Chuva cinza
5 Capítulo 4 - Borboletas
Notas iniciais
–Não corra Spike! — eu disse após quase cair na calçada, o pacote de bolachas já estava na metade, não tão pouco pra quem estava sem fome.
–Oi Maria Júlia! — exclama André que aparece do nada ao meu lado.
–M.J. ? — pergunto.
–Prefiro Maria Júlia. — ele diz sorrindo. — Está com frio? — pergunta olhando para a toca e o casaco.
–Sim, sou um pouco friorenta... — digo, enquanto observo que ele usava somente calças jeans e camiseta. — Para Spike! — exclamo repreendendo Spike que não parava de correr.
–Seu cachorro é muito lindo! Né garoto?! — André diz enquanto acaricia Spike, que late satisfeito.
–Ah, valeu. — falei observando.
–Não tão lindo quanto você! — exclama sorrindo.
–Ah, tá! — falo irônica.
–É sério! — ele se defende. — Afinal, está muito bonita hoje Maria Júlia!
–Oh, neste caso, eu agradeço. — disse irônica novamente.
–Ei, onde estão indo? — André pergunta.
–Pra lugar nenhum... Estamos apenas dando uma voltinha. — digo olhando pra frente.
–Por quê não paramos naquela pracinha que eu vi ontem, em frente à sua escola? — ele pergunta.
–Porquê não. — respondo como se fosse obvio.
–Nossa! Tá bom, mais nem um pouquinho? Né Spike! — ele diz implorando de um jeito bizarro.
–Tudo bem então... — falo desanimada.
Ao chegarmos lá, sentamos no banco mais seco que havia sobrado, estava cheio hoje, acho que por conta do "sol". Soltei Spike. e fiquei sentada com André, que não conseguia ficar quieto:
–Que tal um questionário? — exclama animado.
–Sem chance. — digo olhando pra frente.
–Tudo bem, algumas perguntas? — ele insiste.
–Algumas... — eu falo voltando o olhar pra ele.
–Tem namorado? — ele começa.
–Ei! Não se pode começar com essa pergunta, principalmente se for perguntar tão na cara assim! — eu o repreendo.
–Calma, calma. Tá bom, quantos anos? — ele continua.
–Dezessete.
–Dezenove.
–Mais eu não perguntei nada pra você! — exclamo tirando sarro.
–Isso se chama, aproveitar a oportunidade. — ele diz sorrindo, enquanto eu viro os olhos e volto a olhar pra frente.
–Continuando. — ele falo irônico. — Você mora com seus pais ou...
–De certa forma... Na verdade, eles só me sustentam, não param em casa. — eu falo ainda olhando pra frente.
–Mesmo assim, não reclame, meus pais também eram assim, eu tinha muita raiva deles por isso. — voltei a olhar pra ele. — Até que um dia, sofreram um acidente de carro, eles morreram na hora. — ele continua um pouco triste. — Nesse momento, tudo o que eu mais queria, era que eles estivessem numa reunião, do outro lado do país, a salvo pelo menos, e... Vivos. — ele fala olhando pro céu.
–Nossa, eu sinto muito, muito mesmo. — tentei consola-lo.
–Tudo bem. — disse com um pequeno sorriso. — Outra pergunta. — ele se vira novamente para mim. — Tem irmãos?
–Ah... — dessa vez eu que quase choro.
–O quê? — ele pergunta.
–Já tive, um irmão mais novo, Daniel, ele era lindo... — disse sorrindo, olhando para o chão, com os olhos cheios de lágrimas.
–Ah nossa, me desculpe. — falou colocando as mãos em minhas costas.
–Não, não foi culpa sua... — eu disse enxugando as lágrimas, e voltando a olhar pra ele.
Então, nós dois nos calamos, ficamos observando Spike, enquanto eu pensava em meu maninho, que hoje estaria com sete anos; acho que André também pensava nos pais dele. Ficamos quietos por um tempo, até que André começa de novo:
–Olhe! — exclama. — Olhe ali, quantas borboletas! — ele diz apontando para um grupo de borboletas que voavam um pouco atrás de nós.
–Aham. — respondo olhando rapidamente, e logo desviando o olhar.
–O quê? Não gosta de borboletas? — ele pergunta sem acreditar.
–É que meu irmão morreu por causa de uma borboleta. — digo tentando parecer simpática.
–Tudo bem, ficarei quieto agora... — ele diz meio sem graça.
–É... — disse, sendo a única coisa que conseguia pronunciar.
Pouco depois, começou a chover, Spike veio rapidamente em nossa direção, então resolvemos ir em bora.
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