Cianeto
1 Prólogo
Murilo caminhou às pressas para a pequena casa laranja na Rua Cenoura, 492. O portão em frente ao jardim pequenino estava aberto. Ele sentiu o coração apertar. Não queria estar ali. Não pelo motivo que estava. Ele se lembrou de Tomaz perguntando se ele queria ser acompanhando, nesse momento tudo que ele queria era o abraço do namorado. Era apenas um afago e um carinho. Era a segurança que o outro lhe passava.
Ele subiu os poucos degraus da escadinha em frente da casa.
Passou pela porta.
— Pai!
O pai apenas o olhou. Estava em prantos. Ele nunca tinha visto o pai chorar. Correu para os braços do pai e eles se abraçaram ali mesmo.
— Ela vai ficar bem! — Ele falou para o pai. Porém era o seu próprio coração que ele queria acalmar. — Não vai? — Completou sentindo a tristeza transbordar o seu ser.
— Eu não sei filho. Ela disse que não passa de hoje! — O homem falou soluçando e com dificuldade para completar as frases. Fechou os olhos e secou a face molhada com o líquido salgado. — Ele quer te ver, só falava em você.
Murilo balançou a cabeça em afirmativa e sentiu os cabelos cacheados chicotearem seu rosto e grudar nos fio de lágrimas. Foi só então que percebeu que estava chorando. Ele fechou os olhos e respirou fundo. Caminhou então para o quarto tão conhecido.
O quarto da avó.
Estava claro, mas algumas velas ainda assim estavam acessas. Era realmente a cara da sua avó, nascida bruxa e criada por bruxas. Ele caminhou até a cama grande de madeira. Ela estava deitada na cama, a avó. Vestida de branco. Os cabelos cacheados e brancos espalhados pela cama. Ele sorriu quando o viu.
— Eu estava esperando você. — Ela falou sorrindo e estendeu a mão.
Foi nesse momento que Murilo não aguentou e caiu de joelhos no chão. Passou a chorar feito uma criancinha e segurou a mão da avó dando vários beijos na mesma. Estava tão frágil, tão flácida, tão velhinha. Ele sentiu um aperto no peito. Nunca pareceu pensar que um dia a perderia. Passou a chorar mais alto.
— Oh meu querido, não fique triste, Murilo. Eu só estou indo descansar. Estou cansada, vivi uma vida plena e estou pronta para a aventura final. Para quê preocuparmo-nos com a morte? A vida tem tantos problemas que temos de resolver primeiro. — Ela falou num tom baixinho e tossiu. Então sorriu novamente. — E é sobre isso que precisamos conversar. Você está me entendendo?
Murilo balançou a cabeça em afirmativa. Ele estava ouvindo. A avó falava baixo, porém ele ouvia tudo. Conseguia compreender.
— Sim vovó!
Ela teve mais um ataque de tosse e só depois de se acalmar sorriu novamente.
— Você pode até não acreditar, Murilo. Porém o seu caminho eu vi desde que você nasceu. Você nasceu em uma noite turbulenta. O vento cantava irritado. A energia caiu e foi um alvoroço no hospital. A sua mãe não o queria. Ela nunca o quis. — Ele sentiu vontade de chorar ainda mais, nunca tinha escutado algo assim. — Mas eu disse que ela ficaria com você. E ela ficou até o dia que partiu o deixando comigo. Você já nasceu em um mundo cruel. A sua mãe sempre teve sonhos, seu pai a frustrou, você a frustrou. Como uma modelo conseguiria emprego estando grávida? Ela dizia te odiar. Mas acredito Murilo. Que ir embora e te deixar foi à coisa mais difícil que ela já fez.
Murilo balançou a cabeça em afirmativa. Não acredita nisso. E não queria acreditar. Não queria nem estar falando sobre essa mulher. Ele olhou sua avó nos olhos.
— Você vai precisar perdoar meu anjo. Terá que aprender a perdoar para que a felicidade não lhe feche as portas. Muitas coisas estão para acontecer, Murilo. A primeira decepção que eu previ você superou. Era isso que o destino queria que você ganhasse forças para superar as outras piores que virão. — Ela disse e completou com algumas tosses.
— E o que está por vir, vovó?
— Eu não sei meu neto. Mas não são coisas boas. Você está em perigo. Está correndo um sério perigo. Porém coisas boas também acontecerão. Alguém do passado vai voltar você só tem que estar disposto a aceitar. O mundo vai lhe proporcionar dificuldades e alegrias. E eu sei que você vai conseguir. — Ela sorriu e apertou a mão de Murilo com mais força. — Cuidado... — Ela passou a tossir. — Cuidado com quem você chama de amigo. E ela vai voltar.
A senhora suspirou.
Murilo sentiu o aperto em sua mão afrouxar e sentiu vontade de gritar.
— Vó? Fala comigo vó! — Ele gritou desesperado. — Pai! Socorro!
O homem entrou correndo pelo quarto. O pai também passou a gritar, mas Murilo já não ouvia mais nada. O tempo parecia estar em câmera lenta. Ele não queria acreditar. Ela tinha ido. Ele se sentiu culpado. Arrependido por não ter ficado por perto. Estava longe de casa há três anos. Em três anos ele havia visitado a avó apenas cinco vezes. Ele poderia ter vindo outras vezes. São Paulo não era tão longe.
Levantou do chão e saiu correndo.
— Filho, aonde você vai?
Ele ouviu o pai gritar, mas não parou. Continuou correndo. Ele só queria ficar longe por um tempo. Não queria encarar sua família. Eles iriam ver. Eles irão saber. Arrependimento estava escrito em sua testa. “Ela sempre se preocupou tanto comigo, e eu retribui me afastando!” Lembrou-se das ligações que ele ignorou da avó porque estava fazendo trabalhos da faculdade ou em festas com os amigos. Mordeu o lábio inferior e sentou-se na velha balança feito com um pneu velho em frente ao rio no fundo da casa.
“Como eu pude ser tão idiota? Como eu pude ficar tão longe das pessoas que eu mais amo?” Ele pesou entre lágrimas e então ligou para o namorado. O mesmo atendeu no primeiro toque.
— Mor. Ela se foi! A vovó se foi...
Ele passou a chorar mais alto no telefone.
— Sim, eu preciso de você aqui. Você é a pessoa que eu mais preciso nesse momento. Eu quero você aqui. Preciso de você aqui agora. Por favor.
Ele fechou os olhos.
— Estou esperando você...
Ele ouviu a ligação encerrar e voltou a chorar. Não se contentando soltou um grito que rasgou o céu.
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