Chuva
1 Capítulo 1: Chuva
Era um dos raros dias em que o céu claro de Ionia estava encoberto por nuvens acinzentadas. As gotas frias da chuva batiam contra a armadura de Zed que caminhava calmamente pelo jardim em direção ao Templo da Ordem das Sombras. Cansado após concluir mais uma missão, ele passou direto pelos seus soldados no salão principal e subiu as escadas para o piso onde ficavam os cômodos, porém, parou em frente a porta de seu quarto quando tocou na maçaneta.
— Não me lembro de ter deixado a porta trancada.
Apesar de estranhar a situação, Zed deu de ombros projetando a sua sombra viva dentro do quarto, rapidamente, trocando o seu corpo de lugar com a sombra enquanto retirava a máscara de ferro, a qual deixou cair no chão ao se deparar com Syndra de costas retirando a saia de couro.
— O que você está fazendo aqui?!
— Ah, você já voltou. – ela se virou para olhá-lo por um instante. – Começou a chover quando cheguei no portão. – explicou empilhando a roupa molhada em volta dos seus pés, ficando somente no corpo a lingerie roxa. – Vou pegar uma toalha emprestada, – avisou estalando os dedos, fazendo o tecido aparecer em suas mãos para que pudesse esfregar no cabelo úmido. – espero que não se incomode.
Ele sentiu um nó se formar em sua garganta ao ver as gotas d’água escorrerem contra a pele eriçada do corpo esbelto.
— Não é com a toalha que eu estou incomodado. – resmungou sério, cruzando os braços. – Se vai trocar de roupa porque não usa o banheiro?
— Porque está ocupado. E você já me viu completamente nua uma vez. Qual o problema agora?
— Essa situação foi totalmente diferente. E você não deveria estar com vergonha?
— O que nesse corpo perfeito eu deveria sentir vergonha? – se gabou.
— Argh... – desviou os olhos para a porta. – Você seduz a minha sanidade, garota. Eu juro que ainda vou te fazer pagar por isso.
Ela riu baixo, sem levar a sério a ameaça.
— Sinta-se livre para fazer o que bem quiser.
O silencio se formou entre eles no momento em que os calmos olhos âmbar foram tomados pela aversão ao encontrar os pretensiosos olhos prateados. Havia algo excitante na maneira como Syndra desafiava Zed, só que aquela expressão presunçosa sempre no rosto dela irritava ele demais!
— Ei? Zed? – chamou Syndra por um tempo, sem ter uma resposta. – Está me ouvindo?
— Não.
Syndra separou os lábios, prestes a proferir algum insulto, mas Zed rapidamente se aproximou, lhe segurou o rosto espantado e a beijou. Depois, ele jogou todo o peso de seu corpo contra a jovem, a fazendo cair de costas no colchão antes de se pôr acima dela com os braços esticados de cada lado dos ombros recuados. Por um breve instante, ele a encarou, frágil à sua sombra. Os seus olhos pareciam devorá-la! Um desejo que nunca era saciado.
Zed beijou Syndra de novo, e de novo, saboreando a textura dos lábios macios e frios, deixando o gosto da boca intensificar a sua sede de prazer. Lentamente, ele moveu a mão áspera pela pele lisa e fina como a seda. Seus dedos deslizaram por entre as costelas saltadas, subindo, até conseguir afundar as suas digitais no tecido molhado sobre os seios enrijecidos. Finalmente estremecendo aquele corpo com o seu toque. Sentiu a respiração irregular de Syndra chocar-se em uma massa de ar quente contra o seu rosto no momento em que desceu a boca para o pescoço dela, mapeando a linha curva com a língua. E em meio a um suspiro, ele a ouviu chamar o seu nome.
Algo no tom da voz de Syndra fez com que em algum canto da mente de Zed o alertasse para desacelerar, que tinha ido além de todos os limites da imprudência. Então, imediatamente ele se afastou indo para trás através de uma de suas sombras.
— Droga...! – ele rangeu os dentes, resistindo a cada instinto que o levava de volta para ela. – O que eu estou fazendo...
A consternação era clara em seu rosto. Todo o autocontrole que Zed exercia por anos havia sido quebrado por Syndra como se nunca tivesse existido. Ele não era daquele jeito e estava longe de ser assim: dominado por suas emoções. Tenso, o seu coração contraiu e o sangue que corria pelas veias entrou em ebulição. De repente, houve um brilho sombrio dentro do tom âmbar de sua íris, mas que se desfez ao olhar para baixo, para a jovem sentada na beirada da cama com o corpo manchado por seus dedos, como se ela tivesse sido marcada como dele.
— Sinto muito pelo que acabou de acontecer. – ele disse sério, diminuindo a distância entre eles. — Eu perdi a cabeça. Não deveria ter sido assim. – estendeu a mão afastando os longos fios do cabelo branco que estavam encobrindo o pescoço avermelhado. — Eu não consigo ser gentil.
— Gentileza é o que eu não esperava mesmo de você. – confessou contendo o riso. – Mas, para ser sincera, estou realmente impressionada que você seja um homem normal. – a sua voz saiu com um leve tom de escárnio. – Por acaso, eu faço o seu coração de pedra acelerar?
— Tsc! Até parece, idiota. – virou o rosto cruzando os braços. – Foi você que começou essa merda de brincadeira.
Ele nunca iria admitir que o seu coração disparava quando ela estava por perto, afinal, por muito tempo, manteve um buraco em seu peito e sentimentos passaram a ser irrelevantes. Precisava constantemente procurar por algum motivo razoável para se convencer de que não queria ela, mesmo sabendo que queria. Aquilo estava começando a se tornar um problema. O jeito como ele se envolvia com ela era um problema.
— O que foi? – ela voltou a falar. – Está preocupado com a sua reputação?
— Estou preocupado com a sua reputação. Você parece ter um gosto horrível para homens.
— Pare de me olhar com essa cara. – pediu. – Eu estou bem. Você não é tão desprezível assim.
— Isso é um elogio?
— Talvez... – sorriu desviando o olhar para a janela, observando as gotas da chuva baterem forte contra o vidro.
Toda vez que ela olhava para ele, a sua mente era preenchida por uma densa neblina, a lembrando amargamente o quanto tinha jurado menosprezar os ionianos, pelo menos, foi isso o que fez até ele aparecer e bagunçar a sua vida. Havia algo diferente no modo como a presença dele paralisava toda a sua angustia... em como trazia todas as suas emoções de dentro da marca negra em sua alma. E embora odiasse sentir o peso do seu coração, de alguma forma, ela sabia que ele não era o vilão da sua história.
— Eu não tenho o porquê te amaldiçoar pelo que fez. – continuou. – Mas, se quer tanto se desculpar, então, cozinhe um pouco de peixe para mim e eu te perdoo.
— Você quer comer peixe? É só isso? – estranhou.
— Sim. É só isso. – afirmou. – O jeito que você faz peixe fica gostoso.
— Qualquer coisa que eu cozinhe fica gostoso, você só sabe estalar os dedos para comer porcaria.
Ela revirou os olhos desinteressada no sermão, e assim que voltou a sua atenção para frente, o seu rosto rapidamente enrubesceu ao ver o homem retirando a camisa encharcada d’água, revelando os torneados músculos com algumas cicatrizes espelhadas por cima das marcas da magia das sombras tatuadas sobre os ombros, o peito e o abdômen.
— Ei, você está bem? – a voz rouca saiu com um tom de preocupação. – O seu rosto está vermelho. Está com febre? – os seus dedos alcançaram a pele quente do delicado rosto. – Syndra?
— Ah... – gaguejou procurando as palavras, boquiaberta. – Não! Não! – repetiu afastando o rosto, tentando disfarçar o repentino constrangimento. – Eu estou bem. Foi só um mal-estar.
— Tsc! Isso é porque você está sem nenhuma roupa. Anda, se veste. – pegou o seu casaco preto de cima da poltrona e o jogou para a jovem. – Vamos. Eu vou te mostrar como é que se faz comida de verdade.
— Tem horas que realmente não vale a pena conversar com você.
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