Draco Malfoy chegou ao Fortnum & Mason às quatro e meia e encontrou sua mesa vazia.

Era uma decepção. O salão estava cheio o suficiente para que alguém tivesse cometido a imprudência de ocupá-la, e ele vinha preparado para resolver a questão. Entretanto, o funcionário o cumprimentou pelo nome, recolheu seu casaco e o conduziu até a janela sem cometer um único erro. Draco sentou-se.

Piccadilly estava impossível. Ao sair do carro, precisara esperar que uma família inteira terminasse de fotografar alguma coisa do outro lado da rua. A mãe pedira que ele se afastasse um pouco. Ele se afastara. Ela pedira mais um pouco.

Precisavam encontrar outra casa de chá.

Consultou o relógio.

Quatro e trinta e quatro.

Pediu Darjeeling para si e chá branco para Hélène, além do serviço de chá da tarde. Ela costumava alegar que não estava com fome e depois comer os sanduíches dele.

Às quatro e quarenta, considerou começar.

Às quatro e quarenta e cinco, começou.

Às quatro e cinquenta, decidiu que ela merecia encontrar apenas os sanduíches de pepino.

Às quatro e cinquenta e oito, ouviu a risada.

Hélène vinha entre as mesas conversando com o funcionário que recolhera seu casaco. Tinha as bochechas vermelhas do frio e uma mecha de cabelo presa na dobra do cachecol. Quando a soltou, a luz encontrou ali primeiro o ruivo, depois o dourado, depois uma cor que Draco não sabia nomear.

Ele perdeu alguns segundos olhando.

Então se lembrou do relógio.

— Você já ouviu a expressão chá das cinco?

Hélène consultou o próprio pulso.

— Sim. Cheguei antes.

Draco levantou-se para cumprimentá-la.

Ela o beijou nas duas faces, cheirando a limão e ar frio, e pousou a bolsa na cadeira ao lado.

— Mieux vaut tard que jamais.

— Uma expressão inventada por pessoas que se atrasam.

— E preservada por pessoas que sabem recebê-las.

Tirou as luvas, acomodou-se e examinou a mesa.

— Você pediu sem me esperar?

— Não. Pedi enquanto esperava. São coisas diferentes.

Hélène pegou um sanduíche de pepino.

Draco olhou para ele com desapontamento.

— Piccadilly está insuportável — anunciou. — Precisamos encontrar outro lugar.

— Concordo.

— A quantidade de gente…

— Você reservou para a semana que vem?

— Reservei.

— Aqui?

— Evidentemente. Não encontramos outro lugar ainda.

Hélène assentiu, satisfeita, e serviu-se de chá.

O dele já estava na temperatura errada. Chamou um funcionário e pediu outro bule.

— Tive uma manhã ótima — disse ela.

— Fico contente por um de nós.

— Lembra do homem que disse que eu teria de refazer aquela avaliação?

— Vagamente.

— Não vou ter de refazer.

— Ele estava errado?

— Evidentemente.

— Já teve oportunidade de informá-lo?

Hélène pousou a xícara.

— Encaminhei a confirmação.

— Com cópia para quantas pessoas?

— As pertinentes.

Draco sorriu.

— Você até que se mostrou uma médica bastante competente, Hélène. Sustentar tantos anos de formação só para ganhar uma discussão seria um compromisso extraordinário com a birra.

— Você fala como se não admirasse dedicação.

— Admiro discrição.

— Deve ser difícil admirar uma coisa que nunca praticou.

O novo bule chegou. Hélène agradeceu, esperou que o funcionário se afastasse e estendeu a mão para a bandeja.

— Esse é de salmão? — perguntou.

— Era o último.

— Eu vi.

Draco a observou comê-lo.

— Você pediu um serviço inteiro para você.

— Mas esse estava mais perto.

Ele abriu a boca.

— E então? — continuou ela. — Ainda obcecado pelos olhos verdes?

Draco fechou a boca, ajeitou o guardanapo e se endireitou.

— É justamente sobre isso que preciso conversar.

— Sobre os olhos?

— Preciso voltar para casa.

Hélène parou com a mão no açucareiro.

— Sua casa está sem cozinha.

— Sei em que estado está a minha casa.

— E sem metade de um banheiro.

— O empreiteiro tem uma interpretação muito particular da palavra “metade”.

— O que Harry fez?

Draco olhou para a mesa vizinha. As duas mulheres que a ocupavam estavam absorvidas numa discussão sobre uma terceira.

Baixou a voz.

— Recebeu visitas.

Hélène esperou.

— À noite.

Ela continuou esperando.

— Duas.

— Draco, se você fizer uma pausa a cada informação, vamos precisar jantar aqui.

✦ ✦ ✦

Quando chegara à casa de Harry, na noite anterior, o corredor estava escuro.

Draco tirara os sapatos e subira a escada em silêncio. Potter precisava sair cedo pela manhã, e ele vinha fazendo um esforço considerável para respeitar aquele hábito.

No penúltimo degrau, ouvira música.

Depois uma risada.

Depois um ruído que o fizera parar.

Ficara ali por alguns segundos, esperando ouvir alguma coisa que lhe permitisse interpretar os sons de outra maneira.

Não ouvira.

Terminara de subir, atravessara o corredor e entrara no próprio quarto com cuidado. Acendera a luz, colocara os sapatos no chão e já ia fechar a porta quando ouvira outra risada. Outra voz.

Olhara para o quarto de Harry. A porta se abrira.

Uma mulher nua surgira no corredor e parara ao vê-lo.

— Oi.

— Oi — respondera Draco.

Ela levara as mãos ao corpo.

Ele passara a olhar fixamente para seu rosto.

— Desculpe. Não sabia que tinha mais alguém em casa. Eu só vou…

Indicara o banheiro.

Draco se afastara, embora houvesse espaço suficiente para duas pessoas passarem entre eles.

Foi então que Harry aparecera.

Estava enrolado num edredom, com o cabelo ainda pior do que de costume e um cigarro entre os dedos. Olhara para Draco, olhara para o banheiro e parecera compreender alguma coisa.

— Merda. Draco. Desculpe.

— Boa noite, Potter.

— Esqueci que você estava…

Harry interrompera a frase.

Draco esperara, mas ele não encontrara um final.

— Aquela é a Padma.

A informação não ajudara.

— E essa é…

Harry se voltara para dentro do quarto.

Havia outra mulher na cama.

Draco olhara da cama para a porta do banheiro.

— Parvati — dissera ela.

— Parvati — repetira Harry, sorrindo.

Draco escolhera uma arandela e concentrara-se nela.

— Espero que a gente não tenha acordado você — continuara Harry.

— Acabei de chegar.

— Ótimo.

Draco voltara a olhar para ele.

— Quer dizer… ótimo que não acordamos você.

Harry recolhera uma ponta do edredom que começava a deslizar.

— Já terminamos. Não vamos fazer mais barulho.

— Potter, não é necessário me informar…

— Vai dormir. Boa noite.

Ele se aproximara e beijara Draco no rosto.

Um beijo afetuoso, úmido e inteiramente inesperado.

Draco permanecera imóvel.

Harry dera dois passos para trás.

— Diga boa noite, Parvati.

— Boa noite, Parvati — respondera Parvati.

Harry começara a rir.

A porta se fechara.

Draco ficara no corredor por mais alguns segundos. Depois entrara no quarto, fechara a porta e olhara para os sapatos no chão.

Um deles estava tombado.

Colocara-o em pé.

✦ ✦ ✦

Hélène levou o guardanapo aos olhos.

Draco esperou.

Ela tentou pousá-lo, olhou para ele e voltou a rir.

— Quando terminar…

— Desculpe.

— Você não parece arrependida.

— Estou tentando.

Ele serviu mais chá.

— Não há nada de extraordinário em um homem de vinte e sete anos receber pessoas na própria casa.

— Duas pessoas.

— O número não é relevante.

— Você mencionou duas vezes.

— Porque eram duas.

Hélène pegou um scone e o dividiu.

— E ele beijou você.

— No rosto.

— Eu ouvi.

— Estava bêbado.

— Também ouvi.

Ela espalhou geleia numa das metades.

— Você poderia demonstrar um pouco de discrição — disse Draco.

Hélène olhou para ele.

Depois olhou em volta.

— Você me contou.

— Em voz baixa.

— Quer que eu ria mais baixo?

— Gostaria que não risse.

Ela pousou a faca.

— Está bem. Ele devia ter avisado que receberia visitas. E lembrado que você estava lá.

Draco inclinou a cabeça.

— Obrigado.

— Mas eu queria muito ter visto sua expressão.

Ele pegou um sanduíche.

— Você me disse que ele era disciplinado.

— Ele é.

— Hélène.

— Chega no horário, faz o que combinamos e não discute cada orientação que recebe.

— Sua definição de disciplina é limitada.

— A sua inclui o que ele pode fazer num sábado à noite?

— Inclui não aparecer nu num corredor.

— Ele estava de edredom.

— Você está defendendo sua indicação.

— E você está falando como se eu tivesse escolhido um marido para você.

Draco pôs o sanduíche de volta no prato.

Hélène pegou a outra metade do scone.

Ele aguardou que ela acabasse de mastigar.

— Vou procurar um hotel.

— Posso indicar um.

— Pode?

— Perto da sua casa. Facilita acompanhar a reforma.

— Não preciso acompanhar diariamente.

— Então pode escolher qualquer um.

Ela abriu a bolsa à procura do telefone.

Draco bebeu um pouco de chá.

— Também não há urgência.

Hélène ergueu os olhos.

— Você acabou de dizer que precisa sair de lá.

— Preciso considerar as opções.

— Estou oferecendo uma.

— Há outras questões…

Ele parou.

Harry estava junto à entrada do salão.

Usava um casaco escuro, e o cabelo parecia ter sofrido uma tentativa recente de correção. Conversava com o funcionário à sua frente e sorria, perfeitamente apresentável.

Hélène acompanhou o olhar de Draco.

— Harry!

Ele se virou.

Seu sorriso aumentou quando reconheceu os dois.

Draco pousou a xícara.

— Você precisava chamá-lo?

— Você preferia se esconder?

Harry chegou à mesa e inclinou-se para cumprimentá-la.

— Oi, Hélène.

Depois olhou para Draco.

— Oi.

— Potter.

Harry hesitou.

— Você está contando?

Hélène baixou os olhos para o prato.

Draco ergueu uma sobrancelha.

— Contando o quê?

— Certo. Posso sentar?

— Claro — respondeu Hélène.

Harry tirou o casaco e ocupou a cadeira vazia.

— Desculpe por ontem.

— Não há necessidade de discutir isso aqui — disse Draco.

— Tudo bem.

Hélène emitiu um som pequeno.

Harry olhou para ela.

— Então estava contando.

— Eu estava relatando um problema de convivência.

— Foi o barulho?

— Entre outras coisas.

Harry apoiou os braços na mesa e esperou.

Draco reunira várias reclamações durante a manhã, mas não previra que Potter fosse ouvi-las daquela maneira.

— Poderia ter avisado que teria visitas.

— Poderia. Você tem razão.

Hélène tomou um gole de chá.

— E devia ter lembrado que você estava em casa — acrescentou Harry. — Não vai acontecer de novo.

Draco considerou a resposta.

— Ótimo.

— Vou lembrar de você, quero dizer. Não estou prometendo nunca mais receber ninguém.

Hélène se voltou para a janela.

Draco fechou os olhos brevemente.

Quando os abriu, Harry sorria.

— Você faz isso.

— Isso o quê?

— Fecha os olhos quando acha que eu falei uma coisa idiota.

— É uma medida de preservação.

Harry riu.

Draco pegou o sanduíche que abandonara.

Um funcionário se aproximou, e Harry pediu uma xícara. Depois examinou o que restava nas bandejas.

— Você já comeu todos os de salmão? — perguntou a Hélène.

— Não todos.

Draco olhou para ela.

— Não. Eu comi o primeiro. Ela pegou o resto.

Harry virou-se para ele.

— Posso pegar um desses?

— Esses são meus.

— Eu sei. Estou perguntando.

Hélène terminou o scone.

— Você não precisava resolver sua hospedagem, Draco?

Ele lançou-lhe um olhar.

Harry baixou a mão.

— Vai sair de lá?

— Minha casa não ficará em reforma para sempre.

— Ah.

Harry recostou-se, mas continuou olhando para ele.

— Achei que ainda faltava bastante.

— Falta — disse Hélène.

— Estou considerando as opções.

— Certo. — Harry olhou para o prato dele. — Se eu prometer avisar sobre as visitas, posso comer um sanduíche?

Draco empurrou o prato alguns centímetros.

— Você negocia muito mal.

— Consegui o sanduíche.

Hélène sorriu para dentro da xícara.

O funcionário voltou com a louça e perguntou se desejavam mais alguma coisa.

Harry olhou para Draco.

— Qual é o seu chá?

— Darjeeling.

— Vou experimentar.

Draco levantou a tampa do bule.

Estava quase vazio.

— Outro Darjeeling, por favor — pediu.

Hélène guardou o telefone.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.