualquer movimentação estranha nos arredores. Algo no instinto de Derek o avisava que perigo vinha pela frente, mas em uma vida como a sua, perigo era uma constante impossível de ser cancelada.

- AAAHH! — um grito agudo e histérico soou do meio da quase completa escuridão.

- Por ali! — Erica gritou e correu em direção ao local.

- Erica, não! — Derek praticamente rosnou, mas a garota já estava a metros de distância e longe do alcance da visão do alpha. — Merda.

- O que faremos? — Isaac perguntou.

- Esperamos. — ele respondeu.

- E a menina que ouvimos gritar? Ela parece ter se sido ferida! E se Erica se ferir também? Ou se ela se encontrar com a criatura? Derek, nós temos que ajudá-la. — Isaac pediu preocupado.

- Se nós corrermos iremos nos perder um do outro. A única garota perdida aqui é Erica. A criatura irá nos desviar do nosso caminho.

- Não vamos sequer uivar para Erica saber para onde voltar? — Boyd interferiu pela primeira vez.

- Não. Essa criatura sabe imitar vozes, se nós uivarmos uma só vez, ela será capaz de uivar de volta. Se nós usarmos nossas vozes para chamá-la, a criatura usará nossas vozes para confundi-la.

- Então você sabe com o que estamos lidando?

- Sim.

- E sabe como matar isso?

- Sim. — Derek sorriu confiante lembrando-se da conversa do dia anterior.

- E o que nós temos que fazer?

- Voltar para a mansão. — ele disse já se virando.

- E vamos deixar Erica sozinha aqui para morrer? — Isaac perguntou de novo.

- Ela não será morta. Essa criatura gosta de manter a comida viva por dias. Além do mais, nossas garras não terão nenhum efeito. Tudo o que nos resta fazer é voltar. E rápido. — Derek disse entre-dentes, descontente com a relutância do rapaz em não confiar que Derek jamais abandonaria alguém do seu bando para a morte.

- Derek! Derek! — enquanto andavam ouviram a voz da adolescente gritar por eles, pedindo por socorro.

Isaac olhava para Derek aflito, querendo seguir a voz da amiga e tentando acreditar em Derek ao mesmo tempo. Deus, mas os gritos pareciam tão suplicantes e tão próximos. Ele tinha a impressão de que se se virasse iria encontrar a moça atrás dele. Resolveu olhar para trás por um segundo e sua visão captou algo se movimentando com tanta rapidez quando qualquer lobisomem teria.

- Erica! — ele exclamou. E foi tudo que Boyd e Derek ouviram do garoto antes de notar que ele tinha desaparecido por completo, deixando apenas um pequeno traço de sangue fresco no local.

Boyd ameaçou seguir o cheiro do sangue do rapaz que estava tão livído e próximo a eles, espalhado por entre terra e folhas. Derek o parou, segurando seu ombro com mais força do que o necessário talvez.

- O único jeito de salvá-los é voltando para a mansão. — ele afirmou sério e esperou alguns instantes até ver que o garoto tinha a total intenção de acompanhá-lo de volta.

Quando chegaram lá Derek conferiu o sinal de seu celular e discou o conhecido número de Scott.

- Scott?

- O que foi, Derek? Eu tenho dever de casa para fazer.

- Um Wendigo invadiu o meu território e ele capturou Erica e Isaac.

- O que? Como você deixou isso acontecer? — ele exasperou-se, mesmo sem ter ideia do que seja um wendigo, mas se Derek havia ligado, boa coisa não devia ser.

- Fique quieto e me ouça: precisaremos de ingredientes para um coquetel molotov.

- O que é isso? Eu acho que já ouvi isso em algum lugar...

- Faça assim, ligue para o Stiles. Ele vai saber o que fazer e mesmo que não souber, vai arrumar um jeito de descobrir. Diga que eu tenho garrafas suficientes, ele só precisa trazer os ingredientes. E isqueiros. — o lobisomem finalizou a ligação.

- Esse é o seu plano? Ligar para o Scott para ele ligar para o Stiles?

Derek olhou desgostoso para Boyd. Estava severamente irritado por nenhum dos seus betas parecer lhe dar ouvidos. Ele podia não ser o melhor alpha que já existiu, porém os membros do seu bando não o ajudavam em nada para melhorar essa imagem.

- Se você quiser ir lutar contra um Wendigo só com as suas garras, sinta-se à vontade. — Derek ironizou enquanto esperava pelos dois adolescentes chegarem.

Se Scott achou que fosse ser difícil convencer Stiles a descobrir como fazer aquele tal coquetel, estava muito enganado. É claro que o rapaz resmungou um pouco por ter que sair de perto do computador, mas a chance de invadir o laboratório do Sr. Harris e roubar substancias químicas era tentadora.

Stiles não precisou de mais de cinco minutos para arrombar a porta da escola e menos tempo ainda para entrar no laboratório de química. Sorria satisfeito consigo, percebendo que suas habilidades marginais estavam melhorando e pensando que seria engraçado contar isso ao novo amigo virtual: "o que fez hoje a noite?", "Ah, nada demais, arrombei umas portas e explodi umas coisas".

Meia hora depois aceleravam o jipe azul em direção á mansão dos Hale. Stiles pisava fundo no acelerador e fazia curvas fechadas e perigosas.

- Isso é engraçado: eu arrombo portas, roubo coisas, dirijo feito um louco com ingredientes que podem nos fazer explodir dentro do carro e o lobisomem poderoso é você.

- Pare de reclamar, Stiles!

- Não estou reclamando, estou apenas fazendo uma observação perspicaz. O que seria de seu bando sem o meu cérebro?

O sorriso sacana dele indicava que realmente ali não havia reclamação. Estacionaram ruidosamente diante da casa decrépita e o rosto do motorista se iluminou quando avistou as inúmeras garrafas que Derek dispunha na varanda, próximas ao lugar onde Peter, que já havia voltado para casa e observava quieto a agitação, havia sentado.

- Perfeito! – falou o adolescente dando um tapinha amistoso no ombro do alfa e depois deu um passo para trás, assustado com o olhar, sempre ameaçador, que recebeu. – Vou, er, começar a preparar tudo.

Ele misturava cuidadosamente cada ingrediente numa única grande tigela e depois despejou um pouco da fórmula em cada garrafa: oito no total.

- Agora os pedaços de pano – ele pediu humilde, para o alfa.

- Pedaços de... – Derek se irritou. Consigo mesmo daquela vez, tinha esquecido completamente do último detalhe.

- Você não esqueceu o pavio, esqueceu? Precisamos de pano, pra conduzir a chama do isqueiro até o conteúdo da garrafa. – Stiles explicou.

E vendo que ninguém tomava iniciativa ele mesmo tirou a camisa de flanela que usava e tentou, em vão, rasgar a peça de roupa.

- Ah merda! Vocês têm garras, poderiam pelo menos cortar isso aqui. – agora Scott percebeu que ele estava irritado.

- Deixa que eu faço isso – Derek assumiu seu controle de alfa e, em vez de rasgar a blusa do garoto, dilacerou a própria camiseta preta em segundos, passando às mãos brancas e, agora levemente trêmulas de Stile, as tiras de pano que ele precisava.

- Isso – ele respirou fundo e pigarreou – deve servir.

Depois de tudo finalmente pronto, Derek pegou uma das garrafas e conduziu a explicação. Andariam em duplas pela floresta. A criatura que caçavam imitava vozes e sons, confundindo os caminhos, seu objetivo era único: capturar o máximo possível de criaturas para estocar comida.

- Um wendigo? – perguntou Stiles que até então não tinha entendido o que era, Scott havia falado que iam caçar um "hestingo" – Ótimo, ele tem predileção por carne humana, por isso não se contenta com animais e... – ele parou de falar, compreendendo no olhar do alfa o que lhe ia em mente. – Legal! Já entendi. Para variar eu sou a isca.

Scott olhou enfezado para Derek, mostrando os dentes e as garras. Não lhe agradava a ideia de expor seu melhor amigo a um monstro não amistoso comedor de gente.

- Socorro! Por favor, me ajudem! – a voz de Erica soou perto e desesperada.

- Ele sabe que estamos aqui e que queremos ataca-lo. – Derek disse segurando com mais força o pulso firme de Boyd.

E antes que qualquer um pudesse entender o que estava acontecendo, Stiles puxou uma de suas mãos e enfiou a garra de um dos dedos no braço descoberto, fazendo um furo profundo de onde escorreram algumas boas gotas de sangue.

- Stiles! – Scott berrou, assustado com a expressão do amigo.

- Eu vou ser isca, Scott. De um jeito ou do outro. Prefiro fazer isso consciente. Agora pronto, vou dar dez passos em direção à floresta e tenho certeza que antes do oitavo ele me pega sem que vocês vejam. O cheiro de sangue humano vai atrai-lo ainda mais. E aposto que vocês também vão me localizar mais fácil. – ele andou pelo grupo passando seu braço ensanguentado nas mãos de cada lobisomem e abaixando a voz continuou – Não se esqueçam, Wendigos gostam de cavernas, dutos abandonados, minas, locais escuros e protegidos de alguma forma, ideais para hibernar. Se souber de algo assim nos arredores, Derek, é para lá que ele vai me levar. E prestem atenção aos gritos, eu só vou chama-los em ordem alfabética se precisar de ajuda. Primeiro de frente para trás e depois de trás para frente. Ignorem gritos aleatórios. Hora de ir.

Ele deu as costas e caminhou para a escuridão. Um, dois, três passos. Virou para trás e fez uma expressão que parecia um sorriso apavorado. Quatro, cinco, seis e ele respirou fundo, apertando o braço machucado pela garra de Derek, se certificando que o corte não cicatrizasse ainda. Sete, e o grito dele ecoou pela mata, sem que ninguém conseguisse dizer de onde o ataque surgira e para onde a criatura seguia com o rapaz.

- Isso foi corajoso. Estúpido, mas corajoso. – Peter Hale comentou, ainda sentado nos degraus da varanda atrás do resto do bando.

Scott lhe lançou um olhar furioso e avançou para Derek:

- Temos que buscar o Stiles. Isso não é justo!

- Eu sei que não é. E nós vamos busca-lo. Vivo.

Derek levou a mão até o focinho comprido e bem treinado e inspirou o aroma do sangue do rapaz. Tinha um odor ferroso, doce e carregado de um tom de adrenalina que a vontade do alfa por um mínimo instante foi lamber os dedos. Controlou-se com toda força que pode e farejou o ar.

Depois deu um salto e tratou a correr sentido leste da floresta. Seus pensamentos passavam zumbindo enquanto ouvia os passos do resto do bando atrás de si. Pensava na coragem de Stiles e no risco que ele corria, pensava na ideia inteligente de deixar o sangue para ter um rastro mais forte a ser seguido. Na estratégia de gritar os nomes em ordem alfabética. Não podia deixar que nada acontecesse a ele.

"Wendigos gostam de cavernas, dutos abandonados, minas, locais escuros e protegidos de alguma forma, ideais para hibernar" a voz do rapaz ecoava em sua cabeça. Sabia exatamente onde o encontraria: a entrada do antigo mausoléu do monastério que existira naquela propriedade no início do século XIX. Já havia ido até a entrada do mausoléu com sua irmã que o desafiara a ir até a lápide do último padre do local, mas ele não teve coragem. Achava que ali tinha um cheiro ruim.

Agora sabia que cheiro era aquele. Estava tão concentrado que não ouvia mais o som dos outros ou qualquer ruído que o monstro fizesse para tirar-lhe o foco.

Alcançou a entrada do mausoléu, oportunamente coberta por troncos e folhas. Desceu os degraus de pedra úmida com cautela. Andava tentando fazer o mínimo de ruído possível.

O cheiro ali era insuportável, quase não conseguia distinguir o aroma de Stiles junto a toda aquela mistura de umidade, podridão e sangue. Muito sangue.

Derek mais sentiu Scott se aproximando por trás e fez um gesto para que diminuísse a marcha. Indicando com o queixo uma divisão de passagens à frente, tomou o caminho da esquerda e deixou o outro lobisomem com o da direita.

Aguçou os ouvidos. Distinguiu corações disparados logo a frente. Pegou a garrafa com o coquetel molotov e buscou o isqueiro no bolso da calça, sentindo-se desesperado quando percebeu que não o havia trazido.

Que porra estava acontecendo aquele dia? Mordeu o lábio com força, quase ferindo a si mesmo. Uma voz em seu subconsciente disse que quando se tratava de Stiles, ele costumava esquecer o óbvio, mas ele não deu ouvidos a ela justamente porque nesse momento, ouviu um gemido.

Um gemido de dor, acompanhado de um soluço feminino.

- Não! – o berro de Erica ecoou nos corredores do mausoléu.

Derek estancou, achando que se tratava de mais um truque do Wendigo, mas o gemido de dor abafado que ouviu em seguida vindo da mesma direção indicaram que não era um truque. Alguém estava sendo machucado, e não era a lupina.

Aproximou-se do local de onde os sons saíam e estancou. Isaac e Erica estavam pendurados, amarrados pelos braços. O rapaz parecia inconsciente, muito machucado. Erica, por sua vez, tinha os olhos arregalados e lágrimas grossas escorriam pelo seu rosto, enquanto encarava o lado oposto da sala.

O alfa entrou no cômodo e perdeu o controle com o que viu. Além de uma pilha de ossos humanos amontoados a um canto, o wendigo se entretinha em aumentar com uma das garras o corte no braço de Stiles e já abria a boca repleta de dentes sujos para morder o local.

Sem pensar ele saltou por cima do wendigo que soltou Stiles e se virou contra o lobisomem. Os dois se engalfinharam, Derek a princípio levando vantagem pelo elemento surpresa, mas logo estavam em pé de igualdade, já que o monstro era mais alto, muito ágil e se esquivava com facilidade das investidas do alfa.

Scott e Boyd foram atraídos para o local pelo barulho da luta e chegaram no momento em que o monstro caía sobre as costas de Derek, derrubando-o ao chão e mordendo um pedaço de suas costas. A mordida arrancou um pedaço considerável de carne e fez o wendigo se distrair, confuso entre continuar se defendendo ou mastigar a carne em sua boca.

Foi o suficiente para que Derek recuperasse um pouco de força e empurrasse o monstro para o fim do corredor oposto e gritar para que Scott ou Boyd lançassem o coquetel molotov no wendigo. Os dois atenderam ao pedido e o monstro explodiu em meio às chamas.

Derek caiu de joelhos, ainda conseguindo se certificar de que Stiles respirava, antes de perder a consciência.

O que aconteceu em seguida foi tudo tão rápido que não passou de um borrão na memória de Stiles. Scott correndo pra ele, desamarrando suas mãos e pés, enrolando um pedaço de pano em seu machucado. Boyd soltando Erica, depois Isaac. Entregando o rapaz inconsciente para que Erica carregasse e ajudando Scott a levantar Derek e arrastá-lo de volta para a mansão.

Scott pegou as chaves do jipe e colocou Derek e Stiles no banco traseiro, dirigindo para a clinica e ligando para Deaton pedindo ajuda.

Deaton deu alguns pontos no ferimento de Stiles, disse que ele não corria nenhum risco, mas Derek precisaria ficar em observação. Scott se ofereceu para levar o amigo em casa eles seguiram por todo o caminho em silêncio.

- Ei cara, você foi, tipo, incrível lá e... – Scott começou a falar quando estacionaram diante da casa dos Stilinski.

- Por favor, Scott. Eu só quero entrar e dormir. E se possível esquecer que tudo isso aconteceu.

- Ok, eu sei como você...

- Oh, não. Não diga isso, porque você não sabe. Eu vou passar um mês com camisa de manga comprida pro meu pai não ver os pontos, pelo menos até arrumar alguma desculpa de lacrosse para ele. Eu vou sonhar uns seis meses com os olhos famintos daquele monstro magrelo olhando pro meu braço como se fosse a coxa do peru no dia de ação de graças e vou ter que tomar uns 15 banhos e usar todo o sabonete de casa pra tentar tirar de mim o cheiro de podridão que saía da boca dele. Então, só me deixe quieto, ok?

Scott balançou a cabeça concordando, deu um aceno com a cabeça quando viu o amigo entrar e trancar a porta e correu de volta para a clínica, para saber como Derek estava se recuperando.