Chuva de novembro
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Acordei um pouco atordoado, tinha me esquecido que na noite passada meus desejos foram atendidos. Eu esperava por esse momento desde a hora que eu a conheci, na pequena padaria onde eu ia comprar pão. Sempre com sua roupas simples e sorriso no rosto, cabelo preso em rabo de cavalo. Me apaixonei por tal beleza. Como não poderia? Agora eu me pego olhando o sol partir para o outro lado do mundo, onde irá brilhar e encantar milhares. Ela diz que tem que ir embora, eu digo que pode ficar, ela vai. Eu não podia dizer que gostei, claro, eu a amava, mas ela não sabia.
Voltei pra cama onde procurei um fio de seu cabelo, ela me deixa nas nuvens. Fui direto para o computador onde procurei freneticamente o filme que ela dissera ser bom. Assisti sozinho, mas descobri que nada é tão bom quando ela não está aqui. Brigamos sem motivos aparentes, peço desculpas, mas ela se vai para sempre.
Ela vai embora, muda de cidade, eu não sabia que o "tenho que ir embora" seria tão literalmente. Passaram-se dias, que se tornaram semanas e viraram meses, não pode, não consigo, dou meus pulos e percorro a cidade, junto dinheiro para financiar o role. Pego minhas trouxas, parto em seguida, pego uma bolacha, um salgadinho, dois refri e uma passagem. Já estou pronto, coloco minha melhor roupa para revê-la, paro em uma floricultura, compro uma flor, mas nada é tão bonita quanto sua beleza interior. Saio da loja, com uma rosa na mão esquerda, e na outra um cartão com desenho, demonstrando meu amor.
Saio apressado, vou para a rodoviária, estou esperando, o "busão" irá sair ás 9. Percebo o cartão molhado pelas chuvas de novembro que acontecem à tarde, pequenos gritos de felicidade. Sento e observo a chuva estressada, decido fazer uma oração, rezo e peço por favor.
Pego o busão, sento na janela e observo as montanhas. Penso em você. Quanto mais ela me perde mais ela me ganha. Me lembro de nossa briga, não podia a ter deixado ir embora, foi foda. Me lembro de minhas palavras, dizendo que eu não te queria, me xingo mentalmente por ser um idiota, um idiota apaixonado. Só queria que ela soubesse que eu me importo, demonstrar minha paixão, entregar-lhe meu coração. Essa chuva é o reflexo do estado do meu corpo, e foi pensando nisso que me joguei pra cá, pra ver quando eu lhe encontrar, eu faça isso acabar.
Como conseguirei? Será que isso é possível? Olho pela janela e vejo o céu azul, penso novamente em você e imagino se está pensando em mim. Eu, sonhador demais, é mais do que saudade, é felicidade é amor. Eu entrei nesse busão, com o pensamento da ligação. Aquela ligação que você disse por telefone, que tava na hora de eu te provar que eu podia ser teu homem. O menino que nem pode sustentar um lar, e que nunca seria bom o suficiente para você casar.
Talvez eu seja isso mesmo, um menino destinado a ir te buscar na sua casa, com uma rosa na mão. Te ligo, digo que estou indo, você desliga sem dizer nada e vai pra cama. Só queria poder ouvi-la dizer eu te amo. Mas tudo bem, dorme bem amor.
Percebo que a chuva aumentara, a cada minuto que eu acordo, a chuva está mais intensa. Janela embaçada, tampando minha visão, fecho os olhos e praticamente sinto sua respiração. Estou vazio, oco por dentro, é como o silêncio do meu quarto sem você, culpa dessa distância que me impede de te ver, esses quilômetros que nos separa, que impede de provar que eu te mereço. O dinheiro ta pouco, mas a alegria não tem preço, você é a prova.
Penso nela novamente neste momento, treino o pedido de casamento. Depois da briga, acordei cedo, peguei toda a economia e comprei a aliança em segredo, será a sua surpresa. Cada centavo que eu juntara, gastei para estar aqui, para poder ir ao teu encontro, finalmente. Para mostrar que um menino pode te fazer sorrir.
Mas aí ouço um barulho. A aliança caiu do meu bolso. Ouço um baque, tem gente gritando, não entendo nada, vejo tudo girando. Alguém sabe? Tento chamar seu nome, mas minha boca nem se abre, te chamo por pensamento, esperando que escutasse.
Barulho é de chuva, e vejo um risco no chão. Lembrar teu nome se tornou a última opção. Vejo a linda rosa estirada no chão, ergo meu frágil braço e agarro forte a rosa no chão cheio de lama. Menino ou homem, você me deixou partir sem dizer que me ama. Sinto meu corpo mole, meus olhos se fechando. Eu não pensei que fosse pra tão longe nessa viajem. Toca o celular, é você me mandando mensagem, e eu preso nas ferragens sem poder me mexer. Sei que você me escreveu, mas fecho os olhos sem saber o que.
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