“Não” penso comigo mesmo, és impossível que tenhas sido consumida por esta escuridão, pois, mesmo que tua alma fosse fraca, o que sei que não és, meu amor e sentimento por ti lhe serviriam como escudo, mesmo na maior das distâncias, mesmo nas profundezas do próprio inferno, jogo-me de encontro ao fundo do abismo sem fim, rumo ao meu anjo, que caiu por mim na escuridão, sigo a linha guia que queima em meu peito e se lanço ao destino incerto, por incrível que pareça, ante meus pés que nada tocavam, sinto cascalho, tão frio quanto gelo, mas ao mesmo tempo, quente tal qual lava, a sensação indescritível de dor percorre meu corpo, toda força de vida de meus membros se esvai, caio por terra em desacordo com minha vontade...

...Destroçando minha própria alma para reunir força de vontade e sobrepujar tal sentimento infernal, para dobrar a vontade de meu corpo e faze-lo seguir o que meu coração desejava, assim se levanto, pé ante pé sigo em frente, abro meus olhos até agora fechados, e procuro em volta, até que lhe avisto, teu corpo inerte jaz caído entre penas negras há uma distância considerável de onde estou, emanando uma fraca luz, mais um pedaço de mim mesmo se perde para dobrar esse corpo mortal e fraco a seguir em frente mediante tanto tormento, se houvesse palavra pra descrever tal sensação, ela seria proibida aos bons ouvidos, sigo cada vez mais pra perto, cada vez mais impossível pra dar o seguinte passo, mas na certeza de encerrar teu tormento...

...Tal qual chama de vela acesa a vacilar perante o vento, minha alma, teus fragmentos restantes, vacilam ante minha vontade, quase sumindo aos pedaços, um fragmento por vez, um passo por vez, meu corpo mortal se lança pra frente mecanicamente, meu coração consumindo minha própria alma como alimento para tal feito hercúleo, a dor lancinante e indescritível confinada num ponto dentro da minha mente, como se o corpo que ali estivesse sofrendo não fosse o meu, mas sim o de outrem que me carregava em teu interior, mesmo perdendo quem eu era, mesmo perdendo meu próprio ser, minha própria alma, este é um preço que pago de bom grado e com felicidade se for por ti, se for para lhe livrar deste tormento, meu anjo, adornada com suas penas negras onde antes não havia nada, com um brilho etéreo que jamais notei em seu semblante, sigo em frente, até que sua luz começa a se esvair, teu brilho vacila, as penas antes negras começam a se tornar brancas, e um vento gélido como o toque da própria morte se faz sentir...

...Alimentando minha chama de vida com o que resta de minha alma e oferecendo ao fogo também todo sentimento, lembrança, tudo de mim que dobrasse a vontade do meu corpo em si de ceder à dor, o desespero de estar próximo a ti e poder te perder renova minhas forças de forma sombria, mas extremamente bem vinda, nem que eu tenha que aceitar e usar as trevas ao meu redor como força, para chegar a ti, eu farei de tudo, sinto minha alma se corromper cada vez mais, não se esvair, a escuridão e seu vazio me preenchendo e a dor antes absurda, desaparecendo como se meu corpo se recusasse a sentir, agora se movendo livremente corro para encurtar nossa distância, chego aonde finalmente posso segurar a ti em meus braços, as penas agora totalmente alvas, e sua luz já apagada, te pego em meus braços...

... Gotas caem por tua pele alva, descendo por tua face, teus belos olhos negros escondidos por detrás de suas pálpebras fechadas, percebo que as gotas são lágrimas minhas que escapam de meus olhos diante da tristeza que já não sinto, a dor que eu deveria sentir não chega, minha amada, sem vida em meus braços, e por dentro só me resta o vazio, todo tormento que deveria sobrevir agora, percebo que já foi me passado antes, ou já não resta mais nada de minha alma mortal para que eu sinta algo por essa bela criatura caída em meus braços...

...Sinto um incomodo em minhas costas, estruturas que antes eu não tinha, percebo que saem de mim, são partes de mim, asas negras como o breu, demoníacas em forma, destroçadas e com suas membranas rasgadas, mas sei por instinto que elas cumpririam seu objetivo sem esforço, sei que foi a elas que eu clamei e pedi quando aceitei a escuridão deste lugar amaldiçoado, a elas que agora vou recorrer para retirar minha amada deste local corrompido, ergo meus olhos em direção a um mínimo ponto de luz que se encontra aonde é a saída deste mundo, abro minhas recém descobertas e adquiridas asas, e com o bater delas, me ergo do chão com minha amada, rumando para a saída numa velocidade surreal...

...Passo em segundos, por um lugar que levei um tempo incontável para chegar ao fundo, carregando comigo um tesouro de mais valia que todo ouro do mundo, em questão de segundos me vejo próximo a luz que antes acreditava ser ela, a luz que na verdade representa nossa saída, mesmo que a vida dela já tenha se esvaído, ou sua alma se perdido, eu não vou deixá-la nesse local, agora reparo com meus olhos que também mudaram, é imundo tal qual um pântano fétido e cheio de corpos pútridos em decomposição, atravesso sem dificuldades a distância final, e me lanço à luz...

...Saindo do local este que visitei duas vezes, uma por minha vontade própria, deito meu anjo na relva iluminada pelo sol, sol este que me incomoda demais agora, que queima este corpo mudado e suas asas, com o que sobra de minha alma humana, meus últimos sentimentos, faço os queimar para dar uma chama de vida a alguém que merece, entrego a ela minha força vital, meu último sopro de vida como humano...

...Meu coração já não bate mais, meus sentimentos já não importam, mal reconheço o anjo caído em minha frente, nem entendo o porquê de ter saído da escuridão que me acolheu tão bem e me deu forças para trazer este ser desconhecido para fora, para um local que me machuca e me queima, regresso as trevas pé ante pé sem nem sequer dar um último olhar ao ser de penas alvas, tão alvas que machucam só de lembrar...

...Regressando para minha escuridão que me chama com seu sussurro convidativo, ouço um farfalhar atrás de mim, me viro por instinto e se deparo com o ser que antes estava caído e inerte, em uma posição de puro medo e desgosto, ela se ajeita, olha mais calmamente pra mim e num sussurro cita algo familiar “ ..... é você?”, mas ao mesmo tempo irreconhecível e incompreensível, sei que havia um nome nesta pergunta, mas não consegui entender nada, respondo simplesmente “Não!”, ela se encolhe novamente ao ouvir o som gutural que saiu de minha boca, ao que parece, ela não me compreende, dou-lhe as costas e se lanço para meu lar, mas sem entender, uma lágrima corre pelos meus olhos e cai no chão antes de eu entrar, penso comigo mesmo “Um Demônio não chora, só pode ser água dessas arvores idiotas!”, adentro as trevas sem hesitar e regresso ao frio aconchegante e ausência de luz.


Notas finais
Ás vezes sacrificamos tudo pelos que amamos, e no fim não percebemos que estamos a destruir nós mesmos, se tornamos demônios pelo bem dos outros, enquanto deveríamos preservar quem somos de verdade e realizar nossos desejos e sonhos sem se sacrificar completamente. O Fim
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