Chuva de Luzes em Okomi
2 Capítulo II
Notas iniciais
Maximoff tomou um banho, ainda que o banheiro a repugnasse. Ela estava exausta devido à viagem, fora buscar a maleta no Estado de Melkor. Todo o percurso durara cerca de quatro dias. Ela vestiu o seu uniforme de cor verde e colocou um comprido sobretudo por cima. Ela foi em direção à porta e a abriu, olhou a mala pousada sobre a cama. Logo o dono daquela encomenda chegaria, tinha de ir. Desviou o olhar e fechou a porta a trancando. Após se certificar de que não havia ninguém no corredor, escondeu a chave debaixo do sujo carpete e desceu as escadas. Ela passou pelo salão tentando abrir passagem em meio às pessoas que dançavam bêbadas e saiu na rua. Quando ia subindo a ladeira, Maximoff parou bruscamente. Havia esquecido a sua arma sobre o armário do banheiro. Ela voltou correndo.
Encontrou a arma como a deixara, mas quando ia sair do banheiro ouviu a porta do quarto abrir-se. Eram os donos da encomenda. Ela trancou a porta do banheiro silenciosamente. Se descobrissem que ela estava ali, era fim de jogo. Teria falhado na missão e provavelmente levaria uma advertência, e ela não queria dar esta satisfação ao seu general.
– É, parece que cumpriram com a missão.
– Esta é a encomenda?
– Sim, sim. Parece que é.
Maximoff ouviu o cadeado da mala ser aberto.
– O que é isso?
– Isso é são fragmentos de Wraith. Bonita não é? Foi difícil conseguir essa belezinha. — Deram um riso seco — A fiscalização de Mitzu é muito rigorosa... Mas é só questão de saber quem pagar...
– E você acha que isso é capaz de acabar eles?
– Meu amigo, essa pedrinha aqui, quando é atingida por uma grande corrente magnética explode como uma bomba enorme. — Risada — ...É uma belíssima morte. Não vai ter quem salve aqueles desgraçados!
– Então para quem levamos isso agora?
– Não sei... Isso já é com o Hsai-Chou... Conversaremos com ele amanhã e então veremos.
Maximoff deu um passo para trás e o chão rangeu levemente. Houve silêncio.
– O que foi isso?
– Sei lá, esses lugares caindo aos pedaços... Deve ser as pessoas lá de baixo.
– É, deve ser...
– Bom, então já que não temos mais nada para fazermos aqui, vamos logo. Eu odeio esse lugarzinho desprezível.
– Sim, sim, vamos. Também não gosto daqui... Pega a mala e cuidado com a pedra!
Houve passos e depois a porta do quarto sendo fechada.
Maximoff esperou uns minutos para ter a certeza de que estavam longe, então saiu cuidadosamente do banheiro e foi até a porta do quarto, mas ela estava trancada.
– Merda...
Ela pegou sua arma e foi até a janela, a abriu e desceu pela escada de incêndio. Quando terminou de descer e saiu pela rua ela foi agarrada e arrastada até um beco escuro.
– Eu disse que havia uma pessoa lá. — Riu um homem que a agarrava pelo pescoço e a pressionava contra a parede.
– Quem é você, garota?
Eram as mesmas vozes que ouviu quando estava no banheiro. A julgar pelas marcas em seus braços eles já haviam sido presos algumas vezes. Eles eram contrabandistas.
– Ninguém que vocês mereçam conhecer... — Ela disse sorrindo.
O que aparentava ser mais velho e que a segurava gargalhou.
– Não tem medo de morrer?
Maximoff soltou uma risada sarcástica.
– Do que está rindo? — Ele perguntou.
Maximoff olhou para trás do homem e viu a maleta encostada à parede. — Vocês dois são patéticos.
Ela tentou sacar a arma, mas eles a interceptaram e jogaram a arma longe.
– Nada disso, espertinha. — Riu o mais velho — Agora você é nossa.
Maximoff se encolerizou. Ela o chutou e depois lhe deu um soco em cheio no rosto fazendo ele cair no chão úmido do beco. Correu em direção ao outro e lhe socou o estômago e depois o chutou o arremessando contra a parede. O mais velho tentou avançar sobre ela, mas Maximoff foi mais rápida e desviou o acertando um murro em suas costas. Ele urrou de dor. Ele tentou se levantar com esforço mas ela pisou e passou por cima dele. Ela pegou a maleta, foi até a arma e disparou contra os dois que estavam caídos no chão e saiu do beco.
Na rua, as pessoas ainda comemoravam o fim de semana.
⇠ ❖ ⇢
Eram sete da tarde quando a campainha da porta tocou. A senhora foi até a porta limpando as mãos no avental.
– Quem é? — Ela perguntou por sobre a porta.
– Sou eu, mãe, Hizue.
A senhora soltou um grito de felicidade. Digitou uns números em uma pequena tela ao lado da porta e a abriu.
– Minha filha! — Ela disse abraçando Maximoff. — Pensei que viria apenas semana que vem.
A senhora fechou a porta.
– É, mas aconteceu umas coisinhas aí... — Ela disse pousando a mala no chão — Então pensei em vir te visitar. Como a senhora está?
– Vou bem, minha filha. Nada muda por aqui, você sabe como é. Tenho ajudado a Dona Jia-Hsao já que a filha dela teve neném esse mês. Acho que já te contei, né?
– Sim, sim, já me contou. — Hizue pegou uma maçã da fruteira e a mordeu — E o bebê está bem?
– Muito bem. Enorme minha filha... A cara da mãe. Mas você conhece a filha da Jia-Hsao, não pára quieta. — A Mãe de Hizue e encarou. — Por que está comendo maçã? Tem o resto de almoço de hoje.
– Não, não... Tô sem fome.
Hizue se jogou sobre o sofá.
– Tem certeza, você viajou um dia inteiro para chegar aqui. Hizue ficou encarando a janela. — Filha, está tudo bem? Você não me costuma me visitar assim, mais cedo.
Maximoff levantou o olhar para a mãe. Era uma mulher simples, trazia sempre vestido um avental e, que apesar de se encontrar por volta dos cinquenta anos, possuía apenas algumas rugas. "Ela não mudara nada...", Pensou Maximoff.
– Nada, deixa pra lá... Não quero te preocupar.
– Minha filha, se você estiver com algum problema pode me falar...
– Eu sei, mãe. — Hizue sorriu — Mas não é nada demais...
⇠ ❖ ⇢
Era inverno em Okomi, as árvores nuas debatiam os seus galhos uns contra os outros como ferozes animais enquanto o vento frio as contornava e gelava a espinha de quem ousava andar pela rua em plena madrugada. Hizue Maximoff, deitada sobre o sofá da sala de sua mãe, encarava a janela à sua frente: Nada para além do céu obscuro preenchido pelas sutis estrelas. O barulho da chuva sobre o teto da casa confortava-a, mas não apagava as suas preocupações.
Hizue lembrou-se do acontecido da noite passada. Provavelmente, a essa altura, o General Hsai-Chou já tinha conhecimento de que ela sabia algo sobre o seu plano. Porém, que plano era esse? Uma pedra capaz de matar as pessoas quase que instantaneamente. Era claro para ela que o General estava agindo de má índole. Que o que quer que ele pretendia com aquele fragmento mortal era para o sofrimento de alguma pessoa.
A chuva caia incessantemente.
Hizue tentou se concentrar. Tentou se lembrar de todas as ações do General nas últimas semanas: Novo carregamento de armas, criação de uma tropa especial para o Centro do Estado, Recrutamento de mais duas pessoas para a sua companhia de soldados, um desfile oficial na ala oeste, um acordo de paz com a comunidade de Filsyn. Filsyn, uma das áreas mais pobres de Okomi. Com milhares de habitantes os serviços de saúde são inexistentes, bem como água ca'nalizada. As pessoas vivem lá como se pertencessem a outra época. No entanto, as moradores de lá (os Filsynianos) são conhecidos pelo bom humor e simpatia. É nesta comunidade que anualmente é realizada o festival Harah, em que os moradores lançam lanternas de papel ao céu para agradecer aos deuses. Mas não é pela empatia de seus habitantes ou por sua cultura que Filsyn é conhecida, mas sim por possuir uma das maiores concentração de Frieth, um minério extremamente valioso, utilizado na indústria bélica. Com a quantidade de Frieth que lá havia, Okomi poderia duplicar o seu exército e ainda exportar o excedente. Era uma verdadeira mina de ouro. Contudo, para que fosse possível extrair este minério, era necessário destruir por completo Filsyn. Acabar com as árvores que lá haviam, com as casas, mas principalmente, com as vidas de quem morava ali.
A comunidade de Filsyn foi erguida do nada. Os seus moradores eram sem tetos, pessoas extremamente pobres sem ter para onde ir, que fizeram daqueles amontoados de ferro e madeira algo semelhante a um lar. Acabar com Filsyn seria acabar com a última oportunidade de sobrevivência deles.
Era muito reconfortante pensar que finalmente Okomi tivesse olhado Filsyn com compaixão. Mas todos eram muito ganansiosos para tal. Ver ainda o General Hsai-Chou envolvido em tal acordo de paz, deixava Hizue mais consternada. Ele não tinha um coração tão grande.
Hizue olhou para a maleta sobre a poltrona.
Uma rajada de vento passou e sacudiu a janela.
Seria um genocídio.
Tudo ficou claro para Hizue. O General Hsai-Chou planejava destruir Filsyn. Com aqueles fragmentos de Wraith ele explodiria todo aquele lugar, se veria livre daquelas pessoas. Não seria difícil tratar tudo como uma catástrofe natural — por mais ridícula que fosse tal hipótese -, uma vez que com tamanho dinheiro envolvido, nenhuma investigação seria iniciada. E com tudo isso, o General apenas tinha a ganhar.
Hizue sentiu um nó na garganta. Ele estava aumentando o contingente apenas para a invasão de Filsyn, e ela estava participando de toda aquela catástrofe. Entregando aquela maleta ao Hsai-Chou era como se ela aperta-se o botão de explosão sobe aquelas pessoas. Simplesmente não conseguiria fingir que nada sabia e ver uma comunidade inteira pelos ares.
Ela deveria agir. Continuaria a trabalhar para ele para não levantar suspeitas, mas tentaria achar uma forma de detê-lo.
Não importava o que acontecesse, ela não poderia deixar aquela pedra cair nas mãos do General.
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