Chuvas de Primavera

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Eu aqui com outra one-shot, huhu. Já fazia tempo que eu não escrevia uma one dos meus dois lindos ♥ Isso foi uma ideia do nada! Tava fuçando aqui as fotos, e achei essa capa. Fiquei observando ela por um bom tempo, e a única coisa que veio foi "pirralha mimada" na cabeça. E aí eu pensei: "Por que não fazer uma fic?" Abri o word e saiu isso em meia hora. Eu gostei. O romance que tem é mínimo, quis até colocar um beijo no final, mas eu me controlei. Não tem a mesma pegada de A Dominação de Lâminas, mas eu fiquei com uma imensa vontade de colocar essa frase de Milan Kundera em uma fic. (Confesso que vou fazer uma história só me baseando em como o amor e o ódio caminham, e não será pequena como foi essa.) Espero que gostem. Boa leitura!

Chuvas de Primavera

Vistas de fora, as pesadas gotas daquela chuva pareciam leves. Para aqueles que estavam debaixo da queda repentina da água, nada importava além da dor que os pingos grossos proporcionavam contra o corpo, como pequenas dores de um passado sem importância no momento. Por sorte, não eram tantos assim. Só havia duas pessoas ali, tomando aquela chuva de primavera. Um homem de capa preta e um garoto.

O homem estava em pé com as mãos no bolso, olhando friamente ao garoto sentado no chão. Não havia nada ao redor deles exceto o começo de um bosque. Os olhos do menino, castanhos com um tom avermelhado, refletiam um medo ali nunca presenciado. Era o olhar de um ser fraco, e ele sentiu pena de seu próprio destino.

A distância de ambos era um metro, o homem se pôs a diminuí-la. Andou até que estivesse poucos sentimentos de tocar com o seu sapato, o sapato encardido dele. Agachou-se ficando da altura dele, enquanto os olhos ainda eram receosos. Os olhos do homem, verde-água, tão impassíveis como vitórias-régias boiando em um rio.

- Me diga seu nome. – O homem falou rápido para que as gotas não entrassem em sua boca. O garoto estremeceu. Tentou se levantar, mas quando pegou impulso para correr, o homem lhe passara o pé. – Não tenho o dia todo.

- Talon. – A voz soou confiante e agressiva. O homem sorriu, era uma doce pronuncia a seus ouvidos.

- Sabe o destino que o aguarda. – O homem se levantara. – Quando te vi, me surpreendi como um moleque como você conseguiu fazer tudo o que fez. – Ele se virou na direção oposta. – Se tentar fugir, o castigo é a morte. – Apenas a face virou-se, e apesar da chuva agressiva que caía, o garoto nunca mais se esqueceria dos frios olhos verdes enquanto aquele homem o advertira. A chuva, aquele dia, levou consigo todas as flores...

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O garoto estava sentado na grama úmida. Algumas pétalas ainda estavam jogadas ao solo, não querendo largá-lo por nada. Talon tinha doze anos, mas com doze anos havia matado a metade de uma centena. Esse era o único motivo que via para estar preso em uma mansão. De início, ele não conseguia ver a lógica de tirar um moleque como ele das ruas só para simplesmente diminuir o número de assassinatos. Mas, com doze anos, Talon estava muito longe de ser ingênuo. Quando se tratava de Noxus, era claro que cada um ajudava do jeito que podia.

O homem se apresentara como Marcus Du Couteau, um famoso general. Ele lhe deu teto, alimento, roupas e armas. Era óbvio que Talon seria usado como uma arma, mas ele não se importava com aquele destino. Qualquer coisa era melhor que estar passando fome e frio. Também não era como se acreditasse em destino, mas se perguntava porque merecia tudo aquilo que havia ganhado, entre muitas aspas.

A vida passava diante de seus olhos como um filme antigo no qual o rolo pega fogo. Ela não passava. Ainda mais quando Talon tinha vontade de matar alguém daquela casa, mas se matasse a filha do homem que lhe tirara da escuridão, ser renegado e morrer não era uma opção.

Katarina, um belo nome para uma bela peça no tabuleiro que Marcus Du Couteau tinha. Uma criança mimada, sentindo-se no controle de sua própria vida com onze anos, um a menos que ele. Talon duvidava que ela já havia matado alguém por necessidade, e não porque era simplesmente treinada para isso. Ele sabia, aquela criança era um risco para o seu paraíso. Ela o menosprezava, se sentia no direito de jogar na cara do garoto suas conquistas, suas riquezas, querendo sentir prazer ao perceber a inveja que exalava daquela alma pobre. E Talon tentava ter controle de seus atos, tentava não cravar o punhal na barriga dela, arrancar suas tripas e enforcá-la com elas.

Ela tinha tudo. Ela não passava necessidade. Quando sentia fome, três empregadas vinham com vários pratos diferentes de comida, apenas para agradar o ego daquela criança mimada. Ela não tinha que mendigar, não tinha que ficar de cobaia esperando apenas uma brecha de alguém para simplesmente roubá-lo ou pegar sua comida. Ela não sabia como um segundo podia mudar o rumo de uma vida, não sabia que em um segundo tudo podia ser perdido, que em um segundo a vida deixava de existir e apenas a morte reinava. Quando sentia frio, dentro de seu guarda roupa havia casacos feito com peles de animais exóticos, e lá esperavam mais três. Ela não tinha ideia do que era o frio, ou o que era aquilo que eles chamavam de inverno. Para ela, era apenas uma estação. Ver neve e apreciar a lareira quentinha. Mal sabia ela que por uma lareira famílias inteiras morriam. E o que mais fazia com que Talon a odiasse era que ela não valorizava nada, porque ela nunca perdera. Ela tinha o ego de uma vencedora, isso era a verdade, mas ela não era uma.

Mas naquele dia que observava as pétalas rosa de um pessegueiro que havia no bosque da mansão, o seu ódio mudaria. A armadilha do ódio é que ele nos prende muito intimamente ao adversário¹, e Talon não consiga parar de pensar naquela criança arrogante que achava que o mundo era seu. Quando a chuva voltou a cair depois de alguns dias de pausa, Talon observava as pétalas agarradas à grama.

- Ei, cão! – Ele ouviu a voz estridente se espalhar pelo ar perto dele. Preferiu ignorar aquela presença, usando a mão mediana para pegar uma flor que ainda estava inteira. – Ei, você não me ouviu? Ou só se acha no direito de me ignorar?

- Queria ter o direito de colocar uma rolha na sua boca. – Ele a respondeu sem fitá-la, observando aquela flor aberta harmoniosa.

- Você acha que tem direito de falar assim com a filha do homem que te tirou da sarjeta? – Em um movimento rápido, a flor foi cortada ao meio por um longo sabre. Talon viu um filete de sangue escorrer por sua mão.

- Direito eu não tenho. Mas você foi você quem estabeleceu a linha de até onde eu posso ir. – Talon se virou para Katarina, olhou para seu sangue escorrendo e olhou novamente os orbes verdes. – Você me deve um pouco do seu sangue.

- Se tocar em mim, você morre. – Ela falou com os dentes acirrados. Viu um pingo grosso cair em cima do corte da mão de Talon e levar o sangue para a grama, molhando as pétalas rosa.

- Você quem não deveria ter tocado em mim. – Ao dizer isso, no segundo seguinte Katarina se encontrava no chão com o gume do sabre tocando seu pescoço. Talon queria que ela estivesse no chão morta, e que o sangue dela banhasse aquela grama. Porém, o único que sangrava era ele.

- ME SOLTA! – Ela berrou. – MEU PAI VAI TE MATAR!

- Seu pai? – Talon riu sarcástico e Katarina prendeu a respiração com aquele som maníaco. – Por que você não faz isso? Ou você só consegue matar aqueles que já estão no corredor da morte?

- EU DISSE PRA VOCÊ ME SOLTAR! – Outra risada foi ouvida por ela e começou a suar. Franziu o cenho e juntou o máximo de saliva que tinha em sua boca e cuspiu nos olhos dele. Talon saiu de cima dela, e a deixou se levantar. Porém, ao ficar de pé, ela sentiu aquela gota escorrendo em sua garganta. – Você está morto! – Ela disse tentando pegar o sabre enquanto Talon se esquivava.

- Do jeito que você fala, parece até que vai sentir a minha falta. – Ele riu enquanto desviava dos golpes lentos dela. Talon percebeu que ela queria lhe dar um chute e fez um corte superficial em sua perna. – Lenta. – Ela encostou a perna no chão e o olhou com os orbes flamejantes. – Nem parece ser a filha do melhor general de Noxus, você não tem vergonha?

- Cale-se, maldito! – Ela falou pisando fundo com os dois pés, ignorando a dor em sua perna.

- Cale-se você, pirralha mimada. – Ao dizer isso, ele apontou o sabre para longe e o jogou no bosque. Se virou para ela e viu pela primeira vez uma expressão derrotada em sua face. Era uma ótima vingança. – Não vou te matar, já consegui todo o sangue que você tirou de mim. Mas não quer dizer que eu não queira.

- Basta! – Os olhos verdes fitavam o chão. Os cabelos vermelhos curtos escondiam-lhe a face. A chuva molhava a ambos, e de baixo daquela chuva de primavera, outra batalha foi travada. – Eu vejo o seu valor, Talon. Mas isso não significa que eu vou ser fraca com você novamente! – Ela levantou sua cabeça e se virou em direção à mansão. Mas antes as pupilas verdes o olharam da mesma forma fria que Marcus lhe lançara aquele dia. – E que fique claro que eu nunca vou considerar você o meu irmão.

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E para um olhar breve no futuro, Katarina se lembrava daquelas eternas chuvas de primavera. Na época, elas pareciam que nunca iam acabar, como aquele eterno rolo sendo queimado. Um sorriso nasceu nos lábios dela, um sorriso nostálgico. Se ela soubesse no que tudo resultaria, ela teria pegado mais leve. Mas se ser rígida do jeito que sempre fora a fazia estar nos braços de Talon, ela imaginava se não houvesse criado barreiras entre eles, e assim fortalecido aquele elo de amor e ódio. A frase que Talon uma vez a falara ficava em sua cabeça, deixando nítido que eles eram fruto daquele destino que ambos não acreditavam.

- No que está pensando? – Talon disse ao pé de seu ouvido e ela se arrepiou com o hálito quente contra a sua pele.

- Que fico feliz que naqueles dias eu nunca te vi como um irmão.

Notas finais
1. A Imortalidade, Milan Kundera.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!