Senti meu coração parar no instante em que os lábios frios do garoto chocaram-se quase desesperadamente contra os meus, que ainda se encontravam entreabertos.
Não consegui mover um músculo no instante em que a mão em meu pescoço escorregou lentamente para minha nuca, quase como uma forma de carícia. E, literalmente, não consegui reagir no instante em que o braço livre do suposto serial killer enlaçou minha cintura com um certo sentimento de posse.
Minha mente estava em branco. Tudo estava em branco. O que estava acontecendo?
Merda. Merda. Merda. Porra.
Arfei e fechei meus olhos no instante em que pude sentir sua língua pedir passagem por entre meus lábios semicerrados. Um sentimento diferente surgiu em meu peito, o desespero dando lugar a uma queimação estranha, como se cada milímetro do meu corpo desejasse isso, como se cada mínimo pedaço do meu ser respondesse instantaneamente ao toque daquela pessoa desconhecida.
Eu estava incrivelmente ferrada. E não estava nem reclamando disso.

Automaticamente enrosquei minhas mãos na barra da camiseta que até então não havia reparado a cor. Branca? Cinza? Que seja. Senti nossos corpos colarem-se no instante em que puxei-o de encontro a mim, aprofundando mais ainda a dança confusa e caótica que nossas línguas haviam iniciado.
Pude perceber o puxão em minha coxa, sendo guiada a prender minhas pernas na cintura do rapaz, que agora me segurava como se toda sua vida dependesse disso. E talvez dependesse. Espera, mas quem é esse "rapaz" mesmo?
Com uma rapidez sobrehumana pude ouvir o barulho oco de minhas costas chocando-se contra o tronco de uma árvore qualquer, fazendo com que descolasse minha boca, já inchada, dos lábios avermelhados e igualmente inchados do platinado.
Suguei o ar com toda a força que tinha enquanto sentia leves e húmidos selares serem depositados de forma quase possessiva em meu pescoço.
O que está acontecendo? Por que diabos eu não estoureagindo? Acorde Lucille, acorde!

Em um movimento brusco meu corpo desfaleceu-se no chão, dormente. Minha respiração descompassada acompanhando os batimentos desesperados de meu coração, as mãos que antes seguravam a camiseta do loiro agora tremendo violentamente ao lado de minhas pernas inertes.
Dedos frios e esguios erqueram lentamente meu queixo, fazendo com que encarasse novamente os misteriosos e assustadores olhos, tais como um buraco-negro, sugando cada pedaço de mim, do garoto que a segundos antes agarrava- me despudoradamente.
Puta merda. Puta merda. Puta merda. Eu estou tão ferrada.

Você... — Começou a dizer, parecendo se controlar veementemente a cada instante, fixando seus olhos impenetráveis aos meus. — Vai se esquecer completamente de tudo o que aconteceu aqui, entendeu? Absolutamente tudo.

E então minha consciência fora dissipando-se aos poucos, antes mesmo que pudesse sentir os braços de músculos finos porém definidos erguerem meu corpo, agora mole, do chão.

— Rosas são vermelhas, violetas são azuis, melhor acordar logo, eu ainda estou puta com você!

A voz fina e irritante de Marilyn, minha colega de quarto e provavelmente única amiga verdadeira daquela porcaria de internato, praticamente gritou o belo e complexo poema em meu ouvido.

— Sai daqui, babaca.

Grunhi irritada, controlando meu instinto insano de acertar a cara da ruiva com o abajur. Mexi meu corpo o suficiente para o cobrir completamente com a colcha azul-escura da cama de mogno praticamente colada a parede encardida do quarto, fechando com força os olhos.

— Ah me poupe, Senhorita Emburrada, você sabe muito bem que não devia ter socado a cara da Emory. — Suspirou indignada — Não sem mim, sua hipócrita de bosta!

Desisti de retomar meu precioso sono, chutando para longe a colcha enquanto levantava meu corpo do colchão gasto.
Ok, Madame Marilyn, você conseguiu me deixar puta!

Meu lindo e virgem rabo pra você, Mary! Ela quem começou!

A ruiva de olhos castanho-escuros socou de leve meu braço, fazendo sua melhor expressão de raiva.

— Se você for expulsa e me abandonar aqui, eu te mato, ridícula.

Soltei uma risada ainda rouca pelo sono, e abracei a garota em minha frente, sentindo seu cheiro familiar de shampoo de morango invadir minhas narinas.

— Eu sei, babaca, eu sei.

Murmurei contra seus cabelos, sentindo um beliscão ser depositado logo abaixo de minhas costelas. Gemi de dor, mordendo o ombro da outra.

— Ai porra, dá pra parar com essa mania de morder as pessoas?!

Gargalhei, dessa vez mais alto, soltando-me da garota e jogando novamente meu corpo no colchão. O sentimento de familiaridade voltando enquanto me espreguiçava.
E então bati em meu rosto com as duas mãos abertas, gemendo novamente com pura raiva.

— Você sabe como eu cheguei aqui? Eu estava na enfermaria da última vez que me lembro.

— Cara, você realmente tem que parar de beber.

Soltei uma careta exasperada, ao sentir o corpo de Marilyn cair ao meu lado na cama.

— Você sabe que bebidas são proibidas aqui, babaca.

— Mas é claro, e isso nunca te impediu antes.

Cotovelei a ruiva irritante, recebendo um tapa na coxa em troca.

— Sr. Adam veio atrás de mim?

— Claro! — Suspirou dramática. — E como sempre eu tive que te encobrir.

— E como exatamente fez isso, esperteza em forma de anã?

— Disse pra ele que você tinha, sei lá, desmaiado e eu te trouxe pro quarto. — respondeu simplesmente, dando de ombros. — Espera aí, do que você me chamou?

Nada, esquizofrênica.

Empurrei o corpo da outra, fazendo com que escorregasse da cama de encontro ao chão, me levantando em seguida.

— Ow... — Grunhiu massageando a perna que tinha acertado o piso do quarto. — Eu tenho que arrumar outra melhor amiga logo, sua piranha ingrata.

— Você até pode tentar, Dick. — Falei, reforçando o sobrenome hilário que a ruiva odiava. — Mas você me ama demais pra fazer isso.

— É claro, também vou amar o dia que te estrangular até a morte, Stone.

Senti um peso estranho em minha cabeça, como se alguém, ironicamente e sem trocadilhos, tivesse acertado uma company em mim. De novo.
Me forcei a segurar a beirada da cômoda que estava a poucos passos em minha frente, sentindo o quarto girar em 360 graus repetidamente.

— Hey, Luce, você está legal?

A voz preocupada de Mary fez-se presente atrás de mim enquanto sua mão segurava com força meu ombro direito tentando dar apoio ao meu corpo que agora parecia bambo.

— Eu "tô" legal, Dick, relaxa.

Murmurei esfregando as têmporas com a mão livre.
Eu literalmente não fazia a mínima idéia do que estava acontecendo comigo.

Notas finais
- Sim, eu sou uma escrota que faz os personagens se beijarem só pra depois apagar a memória de um deles ~ XOXO
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.