Chuva Fina
2 Capítulo 2
por: Castro Alves
Adeus! P'ra sempre adeus! A voz dos ventosChama por mim batendo contra as fragas.Eu vou partir... Em breve o oceanoVai lançar entre nós milhões de vagas...Recomeço de novo o meu caminhoDo lar deserto vou seguindo o trilho...Já que nada me resta sobre a terraDar-lhe-ei meu cadáver... Sou bom filho!...Eu vim cantando a mocidade e os sonhos,Eu vim sonhando a felicidade e a glória!Ai! Primavera que fugiu p'ra sempre,Amor – escárnio!... Lutulenta história!Bem vês! Eu volto. Como vou tão rico...Que risos n’alma! Que lauréis na frente...Tenho por c'roa a palidez da morte,Fez-se um cadáver – o poeta ardente!Adeus! P'ra sempre adeus! Quando alta noite,Encostado à amurada do navio...As vagas tristes... Que nos viram juntosPerguntarem por ti num beijo frio,Eu lhes hei de contar a minha história.Talvez me entenda este sofrer do infernoO oceano! O oceano imenso e triste,O gigante da dor! O Jó eterno!Fazia um ano. Era o diaDo fatal aniversário...Ergui-me da cova escura,Sacudi o meu sudário...Em meio aos risos e à festaE às gargalhadas da orquesta,Que eu tinha esquecido, enfim,Tomei lugar!... SolitárioQuis rever o meu CalváríoDeserto, tredo, sem fim!...Sabes o que é sepultar-seUm ano inteiro na dor...Esquecido, abandonado,Sem crença, ambição e amor...Ver cair dia... Após dia,Sem um riso d'alegria...Sem nada... Nada... Jesus!Ver cair noite após noite,Sem ninguém que nos acoite...Ninguém, que nos tome a Cruz?!Ai! Não sabes! Nunca o saibas!...Pois bem; imagina-o só...E então talvez compreendasA lenda escura de Jó.
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