Ciberlove

6 Capítulo 6


- Eu estou bem. — Derek disse, petulante, após acordar na clínica, flashs do ocorrido indo e vindo em sua cabeça.

- Você não parece bem. — Erica respondeu de volta com a sobrancelha arqueada e os braços cruzados olhando para o ferimento cicatrizando lentamente na pele do lobisomem.

- Onde estão os outros? O que aconteceu? — ele se pôs sentado sobre a mesa metálica e fez uma careta de dor, que se esforçou para controlar em vão.

- Você não devia estar se mexendo, Derek. A mordida causou um estrago profundo e afetou parte do seu poder de cura. — Deaton explicou com seus olhos calmos — Eu fiz uma mistura de ervas para ajudar a acelerar a cura de dentro pra fora, mas ainda vai levar algumas horas.

- Onde estão os outros? — ele perguntou aparentemente ignorando as palavras do veterinário, mas sem fazer nenhum movimento após o aviso — Scott e Stiles, onde estão eles?

- Eles estão bem. Deaton suturou o braço do Stiles e Scott foi levá-lo até em casa. — Erica respondeu de prontidão.

- Estão todos bem? — ele perguntou de maneira seca para os seus três betas encolhidos na pequena sala, tentando não parecer tão preocupado, mas falhando. Os três acenaram positivamente, preferindo não dizer nada no momento.

Derek os mandou embora e disse que Deaton poderia ir também, ele voltaria para casa e ficaria lá até melhorar. O veterinário recusou, disse que o deixaria em observação por mais algumas horas antes de liberá-lo para sair por aí se machucando novamente. O lobisomem rosnou, no entanto, o ato não teve nenhum efeito no homem, que apenas sorriu e acompanhou os adolescentes até a porta.

No momento em que saiam Scott estava voltando ao local.

- Ele está bem já? — o garoto perguntou.

- Tão bem que já nos expulsou porque temos escola amanhã e não deveríamos perder tantas aulas sem motivo. Você sabe como ele é cabeça dura. — a garota disse a última frase um pouquinho mais alto, certificando-se de que o alpha a ouviria.

- Eu queria falar com ele. — Scott mais pediu do que afirmou.

- Por que você não faz isso amanhã, Scott? Vocês estão todos cansados e Derek ainda não está completamente recuperado. — Deaton disse suavemente, mas todos ali sabiam que havia uma ordem implícita naquelas palavras.

Scott acabou por oferecer carona aos membros do bando e levou cada um até sua casa, depois passou no hospital e buscou sua mãe, apesar de ela ter insistido que seu turno acabaria muito tarde e ele não precisaria ficar acordado para ir buscá-la.

Deaton voltou para a sala onde seu paciente o esperava sentado e com uma expressão vazia da qual o veterinário conseguia retirar alguns sentimentos intensos sendo escondidos.

- Stiles ficará bem. Ele não vai se curar tão rápido como você e talvez perder alguns treinos de lacrosse, mas nada que ele não possa suportar. Nenhum risco que ele não tenha aceitado correr, pelo que eu soube.

- Eu o pus em perigo. Eu pus todo o bando em perigo. — ele olhou friamente para o homem, que sorriu.

- Pelo que eu ouvi, você também salvou todos eles.

- Era o meu dever.

- Você se atirou no Wendigo para salvar o Stiles. O ferimento dele poderia ser bem pior se você não o tivesse feito.

- Ele só estava lá porque eu o convenci a servir de isca.

- Você põe muito peso sobre seus ombros, Derek. Talvez você devesse tentar dividir um pouco dessas coisas com alguém.

- Eu não irei a um psicólogo.

- E quem disse alguma coisa sobre psicólogos? — ele estava de frente para o lobisomem — Confie em alguém Derek. É isso que você precisa. Confiar em alguém o suficiente para dividir o peso sobre os seus ombros.

Derek virou o rosto e novamente pareceu ignorar o conselho gentil do homem, apesar de sua mente ter ido quase instantaneamente para a conversa que tinha dito no dia interior. Talvez Derek não tivesse sido sincero sobre o que ele fazia para sobreviver, mas essa foi a única mentira que ele contou ao garoto. Todas as suas outras palavras foram sinceras, algumas nem eram importantes, e mesmo assim ele se abriu para o desconhecido mais do que para qualquer outra pessoa em sua vida.

Stiles não sabia bem o que esperar do dia. A segunda que havia começado tão bem, tinha terminado com seu oferecimento insano para a morte. Dirigiu quieto para a escola, passou pelos corredores do colégio sem cumprimentar ninguém e se jogou em sua carteira de qualquer jeito.

Scott chegou querendo puxar assunto, mas o rapaz apenas deitou a cabeça sobre os braços e não respondeu a nenhuma das tentativas de conversação do amigo.

Sua voz só foi ouvida durante a aula de química quando o Sr. Harris chamou diretamente pelo rapaz perguntando sobre uma reação de ácido sulfúrico.

- Não sei. – ele disse sem se abalar, encarando o professor.

- Não sabe?

- Não.

- O senhor Stilinski diz que não sabe mesmo depois da sua brilhante participação na última aula. Como o senhor pode ser tão brilhante em um dia e tão obtuso logo em seguida?

- Da mesma maneira que o senhor parece ser curiosamente brilhante em química e totalmente obtuso em boa educação ou relações pessoais.

Scott arregalou os olhos e se encolheu na cadeira. A experiência de quase morte deve ter afetado o adolescente mais do que ele supunha.

- O senhor gostaria de dar um passeio na sala do diretor, senhor Stilinski?

- Não é uma das minhas vontades no momento, Sr. Harris, mas se o senhor não se encontra em um bom momento para defender seu ponto de vista com uma argumentação justa, tendo que para obter um pseudo-respeito da sala usar de métodos de imposição através de outras autoridades, então, eu vou.

E deixando o professor, e toda a sala, de boca aberta, Stiles reuniu seu material e foi para a sala do diretor.

A postura segura de si que o rapaz não costumava ter o livrou de uma detenção e arrancou algumas risadas do diretor da escola. Como punição, apenas uma advertência a ser assinada pelo pai do garoto.

O resto do dia foi de puro silêncio. Sem piadas, sem falatório, sem nenhum sinal de sarcasmo por parte do rapaz. Quando as aulas acabaram, Jackson alcançou Scott no corredor, agarrando-o pela camisa:

- Não faço ideia do que aconteceu, mas se vira para consertar o seu amigo.

- Por que se preocupa com ele?

- Não me preocupo com ele, me preocupo com o time. E se ele vai entrar no vestiário amanhã, prefiro que seja rebolando como a Beyonce do que com essa cara de bunda.

Stiles não esperou ninguém, não ofereceu carona para Scott, nada. Só pensava em chegar em casa, tomar os remédios que Deaton lhe passou e entrar na internet. Quem sabe tivesse a sorte de encontrar moonHalo para conversar. Alguém que fosse capaz de falar com ele sem mencionar nada que pudesse morder, envenenar, ou sair de um livro mítico e provocar dor e sofrimento.

Seu pai ainda estava na delegacia e ele apreciou o silencio da casa vazia por um tempo, enquanto preparava algo para comer. Subiu as escadas mastigando um sanduíche de manteiga de amendoim, ligou o computador e ficou esperando.

Dez minutos, meia hora, duas horas. Nada dele aparecer. Nenhuma mensagem, nenhum sinal de vida. E se o rapaz se achava completamente arrasado com os acontecimentos da noite anterior, naquele momento a solidão foi mais difícil ainda de aguentar.

Levantou irritado da frente do computador, chutou a cadeira e se jogou na cama, fazendo uma careta de dor com a fisgada dos pontos no braço. Esticou o braço sadio para pegar o controle do som e apagou a luz, para esconder de si mesmo que precisava chorar.

Sobrecarregado. Essa era a palavra que definia seus sentimentos naquele instante. Uma palavra que ele achava pesada demais para um rapaz de apenas 17 anos. Mas ele já havia passado por mais coisas do que não só a maioria dos colegas de escola, mas a maioria das pessoas em geral.

E passado por tudo isso sozinho. Sem ter com quem discutir, dividir, compartilhar mesmo que fosse um momento de silêncio e compreensão. Em geral não deixava seus sentimentos aflorarem, com medo de um novo ataque de pânico.

Mas desde sua conversa com o estranho no site de relacionamentos é que começou a pensar se suas crises de pânico não eram apenas medo da solidão. Nenhum de seus amigos havia perdido a mãe. Bom, Scott não tinha o pai, Jackson foi adotado. Mas nenhum deles viu a mãe definhar dia após dia, lutando contra uma doença sem cura. Não viram a dor que ela tanto se esforçava para esconder quando ele estava por perto. Não escutou os gemidos a noite mesmo quando conseguia adormecer. Não presenciou as crises de vômito provocadas pela quimioterapia. O cabelo tão lindo caindo aos poucos, a pele ficando pálida e ressecada. E o vazio no olhar de seu pai quando ela não resistiu mais.

No entanto, no último domingo, ele finalmente havia encontrado alguém que havia passado por uma dor parecida. O estranho havia perdido a irmã e o modo como ele falou demonstrou bem a semelhança da dor e do vazio que sentiam.

Agora, tudo o que ele mais queria era sentir solidariedade. O que ele mais queria era o impossível.

Acordou com uma ressaca emocional tão intensa que parecia que ele havia bebido litros do uísque mais barato do mundo. Sua cabeça doía, sua boca tinha um gosto amargo mesmo após escovar os dentes umas três vezes. Tomou alguns comprimidos e dirigiu para a escola sem a mínima vontade de olhar para a cara de ninguém.

Seu estado de humor parecia deteriorar e nem mesmo a orientadora da escola conseguiu arrancar dele qualquer palavra.

- Não sei como te ajudar, Stiles. – ela disse em voz baixa no fim da "sessão".

- Não sei se alguém pode. – ele fazia esforço para não se deixar levar.

- Se quiser, posso pedir o encaminhamento para seu psicólogo e ele voltar a te receitar a medicação que utilizou quando sua mãe...

- Não! – ele interrompeu de maneira brusca. – Nada de remédios. Isso passa. Não é a primeira vez, então eu sei... Sempre passa.

Ele deu de ombros, pegou a mochila no chão, largada ao lado de sua cadeira e saiu da sala. Foi atrás de Scott, deixou as chaves do jipe com ele e disse que precisava caminhar, para espanto do amigo e do resto do time, quando ele disse que não treinaria.

Não soube ao certo quanto tempo caminhou e nem quais caminhos pegou. Um pouco na cidade, um pouco no parque, perto da mansão de Derek. Apenas percebeu que só chegou em casa ao anoitecer e seu jipe já estava estacionado na garagem e as chaves jogadas pela janela, caídas no chão do quarto.

Ligou novamente o computador e mais uma vez se viu sozinho. Sozinho na vida real e virtual. Sentia-se tão fodido emocionalmente que sem pensar, clicou sobre o nome moonHalo e mandou uma mensagem mesmo ele estando off line:

Triskalia: Vc já se sentiu ridículo? Por esperar demais das pessoas perto de vc? É como eu estou me sentindo. Eu estou sempre esperando que meus amigos façam por mim o que eu faço por eles. Que se preocupem comigo como me preocupo com eles. Que tentem cuidar de mim como eu cuido deles. E eu só me fodo. E estes dias têm sido ainda mais ridículos porque eu simplesmente não estou me importando com ninguém e, olha que engraçado, ninguém parece sequer notar. E aí, o que é ainda mais ridículo, é que eu esperava te encontrar aqui em algum momento para ter alguém que eu tinha certeza que ia me entender, mesmo que metade das coisas que eu diga nunca faça sentido. Mas se eu já sou ridículo na vida real, é óbvio que eu seria ridículo na vida virtual. E é provável que vc nunca mais apareça. E eu vou ficar com essa sensação de perda ecoando dentro de mim.

Ele apertou o enter e ficou olhando a tela, relendo umas quinze vezes o que tinha acabado de escrever. Não se arrependia. Quais as chances daquela pessoa ler sua mensagem?