Senti o vento frio e irritante bater impiedosamente em minhas bochechas, chicoteando as mechas cacheadas de meu cabelo contra meu rosto preso em uma carranca.

— Ah, como eu amo o doce clima dessa porcaria de cidade.

Murmurei irritada, tentando de alguma forma fazer com que meu cardigan de lã acinzentado cobrisse a maior parte possível do meu corpo. Obviamente sem sucesso.
Você deve certamente estar se perguntando "Oh, mas senhorita Lucille Stone, não deveria nesse instante estar na sala do diretor?" Bom, a questão é: sim, eu deveria. Mas eu não quero. E assim chegamos a maravilhosa conclusão de que eu marchei sem rumo em direção ao bosque que cobria praticamente toda a extensão em torno de Williamette tentando de alguma forma afastar meus pensamentos direcionados a cadeira acolchoada na qual havia me sentado tantas vezes na mesma terrível sala de uma cor que provavelmente em algum momento havia sido branca, mas agora passava apenas a impressão de uma parede encardida em ruínas.
Suspirei, tirando o cabelo do meu rosto. Inferno, eu devia ter apenas desmaiado com a merda de mochila de Emory na minha cabeça. Mas novamente, eu não pensei em nenhum instante antes de agir. Talvez eu tenha alguns problemas de raiva, talvez minha psicóloga estivesse certa.
Veja bem, não é como se eu tivesse pedido para nascer em uma família ferrada. Não, eu não estou sendo ingrata dizendo que minha amável, irritante e extremamente dependente mãe tivesse alguma culpa no cartório. Ela não tinha. Ou talvez no cartório tivesse pelo menos um pouco. Não é todo dia que alguém se casa com um babaca de níveis estratosféricamente altos.
Talvez a culpa afinal tivesse sido minha por nascer em um momento de conflito tão grande, obrigando com que se casassem as pressas, sem sequer conhecerem-se direito.

Após aproximadamente 15 minutos andando bosque a dentro, deixei minhas costas escorregarem despreocupadamente em uma árvore qualquer, sentindo as folhas húmidas abaixo de minhas nadegas. Que ótimo, eu deveria pelo menos ter pensado em trazer um pano e evitar molhar toda a bunda.
Mas, como todos sabemos, eu tenho um pequeno problema em pensar logicamente.
Deixei minha cabeça descansar preguiçosamente sobre minhas pernas dobradas, abraçando meus joelhos com todas as forças que ainda tinha e esperando milagrosamente descobrir o motivo suficientemente importante que me fez andar até o meio de um bosque apenas para me sentar sob uma árvore e pensar no quão ferrada estava.
Obviamente nenhuma resposta veio.
Eu era apenas a porra de uma adolescente que não fazia a mínima idéia de como evitar um confronto com a própria mãe. De novo.

— Fantástico, simplesmente maravilhoso. Bater na cara daquela vadia loira foi suficiente pra isso tudo, Luce?

Questionei para mim mesma em plenos pulmões. Ok, talvez tivesse realmente valido a pena, lembrar a cara de surpresa da garota ao receber um soco bem mirado no nariz ainda fazia meus lábios puxarem-se em um sorriso de satisfação. Puxei meus cabelos em frustração, desistindo de tentar achar o mínimo sentimento de culpa dentro do meu ser.
Quem precisa se sentir culpada por mexer comigo é aquela drogada cleptomaníaca de merda.

Fui arrancada de meus pensamentos confusos e contraditórios ao escutar um leve barulho de galhos sendo esmagados, como se passos estivessem sendo dados lentamente em minha direção. Virei rapidamente meu rosto em direção a parte escura de onde o barulho suspeito havia vindo.

— Tem alguém aí?

Perguntei, logo depois me sentindo a garota mais estúpida do mundo. Mas claro, Luce, obviamente um serial killer iria responder. "Oh, claro, deseja morrer por estrangulamento ou ser espancada até vir a óbito?"
E como havia esperado, ninguém respondeu, nem sequer um piar. Todo o ar pareceu pesar e lentamente ser sugado do local, como se fosse o presságio para algum acontecimento terrível. Igual as porcarias clichês descritas em livros mainstream de suspense.
Levantei-me lentamente do chão, pegando um galho qualquer que pudesse ao menos servir como uma defesa extra. Eu iria ficar puta pra caramba se morresse dentro daquela merda de perímetro escolar.

Te achei.

Um arrepio desceu por minha espinha, como um balde de gelo sendo jogado em minhas costas. Virei meu corpo de forma mortalmente lenta em 360 graus, encontrando uma figura desleixadamente encostada ao tronco da mesma árvore na qual havia estado escorada.

— Quem é você?

Perguntei cautelosamente, torcendo mentalmente para que minha voz não falhasse. Sem sucesso, apenas um sussurro baixo saiu de minha boca. A silhueta se aproximou lentamente, sendo atingida pela claridade que escorregava suavemente pelo topo das grandes árvores que cercavam o local.

Era um garoto. Um garoto incrivelmente bonito. Mas um garoto. E garotos nunca eram bom sinal.

— Enfim, encontrei você, destino irritante.

Espera aí, destino? Esse cara estava drogado? Levantei uma sobrancelha ironicamente, tentando achar algum sentido para as palavras proferidas pelo loiro. Um belo loiro, devo dizer. Cabelos praticamente brancos como a neve.
Foco! Foco, Lucille! Não confraternizamos com serial killers!
Respondi com as palavras mais sensatas e completamente calculadas que havia pensado no momento.

— Ahn?

O jovem pálido sorriu, um repuxar sutiu em seus lábios avermelhados, mostrando uma fileira de dentes incrivelmente brancos, com caninos levemente sobressaltados.

— Eu estive te procurando por um longo tempo, Lucille.

As palavras carregadas de um sentimento desconhecido foram direcionadas a mim, a rouquidão da voz do mesmo enviando arrepios por meu corpo.

— Ah... Bacana, cara. Eu preciso dar o fora daqui, então... Se não se importa, até mais ver.

Sorri forçadamente, tendo certeza de passar a expressão mais falsamente simpática possível. Que genial, senhorita Luce, conseguiu certamente proteger seu traseiro inútil da morte.

O platinado ergueu as sobrancelhas, fazendo seus olhos negros capturarem totalmente minha atenção por um instante, antes de rapidamente me virar para correr. Correr para sei lá onde.

— Não tão rápido, doce Lucille.

Em um piscar de olhos o jovem de aproximadamente um metro e noventa estava em minha frente, segurando meu pescoço de forma rude.

Frio. Extremamente frio.

Engasguei repetidas vezes contra o toque do mesmo, levando automaticamente minhas mãos pequenas e desesperadas em direção as mãos pálidas que impediam o ar de passar para meus pulmões. As lágrimas insistindo em caírem sobre minhas bochechas certamente coradas devido a falta de ar.
Uma expressão de extrema dor passou de forma rápida no rosto que até então me parecia tão inexpressivo e frio. Senti seus olhos escuros sondando cada pequena e particular parte de minha alma, procurando por algo que eu sequer sabia ter. Fechei fortemente meus olhos, tentando desviar o olhar do rosto de traços tão angulosos e bem moldados de meu suposto serial killer.
O aperto diminuiu minimamente, o ar voltando a entrar em meus pulmões necessitados, fazendo com que meus lábios se abrissem, buscando por mais.

*

O loiro não conseguia compreender o aperto doloroso e misterioso em seu peito no momento em que pode sentir a pulsação agitada e rápida da pequena garota contra sua mão esquerda. Seus olhos passeando lentamente pelo rosto da mesma.
Os lábios cheios entreabertos, os olhos cerrados firmemente esperando pelo fim, o suor frio escorrendo por sua pele morena, dando a seu pequeno rosto um ar levemente doentio.
E então ele sabia, tudo fazia parte das palavras proferidas no conhecido como dia negro.
Ele não podia mata-la, como já havia firmemente planejado por longos anos. Não podia por simplesmente não conseguir, suspirando exasperado ao ver Lucille abrir novamente os olhos caramelos para encara-lo. Buscando uma resposta, buscando algo, tal como o mesmo fazia.
O desespero tomou conta do imortal, agora parecendo mais frágil que a própria morena. Os lábios agora ressecados ansiando por algo, por algum movimento.

E assim foi feito.

Notas finais
- Espero que gostem, nenês ♡ XOXO