Chuva cinza
20 Capítulo 19 - Família
Notas iniciais
Eu já havia me trocado.
E pela primeira vez em minha vida; pelo menos à partir do momento em que eu comecei a escolher minhas próprias roupas; eu coloquei um vestido.
Um azul claro; bem simples.
Não achei que ficou muito legal em mim. Afinal, não combinava nem um pouco comigo. Mas, quem sabe né? Vale a pena tentar algo diferente, sempre!
As únicas coisas que não consegui mudar, foram meus sapatos. Sério! Não vivo sem meu All-Star surrado.
(...)
Depois de ter me olhado mais uma centena de vezes no espelho. Resolvo finalmente descer.
O ruim foi perceber que tudo estava como antes. Sozinho, escuro; e sem ninguém. Papai e mamãe saíram pela manhã bem cedo; se despediram de mim, que quase não me lembro; pois dormia profundamente. Tia Marta aproveitou essa deixa, e também resolveu ir para casa mais cedo; parece que tinha arrumado problemas com a vizinha, e não queria deixar a casa sozinha por muito tempo.
Eu desci as escadas pulando, e bem rapidamente.
Logo fui correndo abrir a geladeira; e peguei uma maçã no repartimento de frutas. Dei uma mordida; e a casca da fruta já ia começar a ficar presa no meus dentes. O que era uma coisa muito ruim, pois eu havia acabado de escová-los; duas vezes.
E enquanto segurava a maçã com a boca; rapidamente apanhei uma jarra de leite da geladeira; a qual deixei aberta, e depois fechei de costas usando os pés; e também um copo; assim o enchendo completamente de leite gelado. Logo segurei a fruta novamente com as mãos, e bebi quase o conteúdo inteiro de dentro do copo.
(...)
Devorei os dois num segundo; e me apressei lá para o banheiro do meu quarto novamente; para escovar os dentes pelo menos mais duas vezes; e também passar mais um pouquinho de perfume; afinal, nunca é demais né... Só talvez...
E pulando de dois em dois degraus; eu desci as escadas novamente. Eu abri a porta num estrondo; acordando assim, Spike.
E eu não consegui me controlar:
–Oi garoto! Bom dia! — disse colocando a mão por entre as barras do portão de sua casinha.
E ele latia satisfeito.
Mas eu tinha que sair; logo. Então tive que me despedir dele; beijando levemente seu focinho gelado e molhado:
–Tchau querido! Depois a mamãe tá de volta! — disse já me afastando; e saindo rapidamente até a casa de André, que ficava no começo da rua.
(...)
E chegando por perto da casa dele; podendo assim enxergar sua varanda; percebo que o mesmo não estava lá. Fico desconfiada; então começo a andar um pouco mais rápido. E logo paro, ao notar um movimento estranho.
A maçaneta de sua porta estava de mexendo. E logo vejo; era André quem abria a porta. Para uma. Uma garota.
Uma garota muito bonita por sinal; bem sofisticada, com uma bolça enorme, e jaqueta de couro com spikes; cabelos bem compridos. Ela parecia ser mais velha.
Enquanto a mesma saia de lá; olhando para ele, sem parar de rir; e André fazia o mesmo. Meu Deus, como aquilo me deixava com raiva.
Porém resolvi deixar passar; e continuei ali até que ele me notasse. Até que finalmente olha para mim; de relance, e depois, percebendo que era eu; ele foca o olhar; um pouco assustado; tentando fazer com que a amiguinha não percebesse.
Mas antes que eu pudesse pensar que ele estava me escondendo alguma coisa; ele vem até mim; após anunciar à garota, a minha presença.
E quando já está perto suficiente; ele apanha a minha mão; e diz com a garota em nossa frente:
–Está aqui é Maria Júlia! De quem eu te falei! — diz todo feliz. Maria Júlia? Vou matar você!
É quando eu finalmente noto, a incrível semelhança dos dois. E a garota. abrindo em sorriso; diz:
–Então você que é a famosa Maria Júlia?! — ela estendeu a mão; e quanto eu iria apertar a mão dela; a mesma me puxou para um abraço.
–Não sei se famosa. — digo em meio ao abraço. E depois que ela me solta; continuo. — E é M.J. — lanço um breve olhar de repreensão para André.
–Ah, claro! — ela sorri; e depois se vira para André. — Andrezinho fala muito de você! — ela dá ênfase no "muito"; e André sorri forçadamente, acho que por conta dela ter o chamado de... "Andrezinho"? Que intimidade toda é essa?
–Bom. — começa o garoto. — Está aqui é minha irmã. Clarisse. — ele diz olhando para mim que a encarava.
Agora estou me sentindo uma completa idiota! Eu aqui cheia de ciúmes da irmã dele! Como sou boba mesmo... Mas ele devia ter me contado pelo menos que tinha uma irmã né? Isso é bem importante se ele não percebeu.
–É um prazer conhece-lá! — sorrio.
–O prazer é todo meu! — ela contribui o sorriso.
E antes que se iniciasse uma pausa; André pronuncia; como sempre:
–É... Vamos? — ele engancha em minha cintura.
–Você irá conosco Clarisse? — pergunto, sendo educada.
–Não, obrigada... Andrezinho me proibiu, então... — diz tentado sorrir ou fazer alguma piada; mas acho que foi realmente isso que aconteceu, pelo olhar dela, é o que parece.
–Ora! Que isso André! — digo. — Seria muito bom ter sua companhia. — digo sorrindo novamente.
–Sendo assim... — ela abre um sorriso também.
–Vamos! — acabo me soltando de André; e saio na frente conversando com Clarisse.
Ela parecia ser uma pessoa legal; pelo menos ela gostou de mim, o que era uma novidade com certeza... Será que era por conta do vestido? Só sei que o "Andrezinho" não deve ter gostado nada da ideia...
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